Thursday, June 07, 2007

Qualé a sua, bicho?

Aqui no primeiro mundo tudo é diferente. E, às vezes, é difícil convencer as outras pessoas do que acontece por aqui. Muita gente estranhou quando escrevi sobre um menino de uns cinco anos em carrinho de bebê (aquelas cadeirinhas sobre rodas). Pois bem, isso é normal pelas minhas partes. Mães que empurram crianças que caminham e correm normalmente, em carrinhos tamanho extra-large, quando decidem dar uma voltinha pela cidade. “Se ele fica cansado, quem é que carrega esse touro no colo? Assim, não enche o saco de ninguém.”

O Império Romano construiu estradas por toda a Europa, que foram modernizadas mas que servem até hoje como vias de ligação entre as diversas cidades, vilas e borgos (antigos vilarejos medievais, perfeitamente preservados e habitados). E é justamente essa longa convivência com as estruturas urbanas que os leva cada vez mais longe da natureza. Ao menos daquela parte da natureza que pode ser evitada. Pernilongos, moscas, abelhas e outros insetos e pequenos animais convivem, não sem conflitos, com os demais habitantes desse velho mundo.

Este ano, pela primeira vez, apareceram formigas na nossa cozinha. Mas são formigas bem-educadas. Vasculham a pia, o chão e o armário embaixo da pia, cheio de produtos de limpeza. Os bolos, tortas e doces deixados em cima da mesa não chegam a durar muito, mas são território poupado pelo pequeno exército das incansáveis marchadoras. Uma lagartixa tomou conta do balcão da cozinha desde março passado. No início, patinava desesperadamente cada vez que nos encontrávamos, mas, agora, não faz caso e apenas se recolhe em um canto para evitar uma pisada. Não é uma lagartixa de parede e isso me faz pensar que deve ter subido pelo elevador, junto com as formigas civilizadas. O melro que mora no convento, em frente ao balcão da cozinha, aprendeu que pode ir sossegadamente comer as migalhas de pão que as meninas deixam em volta das plantas, disputando com os pardais os pedaços maiores, numa convivência pacífica no balcão ensolarado.

Lembro que na nossa casa em Lauro de Freitas, às portas de Salvador, havia uma perereca que morava no box de um dos banheiros. A chamávamos Rui e nos divertíamos com seus olhos arregalados na hora do banho. Quando nos mudamos para uma outra casa, a Bianca, então com três anos, ficou feliz ao descobrir outra perereca no novo banheiro: “Olha, O Rui chegou!” Mas outro dia perdi a paciência: o melro estava dentro da cozinha ameaçando meus doces. Provar até pode, mas precisava fazer todo aquele escarcéu? !

.

Sunday, June 03, 2007

Pontos da cidade

A Geórgia me passou a incumbência de escrever sobre pontos da cidade que eu gosto. Sou avesso a correntes, mas toda regra tem exceção. Esta é uma delas. Como já havia escrito sobre Piacenza e ando meio atarefado, resolvi republicar o post, mesmo que o período do ano tenha sido outro. Afinal, com o clima enlouquecido, nem faz diferença se é primavera ou outono.


------------------------------

Aproveitei a tarde de sol e, apesar do frio, saí para dar uma volta de bicicleta.


Na rua de casa, a uns cem metros, a chiesa di Santo Agostino, que foi desconsagrada depois que Napoleão invadiu-a com tropas e cavalos. Agora é um espaço para mostras e exposições.








Do outro lado da rua, os giardini di Napoleone, onde ele montou seu quartel-general. Volta para fazer outra foto na primavera e a palavra jardins ganhará outro sentido.






Segui pela Stradone Farnese (onde moramos) até o fim para observar a Lupa, cópia daquela famosa, de Roma. Mussolini presenteou-a à Piacenza em reconhecimento à importância da cidade nas guerras púnicas.



Chiesa di San Martino Episcopo, no centrão. Esse estacionamento foi o Foro Romano, berço da cidade.

Resolvi, então, mostrar a vocês uma parte da história que conta: chiesa di Santa Maria di Campagna, local de onde partiu a primeira Cruzada da história. Um policial não permitiu que eu ficasse no meio da rua com a bicicleta para fazer a foto, por causa do trânsito. Lembrei de Galileo e me conformei com essa perspectiva.


Voltei para o centro e passei em frente ao prédio dos correios. Mais à frente (onde bate o sol) a Piazza Santo Antonino. Reparem na arquitetura inusual do prédio


…E no que eu acredito ser a curiosa assinatura do arquiteto.


Na Piazza Santo Antonino, a basilica di Santo Antonino, impossível de ser fotografada de frente: a rua é muito estreita. A antiga basílica (século IV) em homenagem ao patrono da cidade perdeu o lugar de primeira igreja àquela da Duomo.





Saindo da
praça pela rua Giuseppe Verdi, o Teatro Municipale.









Sigo por uma rua estreita (todas são estreitas) para chegar à Piazza Duomo, onde a catedrale di Santa Maria Asssunta domina a paisagem. Ao lado, o Palazzo Episcopale. Reparem aquela sombra no meio da torre da igreja:





Na realidade é uma cela, onde eram colocados os presos mais rebeldes, em ocasião da visita de alguma autoridade (e naquela época todo mundo era autoridade). O preso ficava exposto naquela gaiola, morria, apodrecia e seus ossos podiam ser recolhidos após caírem no telhado e rolarem para o chão.





Aqui o Palazzo Episcopale em destaque.


Pego a Via XX Settembre até chegar à Piazza Cavalli, que italiano tem mania de chamar largo de praça. Na Via XX o trânsito é proibido inclusive aos ciclistas. O jeito é empurrar. A estátua do Farnese brinca de luz e sombra com o prédio da Banca Nazionale del Lavoro, que brinca de com a sombra do…





Palazzo Gotico, antigo centro do poder do ducado de Parma e Piacenza.

Ao lado do Gotico, naquele prédio laranja, ocre, salmão ou a cor que mais lhe convier, ofuscado pela luz, o gabinete do prefeito.





Saio pela Via Cavour e imagino que daquela sacada a vista deve ser formidável.


Aproveito para controlar se o Palazzo Farnese foi invadido. Não, não foi dessa vez. O prédio (palácio, castelo, escolha) jamais foi concluído. O projeto original foi modificado nas diversas vezes em que foi invadido. Dentro, parte da história da cidade jaz numa confusão de estilos arquitetônicos nos diversos museus que a construção abriga.





Antes de terminar o passeio, um detalhe do Palazzo Farnese.







Voltando para casa, à entrada da Piazza Cavalli, encontro uma banda de malucos dançando pelo meio da rua, divulgando o festival de jazz da cidade. Desço da bicicleta e vou atrás, curtindo um jazz de primeiríssima.





.