Saturday, March 27, 2010

Placas de trânsito

As obras para a tubulação do novo sistema de aquecimento do bairro - mais ecológico e econômico - duraram meses, mas valeu à pena.

Muitas ruas precisaram ser fechadas, a viabilidade virou uma loucura e somente os operários entendiam o que acontecia. O prefeito, escaldado por experiências anteriores, disse que as obras durariam o tempo necessário, sem dar previsão.

Caos e multas. Tudo porque os moradores e demais motoristas não conseguiam entender onde era permitido passar, onde era conta-mão, onde o trânsito era permitido só aos moradores... Chegar em casa virou uma aventura, mas a polícia não perdoou: multou todo mundo que podia alegando que a sinalização não tinha sido respeitada. Acontece que a "sinalização" eram duas placas colocadas uma no início e outra no fim da avenida onde moramos. Uma para cada sentido. A placa em frente de casa foi entortada no terceiro dia por um ônibus e ficou torta até o fim. A outra, no final da rua, eu fotografei quando passeava a pé, pois de carro ninguém conseguia ler. Levei dez minutos para entender como me mover no bairro e evitei as multas.

A foto da placa abaixo me incomoda muito mais pelo fato de que nós - os contribuintes - pagamos alguém para fazer aquilo, que pela quantidade de desinformação contida em tão pouco espaço.




















Confusa, não?

Tuesday, March 23, 2010

Neve de Março

Do lado de cá do Equador os dias começam a ficar mais longos, a temperatura oscila entre a Sibéria e a Africa (mas a Sibéria está perdendo espaço) e o Caruso voltou a cantar no telhado do convento, em frente à janela do meu quarto. Do lado de cá do Atlântico o vento está mudando e vem soprando novidades, mas o clima poderia estar mais alegre, como a Primavera que chega colorida, cheia de vida e renovação. O mês de Março é um mês contraditório, misturando esperança de fartas colheitas e dias ensolarados com o fim do ciclo invernal, o ciclo de recolhimento. A Terra, do lado de cá, parece espreguiçar-se e o formigueiro humano se agita. A última neve derreteu e os casacos pesados ameaçam voltar para o armário antes do que seria aconselhável.

Março é o mês do Dia Internacional da Mulher, data que deveria ser uma oportunidade de reflexão e balanços, mas que a cultura local transformou em uma festa deprimente. No dia 9, o dia seguinte ao que aqui se chama “La Festa Delle Donne”, o que se ouve nos trens, nos bares e nas conversas pelas esquinas reforça a teoria de que o conceito dessa data não foi completamente absorvida pela população feminina italiana. Os bares, restaurantes e discotecas ficam lotados de mulheres, histéricas, na maioria dos casos. Mas muita gente deve improvisar, pois as reservas se esgotam semanas antes. Se o local oferecer strip tease masculino, então… Os homens ficam em casa, cuidando da prole, assistindo tv ou organizam-se com amigos em outras atividades distante das mulheres. “Enchi a cara!”, “Cheguei em casa às duas da manhã…” “O meu stripper era mais gostoso que o seu”, foram frases que ouvi da ala feminina. “Finalmente uma noite sem encheção de saco.”, “Que jogaço, ontem, hein?”, “Deixa ela, minha viagem à Cuba [paraíso sexual dos italianos] já está organizada…”, os comentários da ala masculina. Não que sair e se divertir, com ou sem o companheiro, seja proibido às mulheres, o que me assusta é que para muitas delas isso só é possível no dia 8 de Março. Talvez por isso tanto exagero.

Em Março também tem o Dia dos Pais, comemorado no dia 19, dia de São José, o que faz mais sentido que em Agosto, afinal, São José é um pai famoso somente por ter sido pai. O engraçado é que tal comemoração não ganha a mesma atenção comercial de outras datas. A divulgação inexistente a torna uma das datas menos comemoradas da Itália. Muita gente nem sabe que 19 de Março é o dia dos pais. Minhas filhas, por exemplo, só lembram ao voltar da escola. Porque a mãe de alguma amiga recordou à filha de comprar uma lembrancinha. Sou um pai sem gravatas e muitos cds.

Ainda em Março, no último final de semana teremos eleições regionais. Mais ou menos como eleição para governador. Só uma parte das regiões irá renovar ou confirmar os próprios presidentes. E se você acha que já viu de tudo em política é porque nunca acompanhou uma eleição italiana. Morro de vergonha ao me encaminhar à seção eleitoral sabendo que um daqueles candidatos será o meu representante. A escolha cai sempre no menos pior, mas eles têm piorado muito, ultimamente.

Mas Março está acabando e a sensação de transição logo será substituída pelas alergias de primavera e pelo frenesi dos dias ensolarados, rumo ao verão. Já não neva, nesse fim de mês. As mulheres voltaram a atenção aos afazeres do dia-a-dia e a preparar as malas dos maridos que finalmente irão a Cuba. São José é dia de plantio e se chover é sinal de boa colheita e de presente escolhido às pressas. O futuro nos espera, os políticos sabem disso. Considerando a quantidade de políticos que não participará às próximas eleições por estarem presos (em cana, no xadrez, atrás das grades), será um futuro assustador.

Sunday, March 14, 2010

14 de Março

Nesse jogo de comparar diferenças quando se vive no exterior, tem uma fácil de notar, na Itália: a relação com a família. Não que não existam as crises, o abandono e todo o tipo de problemas que enfrentamos no Brasil, mas, de um modo geral, os laços familiares italianos são mais fortes que os nossos. Ou, pelo menos, a demonstração de afeto e uma convivência que pode beirar ao sufocamento.

Ao longo dos anos vamos deixando amigos, parentes e conhecidos pela estrada. Não que eles parem e nós continuamos em frente, mas apenas seguimos caminhos diferentes. E esses caminhos podem nos levar a lugares distantes, às vezes morando na mesma cidade. É muito provável que o seu amigo e colega de trabalho italiano deixe de sê-lo se um dos dois sair da empresa. Os telefonemas vão escasseando, viram sms e, depois de algum tempo cessam de vez. Por outro lado, as pessoas se assustam quando me ouvem dizer que minha filha Luiza pretende se formar, viver dois anos em Londres, dois anos em Paris… “Como você vai suportar? …Como consegue falar isso com essa calma?!”

Às vezes passo horas pensando e me preocupando com amigos ou parentes que não vejo há mais de vinte anos. Sim, amigos. Porquê enquanto eu pensar e me preocupar com eles serão sempre meus amigos, mesmo que o último contato tenha se perdido na poeira da minha memória. E, caso eu o/a encontre, vou reagir com a mesma intimidade de vinte anos atrás, com um abraço apertado de saudade e a intimidade do papo de ontem, quando pensei nele ou nela pela última vez.

Claro que com meus irmãos e minha mãe acontece o mesmo, com a diferença que penso neles com mais frequência. “O que minha mãe me diria” ou “o que meu irmão faria nessa situação” são questões com uma frequência sã no meu dia-a-dia. Às vezes até para agir de modo contrário, mas eles estão sempre presentes nas minhas decisões. O problema é que isso não basta. Gostaria de ter a proximidade física, de poder passar para um café ou …Não, café não. Uma cerveja ou um churrasco. Conversar descontraidamente, com meus sobrinhos em volta e minhas filhas penduradas nos pescoços dos tios e da vó. Nisso somos iguais aos italianos e à maioria dos povos desse mundo caótico e carente de relações sinceras. A diferença é que um italiano dificilmente aceitaria que o próprio filho partisse para viver tão longe.

E é por pensar com frequência nos meus irmãos, apesar de falar muito pouco com eles, que há dias tenho pensado no meu irmão caçula, o Bruce, que faz aniversário hoje. Porquê aquele sacana não manda umas fotos dos meus sobrinhos? Como estará a Sueli? E a casa, terminou? Recebeu os prêmios? Perdeu meu e-mail e número de telefone? Você se lembra das suas sobrinhas? E todos os puxões de orelha que um irmão mais velho se sente no direito de fazer. Na verdade, estou escrevendo hoje só para lhe dizer que sentimos muito a falta de vocês, que lhe desejamos um dia de festa, com a Bárbara, o Eduardo, a Sueli, a mãe e os manos Dawidson e Cecil com as cunhadas e amigos que lhe façam sentir especial, mesmo não sendo a nossa uma família italiana.

Abração e um Feliz Aniversário!

Friday, March 12, 2010

Salvem as girafas!

Os pneus de neve foram o melhor investimento deste inverno. Em pleno mês de março e ainda há a necessidade de usá-los.

Os dias se alternam em frescas jornadas primaveris e nevascas siberianas. Esta semana foi a vez da Sibéria, o que deu muito trabalho aos operadores da administração pública. Tratores limpa-neve e caminhões espalha-sal começam a trabalhar durante a noite para aliviar o caos da viabilidade, mas as ruas secundárias e boa parte da periferia tem mesmo é que contar com o auxílio dos céus: sol e chuva, quando aparecem, limpam o que se acumula em dias seguidos de neve e mais neve.

Difícil dormir com toda essa barulheira. Difícil se locomover com a insistência da neve. Pão de queijo e café, observo o movimento da minha janela.
















































































































































































Tuesday, March 09, 2010

O respeito é uma via de mão dupla - o caso das editoras que não respeitam os tradutores

No Irã, todo e qualquer livro que não tiver sido lançado lá, antes do lançamento em qualquer outro país, poderá ser copiado e impresso pelas muitas editoras iranianas, sem o devido pagamento dos direitos autorais. Esse foi o motivo que levou Paulo Coelho e outros escritores a escolherem o Irã para o lançamento mundial de um livro. Fico devendo a informação se cada editora há o próprio tradutor ou se usam uma única tradução. Há alguns anos li uma reportagem que sugeria importância de uma nova tradução da obra de Freud, pois a primeira, que teria servido de base a todas as que se seguiram, teria cometido erros que proporcionariam uma visão equivocada sobre os ensinamentos do pai da psicanálise. Na Itália, os títulos e créditos nos finais dos filmes estrangeiros, dão destaque à equipe de dublagem, nominando não apenas o diretor de dublagem, mas cada dublador com os respectivos nomes dos personagens dublados.

Em 1994 a empresa onde eu trabalhava presenteou todos os gerentes com o livro “Feitas Para Durar” de Michael Collins e James I. Porras, traduzido por Sílvia Schiros. O livro, na realidade o relatório de uma pesquisa que durou seis anos, trata sobre o porquê de algumas empresas sobressaírem enquanto suas concorrentes não têm o mesmo resultado. É uma fonte de consulta ainda atual e um dos poucos livros que trouxe do Brasil. Anos mais tarde, a internet tratou de me aproximar da Sílvia Schiros, tornando-a uma colaboradora do blog ecológico coletivo do qual fazemos parte. É na Sílvia que eu penso quando leio que os tradutores estão indignados com o que está acontecendo. Mas não precisa ser tradutor para se indignar com o que fazem algumas editoras com obras já traduzidas.

O sempre atento e também indignado escritor Milton Ribeiro simplificou tudo em um parágrafo: “Há um gênero de trapaça pouco conhecida e muito, mas muito sacana. É o plagiador (ou copiador) de traduções alheias. Imaginem que o plagiador, normalmente o próprio editor ou um funcionário, faz a tradução de uma obra de, digamos, Philip Roth; porém, em vez de traduzir a obra, pega uma edição portuguesa, dá uma ‘tropicalizada’ e manda bala.

Como indignar-se e basta nunca resolveu nada, a tradutora Denise Bottman, fez um blog onde denuncia esse tipo de plágio. O resultado não poderia ser outro: A Denise está sendo processada exatamente por denunciar o plágio, como bem alertaram O Globo, através do blog Prosa on-line, do Guilherme Freitas, o próprio Milton Ribeiro, o site Tradutor Profissional e a Raquel, dona do blog Jane Austen em português, que também está sendo processada, entre outros.

Existe um blog em apoio à Denise Bottman e uma Petição em favor à Denise, mas você pode fazer mais que assiná-la. Ajude a divulgar, boicote as editoras que aplicam a “lei de Gérson” para economizar uns trocados e, antes de comprar um livro traduzido, se possível, informe-se sobre o tradutor. Se ele aparecer como tradutor de trocentas outras obras, desconfie.

Mas não esqueça de a assinar a petição, como eu já fiz. Ou, pelo menos, indignar-se.

Sunday, March 07, 2010

Música Italiana

Em Fevereiro aconteceu o inevitável. O Festival da Canção Italiana de Sanremo chegou à sua 60ª edição. E não há nada que se possa fazer para evitar todo o falatório antes, depois e, principalmente, durante o festival. Apesar do alto índice de audiência, o número de tvs ligadas durante o festival cai muito. O Auditel, o Ibope italiano, verificou mais de 40% de média de share, enquanto o número de tvs ligadas caiu em quase dez milhões.

A realidade é que poucos suportam o Festival. É mais fácil sair de casa e encontrar-se com os amigos que mudar de canal, pois as outras emissoras resolveram aliviar a programação durante a semana do Festival. Um evento marcado por trambiques e cartas marcadas que há muito deixou de ser o reflexo da música que toca no rádio, com resultados que acabam causando mais polêmica que venda de discos. Ops! Cds, eu quis dizer.

Funciona assim: A RAI, que produz o festival, convida um diretor entre os apresentadores da emissora, que, por sua vez, convida os músicos italianos que irão participar do festival com músicas inéditas. Só concorre músico italiano convidado. Depois, o diretor trata de contratar algumas estrelas, que podem ser músicos estrangeiros, atores, atletas, enfim, gente famosa para enriquecer a programação e, em alguns casos, cantar. Desde 2004 decide o voto popular através de telefonemas, que vai eliminando os músicos até restarem apenas três. O voto popular também pode decidir uma repescagem. Na prática, um concorrente paga (PAGA!) um call center para fazer tantas ligações quantas puder pagar. Para dar uma ideia do imbroglio, o primeiro e o segundo colocados deste ano foram repescados, depois de eliminados. Tudo através do “voto popular”. A maioria dos músicos simplesmente recusa o convite, mas nem todos os grandes são convidados.

Para falar a verdade música italiana vai mal. O sempre atual e velho esquema das gravadoras de impor o que será sucesso no rádio não permite uma renovação de qualidade, mas apenas do que é comercial. O que toca nas rádios é brega, como deve ser brega a maior parte da música brasileira que toca nas rádios, se nada mudou nestes dez anos que vivo fora. A grande diferença é que é mais fácil encontrar música de qualidade no Brasil que na Itália. A chamada “dor de cotovelo” ou letras fáceis e melosas é o normal por aqui. Sim, há exceções, mas não há renovação. Assim como acontece no panorama mundial, no cenário da música italiana é a vez das mulheres. Falta, agora, descobrir quem irá substituir músicos como Paolo Conte, Lucio Dalla ou Pino Daniele, quando eles decidirem que é o momento de parar, ou forem fazer companhia a Fabrizio De Andrè, Giorgio Gaber e todos os outros que cantam do lado de lá.

As rádios italianas só tocam música italiana e os sucessos internacionais – normalmente músicas em inglês – e mais nada. Mas alguns dos grandes sucessos internacionais do passado os italianos só conhecem em versão italiana, que eles acreditam ser a versão original. Noutro dia um amigo ficou chocado ao descobrir que “Raindrops Keep Fallin’ On My Head” é uma composição do maestro Burt Bacharach. Talvez o mesmo choque que tive quando descobri que “Minha História”, versão do Chico Buarque, é, na realidade, uma canção de Lucio Dalla e Mogol. Mas, acreditem, a versão brasileira é melhor que a original.

Se a curiosidade lhe aguçou, seguem algumas músicas apresentadas no Festival de Sanremo deste ano. Se decidir escutar todas, deixe Malyka Ayene por último.

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Post scriptum:

A RAI, proprietária dos direitos autorais do festival, bloqueou os vídeos do You Tube apresentados neste post.

Se a curiosidade realmente lhe aguçou, vá ao You Tube e digite "festival di sanremo 2010". Se quiser ouvir os cantores que este post apresentava - alguns, como curiosidade - basta digitar o nome do cantor ou cantora:

Noemi

Irene Fornaciari

Irene Grandi

Povia

Malika Ayane

Simone Cristicchi

Marco Mengoni (3º colocado)

Pupo, Emanuele Filiberto e Luca Canoncini (2º colocado)

Valerio Scanu (o vencedor do Festival)

Friday, March 05, 2010

Israel Kamakawiwo'Ole

Logo, logo tem post fresquinho.
Por enquanto, veja se você também se emociona com o IZ tanto quanto eu.

Antes, relembre Judy Garland:


...E o grande Louis:



E, finalmente, IZ, que juntou com simplicidade as duas canções, acompanhado do seu ukelele: