– Eu sei que ninguém pediu a minha opinião, mas acho que a situação pode ser avaliada sobre outra ótica. Isso não quer dizer que eu possua a solução, é somente o meu ponto de vista. Vejam bem que não estou querendo ser redundante, mesmo concordando com o que a maioria pensa sobre o assunto, mas não posso me eximir evitando me expor. Até porque, cada um é livre de pensar como quiser, portanto ninguém precisa concordar comigo. Eu só acho…
– …?
– Sobre o que vocês estavam discutindo mesmo? Esqueci…
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A mania que alguns italianos têm de desculpar-se e justificar-se por antecipação é realmente irritante. Tanto quanto de ser agressivo ao extremo, prerrogativa aparentemente reservada a certos jornalistas e alguns VIP. Não há meio-termo. Existem aqueles que não conseguem emitir a própria opinião sem agregar um “talvez seja somente o meu ponto de vista…” e existem os que agem como donos da verdade.
Ganhar no grito é um hábito cultural longamente cultivado. Quando faltam argumentos ou paciência, a tendência é gritar. E, se confrontados, costumam alegar que tratam todos de forma idêntica. Quem age assim nem percebe o quanto tal afirmação tem de falso. Ninguém trata o padeiro, a própria mãe, o gerente do banco e o policial que saca o talão de multas da mesma forma.
Uma boa regra é: trate a todos como espera ser tratado. Caso seu interlocutor reaja de modo intempestivo, esclareça que é possível adaptar seu comportamento ao dele. Funciona na maioria das vezes.
A arte de gesticular torna o discurso italiano teatral e algum estrangeiro pode sentir-se agredido, mas comer em uma trattoria de Roma em meio ao caos festivo de gestos, gritos, sorrisos e músicas é uma experiência mágica que entusiasma até o mais sóbrio samurai. Contudo, só funciona em Roma.
Cada cultura possui seus próprios tabus, certezas, superstições e padrões de comportamento mais ou menos aceitos pela comunidade, mas não vale a pena deixar de se assustar com o hábito local de assoar o nariz em qualquer lugar, inclusive à mesa.
Adapte-se. Mas sem camaleonismos.
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