Toda generalização comporta uma dose de preconceito. Todo preconceito comporta uma dose de racismo. Por outro lado, cada grupo social desenvolve características que se tornam mais ou menos comuns a todos. Nós, brasileiros – por exemplo – costumamos ser educados e servis. Esse tipo de comportamento encanta meus amigos italianos que visitam o Brasil e é esse “sentir-se em casa” que os faz voltar.
Do lado de cá está nascendo um novo modelo. Manifestar conhecimento através de referências insinuadas, ser espirituoso, ter sempre uma piada pronta na ponta da língua, demonstrar uma leveza no viver que impeça de levar qualquer coisa a sério (principalmente a si mesmo) e uma dose infinita de ironia, são as regras as quais todos devem se adaptar. Acontece que os costumes adquiridos com a endocultura apresentam-se naturais, espontâneos, enquanto aqueles absorvidos através da observação consciente carecem de graça nos movimentos e no ritmo. Há que se treinar muito, mas o resultado ainda assim poderá soar falso.
Há muito deixei de desdenhar as pessoas que diferem dos meus valores ou que vêem o mundo de um modo que não é o meu, mas existe uma mania nessa terra que faz com que eu duvide da capacidade individual do pensar: a necessidade de etiquetar qualquer pessoa ou situação para compreender os fatos. Sim, eu sei que temos níveis diferentes de compreensão e que o discernimento é uma característica distribuída aleatoriamente e em doses homeopáticas, mas nem isso justifica um comportamento tão homogêneo quanto enfadonho em toda uma geração. Às vezes acho que os replicantes já estão em produção há muito tempo e não nos demos conta. Tem sido muito chato e previsível observar os jovens italianos. Tenho sempre a impressão de que estão todos recitando o mesmo papel, ensaiado por anos de clichês nos programas de tv, no cinema e na literatura juvenil.
O problema é que todo jovem um dia cresce. E descobre que as piadas sem graça já não fazem rir, que a vida é guiada pelo trabalho, um ambiente que há regras próprias diferentes e onde a formalidade não dá espaço para falsos simpaticões. E é aí que a porca torce o rabo, pois o jovem-já-não-tão-jovem-que-precisa-trabalhar descobre que os modelos seguidos devem ser descartados sem um novo modelo em troca. Você já deve saber se comportar em um ambiente profissional. É isso que todos esperam de você e o reprovarão se a adaptação não for imediata. Mas a tv continua martelando o clichê do simpaticão espirituoso, da leveza do viver e de rir de si mesmo.
Incrédulo da nova realidade, o jovem-não-tão-jovem-que-se-sente-perdido refuga como um cavalo diante de um obstáculo mais alto que os usados nos treinamentos. E insiste no velho modelo ensaiado à exaustão sem se dar conta de que é preciso mudar.
…Às vezes cansa.
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
Sunday, May 30, 2010
Monday, May 24, 2010
Guerra de colher de pau
Sempre fui onívoro. Sempre. Mas sempre acreditei que a minha alimentação fosse sadia. Quer coisa mais sã que hambúrguer com cerveja? Ou uma angelical feijoada com tanta pimenta que faz arder os olhos? Um dia eu cresci e descobri que estava crescido demais e deveria ter descoberto muito antes que a única coisa que diferenciava o meu estômago da lata de lixo era a falta de embalagens vazias. No meu estômago, é claro!
O jornal satírico da tv italiana “Striscia la Notizia” declarou guerra no ano passado à cozinha molecular. Para esclarecer, é o tipo de cozinha praticada com aditivos químicos e que tem como expressão máxima Ferran Adrià, do restaurante espanhol “El Bulli”. Segundo o jornal, alguns aditivos químicos utilizados sob controle na indústria alimentícia, estariam sendo usados sem controle algum em restaurantes para obter resultados inesperados com o objetivo de impressionar. Bom, a coisa chegou a tal ponto que o Ministério da Saúde italiano resolveu intervir e baixou uma norma às pressas. E aí o caldo entornou.
Jornais europeus criticaram a medida mal feita do governo italiano, os chefs adeptos da cozinha molecular ridicularizaram o teor da norma, em contraposição com as normas europeias e que, entre outros equívocos, proíbe o uso de gases como ingredientes de alimentos, quando queria proibir o uso de nitrogênio líquido, que não é um gás (é líquido!). Se seguida ao pé da letra, a nova norma italiana proíbe aos restaurantes o uso de produtos aos quais nos acostumamos a usar mesmo em casa, como o fermento em pó. Os chefs tradicionalistas aplaudiram a iniciativa decretando que o Ferran Adrià e seus seguidores não deveriam estar em uma cozinha, mas em laboratórios. Enquanto isso, na Espanha, nasce a primeira universidade que formará chefs em cozinha molecular. Já há quem ameace batalhas de panos de pratos molhados.
Muito antes que a sigla OGM virasse o espantalho dos agricultores orgânicos, a Itália já consumia melancia, tangerina e uva sem sementes, além de batata enriquecida com selênio, além de outros produtos enriquecidos. E os diversos tipos de tomates desenvolvidos para determinados fins (molhos, saladas, etc.) também precisam ser lembrados como organismos geneticamente modificados – opa! Sim, sou consciente de que o risco é o monopólio das grandes empresas que controlarão – é uma questão de tempo – a produção e comercialização dos alimentos, além de desconfiar que a falta de tempo para testes mais profundos acaba nos transformando em cobaias, mesmo que indiretamente. Pois se a vaca comeu milho ou outro produto modificado, a carne, o leite e os seus derivados contém tais produtos. E eu estou consumindo sem saber.
A verdade é que eu não sei onde está a verdade. Gostaria muito de ter a tranquilidade de poder ir a um restaurante sem pensar que há algo no prato além dos produtos cultivados naturalmente no campo, mas toda essa guerra tem como foco convencer a mim, consumidor, de que estou fazendo a coisa certa. E eu não gostaria de descobrir que aquela coisa verde espumosa do jantar de ontem irá me transformar em um monstro fluorescente. Nem, tampouco, sentir-me ridicularizado por evitar o consumo de produtos que desconheço, o que me faz pensar que se fosse hoje, Galileu não teria convencido ninguém de que a cenoura não é venenosa. Tenho me aproximado cada vez mais dos alimentos que podem ser consumidos crus, como frutas e verduras, mas começo a olhá-las com desconfiança. Recordo que um agricultor na periferia de São Paulo usava água de esgoto para regar as suas lindas alfaces do mesmo modo que recordo do meu susto, ao chegar na Itália, pelos pimentões holandeses vendidos nos supermercados: todos com a mesma forma e dimensões, todos com a mesma tonalidade de laranja, amarelo ou vermelho, como se tivessem acabado de sair da fábrica. Curioso que Ferran Adrià tenha decidido fechar o próprio restaurante por dois anos, enquanto esclarece o ponto de vista dele sobre toda essa polêmica.
Lembro sempre da sabedoria da minha avó que me ensinava a não comer o que passarinho não bica, mas estão enganando até passarinho. O bicho grilo que vende produtos biológicos na feirinha biológica das segundas-feiras, descarregou os produtos de uma BMW X5 novinha e trocou de roupa antes. Eu vi. Na dúvida, estou pensando em voltar ao hambúrguer com cerveja.
O jornal satírico da tv italiana “Striscia la Notizia” declarou guerra no ano passado à cozinha molecular. Para esclarecer, é o tipo de cozinha praticada com aditivos químicos e que tem como expressão máxima Ferran Adrià, do restaurante espanhol “El Bulli”. Segundo o jornal, alguns aditivos químicos utilizados sob controle na indústria alimentícia, estariam sendo usados sem controle algum em restaurantes para obter resultados inesperados com o objetivo de impressionar. Bom, a coisa chegou a tal ponto que o Ministério da Saúde italiano resolveu intervir e baixou uma norma às pressas. E aí o caldo entornou.
Jornais europeus criticaram a medida mal feita do governo italiano, os chefs adeptos da cozinha molecular ridicularizaram o teor da norma, em contraposição com as normas europeias e que, entre outros equívocos, proíbe o uso de gases como ingredientes de alimentos, quando queria proibir o uso de nitrogênio líquido, que não é um gás (é líquido!). Se seguida ao pé da letra, a nova norma italiana proíbe aos restaurantes o uso de produtos aos quais nos acostumamos a usar mesmo em casa, como o fermento em pó. Os chefs tradicionalistas aplaudiram a iniciativa decretando que o Ferran Adrià e seus seguidores não deveriam estar em uma cozinha, mas em laboratórios. Enquanto isso, na Espanha, nasce a primeira universidade que formará chefs em cozinha molecular. Já há quem ameace batalhas de panos de pratos molhados.
Muito antes que a sigla OGM virasse o espantalho dos agricultores orgânicos, a Itália já consumia melancia, tangerina e uva sem sementes, além de batata enriquecida com selênio, além de outros produtos enriquecidos. E os diversos tipos de tomates desenvolvidos para determinados fins (molhos, saladas, etc.) também precisam ser lembrados como organismos geneticamente modificados – opa! Sim, sou consciente de que o risco é o monopólio das grandes empresas que controlarão – é uma questão de tempo – a produção e comercialização dos alimentos, além de desconfiar que a falta de tempo para testes mais profundos acaba nos transformando em cobaias, mesmo que indiretamente. Pois se a vaca comeu milho ou outro produto modificado, a carne, o leite e os seus derivados contém tais produtos. E eu estou consumindo sem saber.
A verdade é que eu não sei onde está a verdade. Gostaria muito de ter a tranquilidade de poder ir a um restaurante sem pensar que há algo no prato além dos produtos cultivados naturalmente no campo, mas toda essa guerra tem como foco convencer a mim, consumidor, de que estou fazendo a coisa certa. E eu não gostaria de descobrir que aquela coisa verde espumosa do jantar de ontem irá me transformar em um monstro fluorescente. Nem, tampouco, sentir-me ridicularizado por evitar o consumo de produtos que desconheço, o que me faz pensar que se fosse hoje, Galileu não teria convencido ninguém de que a cenoura não é venenosa. Tenho me aproximado cada vez mais dos alimentos que podem ser consumidos crus, como frutas e verduras, mas começo a olhá-las com desconfiança. Recordo que um agricultor na periferia de São Paulo usava água de esgoto para regar as suas lindas alfaces do mesmo modo que recordo do meu susto, ao chegar na Itália, pelos pimentões holandeses vendidos nos supermercados: todos com a mesma forma e dimensões, todos com a mesma tonalidade de laranja, amarelo ou vermelho, como se tivessem acabado de sair da fábrica. Curioso que Ferran Adrià tenha decidido fechar o próprio restaurante por dois anos, enquanto esclarece o ponto de vista dele sobre toda essa polêmica.
Lembro sempre da sabedoria da minha avó que me ensinava a não comer o que passarinho não bica, mas estão enganando até passarinho. O bicho grilo que vende produtos biológicos na feirinha biológica das segundas-feiras, descarregou os produtos de uma BMW X5 novinha e trocou de roupa antes. Eu vi. Na dúvida, estou pensando em voltar ao hambúrguer com cerveja.
Thursday, May 20, 2010
Ligações
Vivo rodeado de pessoas. Normalmente gente que não está presente e alguns nem conheço pessoalmente. Não, não tenho problemas nem vejo fantasmas. O que acontece é que às vezes vejo algo, vivo uma situação ou ouço uma música que me lembra alguém. Penso em como a pessoa reagiria naquele momento ou me divirto imaginando a expressão no rosto da pessoa em questão ao saber que aquela determinada situação me faz lembrar dela. Muitas vezes a ligação é clara, noutras, pode ter sido um pequeno detalhe lido ou escutado, um código impresso na minha mente.
Por exemplo: algumas propagandas me lembram outras pessoas.
Lembro do André Seale e da Lúcia Malla cada vez que vejo a propaganda abaixo:
Do Milton Ribeiro com essa:
Talvez pelo fato de ter acompanhado o nascimento da filha e o nascimento de uma nova família, essa me lembra o Bia:
O clima dessa propaganda, a música e a voz de Paolo Conte me remetem ao bairro de Santa Teresa. E santa Teresa está ligado à imagem do Manoel Carlos:
Certa vez ele declarou que o protagonista dessa propaganda era seu ator preferido, por isso lembro sempre do Rafa quando chega o verão e a propaganda volta:
O Branco? Essa aqui:
Essa é a cara do Flávio Prada:
E essa, a minha:
Por exemplo: algumas propagandas me lembram outras pessoas.
Lembro do André Seale e da Lúcia Malla cada vez que vejo a propaganda abaixo:
Do Milton Ribeiro com essa:
Talvez pelo fato de ter acompanhado o nascimento da filha e o nascimento de uma nova família, essa me lembra o Bia:
O clima dessa propaganda, a música e a voz de Paolo Conte me remetem ao bairro de Santa Teresa. E santa Teresa está ligado à imagem do Manoel Carlos:
Certa vez ele declarou que o protagonista dessa propaganda era seu ator preferido, por isso lembro sempre do Rafa quando chega o verão e a propaganda volta:
O Branco? Essa aqui:
Essa é a cara do Flávio Prada:
E essa, a minha:
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eu mesmo
Sunday, May 16, 2010
Rapidinha de meia idade
Quem não tem do que se arrepender, ou é jovem demais para ter vivido o suficiente ou simplesmente não viveu.

Naquela época eu ainda não me arrependia de nada.

Naquela época eu ainda não me arrependia de nada.
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eu mesmo
Sunday, May 09, 2010
Piacenza, um grande vilarejo
O Cássio reclamou que em dez anos eu contei muito pouco sobre Piacenza, que gostaria de saber onde os piacentinos fazem compras, se vão ao cinema, teatro, como vivem e se divertem. É óbvio que a cidade é percebida de modo diferente por quem nasceu aqui, pelo morador estrangeiro e pelo turista. Sem considerar que a experiência pessoal de cada um fará com que a cidade seja ainda mais fractalizada, como um caleidoscópio que muda a cada olhar.
As tradições resistem no interior das famílias locais. Apesar do caráter fechado desse povo, fruto de séculos de invasões e de ditados populares que ajudaram a formar esse modo desconfiado do qual a cidade não abre mão, novos costumes são absorvidos. “Há vinte anos Piacenza era linda, sem estrangeiros. Você iria adorar!”, “A Itália termina em Módena!” são exemplos de frases ditas com naturalidade por aqui. Mas a cidade não vive apenas da desconfiança de parte dos moradores e, ao mesmo tempo, não deixa de ser um vilarejo com dimensões de cidade, onde todos sabem de todos e as pequenas sociedades e confrarias dividem a cidade em guetos. Às vezes chiques, mas sempre guetos.
No centro histórico sobrevivem as quitandas, padarias, açougues – inclusive os açougues de carne equina – e os pequenos mercadinhos. A periferia costuma ter uma zona comercial e supermercados. Na cidade existem dois hipermercados e as cidades vizinhas também oferecem tais serviços. E basta atravessar uma ponte que chegamos à cidade vizinha, como a ponte sobre o rio Po, que liga o (quase) centro da cidade à Lombardia. No final dessa ponte existe o maior hipermercado da região. Do mesmo modo, os cinemas, teatros, academias, piscinas municipais, parques, pequenos centros comerciais, restaurantes, pizzarias, sorveterias que funcionam inclusive durante o Inverno, boliches e discotecas espalham-se por toda a província. Com apenas uma ressalva: em Piacenza existe apenas uma pequena discoteca, controlada constantemente pelos órgãos públicos para evitar que o barulho perturbe a paz noturna da cidade. As grandes discotecas se encontram nas cidades vizinhas, facilmente acessíveis. Os bares noturnos estão sempre se atualizando para manter a sociedade piacentina dentro dos confins da cidades. Existem muitas opções de lugares “descolados” na cidade.
A cidade conta com um time de futebol que navega entre a série A e a série B, o Piacenza, que neste momento está flutuando na série B, esforçando-se para não naufragar; o Copra Volley, entre os melhores times de volley masculino da Itália; uns timecos de rugbi, basebol, basquete e outros esportes que não chegam a sobressair. O ciclismo é o esporte com maior número de adeptos, mas nenhum ciclista famoso formou-se em Piacenza, que tem como cidadão mais ilustre um certo Giorgio Armani.
Shopping Center? Apenas um, o Borgo Fax Hall, ao lado da estação ferroviária, zona que não goza de boa fama e, por isso, esnobada pelos piacentinos. Quando querem fazer shopping, preferem as lojas do Corso Vittorio Emanuele II e da via XX Settembre, ruas consideradas o verdadeiro shopping center da cidade, com a vantagem que se pode sempre parar em um café chique, degustar um doce da pasticceria Galetti, ou uma fatia de pizza ou focaccia (normal ou de Recco) nas muitas pizzarias que vendem pizza aos pedaços, ou tomar um sorvete em uma das inúmeras sorveterias do centro. O Corso, como todos chamam a rua mais chique da cidade, ainda oferece oito salas de cinema. Os teatros, além do Municipal, na Piazza Sant’Antonino, são em quantidade suficiente, mas curiosamente o conforto dificilmente é o esperado, incluindo o Municipal.
Piacenza também é conhecida como “a cidade das igrejas e dos quartéis”. No mapa enviado pelo Cássio, são quartéis ou instalações militares os pontos evidenciados 1, 2 e 3. O ponto 4 é um terreno que era utilizado por circos e parques de diversão e que a prefeitura ainda não decidiu o que fazer. O Ponto 5 é o Parque da Galeana, uma imensa área de lazer.
Quem mora no centro acaba sendo privilegiado, pois as opções de lazer são maiores. Num raio de quinhentos metros de onde moramos estão os três cinemas do centro – existe um conjunto multi-salas na periferia que ainda oferece boliche, bares, restaurantes e outras opções de lazer; umas vinte pizzarias; pelo menos dez sorveterias; cinco teatros, incluindo o Municipal; uma infinidade de mercadinhos, padarias, quitandas e açougues; dez livrarias; quatro galerias de arte e uns cinco museus; um dos cinco melhores restaurantes da Itália, entre outros menos famosos; o Passeio Público, uma área de lazer reservada aos pedestres que conta com um ginásio de esportes e muitas, mas muitas igrejas.
Claro que o mais emocionante é a característica histórica, cultural e arquitetônica, numa cidade fundada pelos romanos há pouco mais de dois mil e duzentos anos. Mas isso, só vindo pessoalmente para entender e respirar esse ar milenar, que se renova a cada visitante.
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história e geografia
Sunday, May 02, 2010
Flores, rinites e bicicletas
Antigamente a cidade era protegida por muros altos e vigilância constante. Os peregrinos passavam por fora dos muros e não tinham permissão para entrar, evitando que novas doenças contaminassem a população. Os inimigos também encontravam dificuldades para invadir a fortaleza formada pelos muros altos. Naquela época, a cidade sucumbia quando o proprietário era derrotado. Mas os moradores eram poupados, apenas passavam a obedecer a novos senhores. A parte da corte que não conseguia fugir era eliminada ou, nas ocasiões menos cruéis, passava o resto da vida nas masmorras. É o que eu chamo de eleição medieval, onde não existiam eleitores e os candidatos decidiam a vitória na porrada. Geralmente, quem perdia não se candidatava às eleições seguintes.Hoje a cidade não há confins. A periferia vai se transformando em novos bairros, centros comerciais e anéis viários, que não deixam de ser como os antigos muros, evitando que parte dos viajantes entrem na cidade. A única coisa que não muda – ou muda em um ritmo muito, mas muito mais lento – é a zona agrícola que circunda Piacenza. Preciso de apenas cinco minutos em bicicleta para começar a ver os campos de alfafa. Se pedalo por mais cinco minutos tenho a impressão de estar no interior de um lugar qualquer, na roça, tendo que desviar de cachorros e galinhas que ocupam as ruas de terra.
Mas não sou o único a passear de bicicleta. Com o fim do frio as bicicletas vão tomando conta da cidade. As manhãs e noites frescas revigoram da jornada de trabalho e prometem mais um dia ensolarado. Quem sai cedo da cidade, ainda tem o privilégio de encontrar bandos de faisões que ciscam os campos à beira do asfalto. As flores começam a desabrochar aqui e ali, numa tímida amostra do que será o meio da primavera, dentro de mais alguns dias. Tímida mesmo, pois chega um momento em que a visão é de assustar, com painas, pólen e pedaços de plantas que flutuam encobrindo tudo. Campo ou cidade. [Quando começarem as corridas de Fórmula 1 na Europa, prestem atenção na quantidade de matéria flutuante no ar.]
Mesmo estando apenas no início da estação, minha rinite já deu sinais de vida. Justo eu, que me sentia imune a qualquer tipo de alergia. E não adianta se fechar dentro de casa e só sair de carro com os vidros fechados. Esses invasores não respeitam nem os antigos muros da cidade.
Sentindo-me uma abelha carregada de pólen, vou pedalando em meio à multidão de ciclistas que cresce a cada dia, tentando me aproximar dos precavidos faisões que não sabem diferenciar uma máquina fotográfica de uma espingarda. Observando as flores tímidas sorrio: A julgar pela situação atual, seria oportuno que pelos próximos quatro anos fossem restabelecidas as eleições medievais. Uma a cada seis meses e estaríamos purgados das velhas doenças. Depois, tornaríamos à democracia. Como um muro que resiste a tudo.
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primavera
Tuesday, April 27, 2010
Dicas da Itália no Minube
Comecei a minha aventura no Minube a um mês e esta semana tive a feliz surpresa de descobrir que sou o destaque da semana.
Sei que existem muitos sites de turismo no mar da web, mas a vantagem que vejo no Minube é a possibilidade de programar uma viagem diferente, sob a ótica de quem esteve lá ou mora no lugar. Os conflitos entre a igreja de Sant'Antonino e os bispos de Piacenza, que durou séculos e quase provocou a excomunhão de um bispo; as impressões sobre Barco di Bbbiano, a terra do Parmigiano Reggiano; o ar mágico da Grécia; uma tarde em Monticelli D'Ongina; as dicas de compras em um outlet de marcas famosas a uma hora e meia de Milão, com até 70% de descontos; a história da primeira Cruzada; o bar onde tomo meu café; um pedaço de pizza ou de foccacia (normal, genovesa ou de Recco). Está tudo lá. E é apenas o começo.
:D
Sei que existem muitos sites de turismo no mar da web, mas a vantagem que vejo no Minube é a possibilidade de programar uma viagem diferente, sob a ótica de quem esteve lá ou mora no lugar. Os conflitos entre a igreja de Sant'Antonino e os bispos de Piacenza, que durou séculos e quase provocou a excomunhão de um bispo; as impressões sobre Barco di Bbbiano, a terra do Parmigiano Reggiano; o ar mágico da Grécia; uma tarde em Monticelli D'Ongina; as dicas de compras em um outlet de marcas famosas a uma hora e meia de Milão, com até 70% de descontos; a história da primeira Cruzada; o bar onde tomo meu café; um pedaço de pizza ou de foccacia (normal, genovesa ou de Recco). Está tudo lá. E é apenas o começo.
:D
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