Wednesday, October 11, 2006

Que Droga!

As autoridades italianas censuraram nesta terça-feira, 10 de outubro, uma matéria que iria ao ar no programa “As Hienas”. O jornal satírico, um formato comprado da Argentina, havia testado o suor de cinquenta parlamentares com um kit anti-droga. O resultado mostraria, de forma anônima, que um terço dos parlamentares italianos faz uso de substâncias dopantes.

Como a equipe de jornalistas usou de subterfúgio para a coleta das amostras, fazendo-se passar por uma equipe de tv a cabo, em que uma falsa maquiadora se incumbia de recolher o material com a desculpa de enxugar a testa dos políticos, o Curador da Privacidade vetou a matéria.

O circo está armado. Há quem defenda a liberdade de imprensa, quem condene a forma como os dados foram levantados e quem se dispõe a assinar uma autorização liberando a matéria, que, repito, seria divulgada sem informar nomes dos envolvidos, no mais completo anonimato.

Enquanto discutem a liberdade de imprensa, o direito à privacidade e os métodos da investigação jornalística, deixam de lado a questão fundamental: um terço dos parlamentares italianos se droga.

Ah, eu tô maluco!

Friday, October 06, 2006

Piacenza

Era o ano de 218 a.C. O exército romano gozava de boa saúde e expandia as fronteiras do próprio império. Os generais, especialistas em estratégia militar e acostumados a antecipar e prevenir, decidiram montar um acampamento avançado que servisse como base para o Norte. Escolheram um ponto às margens do rio Po. Região de clima inóspito, húmida e quente no verão; húmida e gelada no inverno. O ar abafado pela falta de vento, os insetos, as frequentes enchentes do rio, neve, neblina e uma vasta planície que impedia esconder grandes tropas, completavam a certeza de que aquele seria o local inadequado à nova empresa. Mas os generais romanos foram em frente e montaram a base militar ali mesmo. Poucas pessoas habitavam no lugar, não mais que duas dúzias de casebres espalhados numa área de cinquenta, sessenta mil metros quadrados. Ninguém com menos de sessenta anos, os únicos a não provocar reações hostis aos diversos soldados, saqueadores e conquistadores que atravessavam a região. Num rasgo de sarcasmo, batizaram o acampamento romano com o nome de Placentia, a queprazer. O tempo se incumbiu de lhe alterar o nome até o atual Piacenza.

Moramos na principal avenida do centro. Os prédios têm sempre cor de poeira: ocre, cimento ou tijolo à vista, mas a triste fachada dos imóveis esconde jardins e pátios internos de encher os olhos. A vinte metros de casa, na esquina com a Corso Vittorio Emanuelle II (a mais chique entre as ruas do centro) a pizzaria Mare Chiaro, a mais antiga da cidade. Virando à esquerda na Corso, a poucos metros da primeira, existem outras duas que vendem pizzas em fatias, que abrem às seis e meia da noite e fecham às duas, sete horas e meia depois, o máximo de horário continuado que um trabalhador italiano pode fazer. Num raio de duzentos metros são seis sorveterias, vinte cafés, quatro restaurantes, sete cinemas, cinco teatros e sete livrarias. Na via Giuseppe Verdi, a rua de trás e a poucos metros do Teatro Municipal, a Antica Osteria del Teatro, um dos cinco melhores restaurantes italianos.

O hábito de comer carne de cavalo, comum na França, também foi adotado por aqui. Os açougues de carne equina são dos poucos que sobrevivem à pressão dos supermercados, mas não conseguem nos seduzir. o costume da bicicleta, principalmente no centro histórico, contagiou-nos à primeira experiência.

Nomes como o próprio Verdi, Napoleão, Maria da Áustria, o temível Aníbal e tantos outros que por aqui passaram são os responsáveis pelo dialeto local, afrancesado e incompreensível, como às vezes incompreensível é a alma dessa gente desconfiada e reservada. Provinciano, o piacentino precisa sair e conquistar algo fora para perder o ar caipira que o antigo acampamento romano imprime nos seus moradores. esse nativo arredio ganha ares de homem do mundo, como bem demonstra o famoso e simpático filho da terra Armani.

Salames, queijos e vinhos locais são de qualidade e delicados. Os pratos típicos, também. E tendem para o doce como os tortelli di zucca, com abóbora, ou pisarei e faso’, uma massa com feijão. Mas a posição geográfica da cidade, entre Parma e Milano, a uma hora de Bologna ou Genova, se incumbiu de difundir outros hábitos. Ao menos os culinários.

Shows; feiras; jogos no estádio aos sábados, que o Piacenza está na segunda divisão do campeonato de futebol; jogos no ginásio aos domingos, que o Piacenza está na primeira divisão do campeonato de volei; concertos; sagras diversas; piscinas; eventos ao ar livre e iniciativas várias. Tudo para tirar essa gente com mais de quarenta anos de dentro de casa e permitir a circulação do ar, reduzir o consumo de eletricidade e dos produtos anunciados pela televisão. E eles vão. Desde que haja a perspectiva de uma pizza ou algo paracolocar entre os dentes”. De preferência, acompanhado por um bom copo do Gutturnio frisante produzido na região.

Acompanhamos a boiada nessa incessante caminhada, aonde quer que ela vá. Retribuímos os olhares desconfiados com sorrisos e acenos de cabeça e fingimos não notar os elogios. Somos gente do mundo. Mesmo sem entender uma palavra do dialeto local, nossos amigos são piacentinos. Mas são, também, brasileiros, africanos e de tantos outros lugares. Outras culturas. Somos gente desse mundo. Placentia, a queprazer.

Ciao.

Sunday, October 01, 2006

Chocolate



...E os triglicérides que se arranjem!

Wednesday, September 27, 2006

Novas Fronteiras

A blogosfera já foi definida como a democracia da informação, de revolução cultural, de diário pessoal com acesso público e tantos outros títulos. A realidade é que ainda é muito cedo para definir e acredito que nenhuma etiqueta irá colar, pelo simples motivo que ainda há tantos caminhos a serem explorados. Uma coisa é certa, através dos blogs têm-se acesso a um mundo de mundos. Cabe ao leitor selecionar o que lhe interessa, como em um supermercado, e consumir.

A última boa novidade é o pioneirismo a que se dispôs o Alex Castro. Cansado de esperar pelas editoras, decidiu vender o seu livro de contos Onde Perdemos Tudo. A obra, vendida exclusivamente pelo blog Liberal, Libertário, Libertino, não precisa de correio ou dias para a entrega. Melhor: para quem mora no exterior, como eu, está livre de taxas alfandegárias – no caso da Itália os 5 euros de taxa custa mais que o livro.

Após ler o livro e constatar, mais uma vez, que o Alex escreve de forma envolvente e divertida, o que torna impossível largar o livro antes do fim, descobri um excelente contista. O que me deixa impressionado com o fato de ver tantos autores de qualidade duvidosa e mesmo sem qualidade nenhuma, abarrotando as prateleiras das livrarias enquanto o Alex vem sendo esnobado. Sem resenhas. Compre e leia o livro. O Alex merece. E você também.

Saturday, September 23, 2006

Compadres

(Allan)

Despeje uma dose generosa de azeite extra virgem de oliva em um prato raso; polvilhe com sal e deixe descansar alguns minutos. Corte o pão em fatias e use-o para limpar o prato aos poucos. Vinho tinto seco, com alto teor de tanino para contrastar a gordura suave do azeite. Coma na cozinha, sem pressa, jogando conversa fora com alguém interessante.

(Aldo)

Meu caro Allan

Variante: vá aquecendo numa torradeira (sem torrar) cada fatia de pão italiano. Espessura, não menos de 1 centímetro, não mais que 2. Aquecer o pão é um requinte, não apenas para acentuar-lhe o sabor, mas também porque o azeite extra-virgem em pão quente desprende aroma mais intenso. Sobretudo, desculpe, se provindo de um terroir português; azeites são como vinhos, você sabe, carregam qualidades ganhas em climas e solos abençoados.

E, na
falta de companhia interessante e interessada, por que não uma boa leitura? Em qualquer dos casos, quando o pão acabar, talvez um café, ou capuccino bem
canelado, e
depois -- cama. Mas não esqueça de garantir, antes que a idade o surpreenda, pressão arterial 80/120 ou ligeiramente inferior. Do contrário, a receita acaba ficando... bem, sem sal.

A.

(Allan)

Aldo,

O
pão por aqui é feito uma única vez por dia, pela manhã. A vantagem é que se for aquele pão pugliese rotondo, o típico pão italiano encontrado facilmente no Brasil, chega a durar três dias sem se alterar muito. Mas deve estar inteiro, caso contrário deve ser guardado embalado em papel alumínio na geladeira. Por esse motivo o aqueço sempre, mas no forno. O problema é o azeite, que tenho que comprar naquelas feirinhas dos produtores locais, normalmente de agricultura biológica, pois o azeite encontrado por aqui é produzido na Grécia – maior produtor da região – e misturado com vários tipos para formar o blend exigido pelo consumidor, o que nem sempre respeita a qualidade do produto.

Minha insônia me impõe solidão, mas é uma boa desculpa para a leitura. Mas a mesma insônia desaconselha café depois das três da tarde, mesmo capuccino – café com leite, que eu detesto – . Melhor um chá.


E
quanto à pressão, a minha sempre foi de menino e eu aproveito para levar a vida com mais tempero.


Abraços,

Allan

(Aldo)

Allan

Fico
feliz em descobrir que também você aprecia o chá, mas lembro que, para notívagos crônicos, o efeito pode ser igual ao do café. O que, lamento, vai privá-lo sempre do clássico five o'clock tea. Aqui em casa tomamos chá pela manhã, depois de meio papaia para cada um, com fatias de pão (feito em casa) crestado superficialmente em torradeira, fatia por fatia, que depois untamos, eu com azeite, a Virgínia com coalhada seca (feita em casa). Adoçamos uma ou outra fatia, eu com mel de laranjeira empastado e opaco pela exposição ao frio da geladeira em que é guardado; a Virgínia com um toque de geléia de laranja ou maracujá. Em média, o ritual nos toma uma hora entremeada de comentários de política, de nosso cotidiano profissional e de ruminações filosóficas a partir de leituras recentes.


Chá é uma solução e um problema. Chá, vinho do porto e xerez precisam vir da Inglaterra, que nunca produziu nada disso. Mas, remanescentes da era vitoriana, subsistem em Portugal, na Espanha e na Índia firmas importadoras que ensinaram os nativos a selecionar o que há de melhor em matéria dessas beberagens diabólicas, pelas quais sacrificamos alegremente nossas almas no altar da sensualidade. Também pinta
por aqui, de vez em quando, um bom chá cingalês, embora conturbações políticas, parece, atrapalhem o comércio dos ingleses com Sri Lanka. Minha preferência pessoal em matéria de chá não tem pretensões de connaisseur, mas é um tanto seletiva. De manhã, acho que vai melhor um Orange Pekoe, daqueles que, preparados com cuidados cerimoniais, produzem uma infusão avermelhada e límpida. O melhor que chega aqui é da Twinings. Noutros horários, ah, que é que supera um Earl Grey de boa procedência?

Temos comprado o Ahmad (inglês, apesar do nome), uns 20% mais barato, mas o Lipton importado diretamente é superior, não sei se pela qualidade da bergamota que o aromatiza ou se pela qualidade das folhas, ou se por ambos ingredientes.


Em matéria de ingredientes, não preciso mencionar outro, essencial: tempo. Tempo para o preparo paciente, para o cuidado no tempo de infusão, essencial para limitar a nota de tanino. E tempo para breakfast de uma hora. O que aliás me lembra que, por falta de tempo, devo ir ficando por aqui.


Abraço,
A.

P.S. – Ah, e
chá precisa ser a granel. Em saquinhos é melhor do que chá nenhum, mas, sabe, saquinhos de chá, depois de usados, sempre me sugerem camisinhas descartadas. Argh!

P.S. do P.S.
Não pense que pretendo causar-lhe inveja com referência a papaia e pão feito em casa. Alternativamente, compramos pão italiano. O da Famiglia Milano é tão bom quanto o melhor que provamos na Itália. E você, seu hipotenso, tem o privilégio
daqueles gorgonzolas,
parmesães e provolones che te dico io, inventados para acompanhar um bom rotondo. Isto sem falar nas facilidades alfandegárias para importação de chá inglês, vinho francês, destilado alemão e azeite português (Gallo extravirgem é o nosso predileto). Tudo isso deve suavizar-lhe doloridas reminiscências e a divisão irremediável que o exílio abriu na alma de vocês, não é?
O
mi sbaglio?

(Allan)

Aldo,

Nunca prestei muita atenção para o chá meu de cada dia, mas confesso preferi-lo ao café. O problema é que meu dia é muito corrido e chá, como você bem observou, requer tempo. Falta-me a fleuma inglesa e a paciência para apreciar corretamente um bom chá antes do meu charuto. Acabo engolindo o curto café e saio do bar para acender logo o meu dominicano – que os cubanos estão pela hora da morte.

Fui verificar e descobri oito tipos de chás na despensa. As meninas estão consumindo chá de limão, rosa di bosco e camomila. Os meus são Orange Pekoe, Earl Grey e chá verde Lipton, um outro chá verde da Star Tea e o meu preferido: uma lata de Gunpowder Green Tea Twinings. Pois é. Prefiro chá verde.

A duas esquinas de casa há uma loja com incontáveis opções de chás e tisanas do mundo inteiro, onde é possível comprar apenas poucas gramas para provar e encontrar o sabor que mais lhe agrada. não me arrisco naquelas tisanas coloridas para serem comidas no final. Diferentemente do café, prefiro comprar as marcas que conheço e evitar surpresas desagradáveis nas minhas noites insones. Com o café fizemos o contrário. Imprimi uma planilha e demos votos às diversas marcas que experimentamos. O campeão foi o Expresso Illy. Com o chá, vou na certeza.

A Eloá também faz um pão maravilhoso em casa, que fica uma delícia com um pouco de geleia de mandarino – tangerina. Quanto à papaia, eu passo. Devo ser o único brasileiro a não gostar de mamão. E que você tocou no assunto, acabo de lembrar do gorgonzola suave que ela trouxe. Vou ver se encontro uma garrafa de Barbera que estava por aqui.