Pode
acontecer de um cantor ou compositor voltar a fazer sucesso após um período de
ostracismo. Não é o caso do cantor e compositor Francesco De Gregori (Roma, 1951). Ele jamais deixou a ribalta italiana.
Já
nas primeiras exibições no Folkstudio – um espaço alternativo da Roma dos anos sessenta
– pode-se notar a proposta introspectiva de De Gregori. Fã declarado de Bob
Dylan (que também se exibira no Folkstudio quando ainda era desconhecido),
compôs recentemente o disco “De Gregori canta Bob Dylan – Amore e Furto”
.
É difícil montar uma coletânea com as melhores canções desse
artista inteligente e refinado, entre os mais premiados da música italiana,
também chamado de “Il Principe”, o príncipe da música italiana. Anote o nome,
ouça e faça você mesmo uma lista. Boa sorte!
Alguns sucessos:
La Donna Canone (uma história verídica sobre um circo em
dificuldades, depois que a “mulher bala”, a principal atração, fugiu por amor)
Generale
Rimmel
Come
il giorno (Bob Dylan)
Alice
(a canção que o fez famoso eque voltou a tocar insistentemente nas rádios)
▬
Bom, menos mal que você chegou. Não tem água quente, a caldeira quebrou. Faz
três horas que estou esperando pra tomar banho.
▬
Três horas? E por que você não tentou consertar?
▬
…Eu? Isso é trabalho de homem.
▬
Desde quando?
▬
Desde sempre. Você já viu encanador mulher? Ou eletricista? Ou qualquer outro trabalho
de homem?
▬
…Ué, cadê aquele discurso de igualdade?
▬
Deixa de história e vai logo consertar a caldeira. È claro que existem
diferenças. Ou você acha que alguma mulher projetaria uma coisa estúpida como o
paraquedas?
▬
Estúpida?
▬
Sim, acho estúpida. Pra quê alguém que já está no chão tem que subir num avião
e pular de paraquedas pra voltar pro chão? Isso sem contar os riscos…
▬
O paraquedas é útil… Numa guerra, por exemplo.
▬
Outra imbecilidade inventada pelos homens. …Viu? A caldeira não tem chama, a
água tá fria.
▬
Me passa a lanterninha que está em cima da geladeira. …E o casamento, também
foram os homens que inventaram?
▬
Claro! Quando os humanos começaram a deixar de ser nômades e surgiu a
propriedade privada, os homens inventaram a família para garantir a
hereditariedade aos próprios descendentes.
▬
E antes do casamento, como era?
▬
As mulheres que se arranjassem com a prole.
▬
Você tava lá?
▬
Você quer cair dessa escada? Com esse trânsito a ambulância vai levar horas pra
chegar.
▬
Então lavar e passar roupa é trabalho de mulher?
▬
Não, é trabalho de quem precisa de roupa lavada e passada.
▬
Me passa o isqueiro.
▬
“Por favor”.
▬
Por favor. Pronto. A caldeira estava só apagada, bastava acender a chama
piloto. Você podia ter tomado banho há horas, agora precisa esperar uma meia
hora pra água esquentar.
▬
Liga pra sua mãe e avisa que vamos chegar tarde.
▬
…Ai!
▬
Acho que a lasanha da sua mãe vai ficar pra outro dia. Melhor comer alguma
coisa. Tô morrendo de fome e tem que esperar a água esquentar.
Renato Fiacchini nasceu em Roma, em 1950. Artista
poliédrico, caleidoscópico e versátil, é cantor, compositor, apresentador,
bailarino, ator, dublador e produtor musical. Um dos poucos letristas capaz de aquecer
o universo morno da música italiana.
Para quem achava que valia zero, assinou seu primeiro
contrato com quatorze anos. Acabou adotando o Zero como pseudônimo (sim, o
motivo foi esse). Do pouco que se sabe da sua vida privada – coisa raríssima num
país tão fofoqueiro quanto o Brasil - é que o seu grande amor é Lucy Morante,
sua secretária desde sempre (e até hoje), apesar de não estarem mais juntos; a
outra namorada oficial foi Enrica Bonaccorti, uma paixão dos tempos da
juventude. Teria tido affairs com algumas famosas, mas nada foi oficializado.
Prefere manter a imagem ambígua e tampouco se importa com os boatos sobre a sua
presumível homossexualidade. Seu único herdeiro é Roberto Fiacchini, seu ex
segurança pessoal, que Renato adotou oficialmente como filho em 2003.
Renato Zero é um dos artistas mais populares e amados na
Itália. Apesar do estilo extravagante – e talvez por isso mesmo – tem uma
legião de fãs e já vendeu mais de quarenta e cinco milhões de discos. Compôs
mais de quinhentas músicas (para si e para outros cantores) e lota todos os
seus shows.
Não chego a ser fã de Renato, como também não chego a ser
fã de Elton John, mas não posso negar uma certa admiração por artistas que
fazem sucesso por muitos e muitos anos, com canções que aprendemos por osmose e
assobiamos distraídos.
Certa vez estava de férias e viu na TV uma entrevista sua
a um jornalista; logo se deu conta de jamais ter dado aquela entrevista e ficou
curioso. Somente vinte minutos depois percebeu que na realidade se tratava do
humorista Giorgio Panariello travestido de Renato Zero. Numa outra ocasião cômica
envolvendo o artista, Tim Burton pediu a Johnny Depp para inspirar-se a Renato
Zero para a sua interpretação de Willie Wonka, na refilmagem do filme “A
fábrica de chocolate”. Mas o melhor dele é a música, que faz parte da trilha
sonora cotidiana nas pizzarias da terra da pizza há mais de cinquenta anos.
É comum encontrar palavras que não tenham tradução em
outras línguas. Em italiano, por exemplo, tem “comunque” [komúnkue], que está para “de qualquer modo, de qualquer
forma”. Acho divertidas as expressões “boh”
[bôh] que pode ser traduzida como “sei lá” e “mah” [máh], com significados diferentes, dependendo da
situação e da entonação de quem o pronuncia, demonstrando incredulidade,
surpresa, pouco caso... Mas a que mais me fascina é “ovunque” [ovúnkue], que significa “em todo lugar, em qualquer lugar”.
Estranho, não? Como uma palavra pode significar “em todo lugar, em qualquer
lugar”? Uma antiga propaganda da Blu – a antecessora da empresa de telefonia móvel
3 – dizia: “ovunque sei, sei ovunque”, (em qualquer lugar que você estiver, vai
estar em todo lugar). Achei a frase tão boa que não é a primeira vez que escrevo
sobre ela.
Se a falta de correspondência entre línguas diferentes,
mesmo quando a raiz é a mesma, não é uma novidade (como no caso entre português
e italiano, ambas latinas) , um comportamento ou um sentimento desconhecido é
mais difícil de assimilar. Às vezes, de compreender também.
Tem um sentimento italiano que ainda não consegui
classificar, apesar das muitas tentativas. Não é exatamente inveja, nem
vingança. Tampouco é apenas individualismo, egoísmo ou qualquer outra forma
antônima da empatia. Como exemplo, uso duas cenas de agosto passado, o mês em
que quase tudo fecha por aqui. Na primeira, estava no supermercado quando ouvi
a senhora do caixa conversando com uma cliente. A cliente contava sobre o
bronzeado adquirido na praia, dos passeios nas férias, do hotel. Quando a
cliente perguntou à caixa quando ela sairia de férias, a funcionária respondeu
num tom de voz bem mais alto, para que todo o supermercado pudesse ouvir:
▬ Ah, eu já fiz as minhas férias. Estive num lugar
maravilhoso, muita praia, piscina e um panorama de tirar o fôlego. Não tenho
que ter inveja de ninguém!!!
O segundo episódio aconteceu quando ouvia o rádio do
carro. Na hora da mudança de condutores, os dois conversavam sobre férias (assunto dominante em agostos).
O primeiro falava sobre as maravilhas de uma ilha no sul da Itália, da comida e da
oportunidade de conhecer lugares fantásticos sem precisar viajar para fora. Quando
terminou, comentou que sabia que o colega ainda não tinha saído de férias, ao
que o outro respondeu que preferia tirar férias em setembro. O primeiro quis
saber se tinha um motivo especial e ele respondeu:
▬ Sim, em setembro tem menos confusão, os preços são mais
convenientes e as crianças voltam aos bancos de escola. Mas o maior motivo é
que saindo de férias em setembro, posso gozar tranquilo imaginando as pessoas
que já voltaram ao trabalho, com seus paletós e escritórios, conscientes de que
estou de bermuda em algum paraíso fazendo nada!
Não é um sentimento que aparece somente nas férias, só
usei os exemplos mais recentes. Tem um nome para isso? .
Houve uma corrente literária
italiana chamada Verismo, cujo maior expoente foi Giovanni Verga, autor do
ápice verista “Rosso Malpelo”. Li todas as novelas de Verga e posso afirmar que
a obra é tão impressionante quanto triste. Morre todo mundo, ou nunca se
encontram, ou vivem e morrem na miséria absoluta. Enfim, uma triteza só. Tenho
a impressão de que a pesquisadora e professora de História da Arte Paola
Pallottino é (ou foi) uma grande apreciadora de Verga, Luigi Capuana, Renato
Fucini e demais autores veristas, além de ter sido amiga de Lucio Dalla.
Lucio Dalla continua sendo um dos
grandes nomes da música italiana, quatro anos após a sua morte. E um dos que mais
gosto de ouvir. Bolonha, 4/3/1943; Montreux, 1/3/2012.
Em 1971 Dalla chegou em terceiro
lugar no Festival de Sanremo, com a música “4/3/1943”, composta com Paola
Pallottino, autora da letra. Acontece que o título
original foi considerado inadequado pela censura da RAI, que impôs a substituição
do nome e de partes do texto, para que pudesse ser veiculada na TV. A data de
nascimento de Dalla acabou se tornando o título de uma das canções mais
apreciadas na Itália, mas todos se referem a ela com o título original, Gesù Bambino
(menino Jesus).
Na versão italiana, a canção fala sobre uma garota de 15
anos que engravida de um soldado estrangeiro, morto pouco depois. A letra é
comovente e muitos artistas italianos enchem os olhos d’água quando a
interpretam. O próprio Lucio Dalla confessava ser a única canção que o
emocionava cada vez que cantava.
As partes do texto original que sofreram alterações foram:
- “mi riconobbe
subito proprio l'ultimo mese”[a menina só teria entendido que estava
grávida no último mês (?)] modificada em “mi
aspettò come un dono d'amore fino dal primo mese” [aguardava o filho como
um dom de amor desde o primeiro mês],
- “giocava alla
Madonna con il bimbo da fasciare” [fingia ser Nossa Senhora com o menino a
ser coberto] ficou“giocava a far la donna con il bimbo da fasciare” [fingia ser uma
mulher com o menino a ser coberto]
- “e ancora adesso
mentre bestemmio e bevo vino... per i ladri e le puttane sono Gesù Bambino”
[e ainda hoje quando blasfemo e bebo vinho… aos ladrões e as putas sou Jesus
Menino] foi adaptado em “e ancora adesso
che gioco a carte e bevo vino, per la gente del porto mi chiamo Gesù Bambino”
[e ainda hoje quando jogo carta e bebo vinho… para a gente do porto sou Jesus
Menino]
Mais para a malandragem que para o melodrama, mais para Gregório
de Matos que para Giovanni Verga, Chico Buarque teria ouvido a música uma única
vez. Pouco depois apresentou ao amigo a versão dele, adaptando a letra à
cultura brasileira e batizando com o título “Minha História”. Dalla começava a
tomar consciência de quão grande fosse a obra.
A letra adaptada de Chico Buarque todo mundo conhece.
Segue a letra da versão que ficou famosa na Itália, com a tradução (minha).
Mais abaixo, os vídeos com a versão original apresentada durante o Festival de
Sanremo, a versão do Chico e os dois juntos.
Lucio Dalla adorava a versão brasileira do amigo Chico.
4/3/1943
(Gesù Bambino)
Lucio Dalla – Paola Pallottino
Dice che era un bell'uomo e veniva,
veniva dal mare
[Dizem que era
um homem bonito e vinha
Vinha do mar]
parlava un'altra lingua,
pero' sapeva amare
[Falava uma outra
língua
Mas sabia amar]
e quel giorno lui prese a mia madre
sopra un bel prato
[Naquele dia
pegou minha mãe
Sobre um
campo]
l'ora piu' dolce prima di essere ammazzato
[No momento mais doce, antes ser morto]
Cosi' lei resto' sola nella stanza,
la stanza sul porto
[E ela ficou
só, no quarto
No quarto do porto]
con l'unico vestito ogni giorno piu' corto
[Com seu único
vestido cada dia mais curto]
e benche' non sapesse il nome
e neppure il paese
[E apesar de
não saber o nome
E nem mesmo o país]
mi aspetto' come un dono d'amore fin dal primo mese
[Me esperou
como um dom de amor desde o primeiro mês]
Compiva 16 anni quel giorno la mia mamma
[Completava 16
anos naquele dia a minha mãe]
le strofe di taverna,
le canto' a ninna nanna
[As cantigas
de cabaré
As cantou como acalanto]
e stringendomi al petto che sapeva,
sapeva di mare
[E
apertando-me ao peito que cheirava
Cheirava de mar]
giocava a fare la donna con il bimbo da fasciare.
[Fingia ser uma
mulher com o menino a ser coberto]
E forse fu per gioco o forse per amore
[E talvez de brincadeira ou por amor]
che mi volle chiamare come nostro Signore
[Quis me
chamar com o nome de Nosso Senhor]
Della sua breve vita e' il ricordo piu' grosso
[De toda a sua
vida a maior lembrança]
e' tutto in questo nome
che io mi porto addosso
[Está toda
nesse nome
Que carrego
nas costas]
E ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
[E ainda hoje quando jogo carta e bebo vinho]
per la gente del porto
mi chiamo Gesu' bambino
[Para a gente do porto
sou Jesus Menino]
e ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
per la gente del porto
mi chiamo Gesubambino
e ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
per la gente del porto
mi chiamo Gesubambino