Saturday, February 24, 2007

Grandes Mistérios do Universo

Aos que lêem este blog e vivem na Itália, gostaria de fazer umas perguntinhas. Se preferir não se identificar, comente como anônimo. Caso queira manter a privacidade das suas respostas, pode mandar-me um e-mail ao allanrpj@gmail.com:

1) Por que você decidiu vir morar fora?

2) Que tipo de dificuldades ou de facilidades você enfrentou para arranjar casa?

3) Você precisou mudar de profissão para se adaptar? O que precisou fazer?

4) Qual foi o maior impacto positivo dessa mudança?

5) E o negativo?

Grazie.

.

Friday, February 23, 2007

Eolo

Em Ciorlano, um lugarejo medieval na província de Caserta, deu-se início à construção da mais recente “fazenda de vento”. É assim que os habitantes da região Campania, no sul da Itália, chamam as centrais de produção de energia eólica.

A central energética contará com dez torres de aço de 80 metros e cada uma ocupará 150 metros quadrados de terreno. Cada moinho (ou rotor) medirá 72 metros de diâmetro e, juntos, produzirão 60 milhões de Kilowatt por ano, energia suficiente para abastecer uma cidade de 100 mil habitantes.

Para convencer os pouco mais de 500 moradores de Ciorlano, o prefeito organizou uma excursão a Albanella, na vizinha província de Salerno. Lá os ciorlani puderam constatar que os rotores de nova geração produzem pouco rumor e que os cabos que conduzem a energia à central são enterrados, o que reduz substancialmente as emissões eletromagnéticas. Com a nova usina, a Campania passará a contar com 216 fazendas de vento, sendo a região italiana que mais investe nesse tipo de energia alternativa.

A WWF italiana e a Legambiente assinaram um protocolo com a associação dos produtores de energia eólica, para garantir que nenhuma instalação virá a ser construída nas rotas dos pássaros migratórios, as maiores vítimas desse tipo de usina. O prefeito de Ciorlano, o médico Silvio Vendettuoli, tem em mãos um estudo da Universidad de Madrid, que registrou 7250 pássaros mortos por 400 torres eólicas instaladas em Salajones, Izco, Alaiz, Guerinda e El Perdon, na Espanha.

Assim como as usinas hidrelétricas, as fazendas de vento também são consideradas fontes alternativas limpas, por não produzirem resíduos poluentes. Isso permite à empresa de energia vender a eletricidade ao concessionário público local e à rede nacional, que são obrigadas a produzir, a partir de fontes renováveis, parte da energia gerada.

Apesar do impacto ambiental inicial e das consequências à fauna e flora, a energia eólica não produz resíduos tóxicos nem contribui para o aquecimento global. Integrado aos incentivos ficais que o governo italiano oferece para implantar projetos individuais de energia alternativa, as fazendas de vento são a solução às empresas e residências já existentes, oferecendo a possibilidade de reduzir o consumo de combustíveis fósseis não apenas a novos projetos, mas de mudar a situação existente.

Ao que parece, a região Campania está disposta a transformar essa história de fontes renováveis de energia em algo mais que simples palavras ao vento.


Via Diario.
.

Sunday, February 18, 2007

Troglodita Esporte Clube

Quando morava em Salvador me admirava ao observar a saída do Fonte Nova, o estádio da cidade. O clássico Ba-Vi (Bahia x Vitória) terminava sempre com uma gelada no boteco mais próximo, onde as camisas adversárias se misturavam em paz. O jogo havia acabado e ninguém se importava com a rivalidade fora do campo. Vá lá, vez ou outra tinha alguém mais alterado arrumando confusão, mas os outros torcedores olhavam de longe, censurando. Nem parecia o mesmo país das torcidas organizadas do Sul Maravilha que se espancavam e atacavam os ônibus das outras torcidas.

Certa vez escrevi sobre a operação de guerra que é a chegada de uma torcida organizada na cidade, com direito a vagão de trem e ônibus blindados e grades nas janelas. Aqui o futebol é a razão de vida de muita gente. Há poucos dias acabou virando, também, a razão de morte para alguns.

Parece que a diversão dos torcedores mais entusiasmados não é assistir a partida, mas a possibilidade de espancar outros torcedores e agentes de polícia impunemente. No início de Fevereiro o copo transbordou: mataram um policial com um pedaço de cano retirado de um banheiro. Cacos de pias e de vasos sanitários também foram usados como armas. Campeonato suspenso por uma semana; uma lei mais severa contra a violência nos estádios; estádios com as portas fechadas até que estejam com todos os equipamentos de segurança em ordem e um rapaz de dezessete anos na cadeia. Só deixaram de fora os jornais esportivos que alimentam a rixa.

Dias antes uma outra vítima fatal, mas daquela vez fora por uma briga entre dois times. As cenas de violência nos estádios se repetem semanalmente, de norte a sul do país. Uns dois ou três anos atrás jogaram um scooter de uma arquibancada lotada. Levar uma lambreta lá em cima não pode ter sido distração. Nem parece o mesmo país das torcidas pacificamente misturadas nos jogos de rugbi aplaudindo as belas jogadas, mesmo as do time adversário.

O garoto que matou o policial jogava rugbi. Ele não estava sozinho; o batalhão não estava lá só por causa dele, mas será ele, sozinho, quem pagará a conta desse tipo de divertimento besta, que é mais ou menos como incendiar índios e mendigos. Como os índios por aqui andam escassos…
.

Wednesday, February 14, 2007

Meme das 3 atitudes ecoconscientes

A Lúcia Malla me convocou e não pude dizer-lhe não. A idéia é: “Poste 3 atitudes ecoconscientes que você praticou/pratica/pretende praticar na sua vida (ou na sua casa, no seu trabalho, no boteco, etc.) para melhorar a situação ambiental do planeta Terra.”

Eis as minhas:

1) Luz artificial. Tenho aversão pelo uso indiscriminado e por desperdício de energia. Ligo o aquecedor do escritório meia hora depois de chegar e desligo meia hora antes de sair. O mesmo vale para ar-condicionado. Apago todas as luzes desnecessárias, inclusive nos escritórios dos colegas. O interruptor que acende a luz das escadas do prédio também a apaga, depois que se entra em casa. Tv acesa sem ninguém assistindo? Nem pensar!

2) Uso corretamente a coleta diferenciada do lixo e ensino aos amigos como agir. Poucos sabem que o saco de lixo distribuído pela prefeitura serve exclusivamente para material não contaminado por resíduos orgânicos. A caixa da pizza, a embalagem do leite ou a lata de molho de tomate não podem ir parar ali. A empresa que recicla esse material desconsidera o saco que possua lixo comum. O saco serve, na realidade, para pouca coisa: papel de qualquer espécie (jornal, envelopes, embalagens sem resíduos orgânicos, etc.), plástico, isopor, roupas, metais e outras poucas coisas mais.

3) Plantar árvores ou plantas. Por onde quer que eu vá, dou um jeito de plantar uma árvore. Nos fundos da empresa plantei duas figueiras. Uma já produz. Uma árvore a mais só ajuda, além de tornar o ambiente mais agradável. Tenho, inclusive, algumas árvores plantadas que nunca verei, mas mesmo assim posso gozar da sensação do dever cumprido.

Para funcionar, esse tipo de corrente precisa ser passado para pessoas que o mandarão para frente. As três pessoas a quem passo a bola são: a turma do Madureiras (podem participar todos, tá?); o geógrafo Ricardo Safra; a cara Georgia.

Propaguem essa idéia. Caso queira participar espontaneamente, vá em frente.
.


PS - tem post novo no Faça a Sua Parte.
.

Wednesday, February 07, 2007

Provincianismos

A Itália não tem um dia da independência, tem o dia da unificação.

Os muçulmanos, séculos atrás, invadiram a Sicília e a usaram como centro para a expansão árabe. Depois, foi a vez dos franceses, espanhóis e do império austro-húngaro tentarem ampliar os seus territórios pelo continente. A Igreja, com seus exércitos, também procurou proteger o seu quinhão e abençoava qualquer novo senhor que a ajudasse a se defender.

No norte do país fala-se alemão e ladino, além do italiano. A Sardenha era habitada por pastores de ovelhas quando o mar ainda cobria parte do país. O povo sardo tem cultura e línguas próprias. A Ligúria pertencia aos franceses até ser trocada pela Córsega e muitos juram ter acontecido depois do nascimento de Napoleão. O resultado de tanta gente passando por um pedaço de terra tão pequeno é uma verdadeira colcha de retalhos de culturas diferentes, dialetos que misturam línguas diversas, costumes e orgulhos próprios.

No livro “Il re di Girgenti” Andrea Camilleri fantasia livremente sobre a biografia de um certo Zozimo, que teria sido o rei de Agrigento por um curto período. Divertido e movimentado, o livro conta com uma característica típica do autor: é escrito numa mistura de italiano e dialeto siciliano. E Camilleri não abre mão disso. Poderia parecer anti-marketing, mas Camilleri vende e vende muito. O curioso foi descobrir que em momento algum o italiano foi oficializado como a língua do país (e precisa?).

À época de Dante os textos eram publicados em latim. Foi ele quem decidiu publicar seus escritos em dialeto florentino, incentivando outros nomes célebres de Florença a fazer o mesmo. E como Florença era um importante pólo comercial e cultural, logo outros escritores de outras cidades começaram a publicar os próprios textos em dialeto florentino. Com o tempo o dialeto foi sendo difundido até se tornar a língua de toda a península.

Nos dias atuais, os mais idosos insistem em usar o dialeto local, num protesto passivo contra a morte da própria cultura. Mas os mais jovens se interessam por coisas bem diferentes e buscam se integrar num mundo cada vez mais uniforme, apesar das muitas divergências. E os costumes locais vão cedendo espaço às novidades, que incluem internet e mp3, televisores e máquinas de lavar que duram pouco, ou peças de reposição que custam mais que o produto inteiro.

Ninguém discute mais se Napoleão era italiano ou francês, ou se os habitantes do norte deveriam ser obrigados a adotar o italiano como língua oficial. A atenção hoje está voltada para o início da miscigenação que ocorre de forma cadenciada e constante; para o medo de uma nova cultura religiosa que invade os domínios da península; para as incertezas provocadas pelas decisões dos poderosos; a busca de uma energia alternativa limpa; um novo modelo de televisor que dure mais e que não precise de manual de instrução. E para o novo livro do mestre Camilleri, que sairá por estes dias.

.

Tuesday, February 06, 2007

Nova Ordem

Nestes últimos dias tenho lido muita coisa sobre as mudanças climáticas e seus efeitos. Como acontece com qualquer assunto, existem opiniões divergentes e pontos de vista radicais. Alguns anunciam o fim do mundo enquanto outros pedem calma e acusam o alarmismo dos primeiros. Há quem espera pela materialização de uma liderança no cenário mundial, alguém dotado de qualidades carismáticas, de autoridade científica e ética suficientes para atrair todos os esforços dispersos no caos que tais mudanças vêm causando. Assim como há quem acredita que a biosfera é um organismo e que a humanidade é o câncer que deu nela.

Não sou cientista. Sou apenas um pai de família assustado com as perspectivas ambientais, que prefere participar do esforço conjunto em manter o planeta em que vivemos, em vez de cruzar os braços esperando que alguém o faça por mim. Sei que pode parecer ingenuidade, mas realmente acredito que a soma de pequenas ações podem fazer diferença. Após ler sobre as afirmações do Paul Kring, diretor da campanha “One Planet Living”, do WWF britânico, me sinto muito menos ingênuo. Aliás, vale a pena ler todas as matérias desta edição especial da BBC.

E eis que surge a questão: como conciliar a atual ordem econômica mundial com as mudanças necessárias? Se alguém tiver a resposta, deixe um comentário em letra de forma.

Para sobreviver, as empresas necessitam vender sempre e mais. Há uma guerra para descobrir novas necessidades e transformá-las em produtos, que logo serão substituídos por modelos mais inovativos, criando um ciclo vicioso e perigoso do qual não conseguimos escapar. Somos consumidores. Jamais acessei o Orkut e talvez só por isso ele não me faz falta. Mas já não sei viver sem internet, fax e celular. Tenho procurado consumir alimentos de estação produzidos localmente, pois sei que isso incentiva os agricultores locais, reduz quilômetros de transportes e poluição e ainda mantém o cinturão verde em torno da cidade. Mas é impossível agir assim com tudo. O que fazer?

As empresas não sobreviverão ao planeta, assim como é utópico projetar um mundo sem empresas. Pelo menos por mais um bocado de anos. A saída é conciliar as duas partes e buscar alternativas que reduzam o impacto do atual processo industrial. Como? Bom, a idéia das pequenas ações pode ser ampliada. Ou melhorada. O consumo responsável penaliza quem polui ou não respeita o meio-ambiente. Mas é preciso que o consumidor faça a sua parte. E o consumidor somos nós. Temos o hábito de não ler etiquetas e de dar pouca importância aos certificados de manejo sustentável dos produtos que consumimos. Exigimos das empresas responsabilidade social mas nos esquecemos de verificar como agem as empresas que produzem o pão-nosso de cada dia. Pois bem, a responsabilidade social é nossa, também. Ou as nossas exigências perdem valor. Se nos empenharmos, podemos criar as condições necessárias para uma verdadeira revolução do sistema produtivo que chamamos “modelo econômico”.

Só para citar um exemplo de que não vale a pena esperar pelo tal líder carismático, um cidadão italiano escreveu uma carta com uma sugestão ao seu deputado, após ler uma reportagem. Como a idéia não era das piores, a sugestão acabou virando lei, em 2006, e o resultado é que a partir de 2010 os sacos de compras dos supermercados italianos não poderão usar o polietileno como matéria-prima, mas deverão ser produzidos com material biodegradável a partir do milho. Outros países europeus já estão adotando a proposta. Consumidor e revolucionário.

Estou doido para começar a ler coisas mais amenas sobre o futuro da Terra.


* Publicado contemporaneamente no Faça a Sua Parte

Wednesday, January 31, 2007

Ficha Técnica

Nome: Allan (a pronúncia é állan, allan, Allan);

Idade: trinta e uns (na realidade, alguns);

Nascimento: Sim;

Residência: Piacenza, Itália;

Signo: Sagitário e porco. Mas também tem uma árvore , no horóscopo escocês, irlandês ou sei de onde, mas que não faz diferença por que eu não dou bola para essas coisas;

Times: Flamengo, no Rio; Vitória, em Salvador e Milan, na Itália. Nos anos em que morei em São Paulo não torcia para nenhum time paulista por dois motivos: é muito próximo do Rio e dá para acompanhar o campeonato carioca e em Sampa não tem nenhum time rubro-negro;

Vícios: poucos, mas o que eu mais gosto é de fumar um bom charuto; caminhar silenciosamente na neblina e rir com os sustos alheios;

Cerveja: Weisteiner, mas hoje, que amanhã é outro dia;

Vinhos: Brunello di Montalcino ou um bom Barolo, como tintos; Verdicchio;

Novas paixões: Luiza e Bianca; Roma (a cidade);

Boas lembranças: Portela; a casquinha de siri do Fiorentina, no Leme; os biscoitos de cuspe Globo com mate gelado no Posto 5; fogareiro Jacaré; madrugadas aquecidas no bar Óbvio, em Sampa; um LP de missa luba; a Baía de Todos os Santos vista do Lacerda;

Longas paixões: Eloá; água de coco ( para não deixá-la sozinha);

Esportes: judo, box e capoeira, um tempo; caminhar e bicicleta, hoje; chapinhar pedras n’água, sempre;

Pecado capital mais praticado: gula;

Imagem: o falso calmo;

Qualidades: paciência (se é com qualidade, uma basta);

Defeitos: de quanto tempo você dispõe?

Prato preferido: não tenho pratos preferidos, mas fiquei com vontade do spaghetti alio, olio e peperoncino da Eloá; churrasco; quem sabe uma feijoada

Doces: os que eu faço (quem for ao Embu, prove o strudel do Cláudio. Fomos sócios por alguns anos); os que a Eloá faz; os que eu encontrar; chocolate; torrone;

Aversão: perfumes e odores fortes; som alto fora da Avenida 7.

Post scriptum - Frases que se completam:

"A longo prazo estaremos todos mortos." (John Maynard Keynes)

"Todos precisam crer em algo. Creio que vou tomar outra cerveja." (Grouxo Marx)

.