Saturday, October 14, 2006

Música De Qualidade No Rio

Revista do Samba no Rio - Teatro Rival BR - por Beto Feitosa

Estréia carioca do trio r e v i s t a do samba
Teatro Rival Petrobras
16 de
outubro de 2006
19:30
horas - entrada franca

Grupo fará sua primeira apresentação no Rio de Janeiro no dia 16 de outubro depois de realizar extensa pesquisa no Bixiga, berço do samba de São Paulo

O trio R e v i s t a do samba, formado pelo paulista Beto Bianchi (violão e voz), a mineira Letícia Coura (voz e cavaquinho) e o carioca Vítor da Trindade (percussão e voz), fará sua primeira apresentação no Rio de Janeiro, no dia 16 de outubro, segunda-feira, às 19:30, no Teatro Rival Petrobras. O grupo levará para o palco músicas do seu último CD, "r e v i s t a bixiga oficina do samba", lançado pela Atração Fonográfica/Cachuera!, com sambas criados e cantados no tradicional bairro paulista, que integra o Teatro Oficina, na sua invenção de um novo musical brasileiro; os ensaios da Escola de Samba Vai Vai e a boemia de suas cantinas, bares e casas noturnas, representando o encontro da criação nas ruas.

A parte do show dedicada ao último CD trará sambas de compositores tradicionais do samba paulista, criadas e cantados no Bixiga, como Adoniran Barbosa (Um Samba no Bixiga) e Paulo Vanzolini (Praça Clóvis), de integrantes da ala de compositores da Escola de Samba Vai Vai, como Fernando Penteado (Chão do Bixiga), Geraldo Filme (Vá cuidar de sua vida) e Osvaldinho da Cuíca (Frigideira e Hino da Velha Guarda Vai Vai), até compositores que criaram canções para peças do Teatro Oficina, há quase cinqüenta anos no bairro, como Péricles Cavalcanti (O amor é filho do tempo), o pernambucano Edgar Ferreira (Para ver a luz do sol) e Celso Martinez Corrêa (Nada), diretor do teatro.

Nesta estréia carioca, o trio apresentará também canções de seus dois primeiros CDs: "r e v i s t a do samba", lançado pela Rob Digital, em 2003, e "outras bossas", gravado e lançado na Alemanha pela Traumton Records, ainda inédito no Brasil. O repertório foi escolhido entre as músicas mais cantadas nas tardes e noites de apresentação do grupo pela capital paulista e interior do estado e posteriores apresentações em diversos festivais da Europa e outros países. Ao lado dos sambas paulistas serão apresentadas composições de Assis ValentePor causa de você, Yoyô, sucesso de 1937 na voz de Carmem Miranda, Monsueto Meneses - Ziriguidum, Ataulfo Alves – Leva meu samba, Kéti – A voz do morro, Donga e Mauro de Almeida – Pelo Telefone e outros clássicos, além de composições próprias como A Chuva e Lua Cheia, de Letícia Coura, e Esperança, parceria com Beto Bianchi.

Para este show o revista do samba contará ainda com as participações das cantoras e atrizes Mariana de Moraes, Adriana Capparelli e Camila Mota, que participaram com Letícia Coura da montagem do épico Os Sertões do Teatro Oficina de São Paulo, além de convidadas especiais do trio para o projeto revista bixiga oficina do samba.

O projeto r e v i s t a bixiga oficina do samba

O projeto, patrocinado pela Petrobras, foi desenvolvido durante todo o ano de 2005 e início de 2006. Neste período foi realizada pesquisa de repertório pelo samba do Bixiga, e foi ampliado o Movimento Bixigão, com a realização de oficinas de canto, percussão, cordas e piano, além das existentes de capoeira, teat(r)o e circo.

Através da memória de moradores e freqüentadores do bairro, arquivos e discografias pessoais, de informações obtidas no Museu do Bixiga, na Escola de Samba Vai Vai e com o Teatro Oficina, o trio descobriu o Samba do Bixiga.

O repertório do cd

Entre as mais de 60 composições pré-selecionadas, o trio escolheu 22 que propiciam um passeio por sambas ligados ao Bixiga. Estão presentes desde canções de compositores que nasceram no bairro, como o violonista Antônio Rago e o zoólogo Paulo Vanzolini, e de um que não nasceu nem morou, mas que hoje é nome de rua, tradutor e criador do espírito do Bixiga da imigração italiana, Adoniran Barbosa; de sambistas ligados à Vai Vai como Henricão, autor do primeiro samba para o cordão Vai Vai (antes de se tornar escola); Geraldo Filme, compositor de sambas-enredo para a escola e do que se transformou no Hino da Vai Vai, Vai no Bixiga pra ver; Osvaldinho da Cuíca, músico pesquisador do samba paulista, autor do Hino da Velha Guarda; Seu Maninho da Cuíca, ritmista da escola e hoje integrante do Teatro Popular Solano Trindade, no Embu das Artes; até Fernando Penteado, presidente da ala dos compositores da Escola de Samba Vai Vai, ele mesmo neto de Fredericão, um dos fundadores da escola.

Entre as canções compostas para as diversas peças montadas pelo Oficina ao longo de meio século de teatro no bairro, foram selecionados sambas de compositores que, em diferentes épocas, firmaram parcerias sólidas com o teatro, como Miguel Wisnik (desde a montagem de As Boas, de Jean Genet em 1991), Péricles Cavalcanti (parceiro desde a criação de Ham-Let em 1993), Edgar Ferreira (autor de canções para O Rei da Vela de Oswald de Andrade e presença marcante no Oficina com o Forró do Avanço na década de 80) e do próprio Celso, fundador e diretor do teatro.

Estréia carioca do trio r e v i s t a do samba
Teatro Rival Petrobras
16 de
outubro de 2006
19:30
horas - entrada franca

www.revistadosamba.com.br

Wednesday, October 11, 2006

Que Droga!

As autoridades italianas censuraram nesta terça-feira, 10 de outubro, uma matéria que iria ao ar no programa “As Hienas”. O jornal satírico, um formato comprado da Argentina, havia testado o suor de cinquenta parlamentares com um kit anti-droga. O resultado mostraria, de forma anônima, que um terço dos parlamentares italianos faz uso de substâncias dopantes.

Como a equipe de jornalistas usou de subterfúgio para a coleta das amostras, fazendo-se passar por uma equipe de tv a cabo, em que uma falsa maquiadora se incumbia de recolher o material com a desculpa de enxugar a testa dos políticos, o Curador da Privacidade vetou a matéria.

O circo está armado. Há quem defenda a liberdade de imprensa, quem condene a forma como os dados foram levantados e quem se dispõe a assinar uma autorização liberando a matéria, que, repito, seria divulgada sem informar nomes dos envolvidos, no mais completo anonimato.

Enquanto discutem a liberdade de imprensa, o direito à privacidade e os métodos da investigação jornalística, deixam de lado a questão fundamental: um terço dos parlamentares italianos se droga.

Ah, eu tô maluco!

Friday, October 06, 2006

Piacenza

Era o ano de 218 a.C. O exército romano gozava de boa saúde e expandia as fronteiras do próprio império. Os generais, especialistas em estratégia militar e acostumados a antecipar e prevenir, decidiram montar um acampamento avançado que servisse como base para o Norte. Escolheram um ponto às margens do rio Po. Região de clima inóspito, húmida e quente no verão; húmida e gelada no inverno. O ar abafado pela falta de vento, os insetos, as frequentes enchentes do rio, neve, neblina e uma vasta planície que impedia esconder grandes tropas, completavam a certeza de que aquele seria o local inadequado à nova empresa. Mas os generais romanos foram em frente e montaram a base militar ali mesmo. Poucas pessoas habitavam no lugar, não mais que duas dúzias de casebres espalhados numa área de cinquenta, sessenta mil metros quadrados. Ninguém com menos de sessenta anos, os únicos a não provocar reações hostis aos diversos soldados, saqueadores e conquistadores que atravessavam a região. Num rasgo de sarcasmo, batizaram o acampamento romano com o nome de Placentia, a queprazer. O tempo se incumbiu de lhe alterar o nome até o atual Piacenza.

Moramos na principal avenida do centro. Os prédios têm sempre cor de poeira: ocre, cimento ou tijolo à vista, mas a triste fachada dos imóveis esconde jardins e pátios internos de encher os olhos. A vinte metros de casa, na esquina com a Corso Vittorio Emanuelle II (a mais chique entre as ruas do centro) a pizzaria Mare Chiaro, a mais antiga da cidade. Virando à esquerda na Corso, a poucos metros da primeira, existem outras duas que vendem pizzas em fatias, que abrem às seis e meia da noite e fecham às duas, sete horas e meia depois, o máximo de horário continuado que um trabalhador italiano pode fazer. Num raio de duzentos metros são seis sorveterias, vinte cafés, quatro restaurantes, sete cinemas, cinco teatros e sete livrarias. Na via Giuseppe Verdi, a rua de trás e a poucos metros do Teatro Municipal, a Antica Osteria del Teatro, um dos cinco melhores restaurantes italianos.

O hábito de comer carne de cavalo, comum na França, também foi adotado por aqui. Os açougues de carne equina são dos poucos que sobrevivem à pressão dos supermercados, mas não conseguem nos seduzir. o costume da bicicleta, principalmente no centro histórico, contagiou-nos à primeira experiência.

Nomes como o próprio Verdi, Napoleão, Maria da Áustria, o temível Aníbal e tantos outros que por aqui passaram são os responsáveis pelo dialeto local, afrancesado e incompreensível, como às vezes incompreensível é a alma dessa gente desconfiada e reservada. Provinciano, o piacentino precisa sair e conquistar algo fora para perder o ar caipira que o antigo acampamento romano imprime nos seus moradores. esse nativo arredio ganha ares de homem do mundo, como bem demonstra o famoso e simpático filho da terra Armani.

Salames, queijos e vinhos locais são de qualidade e delicados. Os pratos típicos, também. E tendem para o doce como os tortelli di zucca, com abóbora, ou pisarei e faso’, uma massa com feijão. Mas a posição geográfica da cidade, entre Parma e Milano, a uma hora de Bologna ou Genova, se incumbiu de difundir outros hábitos. Ao menos os culinários.

Shows; feiras; jogos no estádio aos sábados, que o Piacenza está na segunda divisão do campeonato de futebol; jogos no ginásio aos domingos, que o Piacenza está na primeira divisão do campeonato de volei; concertos; sagras diversas; piscinas; eventos ao ar livre e iniciativas várias. Tudo para tirar essa gente com mais de quarenta anos de dentro de casa e permitir a circulação do ar, reduzir o consumo de eletricidade e dos produtos anunciados pela televisão. E eles vão. Desde que haja a perspectiva de uma pizza ou algo paracolocar entre os dentes”. De preferência, acompanhado por um bom copo do Gutturnio frisante produzido na região.

Acompanhamos a boiada nessa incessante caminhada, aonde quer que ela vá. Retribuímos os olhares desconfiados com sorrisos e acenos de cabeça e fingimos não notar os elogios. Somos gente do mundo. Mesmo sem entender uma palavra do dialeto local, nossos amigos são piacentinos. Mas são, também, brasileiros, africanos e de tantos outros lugares. Outras culturas. Somos gente desse mundo. Placentia, a queprazer.

Ciao.