Thursday, July 13, 2006

Vizinhas

A velhice é aquela fase da vida que todos esperam alcançar, mas que todo mundo reclama quando chega.

A vizinha da porta ao lado é uma senhora muito rica, na faixa dos oitenta anos; daquelas que tomam um copo de suco de de mico todas as manhãs e não sossegam o dia inteiro. Parte da famíliafilha, genro e netas – moram no quinto andar. Muito simpática, perguntou quantas horas de viagem são necessárias entre Piacenza e o Brasil. Ao ouvir “doze horas”, assustou-se e perguntou como as meninas aguentariam passar tanto tempo dentro do carro. Acho que ela andou matando aulas de geografia enquanto estudava como ficar rica.

A vizinha do terceiro andar é a típica vizinha que existe no cinema: pouco mais nova que a primeira, solteira, sem parentes, rica e rabugenta; daquelas que encontram na discussão o único modo de comunicar-se. Fala de tudo e de todos. Lamentou que o elevador funcionava mal; mandaram consertar e ela reclamou que interditaram o elevador para consertar. Encontrei-a chorando por ter que levar as compras escada acima. Prontamente tomei-lhe os sacos do supermercado e levei-os até a porta do apartamento dela. Ela subiu resmungando e me aconselhou a não envelhecer, que a velhice é um castigo… Lembrei a ela que a única alternativa à velhice atrai poucos adeptos.

Esta manhã ela se indignava:

– A gente sabe que o verão chegou quando todo mundo sai de férias. O carteiro não passadez dias.

Monday, July 10, 2006

Piazza Cavalli - Making Off

9 de julho, 25 ºC, 9:00.
A praça não é de ninguém. Ainda.
































9 de julho, 31 ºC, 18:00.
Concentração.





























9 de julho, 30 ºC, 19:50.
Vai começar o jogo.



















9 de julho, 29 ºC, pouco depois das 20:00.
Abola bate na trave e engana a torcida. Gol de Zidane. Mas o empate chega.





















9 de julho, 28 ºC, 21:10.
Começa o segundo tempo. A tensão silencia a praça.
























9 de julho, a tempertura aumenta e vamos pra casa, 22:15.
Estamos na prorrogação, antes da vitória.























10 de julho, 24 º C, 06:50.
A vida continua.























Saturday, July 08, 2006

O Melhor Da Copa



O churrasco na casa do Flávio.

Wednesday, July 05, 2006

Caçando Com O Gato

Terça-feira, 4 de julho.
Onze horas da noite.
Dia de Santo Antonino, padroeiro de Piacenza.
28 graus, pra refrescar o calor sufocante do dia.
Abro a geladeira mas só encontro cerveja sem álcool.
“Acabou”, diz ela.
Me recuso: sem álcool, nem sangue.
As ruas desertas. Eu podia passear nu que ninguém ia ver.
Os bares lotados em silêncio.
Tem jogo de Copa e o Brasil já saiu.
Apesar de feriado, trabalhei feito um cão.
As meninas de férias, a 300 quilômetros daqui.
Entre sair para uma cerveja ou morrer, abro a geladeira de novo.
Descubro aquelas duas garrafas de brinde com a última pizza.
Cerveja com tequila? Prefiro coca-cola.
Mas eu não bebo coca-cola.
Abro a janela e o hálito quente da noite aquece ainda mais a sala.
Nem olho direito o homem nu carregando uma bandeira americana.
“Quer uns tacos?”
Adoro os tacos mexicanos que ela faz.
Fecho a janela e assisto indiferente a prorrogação.
Onze e meia.
Grosso e Del Piero levam a Itália à final.
A cidade explode.
As bandeiras escondidas durante o mundial saem às ruas.
Fora de casa, no centro da cidade, milhões de buzinas sem cessar.
Abro a janela: “Que se dane o calor!”
O americano sumiu.
O inferno é no piso inferior, meu vizinho.
Abro a cerveja. Com tequila, doce e aromatizada.
É.
O nome é adequado.

Sunday, July 02, 2006

Treinamento

Numa das muitas palestras do professor Marins que assisti, lembro de um caso clássico, que ele não cansava de repetir. Vivendo entre os aborígenes da Austrália, chegou a participar de caçadas de emu, um pássaro similar ao avestruz, mas um pouco menor. Contava o antropólogo que na noite anterior a tribo ensaiava o que deveria acontecer com danças e representação, onde não faltava alguém no papel do animal, objetivo da caça. No dia seguinte saíam para o que haviam se preparado e treinado no ritual e ele, ainda não habituado a esse tipo de comportamento, indicava pegadas de outros animais. Os primitivos e decididos anfitriões respondiam-lhe que estavam caçando gnus e que ele não se importasse com outros indícios. O dia terminava como todos já sabiam que terminaria, com os aborígenes levando os emus abatidos para casa.

Para quem não entende de futebol, o técnico Carlos Alberto Parreira é como uma jaca colhida no interior da Bahia: alguns podem apreciar e reverenciar, mas não tem nada a ver com a caçada aos emus do outro lado do mundo. A seleção brasileira acaba de perder para o time da França e, com isso, foi eliminado da Copa do mundo de futebol. E essa é uma oportunidade para aprender algo.

Quando, em 1994, o mesmo técnico sagrou-se campeão com um time que não empolgou, todos criticaram o seu estilo. Até então não se vira uma seleção brasileira tão fora dos próprios padrões, jogando um futebol tão medíocre. Pois ele, abdicando das lições de coesão e espírito de equipe do técnico Luís Felipe Scolari, campeão com o mesmo Brasil no mundial de 2002, acabou cometendo o maior erro de todos: privilegiar as partes em detrimento do todo. Durante um mês treinou um time com as maiores estrelas do futebol obrigando-os a um esquema que valorizava talentos individuais e não o conjunto. Tudo corria na direção certa até enfrentar um time de verdade. Então ele mudou o esquema que havia criado e treinado, para permitir uma maior mobilidade dos jogadores sacrificados. Ora, ele saiu para caçar emus e no meio do caminho resolveu caçar capivaras, sem lembrar que não existem capivaras na Austrália. E muito menos na Alemanha, sede do mundial.

Posso entender que as pressões do patrocinador o tenham obrigado a manter o imenso Ronaldo em campo, apesar de visivelmente fora de forma, mas desconfio das suas boas intenções quando ele decide manter em campo o jogador Kaká, que declarou às tvs italianas estar fora das condições ideais de jogo, ou simplesmente muda o esquema ensaiado ao qual os jogadores foram condicionados. Gostaria de vê-lo treinando o Kwait, a China ou qualquer outra seleção longe do Brasil, assim como jacas e capivaras estão longe da Austrália.

Desde que me entendo por gente sou amante do futebol e não posso admitir o tipo de futebol proposto pelo técnico Parreira. Pelo menos não para a seleção brasileira. Prefiro perder mas jogar um futebol bonito de se ver, pois o futebol é espetáculo tanto quanto o teatro e o cinema. E eu pago para vê-lo: exijo um show à altura dos protagonistas.

Posso desculpar Marcelo Lippi que decidiu manter o jogador Totti em campo, apesar da sua condição inadequada, assim como Scolari está perdoado por levar à Copa um jogador como Figo, próximo à aposentadoria: faltam-lhes alternativas à altura. O que não acontece com um time como o do Brasil.

Agora é aguentar a gozação e torcer por Portugal.
Avante Scolari!

Se você é um dos que realmente não entende nada de futebol, talvez os vídeos abaixo possam esclarecer o que entendo por futebol arte.

Djalminha


Garrincha


Brazil soccer

Friday, June 30, 2006

Sem Tempo

Atum em lata;

Feijão branco (também em lata);

Cebola;

Pimenta do reino;

Limão;

Sal e vinagre;

Azeite extra-virgem de oliva;

Pão;

1 garrafa de Verdicchio ou algumas cervejas.

Corte a cebola em rodelas bem finas; ponha uma panela com água, sal e um pouco de vinagre no fogo. Quando estiver fervendo, adicione toda a cebola, aguarde um minuto e escorra usando uma peneira ou o escorredor de macarrão. Deixe esfriar e misture o atum, o feijão escorrido e tempere com o azeite, o suco de limão e a pimenta do reino. Coma gelado com pão e vinho ou cerveja. E jogue fora as latas.

Thursday, June 22, 2006

Não Adquira os Vícios Locais


Eu sei que ninguém pediu a minha opinião, mas acho que a situação pode ser avaliada sobre outra ótica. Isso não quer dizer que eu possua a solução, é somente o meu ponto de vista. Vejam bem que não estou querendo ser redundante, mesmo concordando com o que a maioria pensa sobre o assunto, mas não posso me eximir evitando me expor. Até porque, cada um é livre de pensar como quiser, portanto ninguém precisa concordar comigo. Eu acho…

– …?

Sobre o que vocês estavam discutindo mesmo? Esqueci…

***

A mania que alguns italianos têm de desculpar-se e justificar-se por antecipação é realmente irritante. Tanto quanto de ser agressivo ao extremo, prerrogativa aparentemente reservada a certos jornalistas e alguns VIP. Nãomeio-termo. Existem aqueles que não conseguem emitir a própria opinião sem agregar umtalvez seja somente o meu ponto de vista…” e existem os que agem como donos da verdade.

Ganhar no grito é um hábito cultural longamente cultivado. Quando faltam argumentos ou paciência, a tendência é gritar. E, se confrontados, costumam alegar que tratam todos de forma idêntica. Quem age assim nem percebe o quanto tal afirmação tem de falso. Ninguém trata o padeiro, a própria mãe, o gerente do banco e o policial que saca o talão de multas da mesma forma.

Uma boa regra é: trate a todos como espera ser tratado. Caso seu interlocutor reaja de modo intempestivo, esclareça que é possível adaptar seu comportamento ao dele. Funciona na maioria das vezes.

A arte de gesticular torna o discurso italiano teatral e algum estrangeiro pode sentir-se agredido, mas comer em uma trattoria de Roma em meio ao caos festivo de gestos, gritos, sorrisos e músicas é uma experiência mágica que entusiasma até o mais sóbrio samurai. Contudo, funciona em Roma.

Cada cultura possui seus próprios tabus, certezas, superstições e padrões de comportamento mais ou menos aceitos pela comunidade, mas não vale a pena deixar de se assustar com o hábito local de assoar o nariz em qualquer lugar, inclusive à mesa.

Adapte-se. Mas sem camaleonismos.

.