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Saturday, June 24, 2017

Trilha sonora italiana - Francesco De Gregori



Pode acontecer de um cantor ou compositor voltar a fazer sucesso após um período de ostracismo. Não é o caso do cantor e compositor Francesco De Gregori (Roma, 1951).  Ele jamais deixou a ribalta italiana.

Já nas primeiras exibições no Folkstudio – um espaço alternativo da Roma dos anos sessenta – pode-se notar a proposta introspectiva de De Gregori. Fã declarado de Bob Dylan (que também se exibira no Folkstudio quando ainda era desconhecido), compôs recentemente o disco  “De Gregori canta Bob Dylan – Amore e Furto”
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É difícil montar uma coletânea com as melhores canções desse artista inteligente e refinado, entre os mais premiados da música italiana, também chamado de “Il Principe”, o príncipe da música italiana. Anote o nome, ouça e faça você mesmo uma lista. Boa sorte!

Alguns sucessos:

La Donna Canone (uma história verídica sobre um circo em dificuldades, depois que a “mulher bala”, a principal atração, fugiu por amor)


Generale


Rimmel


Come il giorno (Bob Dylan)


Alice (a canção que o fez famoso eque voltou a tocar insistentemente nas rádios)

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Sunday, January 22, 2017

Jantar na sogra



▬ Nossa, como você demorou hoje!

▬ Esse trânsito de Milão piora a cada dia…

▬ Bom, menos mal que você chegou. Não tem água quente, a caldeira quebrou. Faz três horas que estou esperando pra tomar banho.

▬ Três horas? E por que você não tentou consertar?

▬ …Eu? Isso é trabalho de homem.

▬ Desde quando?

▬ Desde sempre. Você já viu encanador mulher? Ou eletricista? Ou qualquer outro trabalho de homem?

▬ …Ué, cadê aquele discurso de igualdade?

▬ Deixa de história e vai logo consertar a caldeira. È claro que existem diferenças. Ou você acha que alguma mulher projetaria uma coisa estúpida como o paraquedas?

▬ Estúpida?

▬ Sim, acho estúpida. Pra quê alguém que já está no chão tem que subir num avião e pular de paraquedas pra voltar pro chão? Isso sem contar os riscos…

▬ O paraquedas é útil… Numa guerra, por exemplo.

▬ Outra imbecilidade inventada pelos homens. …Viu? A caldeira não tem chama, a água tá fria.

▬ Me passa a lanterninha que está em cima da geladeira. …E o casamento, também foram os homens que inventaram?

▬ Claro! Quando os humanos começaram a deixar de ser nômades e surgiu a propriedade privada, os homens inventaram a família para garantir a hereditariedade aos próprios descendentes.

▬ E antes do casamento, como era?

▬ As mulheres que se arranjassem com a prole.

▬ Você tava lá?

▬ Você quer cair dessa escada? Com esse trânsito a ambulância vai levar horas pra chegar.

▬ Então lavar e passar roupa é trabalho de mulher?

▬ Não, é trabalho de quem precisa de roupa lavada e passada.

▬ Me passa o isqueiro.

▬ “Por favor”.

▬ Por favor. Pronto. A caldeira estava só apagada, bastava acender a chama piloto. Você podia ter tomado banho há horas, agora precisa esperar uma meia hora pra água esquentar.

▬ Liga pra sua mãe e avisa que vamos chegar tarde.

▬ …Ai!

▬ Acho que a lasanha da sua mãe vai ficar pra outro dia. Melhor comer alguma coisa. Tô morrendo de fome e tem que esperar a água esquentar.

▬ Você podia ter preparado uma saladinha, né?

▬ E desde quando cozinhar é trabalho de mulher?

▬ Mãe do céu…


 *

Sunday, September 25, 2016

Trilha sonora italiana - Renato Zero



Renato Fiacchini nasceu em Roma, em 1950. Artista poliédrico, caleidoscópico e versátil, é cantor, compositor, apresentador, bailarino, ator, dublador e produtor musical. Um dos poucos letristas capaz de aquecer o universo morno da música italiana.

Para quem achava que valia zero, assinou seu primeiro contrato com quatorze anos. Acabou adotando o Zero como pseudônimo (sim, o motivo foi esse). Do pouco que se sabe da sua vida privada – coisa raríssima num país tão fofoqueiro quanto o Brasil - é que o seu grande amor é Lucy Morante, sua secretária desde sempre (e até hoje), apesar de não estarem mais juntos; a outra namorada oficial foi Enrica Bonaccorti, uma paixão dos tempos da juventude. Teria tido affairs com algumas famosas, mas nada foi oficializado. Prefere manter a imagem ambígua e tampouco se importa com os boatos sobre a sua presumível homossexualidade. Seu único herdeiro é Roberto Fiacchini, seu ex segurança pessoal, que Renato adotou oficialmente como filho em 2003.

Renato Zero é um dos artistas mais populares e amados na Itália. Apesar do estilo extravagante – e talvez por isso mesmo – tem uma legião de fãs e já vendeu mais de quarenta e cinco milhões de discos. Compôs mais de quinhentas músicas (para si e para outros cantores) e lota todos os seus shows.

Não chego a ser fã de Renato, como também não chego a ser fã de Elton John, mas não posso negar uma certa admiração por artistas que fazem sucesso por muitos e muitos anos, com canções que aprendemos por osmose e assobiamos distraídos.

Certa vez estava de férias e viu na TV uma entrevista sua a um jornalista; logo se deu conta de jamais ter dado aquela entrevista e ficou curioso. Somente vinte minutos depois percebeu que na realidade se tratava do humorista Giorgio Panariello travestido de Renato Zero. Numa outra ocasião cômica envolvendo o artista, Tim Burton pediu a Johnny Depp para inspirar-se a Renato Zero para a sua interpretação de Willie Wonka, na refilmagem do filme “A fábrica de chocolate”. Mas o melhor dele é a música, que faz parte da trilha sonora cotidiana nas pizzarias da terra da pizza há mais de cinquenta anos.

Site oficial: http://www.renatozero.com












Saturday, September 17, 2016

Sem tradução



É comum encontrar palavras que não tenham tradução em outras línguas. Em italiano, por exemplo, tem “comunque” [komúnkue], que está para “de qualquer modo, de qualquer forma”. Acho divertidas as expressões “boh” [bôh] que pode ser traduzida como “sei lá” e “mah” [máh], com significados diferentes, dependendo da situação e da entonação de quem o pronuncia, demonstrando incredulidade, surpresa, pouco caso... Mas a que mais me fascina é “ovunque” [ovúnkue], que significa “em todo lugar, em qualquer lugar”. Estranho, não? Como uma palavra pode significar “em todo lugar, em qualquer lugar”? Uma antiga propaganda da Blu – a antecessora da empresa de telefonia móvel 3 – dizia: “ovunque sei, sei ovunque”, (em qualquer lugar que você estiver, vai estar em todo lugar). Achei a frase tão boa que não é a primeira vez que escrevo sobre ela.

Se a falta de correspondência entre línguas diferentes, mesmo quando a raiz é a mesma, não é uma novidade (como no caso entre português e italiano, ambas latinas) , um comportamento ou um sentimento desconhecido é mais difícil de assimilar. Às vezes, de compreender também.

Tem um sentimento italiano que ainda não consegui classificar, apesar das muitas tentativas. Não é exatamente inveja, nem vingança. Tampouco é apenas individualismo, egoísmo ou qualquer outra forma antônima da empatia. Como exemplo, uso duas cenas de agosto passado, o mês em que quase tudo fecha por aqui. Na primeira, estava no supermercado quando ouvi a senhora do caixa conversando com uma cliente. A cliente contava sobre o bronzeado adquirido na praia, dos passeios nas férias, do hotel. Quando a cliente perguntou à caixa quando ela sairia de férias, a funcionária respondeu num tom de voz bem mais alto, para que todo o supermercado pudesse ouvir:

▬ Ah, eu já fiz as minhas férias. Estive num lugar maravilhoso, muita praia, piscina e um panorama de tirar o fôlego. Não tenho que ter inveja de ninguém!!!

O segundo episódio aconteceu quando ouvia o rádio do carro. Na hora da mudança de condutores, os dois conversavam sobre férias (assunto dominante em agostos). O primeiro falava sobre as maravilhas de uma ilha no sul da Itália, da comida e da oportunidade de conhecer lugares fantásticos sem precisar viajar para fora. Quando terminou, comentou que sabia que o colega ainda não tinha saído de férias, ao que o outro respondeu que preferia tirar férias em setembro. O primeiro quis saber se tinha um motivo especial e ele respondeu:

▬ Sim, em setembro tem menos confusão, os preços são mais convenientes e as crianças voltam aos bancos de escola. Mas o maior motivo é que saindo de férias em setembro, posso gozar tranquilo imaginando as pessoas que já voltaram ao trabalho, com seus paletós e escritórios, conscientes de que estou de bermuda em algum paraíso fazendo nada!

Não é um sentimento que aparece somente nas férias, só usei os exemplos mais recentes. Tem um nome para isso? 
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Saturday, August 27, 2016

Minha História - Gesù Bambino



Houve uma corrente literária italiana chamada Verismo, cujo maior expoente foi Giovanni Verga, autor do ápice verista “Rosso Malpelo”. Li todas as novelas de Verga e posso afirmar que a obra é tão impressionante quanto triste. Morre todo mundo, ou nunca se encontram, ou vivem e morrem na miséria absoluta. Enfim, uma triteza só. Tenho a impressão de que a pesquisadora e professora de História da Arte Paola Pallottino é (ou foi) uma grande apreciadora de Verga, Luigi Capuana, Renato Fucini e demais autores veristas, além de ter sido amiga de Lucio Dalla.

Lucio Dalla continua sendo um dos grandes nomes da música italiana, quatro anos após a sua morte. E um dos que mais gosto de ouvir. Bolonha, 4/3/1943; Montreux, 1/3/2012.

Em 1971 Dalla chegou em terceiro lugar no Festival de Sanremo, com a música “4/3/1943”, composta com Paola Pallottino, autora da letra. Acontece que o título original foi considerado inadequado pela censura da RAI, que impôs a substituição do nome e de partes do texto, para que pudesse ser veiculada na TV. A data de nascimento de Dalla acabou se tornando o título de uma das canções mais apreciadas na Itália, mas todos se referem a ela com o título original, Gesù Bambino (menino Jesus).

Na versão italiana, a canção fala sobre uma garota de 15 anos que engravida de um soldado estrangeiro, morto pouco depois. A letra é comovente e muitos artistas italianos enchem os olhos d’água quando a interpretam. O próprio Lucio Dalla confessava ser a única canção que o emocionava cada vez que cantava.

As partes do texto original que sofreram alterações foram:
- “mi riconobbe subito proprio l'ultimo mese”[a menina só teria entendido que estava grávida no último mês (?)] modificada em “mi aspettò come un dono d'amore fino dal primo mese” [aguardava o filho como um dom de amor desde o primeiro mês],

- “giocava alla Madonna con il bimbo da fasciare” [fingia ser Nossa Senhora com o menino a ser coberto] ficou  giocava a far la donna con il bimbo da fasciare” [fingia ser uma mulher com o menino a ser coberto]

- “e ancora adesso mentre bestemmio e bevo vino... per i ladri e le puttane sono Gesù Bambino” [e ainda hoje quando blasfemo e bebo vinho… aos ladrões e as putas sou Jesus Menino] foi adaptado em “e ancora adesso che gioco a carte e bevo vino, per la gente del porto mi chiamo Gesù Bambino” [e ainda hoje quando jogo carta e bebo vinho… para a gente do porto sou Jesus Menino]

Mais para a malandragem que para o melodrama, mais para Gregório de Matos que para Giovanni Verga, Chico Buarque teria ouvido a música uma única vez. Pouco depois apresentou ao amigo a versão dele, adaptando a letra à cultura brasileira e batizando com o título “Minha História”. Dalla começava a tomar consciência de quão grande fosse a obra.

A letra adaptada de Chico Buarque todo mundo conhece. Segue a letra da versão que ficou famosa na Itália, com a tradução (minha). Mais abaixo, os vídeos com a versão original apresentada durante o Festival de Sanremo, a versão do Chico e os dois juntos.

Lucio Dalla adorava a versão brasileira do amigo Chico.

4/3/1943
(Gesù Bambino)
Lucio Dalla – Paola Pallottino

Dice che era un bell'uomo e veniva,
veniva dal mare
[Dizem que era um homem bonito e vinha
Vinha do mar]
parlava un'altra lingua,
pero' sapeva amare
[Falava uma outra língua
Mas sabia amar]
e quel giorno lui prese a mia madre
sopra un bel prato
[Naquele dia pegou minha mãe
Sobre um campo]
l'ora piu' dolce prima di essere ammazzato
[No momento mais doce, antes ser morto]

Cosi' lei resto' sola nella stanza,
la stanza sul porto
[E ela ficou só, no quarto
No quarto do porto]
con l'unico vestito ogni giorno piu' corto
[Com seu único vestido cada dia mais curto]
e benche' non sapesse il nome
e neppure il paese
[E apesar de não saber o nome
E nem mesmo o país]
mi aspetto' come un dono d'amore fin dal primo mese
[Me esperou como um dom de amor desde o primeiro mês]

Compiva 16 anni quel giorno la mia mamma
[Completava 16 anos naquele dia a minha mãe]
le strofe di taverna,
le canto' a ninna nanna
[As cantigas de cabaré
As cantou como acalanto]
e stringendomi al petto che sapeva,
sapeva di mare
[E apertando-me ao peito que cheirava
Cheirava de mar]
giocava a fare la donna con il bimbo da fasciare.
[Fingia ser uma mulher com o menino a ser coberto]

E forse fu per gioco o forse per amore
[E talvez de brincadeira ou por amor]
che mi volle chiamare come nostro Signore
[Quis me chamar com o nome de Nosso Senhor]
Della sua breve vita e' il ricordo piu' grosso
[De toda a sua vida a maior lembrança]
e' tutto in questo nome
che io mi porto addosso
[Está toda nesse nome
Que carrego nas costas]

E ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
[E ainda hoje quando jogo carta e bebo vinho]
per la gente del porto
mi chiamo Gesu' bambino
[Para a gente do porto
sou Jesus Menino]
e ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
per la gente del porto
mi chiamo Gesubambino
e ancora adesso che gioco a carte
e bevo vino
per la gente del porto
mi chiamo Gesubambino




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