Saturday, September 16, 2006

Parafraseando O Futebol

Férias: só terminam quando acabam.

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Tuesday, September 05, 2006

Frugal

Despeje uma dose generosa de azeite extra virgem de oliva em um prato raso; polvilhe com sal e deixe descansar alguns minutos. Corte o pão em fatias e use-o para limpar o prato aos poucos. Vinho tinto seco, com alto teor de tanino para contrastar a gordura suave do azeite. Coma na cozinha, sem pressa, jogando conversa fora com alguém interessante.

Sunday, September 03, 2006

Pantera

Eu sou a madeira, trabalho é besteira o negócio é sambar…”

Nós éramos sócios. Aliás, ele era sócio de todo mundo: “Digaê, sócio! Tudo bem?” Era assim que cumprimentava os amigos. Foi num bar da Tijuca que ele me ensinou a cortar cebola em quatro, jogar sal por cima e comer como acompanhamento da cerveja gelada.

No início era mais dos muitos amigos do meu irmão Dawidson. Depois, acabou como agregado, indo morar em casa. Apesar de ter família e casa, nós o adotamos e ele acabou virando o quinto irmão. Nessa época morávamos em São Paulo e passávamos os fins-de-semana em Ilhabela. Às vezes ele recusava o convite, preferindo ficar em Sampa, alegando preguiça. Nessas ocasiões não era raro encontrá-lo, meia hora depois, na fila da balsa: “Mudei de idéia, sócio.” Ele era assim, de momento.

Tempos depois, fui morar no Embu – ou melhor, voltei – e arrumei um sócio de verdade, o amigo Cláudio, que até hoje mantém a tradição do strudel aos domingos, na feira de artesanato. Depois foi ele quem mudou – também voltou – para o Rio, indo morar com a mãe e a irmã. Anos depois ele se casou; eu, no ano seguinte. Quando fui morar em Salvador ele mudou-se para o Sul e perdemos o contato. Ocasionalmente tinha notícias dele através do meu irmão, mas nunca mais o vi. Tentei localizá-lo antes de vir embora para a Itália, mas nos havíamos perdido.

Todo dia primeiro de maio recordo dele e do refrão da música que ele gostava de cantarolar, achando divertido a coincidência da data. Lembro que uma vez chegamos em casa às cinco da manhã e o encontramos sentado na varanda de bermuda e camiseta, fumando. “Aproveitei que é domingo e acordei mais cedo pra ficar mais tempo sem fazer nada”.

Agosto se foi. Mas deixou no ar a questão do porquê perdemos contato com pessoas que nos são caras, que gostaríamos de ter sempre por perto para dividir nossas alegrias e tristezas. Também foi em em um vinte e oito de agosto de dez anos atrás que tive o acidente que me fez entender ser vulnerável e que a vida é breve. Agosto se foi e levou o susto do avião que passou raspando nosso prédio antes de se espatifar pouco mais adiante. E foi nesse mês de agosto que meu irmão finalmente conseguiu localizar a irmã do Pantera e saber dela que ele se foi, seis anos atrás.

Agosto me deixou a certeza de que a proximidade não evita a realidade da vida, mas nos permite de partilhar nossas experiências com quem nos é importante.

Wednesday, August 23, 2006

Pressa De Viver

Casou-se tarde. Quando nasceu o primeiro filho estava à beira dos quarenta, mas continuava com aquela ânsia de viver. Fazia tudo ao mesmo tempo e com pressa, o que deixava as pessoas à sua volta sempre em estado de alerta. Tinha o hábito de tomar chá diversas vezes ao dia e chegou a comprar um pequeno fogareiro que ficava sempre acesso aquecendo uma chaleira com água. Tomava chá, fumava, bebericava um copo de vinho e comia pão e queijo em , tudo ao mesmo tempo enquanto trabalhava na pequena loja de secos e molhados que abrira. Aos poucos, com o progresso do comércio, foi-se especializando até transformar seu negócio em uma loja de calçados. Depois, vieram as pequenas filiais, as viagens constantes, o distanciamento do contato com a clientela e uma vida cada vez mais sem horários. Mal acompanhara o nascimento do segundo filho.

Naquela época usava-se o trem para viajar na pequena e pobre Itália, mas nenhum passageiro reclamava dos seus cigarros. Era um sinal dos tempos. Ele abrira lojas nas cidades litorâneas, mas continuava morando no alto da Toscana. Sentia-se um homem do interior, com valores conservadores. Mesmo assim, construíra sua casa em um ponto de onde se avista o mar. Falava pouco e fumava como um desesperado num tempo em que os cigarros com filtro ainda não existiam.

Nos feriados religiosos fazia questão de estar em casa e reunia toda a família para comemorarem juntos. Foi num almoço de Natal que ele fez a mais assombrosa declaração. A esposa, os dois filhos e noras e os cinco netos não estavam acostumados a ouvi-lo discursando e, de fato, o discurso foi muito curto: “Sou muito orgulhoso de poder ter dado a vocês as oportunidades que eu não tive, de ver meu neto caçula começando a faculdade no mesmo ano em que o mais velho se diploma. se vive uma vez. O que somos hoje não irá se repetir e não teremos jamais a oportunidade de refazer o que deveríamos ter feito. Algumas opções são escolhas nossas; outras, não podemos decidir. Precisamos aceitar a vida como ela é e temos a obrigação de tentarmos ser felizes. Nossa família é composta por estas pessoas com quem dividimos esse almoço sagrado. Ter uma família numerosa é uma bênção. A partir de hoje ninguém mais deverá fingir que não sabe que o caçula desta família é homossexual, assim como ele não deverá mais ficar constrangido de sê-lo. Feliz Natal à nossa família!” Disse isso e se levantou, foi até onde estava sentado o neto petrificado, abraçou-o e disse-lhe: “você é parte importante desta família.” O resto do dia ele passou na imensa sala com vista para o mar, conversando com os filhos e netos, não se importando com o constrangimento dos outros. Tirou o filtro do cigarro dos novos tempos, tocou o peito com a ponta dos dedos e esclareceu que o filtro faz mal. Tomou chá, vinho e comeu fatias de gorgonzola enquanto as mulheres serviam bolos, tortas e panetone.

Com os anos, vieram os problemas. O coração dava sinais de cansaço, a respiração se tornava mais difícil e o envolvimento com os negócios o estressava cada vez mais. Depois da morte da mulher a vida quase o deixou de vez. Foi obrigado a se aposentar e acabou internado. Estava com noventa anos. Os médicos informaram que não havia mais nada a ser feito. A deficiência cardio-respiratória era fatal naquela idade e a melhor coisa era levá-lo para morrer em casa. Ele convocou filhos e netos para informar que queria ser transferido para um asilo, onde gente especializada se ocuparia dele e que preferia não causar transtornos à família. De nada adiantaram os protestos. Fez apenas uma exigência: queria um quarto com uma varanda com vista para o mar.

Todos os dias alguém o visita. Ele convenceu o pessoal do asilo a fazer vista grossa aos cigarros e ao vinho que lhe trazem. Afinal, estava mesmo para morrer. Que fosse ao menos com um pouco de dignidade e prazer. Verão ou inverno, todos os dias às cinco da tarde alguém o leva de cadeira de rodas para a varanda, onde ele recebe suas visitas, fuma seus cigarros com vinho, chá e fatias de gorgonzola. Fala cada vez menos, apenas umas poucas palavras roucas, mas sorri quando chega alguém da família que ele reconhece e trata sempre pelo nome. Dias atrás, um dos bisnetos levou-lhe as fotos do casamento e informou-lhe que o mais novo representante da família está para nascer. Ele sorriu e, com gestos lentos, pegou um cigarro, tirou o filtro, bateu com a ponta dos dedos no peito e balançou a cabeça, antes de acendê-lo. O bisneto concordou: “eu sei: o filtro faz mal, vô.” Ao que ele retrucou sorrindo: “bisavô. Eu sou teu bisavô.”