Tuesday, September 28, 2010

Aniversários italianos

Na carta anterior falei sobre datas para comemorar os 18 anos da minha filha Bianca. Sábado próximo será uma outra data especial, pois é o aniversário da Eloá. Não, esta não será uma outra homenagem, ou eu teria que só escrever cartas de aniversários. No domingo, por exemplo, é o aniversário da minha tia Arinda (beijocas da turma daqui, Arinda!). Fico feliz por poder comemorar o aniversário da Eloá ao lado dela, como gostaria de estar ao lado de muitas outras pessoas – parentes e amigos – de quem sinto falta e que ocupam sempre a minha mente. Quantas vezes, passando por um lugar particular ou diante de um produto, não penso em alguém que está longe? Sabem quantas conversas imaginárias tenho com meus parentes e amigos no meu dia a dia? E, não, não estou ficando gagá por causa da idade. Sempre fui assim. Sou gagá desde sempre. Sinto uma falta imensa de uma boa festa de aniversário, com amigos e parentes reunidos, dividindo a oportunidade de passarem juntos alguns momentos felizes. Desde que não seja o meu.

Os aniversários italianos são muito diferentes. Aqueles infantis acontecem na casa do aniversariante, no salão da paróquia ou em uma lanchonete com espaço para festas, mas não tem palhaços, mágicos e a animação costuma ser improvisada. Os pais deixam a criança com o presentinho (nada que custe mais que dez euros) no local da festa, que tem hora para começar e para terminar, e vão buscar no final. Os adolescentes costumam comemorar em pizzarias e podem ou não pagar a conta – os pais do aniversariante, é claro! Mas essa informação é fornecida antes e, no caso de cada um pagar a sua parte, o valor do presente diminui. Mas também é comum que os amigos se reúnam para adquirir um presente único. Aos 18 anos a festa costuma ser em um restaurante ou discoteca, geralmente oferecida pelo aniversariante.

Daí por diante as comemorações costumam variar muito, mas a  maioria comemora somente em família, como nós faremos sábado à noite. Entre os adultos a tendência é não divulgar a própria data de aniversário, mas há quem leve torta ou docinhos e vinho para comemorar com os colegas de trabalho. Quem não leva a festinha para o escritório deve pagar um copo de vinho ou, pelo menos, um café ao bar. Festa mesmo, como as que estávamos habituados no Brasil, ainda não vimos nenhuma. E presentear um adulto é um acontecimento raríssimo, entre amigos ou colegas de trabalho. Muitas vezes se descobre que o aniversário do colega ao lado foi anteontem e nada de comemoração.

Essas diferenças culturais esclarecem um pouco a frieza de que alguns brasileiros recém chegados se lamentam, mas é apenas um dos preços de ser expatriado. Mesmo entre os brasileiros tais hábitos acabam sendo adotados, o que aumenta ainda mais essa sensação de estar perdendo a própria identidade. E o seu aniversário, como é?

Sunday, September 26, 2010

Cabelo comprido ou curto?

Escolha cabelo curto, ou levará um ano para lhe satisfazer.




Saturday, September 18, 2010

Sunday, September 12, 2010

9 de Setembro de 1992

A que servem as datas? Servem para registrar a passagem do tempo e para lembrar eventos importantes. Dia 9 de Setembro é uma data especial, que exalta a forte emoção de ser pai que existe dentro de mim. Sabem aquela menina que sempre acordava sorrindo e de bom humor, distribuindo beijos e abraços logo pela manhã? Pois é, não existe mais. Ela cresceu e virou uma moça linda que acorda de bom humor, sorrindo e distribuindo beijos e abraços logo pela manhã, que lava louça cantando, que participa de tudo, é disponível e colabora com quem precisar. Dificuldades? Conte com ela! Sempre. Pra qualquer coisa. Só fica preguiçosa se estiver ronronando no sofá ou enfiada em algum livro. Se você conhece alguém assim, ela responde pelo nome de Bianca e se parece com um arco-íris num final de tarde agitada.

18 anos é toda uma vida e, no entanto, é apenas o começo. Como explicar a essa jovem que não é necessário fazer tudo ao mesmo tempo, que haverá tempo para cada coisa e que cada coisa acontece no tempo certo? Não, melhor nem tentar. Eu murmuro: “Vai, filha. Espalhe e divida o seu entusiasmo e otimismo com quem tiver o privilégio de partilhar ao menos um momento dessa vida com você. Continua a transformar em festa o ar de qualquer ambiente e a contagiar as pessoas com o seu sorriso fácil: O mundo precisa sorrir mais.”

Às vezes fecha os punhos e levanta a voz, se precisar defender as próprias ideias, mas normalmente é gentil e educada. Silenciosa, nunca. O mundo a obrigará a exercitar mais a sua diplomacia, mas tenho a impressão de que no final será o mundo a inclinar-se a esse furacão sorridente. Espírito conquistador é o que não lhe falta. Sonhos, projetos e dragões: tudo ao mesmo tempo e sem temor. Ao contrário, com aquele brilho de aventura que só os grandes conquistadores, loucos e poetas são capazes de exprimir no olhar. Novas descobertas a fascinam e atraem; se não houver o desafio, que graça teria?

Eu suspiro: “Vai, filha. Treine suas asas para o voo solo que um dia fará. Prepare-se para as conquistas ainda não imaginadas, as desilusões assustadoras de que só os sonhadores são vítimas e as vitórias que só os perseverantes alcançam. As mais difíceis, capazes de mudar o rumo de uma vida, ou do mundo. Nós estaremos sempre aqui, com um ninho pronto a lhe acolher todas as vezes que precisar, se precisar. Mas também estaremos torcendo confiantes, com a certeza de que este mundo será melhor quando você decidir mudá-lo.” Ela é assim, segura e contagiante. Um arco-íris de cores vivas, efêmera diante da eternidade. Intensa como uma obra de arte esculpida com toda dedicação e muito empenho por 18 anos.

Saturday, September 04, 2010

Fritatta

Não, não chamem uma frittata de omelete, palavra derivada do francês omelette, prato com algumas regras e receitas básicas. Uma verdadeira frittata não tem foto nem receita até o momento de abrir a geladeira e descobrir quais sobras podem ser aproveitadas. As poucas regras para uma frittata são: deve ser alta, o pão é o único acompanhamento possível, um copo de vinho eleva a preparação à condição de refeição e afaga o espírito.

Sabe aquela abobrinha deixada de lado por ser pequena demais? Será cortada em finas fatias e será refogada no último momento, para ficar ligeiramente crocante. Sim, pois uma frittata começa com um refogado de cebola (ou cebolinha, se for aquela italiana com o bulbo maior e da qual se descarta a parte verde). Deve ser um refogado lento, onde os ingredientes serão adicionados após a cebola começar a ficar transparente.

Pode-se colocar um pouco de bacon ou pancetta? Sim, é claro! Mas devem ser fatias tão finas como um som de violinos nessa sinfonia de sabores. A menos que… Bem, a menos que você descubra uns poucos filés de anchovas dentro daquele vidrinho na porta da geladeira. Até mesmo o mexilhão que sobrou do almoço que não houve, por falta de tempo ou porque ele ou ela preferiu estar em outro lugar. Desabafe a desilusão cortando em tirinhas e refogando o mexilhão já cozido com a cebola. Que mais? Não fique aí olhando para esta carta, mas para a geladeira e verifique o que pode enriquecer a sua frittata, tomando o cuidado de não adicionar ingredientes de sabores marcantes, mantendo leveza e personalidade. Azeitona? Melhor não, mas se você insiste, que seja pouca e cortada fininha; alcaparras? Só se não tiver colocado azeitonas. Couve-flor cozida, brócolis cozido, alface, vagem cozida picada, escarola ou outras verduras. Nunca tudo de uma vez e sempre em quantidades parcimoniosas. Não é uma salada, mas uma frittata.

Refogue tudo em uma frigideira grande (ou pequena, se estiver sozinho/a: a frittata deve ficar alta) com um fio de azeite, controlando para que não seque e, se necessário, adicione um pouco d’água sem deixar desmanchar. Os ovos serão batidos com uma pitada de sal, pimenta do reino e um punhado generoso de queijo ralado na hora. Pode-se adicionar aos ovos um pouco de creme de leite fresco ou mesmo um pouco de leite. Quantos ovos? Dois por pessoa. Quando o refogado estiver homogêneo é hora de adicionar a abobrinha crua em fatias finas, a salsinha cortada sem critério – se houver (critério e salsinha) – e despejar os ovos já batidos. Use uma colher de pau par misturar os ingredientes antes que os ovos comecem a endurecer. Cubra e deixe o fogo lento amalgamar perfumes e sabores. O vinho lhe fará ouvir os violinos, mas ele deve ser degustado, não o adicione na frittata. Com a ajuda de uma escumadeira, vire a frittata com cuidado. Na falta de companhia, abuse do vinho e da música. Ele ou ela não saberá o que terá perdido e talvez nem mereça descobrir. Afagados alma e estômago, não anote a receita. Cada frittata será uma ocasião única.

Wednesday, September 01, 2010

Post novo no Faça

Escrevi um post sobre um argumento que tem ocupado a minha cabeça há muito tempo. Como o assunto não está diretamente relacionado com o que costumo escrever aqui, publiquei no Faça a Sua Parte, blog coletivo do qual participo.

Gostria muito de conhecer a opinião de vocês, minhas 4 ou 5 leitoras e 2 leitores. Podem deixar o comentário lá mesmo, apesar do comentário estar demorando para aparecer.

Grato e boa reflexão.

Thursday, August 26, 2010

O medo da dor

Errar é humano, persistir é diabólico. Considerando os devidos descontos obrigatórios em casos de generalizações, uma das características que mais diferencia italianos e brasileiros da classe média e média-baixa é a certeza de não passar pela mesma experiência negativa duas vezes.

Um brasileiro com um projeto em mente irá tentar levá-lo adiante mesmo em situações adversas. Pode fazer modificações, concessões e abrir mão de parte das conquistas, mas fará de tudo para ter sucesso com seus planos, ainda que sob a ameaça de não decolar nunca. No caso de tudo dar errado, não se exclui a hipótese de tentar novamente em uma outra oportunidade, ou com um outro projeto. Um italiano, ao contrário, irá elaborar um marketing plan, estudar a viabilidade e as chances do projeto emplacar; terá anotado conselhos, estudado o mercado, consultado quem já está no ramo e, se possível, levar toda a papelada (porque eles não fazem nada sem uma papelada enorme) a ser avaliada por um consultor. Uma vez iniciado o empreendimento – abrir uma banca de jornal, fornecer torta caseira aos bares da região ou montar uma fábrica de barcos – caso os planos não produzam os efeitos esperados no tempo previsto, é até possível que o empreendedor italiano insista por algum tempo, mas já estará procurando alguém que assuma o pepino para que ele possa cair fora, provavelmente voltando a trabalhar como empregado num escritório qualquer.

É deselegante e triste fazer tal afirmação e recordo que alertei para os descontos da generalização, mas é a realidade local. Conheço muitos italianos que tentaram colocar em prática o próprio espírito empreendedor, não tiveram sucesso e prometeram não tentar nunca mais. “Nunca mais!”, assim, com ponto exclamativo. É mais provável que um italiano tenha sucesso com o seu hobby, que um dia se torna um segundo ofício até tomar todo o tempo e se transformar em um empreendimento que sobreviva. Se o resultado econômico for pelo menos igual ao que havia antes, já será considerado um sucesso. Afinal, quem não escolheria viver daquilo que realmente gosta de fazer?

O problema é que percebo esse mesmo comportamento no dia a dia, na vida social, pessoal e afetiva. As segundas oportunidades são raras, ninguém se dispõe a correr o mesmo risco com a mesma pessoa. Muitas vidas são marcadas por um mal entendido ou por uma falha pouco mais que insignificante. Mesmo nas raras ocasiões em que uma segunda chance é concedida, o clima fica pesado e a pessoa acaba desistindo por sentir-se eternamente vigiado, tendo que dar explicações a cada momento. Palavras como empatia, perdão, compreensão e solidariedade são meros termos nos dicionários. E então eu me pergunto: se nenhum governo italiano concluiu o próprio mandato desde 1994, por que são sempre os mesmos políticos a se elegerem? 

Não respondam. É somente um desabafo retórico.