Todos os anos, a partir de setembro, acontece a guerra dos calendários na Itália. As moças e menos moças que fizeram sucesso na tv durante o ano passam parte do verão em alguma praia, acompanhadas de fotógrafo, equipe de produção e pouca ou nenhuma roupa, em busca da foto perfeita. Em seguida começa a batalha para divulgar o trabalho e conquistar a preferência nas paredes de oficinas, borracharias e repúblicas de estudantes. Quer dizer, para conquistar um segundo lugar de honra, por que o campeão histórico e imbatível é o calendário Dele – assim, em maiúsculo.
Mussolini foi o “Pai dos pobres” da Itália. As suas decisões mudaram não apenas o rumo político do país, como também se entranharam nas recentes tradições culturais desse povo voraz por novidades e pizzas. O efeito da proibição de usar termos estrangeiros, porém, é algo que põe em dificuldades turistas incautos e imigrantes desavisados (é a primeira vez que uso “incautos” e “desavisados” assim tão próximos). Se, por um lado, o italiano adota termos ingleses numa velocidade impressionante, por outro lado não consegue se desvencilhar dos equívocos cometidos no passado e continua a repeti-los. Buyer, computer, know how e devolution são palavras que pertencem ao vocabulário cotidiano e podem ser encontradas em dicionários da língua italiana, numa demonstração de que a língua vive e se transforma.
A língua que surgirá será diferente do inglês e do italiano de hoje. Apesar de usar com frequência palavras em inglês, o alfabeto continua sendo o italiano. Assim, know how soa noáu, ignorando solenemente a pronúncia inglesa do H. Hollywood é ólivúd, porque o W em italiano é um duplo V. E assim por diante. O fato do alfabeto italiano não conter as letras J, K, W, X e Y, torna tudo mais complicado.
Esse mesmo povo jura que foi Carlo Marx a escrever “O Capital” e conta com a simpatia da rainha da Inglaterra, que se diverte em ser chamada de Elisabetta, em ser casada com o príncipe Filippo e mãe do Carlo, quando na Itália. Mas se chatearam quando falei pela primeira vez sobre Nero ou Colombo, que na realidade se chamavam Nerone e Cristoforo. Só não consegui convencê-los de que Oscar (o “mão-santa” do basquete) não se chama Óscar. E tive que fingir entender quando minha amiga me falava sobre internet e disse-me que pesquisava algo no gógle e que eu lhe mandasse um e-mail ao seu endereço no iáo. Levei o mesmo tempo para entender que você.
Poderia escrever uma carta somente sobre a música, mas decidi poupar papel e tinta e evitar polêmicas. Pegue o cd ou o vinil do Chico Buarque e leia os créditos da música “Minha História”. Você vai descobrir que os autores são, na realidade, Lúcio Dalla e Mogol. Provavelmente você jamais terá ouvido a versão original e ficará pensativo sobre o fato de ter escutado tanta música italiana no rádio e só ter ouvido “Gesú Bambino” na versão do Chico (que eu prefiro). A diferença é que na Itália muitas músicas que fizeram sucesso em todo o mundo jamais foram tocadas nas versões originais, mas somente nas versões italianas. “Hotel California” e “Rain drops keep falling on my head” em versão italiana são de matar. Do mesmo modo, no cinema todos os filmes são dublados.
Assim, se você vive na Itália ou estuda a cultura ou a língua italiana, pode ir aprendendo outro hábito desse povo alegre e despreocupado: o de botar a culpa em alguém e resolver o problema. Quando tiver dificuldade em entender o inglês macarrônico deles ou se assustar com a mania de italianizar o nome de pessoas ainda vivas, pense apenas “a culpa é do Benito”. E vá em frente.
.