É noite escura, são seis e meia da noite e as ruas estão cheias de neve e de gente. Apesar dos apelos para evitar embalagens inúteis, milhares de sacolas coloridas, pacotes reluzentes, fitas de todas as cores e tamanhos e laços enormes, denunciam a corrida ao último presente nas lojas lotadas. Cenas que antecedem cada Natal nesta Piacenza gelada pelos ventos siberianos. Apesar do frio intenso, os sorrisos são a regra. Sorrisos nos rostos corados por chocolate cremoso quente ou, como no meu caso, um bom conhaque, além das luvas, cachecóis e casacos longos e pesados.
A ceia do dia 24 e o almoço do dia 25 com certeza já foram minuciosamente planejados, encomendados, organizados. Barriga cheia e pacotes a serem desembrulhados farão a felicidade de milhões de italianos. Planos, projetos e metas, estabelecidas no ano anterior foram alcançados ou esquecidos. O momento é de acreditar que tudo vai dar certo, que o mundo vai encontrar a paz e o equilíbrio ecológico. E os novos planos, projetos e metas se basearão nessa certeza. Estou “fora de casa” há tanto tempo que já nem sei mais se essa atitude italiana de achar que alguém resolverá os grandes problemas é, realmente, só italiana. A impressão é de que os italianos estão aqui só para gozar dos resultados.
Inevitavelmente, essa é, também, a época de balanços. Vasculhar – desesperadamente – a memória tentando convencer-se da própria contribuição para algo positivo, é um exercício corriqueiro por aqui e nem sempre produz o resultado esperado. Em uma entrevista a um talk show italiano, o escritor Gore Vidal – que frequenta a Itália há muito tempo e que possui uma casa aqui como retiro para escrever – respondeu, quando o entrevistador perguntou qual era a lição sobre o povo italiano que ele considerava mais relevante: “uso as palavras de Jacques Chirac: ‘tentar governar um povo tão individualista como o italiano não é impossível. É inútil.’ ”
Como um fantasma, o Espírito de Natal nos visita a cada ano e nos oferece a oportunidade de mudar a única coisa que podemos mudar: o futuro. “O que fazer?”, pode ser a preocupação de muitos. Nestes casos, é fundamental entender que a única coisa a ser evitada é não fazer nada. Se nada for feito, tudo será como sempre foi. Portanto, para mudar é preciso movimento, ação, mesmo sem luzes, câmeras ou plateia.
Talvez tenha sido essa a maior contribuição de Dickens, a de nos alertar que não precisamos nos conformar com a imagem que construímos de nós mesmos e que podemos mudar, não importa quantos anos tenhamos vivido. Carl Barks, o famoso ilustrador dos estúdios Disney, ao criar o Tio Patinhas, um ziliardário rabugento e avarento, mas com o futuro garantido, nos apresentou uma outra oportunidade. Mas só funciona para personagens dos quadrinhos. Mude, não importa quando.
Feliz Natal!