Caros e Caras,
Paz e saúde!
O Natal na Itália começa mais cedo e termina mais tarde.
13 de dezembro, dia de Santa Luzia. No Norte do país era ela (era uma cega, ou que ficou cega – essa história não é muito clara, cheia de lendas) quem trazia presentes. Alguns historiadores afirmam que teria sido uma moça rica, que teria doado tudo aos pobres e recusado a casar-se com um pagão para não abrir mão do seu voto de castidade, tendo sido decapitada em 303. Tornou-se a santa protetora dos olhos e das crianças. As ruas se entopem na busca de presentes.
Assim como Papai Noel, ela passa durante a noite. Vem com o um jumento visitar as casas. Deixa-se um copo de leite e um pires com biscoitos, pois ela vem de longe e chega cansada. Para o jumento, um pouco de palha. Se os biscoitos tiverem sido comidos, o leite quase todo bebido e a palha remexida, estejam certos: ela passou e deixou algum presente.
Natal. Esta era uma festa da Roma pagã, que comemorava o solstício de inverno e que a Igreja adotou com o objetivo de aproveitar-se da proximidade do que seria o natal cristão e, ao mesmo tempo, desmoralizar as crendices populares. Acabou ganhando um tom debochado, com muita gente pedindo esmolas e roubando as casas mais abastadas, chegando a ser proibido por 22 anos, no século 17.
O dia 24 deve ser de recolhimento e jejum (deles, não meu) e, na ceia, alguma coisa leve, sem carne. Só o peixe é permitido. Massa e peixe.
O grande dia é 25 de dezembro, quando o almoço é farto de pratos regionais feitos especialmente para o Natal. Na cidade onde moramos come-se um tipo de ravioli servido com um caldo ralo, que se obtem cozinhando carne de boi e de galo capão, quase sem tempero. Dissolvendo-se e fervendo um caldo Knorr produz-se o mesmo resultado, com a vantagem de não ter de comer a carne e o galo sem tempero depois. O café da manhã (e não só) terá na mesa um panetone ou um pandoro.
A tradição conta que um nobre de Milão ofereceu um jantar na noite de 24 de dezembro de 1481 e o que seria a sobremesa, queimou. Um ajudante de cozinha, para tentar salvar a situação, sugeriu servir um doce que ele teria feito como experiência: um pão doce, perfumado e recheado com frutas secas. O nobre teria gostado e mandou chamar quem o fizera. O jovem apresentou-se como Toni e explicou que ainda não havia pensado num nome para o doce. O nobre teria, então, decidido que se chamaria o pão de Toni, pan del Toni. Outro doce típico dessa data é o torrone, invenção da cidade de Cremona, a uns dez quilômetros de onde moramos. Próxima demais para permitir regimes.
Nos dias que antecedem as festas, ninguém consegue entrar nas lojas do centro. Apesar do frio polar, do vento siberiano (literalmente) e das noites longas, as ruas se transformam num verdadeiro shopping center a céu aberto, como numa tarde ensolarada de sábado em São Paulo. Porque nós, latinos, deixamos sempre tudo para a última hora?
6 de janeiro, dia de Santos Reis é, também, o dia da Befana. Na Sicília e todo o sul da Itália era ela, uma velha nariguda, feia e com uma vassoura quem levava doces e guloseimas aos meninos que tinham se comportado durante o ano. Aos maus meninos, levava carvão. Colocava tudo nas meias penduradas nas lareiras, perto das janelas ou vizinhas ao presépio. Hoje o carvão não é mais de verdade, mas de açúcar e não pode faltar, além das bengalas, pirulitos e um monte de outras calorias em formas e cores diversas. É uma festa pagã, mas ligada à religiosidade do Natal. Diz a lenda que os Reis Magos (que saíram da cidade de Magi, não que fossem magos) teriam pedido orientação a uma velha, que não os ajudara por estar ocupada com um feixe de lenha. Mas a velha arrependeu-se quase de imediato e saiu para ajudá-los. Não os encontrando mais, resolveu sair e presentear todas as crianças com balas e doces.
É uma corrida para encontrar o melhor carvão, uma meia bonita, os doces mais gostosos. Felizmente as feiras populares surgem pelas praças, onde é possível encontrar tudo pronto.
Óbvio que a televisão ocupou-se de difundir e fundir tudo. A religiosidade destas festas, aqui como aí, perdeu espaço e cedeu lugar a valores diversos. O Natal, hoje, é o Papai Noel. E os presentes que ele traz.
Minhas filhas adoraram e adotaram todas as novidades do novo velho mundo: “pra Santa Luzia espero ganhar….” “ no Natal, Papai Noel vai me trazer…” “ a Befana, além dos doces poderia me presentear com…”
A única coisa que não se encontra na nossa casa nessa época (nem em qualquer outra) é a inventora do Papai Noel: Santa Klaus era uma espécie de duende das lendas do norte da Europa, que usava roupas de peles de animais e distribuía presentes às crianças. Em 1932 a Coca-cola resolveu dar-lhe feições humanas e rechonchudas e o vestiu com as cores da marca dela, o vermelho e branco, para utilizá-lo na sua campanha publicitária.
13 de dezembro dia de Santa Luzia, não é feriado. Mas 26 de dezembro, dia de Santo Stefano e 6 de janeiro, Epifania do Senhor, sim. Além de 25 de dezembro, é claro. Ninguém soube me dizer porque é feriado dia de Santo Stefano: “…Sempre existiu esse feriado.” “…Eu nasci depois…” “…Acho que é pra ter um dia de descanso das festas…” foram as respostas mais comuns.
Isso sem contar o feriado de 8 de dezembro, que eu prefiro evitar para não lembrar que é, também, a festa de Conceição da Praia, cuja igreja é em frente a um certo Mercado Modelo e que marca o início das Festas de Largo vocês sabem onde.
Quando janeiro chegar, vou tentar um regime.
Ciao.