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Saturday, September 22, 2018

Andrea Camilleri - talento italiano



Andrea Camilleri nasceu em 6 de setembro de 1925, na pequena Porto Empedocle, província de Agrigento, na Sicília. Vive em Roma desde os anos Quarenta.

Muito antes de se tornar escritor, foi diretor de teatro, roteirista, dramaturgo e professor da Academia Nacionale d’Arte Dramatica. Sua carreira como escritor começou em 1978 com “Il corso delle cose”, escrito dez anos antes. E só parou de escrever por um período de doze anos, entre os anos oitenta e noventa. Com diversas honrarias, prêmios, homenagens, amado pelo público e pela crítica, Camilleri é um patrimônio vivo.

Alguns romances de Camilleri são escritos em vigatês, uma língua inventada por ele que mistura expressões de dialetos sicilianos com a língua italiana, respeitando a estrutura da escrita italiana. Não se trata simplesmente de inserir termos dialetais nas frases, mas um trabalho árduo de encaixar vocábulos que coincidam com aqueles da língua oficial tanto no sentido como na sonoridade. Esse dialeto particular das primeiras obras do escritor, quando respeitava rigorosamente as regras da literatura italiana. E foram tantas poesias premiadas, admiradas e respeitadas pela crítica e escritores. Apesar do sucesso como escritor abandonou a poesia quando se interessou pelo teatro, passando a escrever contos e crônicas. Até decidir escrever peças teatrais e descobrir não ser capaz de obras mais longas com suas palavras. Deixou de escrever, seja em verso que em prosa. Anos mais tarde deparou-se obras literárias escritas em dialeto siciliano, que o fizeram voltar a ter vontade de escrever. A língua exclusiva de Camilleri começou quando acudia seu pai em fim de vida no hospital e contou-lhe uma história que gostaria de publicar, mas que não era capaz de compô-la em italiano. Foi seu pai quem sugeriu de escrevê-la como ele tinha acabado de contar.

Vigata também é uma cidade inventada por ele. Ficaria na província de Montelusa (também inventada), na Sicília. “Agrigento sarebbe la Montelusa dei miei romanzi, però Montelusa non è un’invenzione mia ma di Pirandello, che ha usato questo nome molte volte nelle sue novelle: l’Agrigento di oggi la chiamava Girgenti e anche Montelusa, e io gli ho rubato il nome, tanto non può protestare”. [Agrigento seria a Montelusa dos meus romances, mas Montelusa não é uma minha invenção, mas de Pirandello, que usou esse nome muitas vezes nas suas novelas: a Agrigento de hoje a chamava Girgente ou Montelusa, e eu roubei dele, já que ele não pode reclamar mesmo]. Vigàta seria a sua pequena Porto Empedocle natal.

Rebelde – foi expulso do colégio episcopal por ter jogado ovos num crucifixo – simpático e divertido, é chamado de “Maestro” [mestre, em italiano] e reverenciado até por seus poucos desafetos políticos. Suas entrevistas são deliciosas e nos faz refletir sobre como um senhor de 93 anos sobrevive fumando tanto. Há pouco tempo Camilleri ficou cego. “Fiquei cego mas meus sonhos são coloridos”, afirma rindo.

Apesar dos muitos livros que escreveu – e que continua escrevendo –, seu personagem mais famoso é o comissário Montalbano, da série policial que foi parar na tv e no cinema. Montalbano è um comissário de polícia inteligente, com pouca paciência, que entende como ninguém os costumes sicilianos, inclusive a relação com a Máfia. O nome é uma homenagem ao escritor espanhol Manuel Vázquez Montalbán, criador de um outro personagem “Pepe Carvalho”. 

Para não deixar o personagem incompleto, Camilleri escreveu – há mais de uma década – o epílogo da série com a morte do comissário, que deve ser publicada num livro póstumo e que está guardado na gaveta do seu editor. O sucesso é imenso. Porém, muitos leitores italianos nunca leram Camilleri. Alguns por desistirem da leitura na primeira página, pela linguagem quase cifrada do autor. Pessoalmente considero Andrea Camilleri o maior romancista italiano da atualidade. E adoro o divertido dialeto inventado. Acho que seria uma justa homenagem se Porto Empedocle mudasse o nome para Vigata, depois que a última aventura do comissário Montalbano fosse publicada. Nunca li Camilleri em português, e não ousaria: não há como traduzir a intrincada língua. Se você nunca leu, aproveite para conhecer e se deliciar. E prepare-se para rir muito.

  Montalbano na tv (em italiano): Rai Play

Montalbano no cinema: Il Commissario Montalbano: Amore

Site de fãs de Camilleri:  Vigata.org

Entrevistas de Cammileri para o projeto “La Banca Della Memoria”: la banca della memoria

 Site oficial: Andrea Camilleri

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Friday, April 27, 2018

Trilha sonora italiana – Antonello Venditti: Notte prima degli esami

Essa música está entre as mais belas e mais conhecidas da Itália. Todo e qualquer italiano – de qualquer idade – conhece e não consegue não cantar junto. Merece um capítulo à parte nessa seção. Para entendê-la bem, algumas informações:

Os quatro amigos:

- Antonello Venditti (Roma, 8 de março de 1949), cantor e compositor, autor desta canção.

- Gorgio Lo Cascio (Roma, 18 de junho de 1951 – Roma, 25 de fevereiro de 2001), cantor, compositor e jornalista.

- Francesco De Gregori (Roma, 4 de abrio de 1951), cantor e compositor.

- Ernesto Bassignano (Roma, 4 de abril de 1946), cantor, compositor, jornalista e condutor radiofônico.
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- “I pini di Roma” que não se quebram são os pinhos de um dos poemas sinfônicos da Trilogia Romana, de Ottorino Respighi (1879-1936).
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- Folkstudio era o atelier e estúdio do pintor e músico americano Harold Bradley, situado no porão de uma casa no bairro de Trastevere, em Roma. Como muitos artistas se reuniam ali, transformou-se num círculo cultural (uma espécie de bar/restaurante só para sócios – onde qualquer um pode entrar, desde que compre (normalmente por um preço simbólico) a cateira da associação. Muitos músicos se apresentavam no local, como, por exemplo, um jovem desconhecido que se apresentou em 1962 para umas quinze pessoas presentes, um certo Bob Dylan. Venditti, De Gregori, Lo cascio e Bassignano cantavam no Folkstudio.
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- Maturità é o correspondente italiano do vestibular.
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- A canção fala de uma noite de verão, com o tempo que viaja em lembranças e épocas diversas. Os quatro rapazes citados no início são os quatro amigos, saindo de algum local onde se apresentaram, carregando os instrumentos. “Un pianoforte sulla spalla” é a recordação dos amigos quel he ajudavam a carregar o piano nas costas, após as apresentações, como o próprio Venditti contou em diversas entrevistas. “La vita non li spezza” – a vida não os quebra, referindo-se aos sonhos que perseguem. Conversam sobre banalidades, como as secretárias que se casam com advogados, e coisas sérias, como “le bombe delle sei”, referindo-se a duas bombas no atentado ao monumento Vittoriano (Altar da Pátria, sempre em Roma), em 1969.  A cena muda para um jovem casal que se encontra na noite da véspera do vestibular. Não se vêem há uma semana, ela desafiou o pai e o irmão para encontrá-lo. Na confusão de emoções que se misturam – o encontro proibido e o vestibular –, pai e irmão parecem Dante e Ariosto, dois poetas muito aproveitados nos vestibulares. Enquanto os jovens se amam (non fermare ti prego | le mie mani | sulle tue cosce tese | chiuse come le chiese | quando ti vuoi confessare), Roma vive a vida noturna de sempre: sons de sirenes, ambulância, polícia e – talvez – alguém que perdeu a vida (forse qualcuno te lo sei portato via), pais acordados  por bebês, avós insones nas janelas, atores jovens que acordam cedo para enfrentar a fila de provas de Cinecittà. Ele volta para casa e se lembra que é dia de vestibular, chora e reza, enquanto os aviões voam entre Nova Yorque e Moscou (que somente voando podia-se ultrapassar a cortina de ferro, durate a guerra fria) mas não consegue deixar de pensar a Claudia, sua amada. Nova cena, Venditti se vê adulto, cantor de sucesso e observa as luzes do palco.
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Notte prima degli esami

Io mi ricordo, quattro ragazzi con la chitarra
E un pianoforte sulla spalla
Come pini di Roma, la vita non li spezza
Questa notte è ancora nostra

Ma come fanno le segretarie con gli occhiali a farsi sposare dagli avvocati?
Le bombe delle sei non fanno male,
È solo il giorno che muore, è solo il giorno che muore
Gli esami sono vicini
E tu sei troppo lontana dalla mia stanza

Tuo padre sembra Dante e tuo fratello Ariosto
Stasera al solito posto, la luna sembra strana
Sarà che non ti vedo da una settimana

Maturità, t'avessi preso prima
Le mie mani sul tuo seno
È fitto il tuo mistero

Il tuo peccato è originale come i tuoi calzoni americani
Non fermare ti prego le mie mani
Sulle tue cosce tese chiuse come le chiese
Quando ti vuoi confessare

Notte prima degli esami, notte di polizia
Certo qualcuno te lo sei portato via
Notte di mamma e di papà col biberon in mano
Notte di nonno alla finestra
Ma questa notte è ancora nostra

Notte di giovani attori, di pizze fredde e di calzoni
Notte di sogni, di coppe e di campioni
Notte di lacrime e preghiere
La matematica non sarà mai il mio mestiere

E gli aerei volano in alto tra New York e Mosca
Ma questa notte è ancora nostra
Claudia non tremare
Non ti posso far male
Se l'amore è amore

Si accendono le luci qui sul palco
Ma quanti amici intorno
Mi viene voglia di cantare
Forse cambiati, certo un po' diversi
Ma con la voglia ancora di cambiare

Se l'amore è amore, se l'amore è amore
Se l'amore è amore, se l'amore è amore
Se l'amore è amore



Sunday, March 04, 2018

Eleições na Itália



Hoje é dia de eleição parlamentar na Itália. Um dia muito frustrante.

Começo com redescobrir que o enorme título de eleitor não cabe em nenhum bolso. No caminho entre a nossa casa e a seção, vou pensando em como será a afluência, se vai ter fila, se só os idosos irão votar; me preocupo em desviar de cocô de cachorro pelas calçadas, além da neve. Neve em março!

A fila está curta, mal sinal. Um mar de mulheres e poucos homens Hmm... Mas se são os homens que passam o dia discutindo política? Cadê os jovens? Dormindo depois da noitada? Ou somente dormindo?

Depois que chegamos a fila aumenta. Tá melhorando. Na entrada da seção tem um cartaz informando que por causa de uma lei blá blá blá só pode votar uma pessoa de cada vez. Oi? Entro e deixo carteira de identidade, título e celular. A mesária encontra meu nome na lista, avisa aos outros que posso votar e eu passo para os dois das urnas para pegar as minhas cédulas. São duas: uma para a Câmara dos Deputados e outra para o Senado. Só quem tem mais de  25 anos pode votar para o Senado. Oi? Antes de me entregar os lençois dobrados, que são as cédulas de votação, cada um dos mesários das urnas lê um código em voz alta, que a primeira mesária anota ao lado do meu nome, na lista. Oi? Entro na cabine, desdobro as cédulas, voto e dobro de novo. Uma complicação porque as cédulas são grande pra cacete e as assinaturas do presidente da seção e de mais sei lá quem, devem voltar à parte externa. Entendo porque as pessoas mais idosas estavam demorando tanto. Devolvo as cédulas aos mesários das urnas que devem, na minha frente, reler em voz alta os meus códigos para a mesária conferir com os códigos anotados, destacar o canhoto com os códigos da cédula e finalmente, colocar as cédulas nas respectivas urnas, uma para a Câmara e outra para o Senado. Pego meus documentos e celular e saio.
Oi? Oi? Oi?

O pior é saber que há grande probabilidade de que essa eleição venha a ser anulada, se não houver um partido ou coalizão que alcance pelo menos 35% dos votos; que o Presidente da República deverá solicitar ao parlamento de instituir uma nova lei eleitoral em três meses (ou setenta dias, já não lembro mais como ficou na última mudança), quando tornaremos a votar. Porque não pensaram nisso antes? Pensaram. E o resultado foi mais uma merda.

Desde 1994 nenhum governo eleito concluiu o próprio mandato. O período da legislatura é de cinco anos, mas as coalizões/conchavos estabelecidos para governar sempre dão xabu. Eis a lista dos primeiros ministros desde 1994:

Silvio Berlusconi - 10 de maio de 1994 a 17 de janeiro de 1995

Lamberto Dini (governo técnico) - 17 de janeiro de 1995 a 17 de maio de 1996

Romano Prodi - 17 de maio de 1996 a 21 de outubro de 1998

Massimo D’Alema - 21 de outubro de 1998 a 22 de dezembro de 1999

Massimo D’Alema (bis) - 22 de dezembro de 1999 a 25 de abril de 2000

Giuliano Amato - 25 de abril de 2000 a 11 de junho de 2001

Silvio Berlusconi - 11 de junho de 2001 a 23 de abril de 2005

Silvio Berlusconi (bis) - 23 de abril de 2005 a 17 de maio de 2006

Romano Prodi - 17 de maio 2006 a 8 de maio de 2008

Silvio Berlusconi - 8 de maio de 2008 a 16 de novembro de 2011

Mario Monti (governo técnico) - 16 de novembro de 2011 a 28 de abril de 2013

Enrico Letta - 28 de abril de 2013 a 22 da fevereiro de 2014

Matteo Renzi - 22 de fevereiro de 2014 a 12 de dezembro de 2016

Paolo Gentiloni - atual Primeiro Ministro desde 12 de dezembro de 2016
Dessa lista, excluindo os dois governos técnicos de Lamberto Dini e Mario Monti (apresentados pelo presidente da república e aceitos pelo congresso - ou pela tia da minha vizinha. Aquela que já se foi), apenas Silvio Berlusconi é de direita. Ou seja, nem quando assume o poder a esquerda italiana consegue se entender.

Ficou com alguma dúvida? Quer fazer alguma pergunta? Não pode. Se nem eles sabem como funciona (aliás, não funciona) essa bagunça, você acha que eu vou conseguir explicar alguma coisa?
Pensei em votar no Tiririca, lembrei que ele pulou fora.