…Não falo das máquinas projetadas para facilitar a vida e – teoricamente – deixar-nos livres para gozar melhor o tempo. Aquelas máquinas que torram o nosso suado dinheiro, mas que nos obrigam a questionar como fazíamos antes, sem elas. Máquinas de lavar, telefones e aviões: tudo isso é útil. Tampouco penso àquelas outras, que cada vez mais substituem braços humanos nas fábricas, cujos projetistas, sabiamente, evitam desenvolver com formas humanas. Nem daquelas que mexem com as nossas emoções e nos tornam obesos preguiçosos, como os televisores e os vidros elétricos dos carros, não. Estou me referindo às máquinas de uma geração mais jovem, que completam o trabalho de exterminar um dos últimos prazeres da nossa civilização. A minha guerra é contra as máquinas de distribuição automática de café, doces e salgados.
A Itália está se transformando num enorme fast food, com o que existe de pior nesse ramo. Sabe aquela gentileza empresarial de oferecer um café fresquinho e grátis ao visitante? Pois é, na Itália não existe. O fornecedor ou cliente já terá tomado o seu café na máquina da sala de espera. E, se estiver com fome, pode fazer uma boquinha com salgadinhos, chocolates, doces e até sanduíches, além dos sucos, chás e refrigerantes. Tudo devidamente industrializado. Alguém está enchendo os bolsos graças a obesidade alheia.
Com exceção das escolas do ensino fundamental, onde são proibidas, as máquinas de guloseimas já fazem parte da arquitetura italiana. “Precisa deixar um canto com uma tomada para a máquina de café.” Não raro, quem não tem tempo de sair para almoçar acaba se entupindo de calorias, química pastosa e formol (por que ninguém irá conseguir me convencer que um sanduíche de atum com maionese dure um mês sem aditivos). Só na sede da empresa onde trabalho são nove máquinas, que vendem muita coisa que médicos e nutricionistas aconselham evitar. O bar mais próximo fica a 30 metros da empresa. Apesar disso, as máquinas são reabastecidas a cada dois dias.
Os italianos nem se dão conta de que estão abrindo mão da alimentação sadia e diversificada que atrai milhões de turistas todos os anos. Vão acabar matando a galinha enriquecendo médicos e fabricantes da má alimentação
Estações de trem, shopping centers, faculdades, museus, e até nos diretórios dos candidatos às eleições municipais de 27 e 28 deste mês. Em todo lugar estarão as tais máquinas e os consumidores. Definitivamente, a Itália está cada vez mais parecida com os Estados Unidos. O que não é, necessariamente, uma coisa boa.
.