Sunday, December 31, 2006

Crônica de Natal e Ano Novo

Todo ano é a mesma coisa: o frenesi das pessoas em busca do último presente, as ruas lotadas de gente que reclama do aumento dos preços, mas que não abre mão de todos os supérfluos de fim de ano e que briga com a balança, depois. Todos os anos eles me convidam para participar do jantar da véspera de Natal que reúne os funcionários. não participa quem deve viajar para passar o Natal com a família. Este ano resolvi aceitar. Até comprei uma lembrancinha pra dona Anna, a patroa. Cheguei pontualmente às oito e encontrei a mesa arrumada. Foi a primeira vez que não tive que colocar a mesa para comer.

- E , Kalid, se converteu ao cristianismo?

- Ainda não, mas falta pouco. Até aprendi o espírito do Natal de vocês: se empanturrar e torrar o décimo-terceiro com presentes e tvs novas.

- Esse é o verdadeiro espírito de Natal! Mais um pouco e você vai ganhar a cidadania italiana por direito adquirido. falta aprender a beber.

E todos riram e aproveitaram para se divertir com a minha aparente arrogância. Mas conheço o meu lugar. Sou apenas o mulato-pau-pra-toda-obra. Garçon, lava-pratos, responsável pela limpeza do banheiro e por jogar fora o lixo e as garrafas vazias. E o meu salário é o menor de todos, que a patroa me assumiu como aprendiz pra economizar uns trocados. Mais um ano de contrato e ela terá que me contratar como garçon ou me mandar embora. Mas eu suporto. Não tenho pra onde voltar. Vinte e quatro de dezembro é o único dia em que dona Anna vai pra cozinha e faz aquele monte de massas que ela sabe fazer. Salvatore, o gordo, se ocupa das carnes e de todo o resto. Mas dona Anna cozinhou algo especial pra mim e me senti o convidado de honra. Apesar da tradição italiana recomendar uma ceia leve para a véspera de Natal, com peixe e massa, há anos o pessoal resolveu mudar o hábito e fazer um jantar com carne de porco e uma mesa farta, pois é o único momento de confraternização entre os funcionários. E, depois, o restaurante reabre dia dois de janeiro, dando tempo a todos para digerir não a ceia, mas também o almoço do dia vinte e cinco.

- Kalid, você precisa aprender a comer salame, presunto e todas essas iguarias que caracterizam a nossa cultura.

- E abrir mão do carneiro que dona Anna fez especialmente pra mim? Seria uma desfeita.

Passei a noite entre as lembranças provocadas pelo carneiro com hortelã, cuidadosamente preparado pela dona Anna. (Lembrei do Marrocos, da minha infância, da fuga com minha tia num pesqueiro em viagem clandestina rumo à Itália, para não ter o mesmo fim dos meus pais e meu irmão, envolvido com traficantes que cobraram com a vida deles uma dívida.) Ri com as brincadeiras dos outros funcionários, que sempre me usam como alvo. Nem parecem as mesmas pessoas que se irritam e me provocam durante o Ramadã ou que vêm me perturbar quando me tranco no vestiário para as minhas orações. (Com a morte da minha tia ainda durante a viagem, acabei mais sozinho que os cães que vagueiam pelo mercado de Tez, norte do Marrocos.) É humilhante rezar próximo ao banheiro, eu sei, mas é o único lugar onde posso ter um pouco de privacidade e tenho certeza de que Alah não se importa. (Acabei numa comunidade para viciados com problemas mentais, por falta de sistemação melhor. Os padres, por motivos óbvios, preferiram dizer não haverem vagas em uma das tantas escolas ou instituições de caridade. Morei seis meses, até ter o primeiro salário para pagar uma vaga na casa de um egípcio. Foi na comunidade que conheci o irmão do Gordo, sempre com o olhar perdido e que ria com as minhas brincadeiras. Foi o Gordo que me arranjou o emprego no restaurante e agilizou a documentação para a minha permanência na Itália. Ano que vem recebo a cidadania e vou pra Nápoles com o Gordo e a família dele.) Dona Anna, toda sorrisos, fez questão que experimentasse tudo que não houvesse carne de porco e me explicava a história do Natal. Fingi saber pouco da festa para permitir-lhe a satisfação de ensinar-me algo.

Aos poucos, cenas que conheço bem ameaçavam repetir-se, com o Gordo que entornava um copo de vinho atrás do outro e as brincadeiras ficavam mais pesadas. Fisicamente mais pesadas. Antes da meia-noite, quando todos ainda estavam comendo panetone e tomando licor, resolvi ir embora, ou iria acabar dentro do container de lixo, outra vez.

A festa ocidental que mais gosto é o Ano Novo, pelo espírito de renovação e esperança que envolve as pessoas. Ao contrário do Natal, não precisa de dinheiro para presentes ou ceias fartas e todo mundo pode comemorar. Basta esperar os fogos de artifício e os sinos das igrejas e levantar as mãos para o alto, desejando feliz ano novo a todos. Mas este ano vou passar a festa no hospital. É o mínimo que posso fazer. Todos no restaurante estão hospitalizados, intoxicados por uma contaminação da carne de porco da ceia de Natal. O Gordo está em coma e ninguém sabe se irá se salvar. Passo o dia num vai e vem entre o hospital e as casas dos funcionários e da dona Anna, pois sou o único a quem todos confiam para ir pegar a tv, limpar as casas ou trazer cigarros escondidos. E levar o filho do Gordo ao parque para permitir à mulher dele relaxar um pouco. Sempre o mesmo mulato-pau-pra-toda-obra. E rezo. Rezo muito para que todos melhorem e possam cumprir todos os sonhos de Ano Novo que tiveram. Rezo no meio do restaurante sobre um tapete que levei.

Esta noite, quando os sinos das igrejas tocarem, vou levantar os braços e desejar feliz ano novo a todos. E vou sonhar com Nápoles.

.

Monday, December 25, 2006

Boas Festas!


















Wednesday, December 20, 2006

A Formiga

Dona Dina é a vizinha simpática de oitenta e quatro anos. Morava no quinto andar com a família de um das filhas até que a neta cresceu e virou uma mocinha (sim, na Itália ainda existem mocinhas). Veio morar no primeiro andar, num dos seus muitos apartamentos vazios e a primeira coisa que fez foi elogiar o comportamento das nossas meninas. “Não se ouve um ruído. Parece que não mora ninguém ao lado.” Agradeci e fingi não saber que ela nunca lembra de ligar o aparelho auditivo.

Às cinco da manhã ela está de , passando aspirador, fazendo a massa que a neta irá almoçar, selecionando roupa velha para a caridade ou lavando as garrafas vazias que usará quando engarrafar o vinho. Vez ou outra nos traz frutas da casa de campo e recomenda de não jogar fora os pratinhos plásticos que ela reutilizará. Não joga nada fora. Como o elevador vai até o térreo, vira e mexe tá dona Dina subindo ou descendo a escada que leva ao porão com sacos e caixas de coisas que serão reaproveitadas. Jamais teve carro. Usa sempre o ônibus quando deve sair do bairro ou ir à casa de campo, apesar de ser a proprietária de meio quarteirão, o que significa que tem tanto dinheiro que nem sabe. Foi ela quem perguntou quantas horas são de carro até o Brasil. Foi difícil segurar o riso diante da cara de medo que ela fez quando explicamos que precisa pegar avião e que nãopara ir de carro.

Dona Dina é uma pessoa simples, acostumada a fazer tudo com as mãos e a não esperar por ninguém. Desde cedo aprendeu o valor das coisas e procura reaproveitar tudo o que puder ser reaproveitado. Certa vez a ouvi dizer: “ quem sobreviveu a uma guerra sabe o valor das coisas.” Dona Dina sobreviveu à segunda guerra.

.

Friday, December 15, 2006