Sunday, April 15, 2007

Meu Herói, Meu Bandido

Nossa história começou naquele início de noite da primavera carioca. Minha mãe conta que você ameaçava agredir o médico, que entendia a calma dela como um sinal de que o momento ainda não havia chegado. Era a minha estréia nesse mundo e você brigando. Não muito diferente de qualquer outra ocasião em que fosse necessário um mínimo de paciência, um pavio ainda que curto.

Lembro do seu sorriso orgulhoso enquanto minha mãe me levava à casa da Nádia Pacheco, do outro lado da rua Peixoto Gomide, no Cremerí, em Petrópolis, para a minha primeira lição de leitura. Tinha apenas três anos, mas você me havia ensinado a ver as horas e a jogar xadrez, e isso fazia de mim alguém capaz de aprender a ler. Lembro, também, do quarto de brinquedos tão cheio que vez ou outra encontrávamos um pacote esperando ser desembrulhado. Eu, meus irmãos e o exército de amigos necessários para tantos brinquedos. Lembro dos almoços intermináveis aos domingos e a casa sempre cheia de gente, e que os brinquedos não substituíam a sua presença, cada vez mais rara.

Quem tem irmãos nunca está sozinho, mas eu sou estranho mesmo. Sempre vivi no mundo da lua ou nos outros mundos que construía sozinho. Ainda hoje passo a língua no dente que está para cair tentando ajudá-lo e me espanto: o último dente de leite caiu há muitos, muitos anos. E você nem estava para ver. Como também não estava em outras ocasiões importantes.

Apesar de tantas idas e vindas, separações e reencontros, aprendi muito com você. Aprendi como não tratar as mulheres e como não conduzir os negócios. Como destrinchar frango com cara de quem sabe o que está fazendo e ter a capacidade de mudar de idéia, compreender e aceitar a diversidade do mundo. Aprendi que o caminho escolhido deve ser uma trilha, não um trilho. Meus irmãos e a rua trataram de ensinar o resto. Empinar papagaio, jogar bolinha de gude, nadar, andar de bicicleta e trabalhar para pagar as contas. Ser independente foi consequência, não uma lição.

Minha curiosidade me levou cada vez mais longe, mas eu sou estranho mesmo e sempre me senti muito perto. Sempre penso em quem está longe como se morasse na rua de trás e converso conversas imaginárias. Vou a lugares que combinam com alguém e imagino esse alguém ali, a conversar comigo. Vou a cafés que iríamos juntos e passeio por lugares que passearíamos. E isso reduz um pouco esse sentimento de culpa por não ter acompanhado a sua velhice, por não ter tomado um café juntos. Por viver longe e saber da sua morte por telefone.

A imagem mais forte é, talvez, a primeira. Biscoito de cuspe e mate gelado na praia, em Copacabana. Lembro dos meus cabelos, brancos como o sol. Brancos como o seu sorriso.

Sunday, March 25, 2007

Frutas Secas

Fico impressionado com a pouca criatividade de algumas pessoas na cozinha. Posso entender preferências, mas não a regra de que todo sorvete para ser bom tem que ser de creme. O consumo de frutas secas é particularmente vítima desse tipo de comportamento. Já escrevi sobre o hábito italiano de misturar pêra com queijo, mas se você ainda não provou gorgonzola com nozes não sabe o que perde.

Experimente criar pratos com frutas secas. Não se sinta mal se não conseguir encontrar pinoli facilmente ou se tiver que pagar caro quando o achar. Custa caro por aqui, também. Substitua-o por castanha de caju torrada adicionada na hora, para não desmanchar, ou por pistache, por exemplo.

Scalopine alla salsa di mandorle – para duas pessoas

260 g. de coxão mole (chã de dentro), de preferência de vitelo;
Farinha de trigo;
50 g. de amêndoas sem pele;
½ copo de vinho branco;
Manteiga;
Sal;
Pimenta do reino branca.

Corte as amêndoas pedaços grandes e reserve. Limpe a carne, corte em fatias finas e faça pequenos cortes nas bordas. Passe a farinha nos dois lados da carne e frite, junto com as amêndoas, em uma frigideira com manteiga. Adicione o vinho e faça evaporar em fogo alto. Adicione o sal e a pimenta do reino. Sirva com batatas rosti ou assadas.

Fruta ou sorvete como sobremesa, mas o de creme não combina.
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Friday, March 16, 2007

O Poder Coercivo Do Estado

– Dotô, cheguei da Sicília ontem e descobri que eu murrí.

Como eu o estou vendo vivo e ainda não fiquei caduco, explique-se.

– Parece que teve um acidente e o fulano tinha um documento meu e morreu…

Como é que esse fulano tinha um documento seu?

– Sei , dotô! sei que enterraram o ômi aqui em Cremona como se fossi eu, mas euaqui, vivim da silva. que sem documento, e sem documento nesse mundo de Meu Deus ninguém pode ficar.

– Vai ter que providenciar um atestado de vida

– Num pode dar o sinhô mesmo?

Não. Tem uma série de procedimentos que a lei exige para provar que o senhor é o senhor mesmo.

Mas… Dotô! Se euaqui e o sinhômi vendo, por que tem que esperar? O sinhô, digo, o dotô não acredita que euvivo, não?

Não é isso, é que existem esses procedimentos…

– E até eumorto?

Não, o senhor está vivo, mas é como se fosse morto. Ao menos até provar que está vivo.

Então eu posso sair por e aprontar, roubar, matar…?

– Pode, aliás, isso facilitaria as coisas. Era mandar esse agente de polícia dar um tirinho no senhor e estaria tudo resolvido. Ele nem seria processado, o senhor está morto mesmo. Me evitaria um bocado de burocracia

– DOTÔ! EU QUERO MEUS DOCUMENTOS.

Infelizmente vai ter que esperar a questão burocrática ser resolvida. É a lei.

– E se eu der uma banana pra lei, assim ó…

Agente! Prenda este homem por desacato à autoridade!

– E que nome o dotô vai usar pra registrar minha prisão? Vai prender quem? E se me mandarem pra Trieste ou pra Nápoles? Como o dotô vai me achar dentro depois?

Agente, leve este cidadão ao serviço de assistência social. Se ele voltar aqui, atire nele. Na volta, me traga uma aspirina.

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Wednesday, March 07, 2007

Leitora

Loredana é uma daquelas leitoras que interage com o texto. Analisa, põe em dúvida, desconfia, relê e passa parte do dia ruminando a leitura matinal. Evita comentar; as outras pessoas não entendem ou não estão preparados à realidade das coisas. A realidade que Loredana enxerga tão bem. Se tivesse a oportunidade de encontrar-se com seus escritores favoritos, eles ficariam embaraçados com as observações sobre os pequenos equívocos e desatenções que cometem. Loredana tem uma mente treinada.

Segunda-feira é dia de muito trabalho, mas um dia perdido de leitura não se recupera, por isso o hábito de ler pela manhã. todos os dias, sorri, chora, discorda, analisa, questiona, mas toda manhã. Enquanto a mente de Loredana ora luta contra, ora a favor do que , seu coração perdeu todas as batalhas e se rendeu a Matteo, o jovem padeiro dos olhos negros.

Na manhã de terça-feira, mal acabara de ler e planejara tudo para o grande momento. Desceu do trem tão distraída que nem parou no pequeno bar da estação de Castel San Giovanni para tomar o cappuccino de todas as manhãs. Seguiu direto para o trabalho e passou o dia absorvida pelos seus planos.

Ao meio-dia comeu uma saladinha e tomou um suco de laranja em mesmo. Queria poder escolher uma camiseta nova e teria que se apressar para encontrar a loja aberta, antes da uma da tarde. Conhecia a paixão de Matteo pelo basquete e foi fácil encontrar uma camiseta do Lakers, que ela sabia ser um time dos Estados Unidos. A balconista ainda lhe perguntou de que cidade dos Estados Unidos era o time, mas a ela pouco importava. Deu de ombros, pagou e saiu sorrindo. Nem imaginava que Matteo era um torcedor do Chicago Bulls, time que cultiva uma longa rivalidade com o Los Angeles Lakers.

Quando pegou o trem de volta para Piacenza ainda digeria satisfeita a leitura daquela manhã. Consciente de que sua vida mudava a cada novo texto lido, ela dependia da leitura tanto quanto a leitura dependia dela. À noite, tudo seria perfeito, afinal ele era de touro, primeiro decanato. Combinava perfeitamente com ela. Mas Matteo havia decidido trocá-la por Francesca, aquela vaca da papelaria. Nem apareceria à noite. Um sms e tudo se resolvia com um texto breve. Melhor assim: não recebeu a camisa do Lakers nem a viu chorar a morte de Willy, o gato de pelúcia.

Definitivamente, naquela manhã tinham publicado o horóscopo errado.
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Friday, March 02, 2007

Resultados da pesquisa

Da enquete que fim no post anterior, algumas respostas não me surpreenderam.
Vamos aos resultados.

Responderam a pesquisa:
Pelo blog – 6
Por e-mail – 21
Por telefone – 1
Total – 28

1) Por que você decidiu vir morar fora?
(Considerando todas as respostas):
Por amor – 25
Para estudar – 3
Por melhor qualidade de vida – 15
Principalmente para fugir da violência do Rio – 1

2) Que tipo de dificuldades ou de facilidades você enfrentou para arranjar casa?
Nenhuma, o parceiro ou parceiro já possuía – 22
Alguma, apesar do parceiro ou parceira já morar aqui – 1
A escola ofereceu moradia quase de graça – 1
Morou com brasileiros até se virar sozinho ou sozinha – 4

3) Você precisou mudar de profissão para se adaptar? O que precisou fazer?
O que fazia no Brasil – o que faz na Itália:
Secretária executiva – trabalha com o marido na loja dele – 3
Secretária executiva – mãe e esposa – 1
Psicólogo/a – associação cultural – 1
Revisor/a de textos – redator/a de sites para idosos e assistentes – 1
Engenheiro/a de software – engenheiro/a de software – 2
Estudante de comércio exterior – estagiário/a – 1
Vendedor/a – vendedor/a – 2
Vendedor/a – pintor de parede – 3
Vendedor/a – garçon/garçonete – 3
Nutricionista – cozinheiro/a – 1
Designer – designer – 1
Pequeno/a empresário/a – cozinheiro/a – 2
Pequeno/a empresário/a – instalador/a de antenas e pequenos serviços – 1
Pequeno/a empresário/a – tradutor/a de inglês – 1
Médico/a – médico/a – 2
Médico/a – tradutor/a de inglês – 1
Manicure – manicure – 2

4) Qual foi o maior impacto positivo dessa mudança?
(Considerando todas as respostas):
Qualidade de vida e segurança – 8
Ter uma família – 6
Maiores oportunidades para os filhos – 3
Educação dos filhos – 5
Viver um grande amor – 4
Viver em um país rico de cultura e história – 3
Gastronomia – 4
Vinhos – 1
Ser bem recebido/a – 3

5) E o negativo?
(Considerando todas as respostas):
Obtusidade e provincianismo – 9
A recomendação no trabalho, o QI (Quem Indicou?) – 7
Preconceito – 11
Isolamento social – 1
A dificuldade em adaptar-se – 9
Frustração profissional – 12
Mal atendimento nas repartições públicas – 8
Saudades – 23

A você que participou, muito obrigado. Quando vier a Piacenza lhe pago um café.
:)
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