Na antiga Roma o cônsul era um magistrado epônimo [que dava o próprio nome a uma cidade, região ou ano] eleito anualmente. Como tal, detinha o poder civil e militar. Foi o cônsul Marco Emilio Lepido (Marcus Aemilius Lepidus) quem comandou a construção da estrada, dando assim o próprio nome não só à nova via, mas à região que a circundava além dos limites da Romagna. Anos mais tarde, um outro trecho da Via Emília foi construído, ligando Piacenza a Milão, na Lombardia.
Piacenza, Parma, Modena, Bolonha e cidades vizinhas formam a parte emiliana da região Emilia-Romagna, enquanto a faixa litorânea abriga as cidades romanholas. As maiores cidades de fundação romana ou refundadas pelos romanos e atravessadas pela Via Emilia são Cesena, Forlimpopoli, Forlí, Faenza, Imola, Claterna (entre Imola e Bolonha, desaparecida no século VI após a guerra Greco-gótica), Bolonha, Modena, Reggio Emilia, Sant’Ilario d’Enza, Parma, Fidenza e Piacenza.
Paralelas à Via Emilia foram construídas a estrada de ferro que vai de Milão a Rímini e a Autostrada A1, também conhecida como Autostrada del Sole, ligando Milão a Nápoles. A Via Emilia é, ainda hoje, a artéria viária fundamental da Emilia-Romagna, apesar de em muitos trechos não passar de uma pista de mão dupla, sem acostamento – característica das estradas italianas – e mal conservada.
Na época da construção da Via Emilia as cidades eram verdadeiras fortalezas, cheias de soldados romanos, muros altos e jardins voltados para o interno dos terrenos murados das casas. Qualquer forasteiro era visto como ameaça e poucos se arriscavam às novidades trazidas de fora. A parte emiliana da região, aquela onde moramos, é o berço de uma gastronomia de tradições antigas, como as massas recheadas (tortelli) como cappelletti e ravioli, além do famoso fettuccini (ou tagliatelli). Zona de produção do Grana Padano e zona exclusiva do rei dos queijos, o Parmigiano Reggiano. Isso sem contar os embutidos, como as copas de Parma e Piacenza, os salames, presuntos, a mortadela e o culatello. Vinhos, como esquecê-los? Uma infinidade de queijos e outros produtos menos conhecidos fazem parte dos costumes emilianos. Os moradores das cidades muradas eram desconfiados, mas não bobos. A troca de receitas foi facilitada com a Via Emília e o comércio ambulante da época ajudou a espalhar as tradições locais, enriquecendo, modificando e transmitindo às gerações seguintes, técnicas, produtos e costumes que poderiam ter se perdido, como a cidade de Claterna, um dos poucos casos de cidade romana esquecida e quase intacta sob o que hoje é terreno agrícola.
Com a expansão das cidades e vilarejos, a Via Emilia acabou por transformar-se, em alguns trechos, em avenidas que atravessam as cidades, ou sofreu desvios para manter o tráfego pesado longe das habitações.
Quando vier à Itália e decidir conhecer de perto os sabores, a história e a cultura de uma terra rica como a Emilia-Romagna, evite a Autostrada, evite os trens e aventure-se pela Via Emília. A via romana das tradições. São quase 300 quilômetros percorridos em seis horas, mas é provável que você gaste muito mais tempo, se se deixar encantar pelos vilarejos, pelos vinhos e pela culinária que muda de cidade em cidade.

No mapa, a linha azul mostra o percurso da Via Flamínia, que liga Roma, mais ao sul, a Rímini, no Mar Adriático. A linha vermelha é a Via Emilia, ligando Rímini a Piacenza, no trecho original, antes da construção da extensão até Milão.
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