Wednesday, May 24, 2006

Bodas de Prata

Uns trinta, trinta e dois anos atrás eu o ensinei a tocar flauta doce. Ele gostou da experiência e aprendeu a tocar transversa sozinho. As fotos abaixo têm oito anos de intervalo.



Num vai e vem entre Rio e São Paulo – ora ele, ora eu – escrevi-lhe uma carta na qual incluí uma poesia que saía do forno (é, escrevia poesias num outro filme).






Ele tocava violão nessa época e resolveu musicar aquela poesia, há vinte e cinco anos.




Depois, saiu tocando pelos bares. Inclusive no nosso, em Ilhabela.

O mundo girou e ele virou um percussionista de muito respeito. De vez em quando eu assobio aquela música e tomo uma pelo aniversário dele.


Fome na Mesa

(Allan Robert e Vitor da Trindade)


No mais,

tudo na mesma.

Tudo na mesa

em que o mundo devora

a demora da espera.

Espero que venha

a lenha pro fogo

que logo se apaga.

E se apega a Deus

que logo se cansa.

E morre a esperança

de um dia ter mesa.




Wednesday, May 17, 2006

Pontualidade Italiana

Doutor Rossi, o senhor Bruni acabou de chegar.

? Mas ainda faltam quinze minutos para o horário marcado. Faça-o aguardar. Não podemos dar a impressão de que estamos ansiosos ou à sua disposição. Afinal, esta é uma grande empresa e estamos sempre muito ocupados.

– Acomodei ele na sala de reunião

– Oferece um café, uma água… E avisa que estou terminando de atender uma pessoa.

Ele serviu-se sozinho na máquina de café e recusou a água.

– Vai e avisa que estou terminando de atender uma pessoa.

– Desculpe! Quando ele chegou a porta do seu escritório estava aberta e o Sr. Bruni o viu sozinho, diante do computador

– Diga que é uma vídeo conferência

– …Com o joy stick na mão.

Saturday, May 06, 2006

Eu Que Fiz

Sabe aquele orgulho bobo de ter feito algo com as próprias mãos, mesmo quando o preço, o esforço e a qualidade não compensam? Pois o italiano de hoje perdeu esse tipo de vaidade. O tempo, esse ser abstrato cada vez mais escasso, vem sendo utilizado para coisas essenciais, como o trabalho necessário e o lazer irrenunciável. Tudo o que puder ser feito com economia de tempo terá preferência sobre tradições e tarefas complicadas.

Na véspera de Natal toda a família estará envolvida na produção do tortelli de família, na escolha do vinho produzido por alguém de confiança (que tem sempre um produtor de confiança por perto), na decoração da mesa para o tradicional almoço do dia 25 e nas diversas sobremesas, que esticarão o almoço até às seis, oito da noite. Fora isso, não espere encontrar ninguém com menos de sessenta anos preparando a massa caseira de todo dia. Para comer um pratocomo se fazia antigamente”, o italiano visita a sogra, a tia, a mãe ou a avó, nos finais de semana. Depois, volta para casa lamentando-se da falta de tempo para cozinhar nessa vida moderna, vai ao estádio torcer pelo seu time, sai para comer uma pizza à noite para não perder tempo e termina em uma discoteca ou num bar. Na segunda-feira vai ao supermercado e enche o carrinho com massas e pratos prontos.

Mas se você quer experimentar o prazer de fazer um prato com as próprias mãos para impressionar seus convidados, aqui vai uma receita clássica:

Cannelloni con ricotta e spinaci (4 pessoas):

molho:

1 kg de tomates bem maduros;

Azeite;

1 cebola grande;

1 dente de alho;

1 pitada de pimenta do reino;

1 pitada de açucar;

1 pitada de sal.

Tire a pele e as sementes dos tomates; Em uma frigideira grande, ponha um fio de azeite e a cebola batidinha; junte o alho amassado quando a cebola estiver dourada, espere fritar e junte os tomates, o sal e a pimenta do reino. Abaixe o fogo e deixe cozinhar lentamente. Corrija a acidez do tomate com uma pitada de açucar. Reserve.

molho:

200 gr de manteiga;

3 colheres de sopa de farinha de trigo;

2 copos de leite morno;

Sal;

Noz-moscada.

Em uma panela baixa, ou noutra frigideira, menor que a do molho de tomate, ponha a manteiga e a farinha juntos. Com o fogo baixo, vá mexendo com uma colher de pau. Quando a manteiga enxugar e a farinha começar a dourar, vá adicionando o leite. Não pare de mexer. Antes (grife o “antes”) que o molho engrosse, coloque o sal, a noz-moscada e apague o fogo. Reserve. Ligue para seus convidados e informe que você não terá tempo para achar um vinho branco de qualidade. Após eles se oferecerem para comprá-lo, sugira um Pinot Grigio ou um Verdicchio e informe que você não suporta vinho branco alemão.

Recheio:

1 kg de espinafre;

300 gr de ricota;

2 colheres de manteiga;

1 ovo inteiro e 1 clara em neve;

4 colheres de Parmigiano Reggiano ralado;

Sal.

Corte e jogue fora as raízes do espinafre, lave as folhas e talos diversas vezes. Certifique-se de que toda a terra foi eliminada. Cozinhe com água e sal, deixe esfriar e corte bem fino. Em uma frigideira anti-aderente – onde você arranjou tanta frigideira assim? – coloque a manteiga e o espinafre; deixe reduzir e enxugar, mexendo de vez em quando. Passe o espinafre para uma tigela, junte a ricota amassada, o sal, o queijo ralado e o ovo cru. Misture bem, prove e corrija o sal. Reserve. A clara em neve será usada na montagem do prato.

Massa:

400 gr de farinha de trigo;

2 ovos;

2 colheres de água.

Disponha a farinha formando um pequeno vulcão sobre a mesa, coloque os ovos e a água no meio. Comece misturando com as pontas dos dedos até ganhar consistência, amasse bem para obter uma massa lisa. Abra com o rolo de macarrão (na falta do rolo, use a garrafa vazia do vinho branco alemão você tomou), deixando-a fina e compacta. Corte em quadrados de 10 ou 12 centímetros. Cozinhe em água com sal e um fio de azeite para não grudar, deixando-a ligeiramente crua. Forre a mesa com uma toalha limpa, separe os quadrados de massa deixando-os lado a lado; ajeite o recheio na extremidade da massa; use a toalha para enrolar e formar o cannelloni e aproveite a clara em neve para fechar as pontas. Suma com a garrafa vazia de vinho branco alemão.

Forre o fundo de uma assadeira com manteiga, um pouco do molho de tomate e queijo ralado. Coloque o cannelloni e cubra com o molho de tomate. Espere assentar e cubra com o molho branco. Uma boa dose de queijo ralado deve cobrir todo o prato, antes de levá-lo ao forno pré-aquecido em fogo médio. Quando formar uma pequena crosta dourada, o prato estará pronto para servir.

Quando os seus convidados chegarem com a garrafa de vinho que eles tiveram a maior dificuldade em encontrar, sorria, informe que o prato deve ser servido quente, espere os elogios e diga: “gostaram? Eu que fiz.” E lembre-se de fazer cara feia quando eles retribuírem o jantar com aquele vinho branco alemão de que você tanto gosta.

Sunday, April 30, 2006

E Ele Foi Falar Com Deus

Caros e Caras,

Paz e saúde!

– Deus, me ajuda…

– Sei… Você vai pedir pra ganhar na loto.

– Mas uma besteirinha já serve. Tô num beco sem saída.

– Você entrou nele por que quis.

– Não! Foi o destino!

– Livre arbítrio, filho. Livre arbítrio.

– Então, é tudo culpa minha? Das minhas escolhas erradas…?

– Poucos tiveram uma segunda chance. E você? O que fez da oportunidade que me pediu? Tem uma vida que mais se parece com aqueles personagens dos romances da Escola Urbana. Nenhuma relação afetiva que dure mais de algumas horas; bebe como um gambá; fuma como um condenado e come o que muitos jogariam no lixo.

– “Será que tudo o que eu gosto é imoral, é ilegal ou engorda?”

– A sua cota comigo esgotou. Arranje-se sozinho e mude de vida. Ou não se lamente, depois.

– Vou mesmo mudar de vida. Se não pagar o aluguel vou acabar debaixo da ponte. Sabe quanto custa um mês de aluguel em Milão?

– Hum… Seria péssimo! Tem gente boa morando lá…

– Tô desesperado! Me ajuda, me ajuda… ME AJUDAAAA!!!

– …E você tem dinheiro pra jogar?

– EU ARRANJO!!! Vou vasculhar cada parquímetro dessa cidade, vendo o isqueiro ou a coleção de vinil…

– O relógio…?

– Não! O relógio, não: é lembrança dos bons tempos.

– Sempre apegado às posses materiais… *ai*

– Não tem que ser uma troca, tem?

– Você não está disposto a mudar, quer apenas mais combustível para alimentar essa sua corrida suicida. Dessa vez vai ter que se virar sozinho: eu estou aqui para salvar as pessoas. Eu vou é querer estar longe, quando a bomba estourar.

– Aô! Vai me abandonar, é?

– Sabe quantas pessoas decentes estão pedindo a minha ajuda, neste momento?

– Eu sou indecente, por acaso?

– Faço uma lista com todos os detalhes?

– Uma quadra serve, vai?

– Nem um terno. Aliás, um terno novo até que você tá precisando. Quem sabe você decide ir à luta e se apruma…

– Prometo mudar. Me ajuda só mais essa vez.

– Vai à luta!

– Nadica de nada?

– Dessa vez, não.

– Então mata uma minha curiosidade: gambá bebe tanto assim?

– É só um modo de falar…

– Peraí, aquela não é a coroa que dava em cima de mim? Que me ofereceu casa, comida e roupa lavada e eu dispensei? Ela voltou! Tá piscando e sorrindo… Ganhei na loto! Brigadão! Eu sabia que você não ia me deixar na mão. Tchau!

– … (suspiro)

Ciao.

Wednesday, April 26, 2006

Dá para acreditar?


Nessa terra eles vendem até pedra!

(Se vendem é por que alguém compra.)

Ciao.