Showing posts with label eu mesmo. Show all posts
Showing posts with label eu mesmo. Show all posts

Tuesday, December 31, 2019

Querido diário

Sim, eu sei. Amanhã é só mais um outro dia, nada muda. Os dias nascem e duram apenas vinte e quatro horas. Pouco tempo para saciar todas as nossas curiosidades, aprendemos uma coisa de cada vez. Mas no final o dia sempre acaba, a noite nos faz dormir e acordar para um novo dia que promete ser igual a tantos outros, mesmo acreditando que serão diferentes, mesmo que sejam diferentes e nos ensinem novas lições, esclareçam enigmas e tragam novos conhecimentos. Os dias são iguais, nada muda e duram sempre vinte e quatro horas. Os dias são iguais.

Acontece que nós, humanos, gostamos de inventar marcos temporais, símbolos abstratos que nos ajudem a crer nas mudanças que planejamos. Somos assim, precisamos de futuro. E o futuro é o dia que ainda não vivemos, experiências novas, conhecer pessoas e lugares a nós estranhos. Precisamos de esperança. E um dia é pouco tempo, não cicatriza ferida, nem permite avaliar se estamos no caminho certo. Um ano são vários dias, podemos procrastinar acreditando que ainda temos tempo, seguir em frente confiantes, deixando que os acontecimentos engulam nossas vidas e empurrem para o lado os nossos sonhos.

Então vem um novo ano e a confiança se renova. E, de repente, transformamos nossos sonhos em planos e lutamos para concretizá-los. Outros anos passarão antes de chegarmos onde queríamos. Ou perto. Só então nos damos conta de que é o movimento que produz a mudança. Jogamos fora a poltrona e nos preparamos para novas empresas, novas experiências e objetivos. E quando o ano acaba, e fazemos a conta do que realizamos, e entendemos que fazer é melhor que planejar, aí um novo ano chega, não importa o dia, não importa o tamanho do sonho, só importa festejar.

E a esperança já não será uma espera, mas uma possibilidade.

.

Tuesday, July 31, 2018

11 de janeiro


▬ Alô…?

▬ Alô, meu filho. Tudo bem aí?


▬ Tuudo, e você?


▬ Tudo indo. Alguma novidade?


▬ Saturno chegou.


▬ E quem é Saturno?


▬ Saturno é um planeta, mãe. 


▬ Ahn… Tá bom. Você tá sozinho em casa? 


▬ Sim. A Eloa e a Luiza foram prum spa, Terme di San Pellegrino.


▬ Ué, a Luiza não está em Londres?


▬ De férias. E como a Eloá também tá de férias, as duas estão aproveitando.


▬ E você, sozinho, se entupindo de Saturno.


▬ Mãe, Saturno é de ler, não è de comer, não. A Fal que me mandou.


▬ E você tá se alimentando direito, meu filho? Ou tá aproveitando pra se empanturrar de porcaria?


▬ Claro que estou me cuidando, mãe. Tenho quase 60 anos. Agora mesmo estou beliscando um pouco de ciccioli com uma cerveja.


▬ Bebendo a essa hora, meu filho?


▬ Mãe, tem o fuso horário de três horas. E ainda nem dei o primeiro gole na cerveja…


▬ E o que é “ciccioli”? E Saturno, como é?


▬ Tuu, tuu, tuu…



▬ Allan Robert, não se faça de besta comigo!!! 


▬ Tuu, tuu, tuu…


▬ Tuuuuuuuuuuuuu…


▬ …Mãe?


-----------------------------

Para quem não conhece: Ciccioli (tchítchioli) - aquele treco estranho na tigela - é "um produto alimentar obtido a partir da gordura de porco. A gordura cortada em pequenas partes, permanece sobre o fogo lento a fim de permitir que a água evapore e a gordura se funda. Quando a gordura fica amarelada, coa-se com um pano, onde a gordura é espremida. A parte líquida é a banha, a parte sólida é salgada, temperada e novamente espremida, ganhando a aparência de lascas de pedra". Ciccia (tchítchia) é carne de animal; na gíria, pessoa gorda. Ciccioli, então, é o resíduo sólido da preparação da banha de porco, saudável como comida do macdoni. Cada 100 gramas de ciccioli contém 6.039.423,8 calorias. O ciccioli é plural (cicciolo, no singular), mas ninguém compra um cicciolo. Agora chega que a explicação tá ficando longa demais; só falta contar o romance da porquinha com o ciccione do namorado dela, que resultou no leitão que forneceu a gordura pra esse ciccioli. Depois que cresceu, né. Porque ninguém é besta de abater um leitãozinho muito levinho...

Saturday, January 20, 2018

Retrospectiva




Em algum lugar um canário canta, um outro morre e ninguém fica sabendo. A vida acontece à revelia, simplesmente acontece.

É preciso elaborar perdas e derrotas; é preciso elaborar conquistas e vitórias. É preciso elaborar. Deixar cada coisa no seu lugar, mesmo que esse lugar já tenha passado.

Pessoas vem e vão, o tempo esculpe rugas. Festejando chegadas ou chorando despedidas, colecionamos momentos. Nos acostumamos aos sonhos, à eterna esperança do evento que mudará nossas vidas, às casualidades planejadas.

Calendários e distâncias se fazem saudades; fotos e mensagens, por mais que digam, nunca me disseram nada que substituisse um abraço. Mudar é não se importar mais; adaptar-se é aprender a viver com a ausência. E um refazer de malas nos leva a rever prioridades, encontrar novos caminhos..

O futuro pisará as pedras que assentamos hoje.

Somos todos construtores de histórias.

.

Friday, October 27, 2017

Pintassilgo moderno



Macarrão, carramão, racamão, camarão, marracão. Eu ia adiante por esse caminho até conseguir não lembrar como era o certo. Me desesperava ao tentar dizer macarrão e sair outra coisa. Me desesperava e mudava de brincadeira. Brincava muito sozinho, apesar de ter três irmãos e um mundo de amigos. “Ele vive no mundo da Lua”, dizia minha mãe. Vez ou outra, ainda diz.

A verdade é que sempre gostei de brincar com as palavras. Era bom em português, mas já esqueci muita gramática, que gramática é regra e sempre fui meio rebelde. Um rebelde tímido, silêncioso, que é pra não chamar a atenção. O anjinho encapetado. Não dissimulado, sonso. Não, isso não. Apenas um com cara de querubim, imaginação de sobra e espírito de porco.

Asno gorante, invés de ignorante; burro de estrofe, quando a ignorância faz alguém empacar; muitilhão, tantilhão, coisilhão e porrilhão. Nessa ordem de grandeza; diarreia intelectual, quando alguém tenta me convencer com argumentos apoiados em tratados, resultados científicos ou baboseiras alheias. Mas tem mais. Muito mais.

Quem tem dois ou mais filhos não se assusta quando outros pais trocam o nome dos próprios filhos [é verdade, meus pais me chamavam de Bruce durante um período por incerteza mesmo, mas naquela época eu e meu irmão caçula éramos realmente idênticos. Até eu me confundia]. No caso das minhas filhas, Bianca e Luiza, acontecia por dois motivos: primeiro, a síndrome a que me referi acima; depois, porque sim. Marinalva e Bertolândia, Arirí e Arará, Pupunha e Janaíra ou qualquer coisa que me viesse na hora. “Papi, quem é a Chumbrega e quem é a Fufinha?” “A Fufinha sou eu, você é a Chumbrega.” “Não, eu não quero ser a Chumbrega…” E a coisa rolava.

É mais fácil lembrar de alguém que se chama Petronilha ou Marinalva que da Maria ou da Regina. Sim, teve uma Petronilha na minha infância e uma Marinalva na minha adolescência, lembro delas até hoje. Quantas marias e reginas passaram? Quem sabe? Eu, não.

Conversava com um querido amigo – que já se foi – numa língua que não existia. Cada dia um era o tradutor, num chopinho descontraído em algum boteco do Leblon ou da Tijuca. “Vat minih havá” (vai tomar no c…) “Vate vut!” (vai você!) “Ah damalah n’go” (bora tomar outra). E as pessoas olhavam com curiosidade, e os garçons se dirigiam àquele que falava em português, e nós ríamos às pamparras.

Pintassilgo moderno é algo realmente bonito. Não, o superlativo de bonito é lindo. Então, pintassilgo moderno (às vezes sai “muderno”, que é mais bonito) é algo lindíssimo. Vocês já viram um pintassilgo, as variações de cores e a vivacidade delas? Um pintassilgo moderno seria a tentativa de melhorar o que já é melhor, uma ode à beleza, o Sol visto de cima da neblina, o vôo do pássaro solitário, um abraço na rua. Pintassilgo moderno é o orvalho no cabelo do rapaz esperando a namorada, a horta no fundo do quintal, a flor que desafia a calçada. Pintassilgo moderno são minhas duas filhas, Chumbrega e Fufinha.

Friday, June 02, 2017

Escola XV


Quem viveu o Rio nos anos setenta, conhece bem a Escola XV (Ginásio Industrial Quinze de Novembro – GIQN). Quem não viveu, não vai entender o que ela representava. Códigos, regras e gírias próprias. Grandes comprimidos placebo produzidos localmente (com pão…?) lotavam os enormes vidros da enfermaria. Eram indicados para tudo. E funcionavam. Enterrávamos sapoti para amadurecer e torrávamos castanhas de caju em latas vazias. O orgulho era a sala de troféus e os muitos atletas que de lá saíam. “Djonca” era sinônimo de perigo, cuidado, se manda.

1) 1970, dia de vacinação. Mil e quinhentos alunos em fila e em silêncio. Duas enfermeiras com pistolas, uma para cada braço. A organização era por ordem de classe e alfabética. Nem mesmo as moscas se atreviam a voar. O aluno passava e tomava a primeira vacina no braço direito, dava um passo e tomava a segunda no esquerdo. Quem teria resitido à tentação? Eu não. Primeiro da fila: Allan, da Primeira A. Segurei o riso e berrei o mais alto que pude. Duas vezes. Lembro do desespero dos poucos inspetores tentando capturar os fujões medrosos. Perdeu-se o dia com a vacinação. Houve, inclusive, quem duvidasse da minha dor.

2) Driblamos a vigilância e fomos roubar goiaba na chácara do vizinho – longe pra caraca! Corremos quando a sentinela avistou o proprietário e deu o alarme. Manhã seguinte, depois do café e antes da formação para a aula, Seu Glaston – chefe de disciplina – apareceu na varanda cinco degraus acima do pátio e apitou com estridência: “Priiiii!” Naqueles momentos todo mundo brincava de estátua. Nem virar a cabeça podia, só o barulho da bola rolando e a voz do Seu Glaston no microfone: “Formação de disciplina – Priiiii!” Pronto, podia-se voltar à pelada. Sem muito entusiasmo, porque formação de disciplina anunciava merda.

Tínhamos três tipos de formação, uma para aula, por classes e ordem alfabética; uma para o refeitório, que se formava a partir de quem chegase primeiro, sem correria; uma de disciplina, por dormitório e altura, com os mais baixos na frente. Cinco minutos depois Seu Glaston apareceu de novo no balcão: “Priiiii!” Naquele momento não precisava dizer mais nada, cada um sabia o seu lugar. Seu Glaston pegou o microfone e fez um discurso de meia hora sobre responsabilidade, honestidade ou coisa parecida, que ninguém escutava. Só nos preocupávamos em permanecer perfeitamente alinhados, em posição militar de descansar e sem se mexer. Após concluir a ladainha, esclareceu que um grupo de alunos tinha roubado goiabas no vizinho. Informou que o vizinho – o senhor al lado dele – ouvira o nome de um de nós e, batendo a “mãe preta” na mão (uma tira de borracha rígida de uns quarenta centímetros de comprimento, cinco de largura, por um de espessura – usada nas mãos oferecidas pelos infratores como sinal de arrependimento) chamou o senhor ao microfone. Frio na espinha. Quem teria esquecido a regra de nunca usar nomes? Até porque, éramos conhecidos pelo número de matrícula. Eu era o 405 (quatrocentos e cinco), meu irmão, 897 (oito, nove, sete) e por aí vai. Quantos josés deveriam ter? Sei lá. Poucas, pouquíssimas exceções; Hulk era o aluno mais forte da escola; Doinha era a estrela do basquete; Clidão (Euclides) o mais alto e mais magro. E tinha o Negão Dois Dez (210), que era um monstro. No bom sentido, claro. Tinha dois metros de altura por dez de largura. Cinematográfico lutador de judô que ignorava a filosofia daquele esporte (que eu e meu irmão também praticávamos, além do xadrez – este, com honras): “usar a força do adversário contra ele mesmo”. Dois Dez simplesmente levantava o adversário, se ajeitava embaixo e liquidava a luta com um ipon, independente do tamanho ou do peso do opositor. Não era raro ver o outro lutador desmaiar ao ser arremessado no chão com tanta força. Mesmo o Hulk mantinha distância dos debates sobre a força dele. Professor Paquetá ria e tinha o cuidado de ser gentil ao corrigir Dois Dez.

Voltando à disciplina, o vizinho recebeu o microfone das mãos de Seu Glaston e repetiu em voz alta o nome ouvido: “Djonca.” O chefe de disciplina ria tanto quanto nós. Supervisores gargalhavam e a formação estava desfeita, impossível recompor. O vizinho saiu em silêncio, ciente de que algo dera errado e de que os culpados não seriam identificados. Quase cinquenta anos depois ainda acho graça.

3) A escola tinha uma mascote, uma viralatas brincalhona e paparicada por todos. Acostumada com o falatório da multidão que ocupava o pátio nos momentos livres, só atendia se chamada pelo nome ou para correr atrás de bola.

Num meio de semana fomos informados que deveríamos nos preparar para uma visita importante. À noite, troca de uniformes por peças novas, o que significava visita imprtante. Manhã seguinte e um grupo de homens bem vestidos acompanhado de madames chegou. Formação de refeitório, sorrisos, dentes escovados e perfume de sabonete. As visitas tomaram café no refeitório, o que era ótimo. Café caprichado para imperssionar, bis a vontade e serventes simpáticas (ao contrário dos outros dias, quando os alunos que trabalhavam na cozinha serviam café com leite preparado com a água onde eles costumavam lavar os sapatos).

As atividades começariam meia hora mais tarde, para que as visitas tivessem a oportunidade de passear entre os bem comportados alunos. Metade dos alunos estudava pela manhã e metade pela tarde. Quem não estava estudando, estava em uma das muitas oficinas de formação (mecânica, tornearia, sapataria…) ou – como eu e meu irmão – no curso de música. Mas não nos dias de visita. Precisávamos causar ótima impressão.

Os visitantes se dividiram em dois grupos, masculino e feminino. Pouco antes da formação para aula, os grupos se reencontraram num ângulo do pátio, onde dormia preguiçosamente a nossa viralatas. “Como ela se chama?” Perguntou uma madame que parecia ser a esposa do mais importante. “Tem nome não. A gente chama assim: 'vem, tsc, tsc' e ela vem. Mas hoje tá com preguiça.” Os visitantes começaram a chamar, assobiar, abaixaram-se para que ela se sentisse confiante mas, nada. Insistiam, numa competição para ver quem era mais simpática. Nada. De repente a cachorrinha levantou abanando o rabo e foi em direção à multidão de alunos, de onde alguém a tinha chamado pelo nome, que todos conheciam: “Piroca!”

*

Sunday, January 01, 2017

2017 começou bem



Acordei de manhã e era um outro ano. Assim, de repente.

Quer dizer que eu levo trezentos e tantos dias aprendendo a lidar com um ano e ele acaba ainda novo? Claro que os fogos de ontem à noite anunciaram a mudança; até o calendário na cozinha já é o de 2017, mas vou ter que me acostumar com um ano diferente, meio que sem saber o que fazer dele.

O celular desligado recebeu um toró de mensagens enquanto eu dormia. Todas desejando mudanças positivas e palavras de amor, porque não basta ser um outro ano, precisamos mudar para que ele seja novo. Atitude é a palavra. É o que deve substituir os planos, para que estes não fiquem apenas sonhos. Já repararam que diante de uma tragédia as pessoas usam o celular para enviar mensagens de amor? Não, 2017 não será uma tragédia, era só para reafirmar que o amor é o mais forte dos sentimentos.

Essa sensação de recomeçar, de que tudo é possível, faz parte do ser humano, acho eu. Queremos o novo, queremos mudar e sermos melhores. E desejamos a quem gostamos essa nova oportunidade registrada pelo calendário, para que elas sejam felizes também. Estabelecer metas e estipular prazos, conscientes de que planos podem ser modificados, que o caminho é cheio de curvas, sobe e desce, escurece, faz frio e chove. Não precisamos estar preparados para o que der e vier, devemos estar prontos para nos adaptarmos, improvisar e seguir em frente. Planos podem ser modificados.

Piegas, não? É que o inverno por aqui é de dias curtos e frios, e isso me faz nostálgico, introspectivo. Já começo a descobrir o que fazer com 2017. Para começar, vou acordar todos os dias dizendo que é primeiro de janeiro; definir metas, prazos e bolar um plano infalível: continuar entusiasmado.

Feliz Ano Novo!

*