A velhice é aquela fase da vidaquetodos esperam alcançar, masquetodomundo reclama quandochega.
A vizinha da porta ao lado é uma senhoramuitorica, na faixa dos oitenta anos; daquelas que tomam umcopo de suco de pó de mico todas as manhãs e não sossegam o diainteiro. Parte da família – filha, genro e netas – moram no quintoandar. Muitosimpática, perguntou quantas horas de viagemsão necessárias entre Piacenza e o Brasil. Ao ouvir “doze horas”, assustou-se e perguntou como as meninas aguentariam passartantotempodentro do carro. Acho queela andou matando aulas de geografiaenquanto estudava comoficarrica.
A vizinha do terceiroandar é a típicavizinhaquesó existe no cinema: poucomaisnovaque a primeira, solteira, semparentes, rica e rabugenta; daquelas que encontram na discussão o únicomodo de comunicar-se. Fala de tudo e de todos. Lamentou que o elevador funcionava mal; mandaram consertar e ela reclamou que interditaram o elevadorparaconsertar. Encontrei-a chorando porterquelevar as comprasescadaacima. Prontamente tomei-lhe os sacos do supermercado e levei-os até a porta do apartamento dela. Ela subiu resmungando e me aconselhou a nãoenvelhecer, que a velhice é umcastigo… Lembrei a elaque a únicaalternativa à velhice atrai poucosadeptos.
Esta manhãela se indignava:
– A gente sabe que o verão chegou quandotodomundo sai de férias. O carteironãopassa há dezdias.
Terça-feira, 4 de julho. Onze horas da noite. Dia de Santo Antonino, padroeiro de Piacenza. 28 graus, pra refrescar o calor sufocante do dia. Abro a geladeira mas só encontro cerveja sem álcool. “Acabou”, diz ela. Me recuso: sem álcool, nem sangue. As ruas desertas. Eu podia passear nu que ninguém ia ver. Os bares lotados em silêncio. Tem jogo de Copa e o Brasil já saiu. Apesar de feriado, trabalhei feito um cão. As meninas de férias, a 300 quilômetros daqui. Entre sair para uma cerveja ou morrer, abro a geladeira de novo. Descubro aquelas duas garrafas de brinde com a última pizza. Cerveja com tequila? Prefiro coca-cola. Mas eu não bebo coca-cola. Abro a janela e o hálito quente da noite aquece ainda mais a sala. Nem olho direito o homem nu carregando uma bandeira americana. “Quer uns tacos?” Adoro os tacos mexicanos que ela faz. Fecho a janela e assisto indiferente a prorrogação. Onze e meia. Grosso e Del Piero levam a Itália à final. A cidade explode. As bandeiras escondidas durante o mundial saem às ruas. Fora de casa, no centro da cidade, milhões de buzinas sem cessar. Abro a janela: “Que se dane o calor!” O americano sumiu. O inferno é no piso inferior, meu vizinho. Abro a cerveja. Com tequila, doce e aromatizada. É. O nome é adequado.
Numa das muitas palestras do professor Marins que assisti, lembro de um caso clássico, que ele não cansava de repetir. Vivendo entre os aborígenes da Austrália, chegou a participar de caçadas de emu, um pássaro similar ao avestruz, mas um pouco menor. Contava o antropólogo que na noite anterior a tribo ensaiava o que deveria acontecer com danças e representação, onde não faltava alguém no papel do animal, objetivo da caça. No dia seguinte saíam para o que haviam se preparado e treinado no ritual e ele, ainda não habituado a esse tipo de comportamento, indicava pegadas de outros animais. Os primitivos e decididos anfitriões respondiam-lhe que estavam caçando gnus e que ele não se importasse com outros indícios. O dia terminava como todos já sabiam que terminaria, com os aborígenes levando os emus abatidos para casa.
Para quem não entende de futebol, o técnico Carlos Alberto Parreira é como uma jaca colhida no interior da Bahia: alguns podem apreciar e reverenciar, mas não tem nada a ver com a caçada aos emus do outro lado do mundo. A seleção brasileira acaba de perder para o time da França e, com isso, foi eliminado da Copa do mundo de futebol. E essa é uma oportunidade para aprender algo.
Quando, em 1994, o mesmo técnico sagrou-se campeão com um time que não empolgou, todos criticaram o seu estilo. Até então não se vira uma seleção brasileira tão fora dos próprios padrões, jogando um futebol tão medíocre. Pois ele, abdicando das lições de coesão e espírito de equipe do técnico Luís Felipe Scolari, campeão com o mesmo Brasil no mundial de 2002, acabou cometendo o maior erro de todos: privilegiar as partes em detrimento do todo. Durante um mês treinou um time com as maiores estrelas do futebol obrigando-os a um esquema que valorizava talentos individuais e não o conjunto. Tudo corria na direção certa até enfrentar um time de verdade. Então ele mudou o esquema que havia criado e treinado, para permitir uma maior mobilidade dos jogadores sacrificados. Ora, ele saiu para caçar emus e no meio do caminho resolveu caçar capivaras, sem lembrar que não existem capivaras na Austrália. E muito menos na Alemanha, sede do mundial.
Posso entender que as pressões do patrocinador o tenham obrigado a manter o imenso Ronaldo em campo, apesar de visivelmente fora de forma, mas desconfio das suas boas intenções quando ele decide manter em campo o jogador Kaká, que declarou às tvs italianas estar fora das condições ideais de jogo, ou simplesmente muda o esquema ensaiado ao qual os jogadores foram condicionados. Gostaria de vê-lo treinando o Kwait, a China ou qualquer outra seleção longe do Brasil, assim como jacas e capivaras estão longe da Austrália.
Desde que me entendo por gente sou amante do futebol e não posso admitir o tipo de futebol proposto pelo técnico Parreira. Pelo menos não para a seleção brasileira. Prefiro perder mas jogar um futebol bonito de se ver, pois o futebol é espetáculo tanto quanto o teatro e o cinema. E eu pago para vê-lo: exijo um show à altura dos protagonistas.
Posso desculpar Marcelo Lippi que decidiu manter o jogador Totti em campo, apesar da sua condição inadequada, assim como Scolari está perdoado por levar à Copa um jogador como Figo, próximo à aposentadoria: faltam-lhes alternativas à altura. O que não acontece com um time como o do Brasil.
Agora é aguentar a gozação e torcer por Portugal.
Avante Scolari!
Se você é um dos que realmente não entende nada de futebol, talvez os vídeos abaixo possam esclarecer o que entendo por futebol arte.
Corte a cebolaemrodelasbem finas; ponha uma panelacomágua, sal e umpouco de vinagre no fogo. Quando estiver fervendo, adicione toda a cebola, aguarde umminuto e escorra usando uma peneiraou o escorredor de macarrão. Deixe esfriar e misture o atum, o feijãoescorrido e tempere com o azeite, o suco de limão e a pimenta do reino. Coma gelado compão e vinhooucerveja. E jogue fora as latas.
– Eu sei queninguém pediu a minhaopinião, mas acho que a situação pode ser avaliada sobreoutraótica. Issonãoquerdizerqueeu possua a solução, é somente o meuponto de vista. Vejam bemquenão estou querendo serredundante, mesmo concordando com o que a maioriapensasobre o assunto, masnão posso meeximir evitando meexpor. Atéporque, cadaum é livre de pensarcomo quiser, portantoninguémprecisaconcordarcomigo. Eusó acho…
– …?
– Sobre o quevocês estavam discutindo mesmo? Esqueci…
***
A maniaquealguns italianos têm de desculpar-se e justificar-se porantecipação é realmente irritante. Tantoquanto de seragressivo ao extremo, prerrogativaaparentementereservada a certosjornalistas e alguns VIP. Não há meio-termo. Existem aquelesquenão conseguem emitir a própriaopiniãosemagregarum “talvez seja somente o meuponto de vista…” e existem os que agem comodonos da verdade.
Ganhar no grito é umhábito cultural longamente cultivado. Quando faltam argumentosoupaciência, a tendência é gritar. E, se confrontados, costumam alegarque tratam todos de formaidêntica. Quem age assimnem percebe o quantotal afirmação tem de falso. Ninguémtrata o padeiro, a própriamãe, o gerente do banco e o policialquesaca o talão de multas da mesmaforma.
Uma boa regra é: trate a todoscomoesperasertratado. Casoseuinterlocutor reaja de modointempestivo, esclareça que é possíveladaptarseucomportamento ao dele. Funciona na maioria das vezes.
A arte de gesticulartorna o discurso italiano teatral e algumestrangeiro pode sentir-se agredido, mascomerem uma trattoria de Roma emmeio ao caosfestivo de gestos, gritos, sorrisos e músicas é uma experiênciamágicaqueentusiasmaaté o maissóbriosamurai. Contudo, só funciona em Roma.
Cadacultura possui seusprópriostabus, certezas, superstições e padrões de comportamentomaisoumenos aceitos pelacomunidade, masnãovale a penadeixar de se assustarcom o hábitolocal de assoar o narizemqualquerlugar, inclusive à mesa.