Do lado de cá do Equador os dias começam a ficar mais longos, a temperatura oscila entre a Sibéria e a Africa (mas a Sibéria está perdendo espaço) e o
Caruso voltou a cantar no telhado do convento, em frente à janela do meu quarto. Do lado de cá do Atlântico o vento está mudando e vem soprando novidades, mas o clima poderia estar mais alegre, como a Primavera que chega colorida, cheia de vida e renovação. O mês de Março é um mês contraditório, misturando esperança de fartas colheitas e dias ensolarados com o fim do ciclo invernal, o ciclo de recolhimento. A Terra, do lado de cá, parece espreguiçar-se e o formigueiro humano se agita. A última neve derreteu e os casacos pesados ameaçam voltar para o armário antes do que seria aconselhável.
Março é o mês do Dia Internacional da Mulher, data que deveria ser uma oportunidade de reflexão e balanços, mas que a cultura local transformou em uma festa deprimente. No dia 9, o dia seguinte ao que aqui se chama “
La Festa Delle Donne”, o que se ouve nos trens, nos bares e nas conversas pelas esquinas reforça a teoria de que o conceito dessa data não foi completamente absorvida pela população feminina italiana. Os bares, restaurantes e discotecas ficam lotados de mulheres, histéricas, na maioria dos casos. Mas muita gente deve improvisar, pois as reservas se esgotam semanas antes. Se o local oferecer
strip tease masculino, então… Os homens ficam em casa, cuidando da prole, assistindo tv ou organizam-se com amigos em outras atividades distante das mulheres. “Enchi a cara!”, “Cheguei em casa às duas da manhã…” “O meu
stripper era mais gostoso que o seu”, foram frases que ouvi da ala feminina. “Finalmente uma noite sem encheção de saco.”, “Que jogaço, ontem, hein?”, “Deixa ela, minha viagem à Cuba [paraíso sexual dos italianos] já está organizada…”, os comentários da ala masculina. Não que sair e se divertir, com ou sem o companheiro, seja proibido às mulheres, o que me assusta é que para muitas delas isso só é possível no dia 8 de Março. Talvez por isso tanto exagero.
Em Março também tem o Dia dos Pais, comemorado no dia 19, dia de São José, o que faz mais sentido que em Agosto, afinal, São José é um pai famoso somente por ter sido pai. O engraçado é que tal comemoração não ganha a mesma atenção comercial de outras datas. A divulgação inexistente a torna uma das datas menos comemoradas da Itália. Muita gente nem sabe que 19 de Março é o dia dos pais. Minhas filhas, por exemplo, só lembram ao voltar da escola. Porque a mãe de alguma amiga recordou à filha de comprar uma lembrancinha. Sou um pai sem gravatas e muitos cds.
Ainda em Março, no último final de semana teremos eleições regionais. Mais ou menos como eleição para governador. Só uma parte das regiões irá renovar ou confirmar os próprios presidentes. E se você acha que já viu de tudo em política é porque nunca acompanhou uma eleição italiana. Morro de vergonha ao me encaminhar à seção eleitoral sabendo que um daqueles candidatos será o meu representante. A escolha cai sempre no menos pior, mas eles têm piorado muito, ultimamente.
Mas Março está acabando e a sensação de transição logo será substituída pelas alergias de primavera e pelo frenesi dos dias ensolarados, rumo ao verão. Já não neva, nesse fim de mês. As mulheres voltaram a atenção aos afazeres do dia-a-dia e a preparar as malas dos maridos que finalmente irão a Cuba. São José é dia de plantio e se chover é sinal de boa colheita e de presente escolhido às pressas. O futuro nos espera, os políticos sabem disso. Considerando a quantidade de políticos que não participará às próximas eleições por estarem presos (em cana, no xadrez, atrás das grades), será um futuro assustador.