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Sunday, April 08, 2012

A Páscoa na Itália

A Páscoa, essa festa utilizada para vender ovos de chocolate e muito sal de fruta, deveria representar a comemoração mais importante da Igreja Católica, recordando a ressurreição de Jesus e a instauração da Nova Aliança. A transferência do significado da Páscoa hebraica na nova Páscoa cristã – com significativas mudanças – foi há muito tempo e ninguém se lembra mais, apesar da insistência litúrgica mantida nas igrejas e templos ainda hoje.

Na Itália a tradição manda servir cordeiro no Domingo de Páscoa, numa clara simbologia à crucificação. Ou seria um prêmio para quem passou 40 dias se abstendo de carne, se alimentou de peixe na Semana Santa e se manteve longe do chocolate

A Semana Santa começa com o Domingo de Ramos, que lembra a entrada de Jesus em Jerusalém e é o início dos preparativos para a grande comilança dos ovos de Páscoa e da colomba pasqual, uma parente do panetone em forma de pomba (colomba, em italiano); Segunda, Terça e Quarta-feira santas contemplam principalmente a traição de Judas por trinta dinheiros, que é máximo que se pode gastar em presentes e guloseimas no período. Os excessos são debitados no cartão de crédito; a Quarta-feira Santa é o último dia de aula antes das férias de Páscoa, quando os estudantes dão graças-a-deus pela folga. As aulas reiniciam religiosamente na Quarta-feira seguinte; na Quinta-feira santa se celebra a “Missa do Crisma”, quando são consagrados os Santos Óleos e quando acontece a renovação das Promessas Sacerdotais. É, também, o dia do Lava-pés, quando o sacerdote lava o direito de 12 homens, como Cristo fez com seus discípulos na Última Ceia. Uma tradição que corre o risco de desaparecer junto com todos os fieis, que na Quinta-feira Santa estão longe, provavelmente em alguma ilha tropical, lembrando, quem sabe, que o tríduo pascoal (paixão, morte e ressurreição) inicia exatamente na Quinta-feira; A Sexta-feira Santa é o dia da morte de Cristo na Cruz, quando, por volta das três da tarde é celebrada a Paixão de Cristo.  

Um amigo me confessou que na última Sexta-feira Santa estava bem longe e que às três da tarde estava na terceira caipirinha, em via crucis pelos bares; o Sábado Santo celebra a Eucaristia e muita gente vai à missa. Gente que não viajou para uma ilha tropical, é claro. Tem, ainda, a missa da Véspera de Páscoa, celebrada à noite, que é considerada a mais importante de todo o Ano Litúrgico. Muitos aproveitam para esticar a noite em algum boteco; Domingo de Páscoa (ou Domingo da Ressurreição) é um dia de festa e todos podem sair para festejar nas discotecas, restaurantes, igrejas ou em casa. E que podem, festejam mesmo; a Segunda-feira de Páscoa (Pasquetta ou Lunedì dell’Angelo) é feriado na Itália e comemora-se o encontro do anjo com as mulheres (Maria, Maria Madalena, Maria Salomé, Maria de Cleófas e Maria de Betânia) no Santo Sepulcro. Dia de comer forarestaurante ou picnic – de festejar com os amigos, de digerir o almoço de Páscoa e o chocolate.

Depois? Depois a vida recomeça, as aulas reiniciam, as dietas para enfrentar o Verão dentro das roupas de banho pipocam como os restos de ovos de Páscoa. E começa-se a organizar o Ferragosto: “aonde é que vocês foram nesta Páscoa…?”
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Sunday, January 22, 2012

Distraído

▬ Quer comprar uma casa? Fachada amarela, dois quartos?

▬ …Hein?

▬ Uma calça. Quer comprar uma calça? Aquele tipo de calça de bombeiro, amarela?

▬ …Calça?

▬ Capa, capa! Uma capa amarela com dois bolsos imensos.

▬ E o que eu vou fazer com uma capa? Faz três meses que não chove.

▬ Cabra. Uma cabra meio amarela, com dois filhotes. É de raça.

▬ Cara, do que a gente ‘tá falando, hein?

▬ Bom, eu queria saber a sua opinião sobre as novas medidas do governo e o que você acha dessa história de governo técnico.

▬ ‘Cê virou jornalista agora, é?

▬ Não, mas estou me sentindo meio perdido com todo mundo criticando, até mesmo quem declarou apoio. Depois, se o Kaká for mesmo para o Paris Saint Germain…

▬ ‘Cê quer me deixar maluco, é? Capa, governo técnico, Kaká e PSG...? Afinal, você é contra ou a favor desse governo técnico que ‘tá aí?

▬ Eu não sou nem contra, nem a favor, muito antes pelo contrário: eu sou a favor de que alguém seja contra, porque em termos de certas coisas eu acho que não tem nada a ver, tipo, sei lá!, sabe?

▬ ‘Bora tomar outra cerveja?

▬ Hmm…

▬ ‘Bora tomar outra cerveja? Eu pago.

▬ Garçom, outra cerveja!

▬ Mas tem uma condição: vamos mudar de assunto.

▬ …! (suspiro)

▬ …‘Cê tem mesmo uma casa amarela pra vender?
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Sunday, November 13, 2011

Suas lesmas!



 

Tuesday, June 21, 2011

Inventando necessidades


Faz o jantar hoje, filha?

Pra quê a gente tem que comer, hein? Quem inventou essa história? Seria tão bom se a gente vivesse de ar.

Quer virar orquídea?

Até que não seria má ideia.

Imóvel em cima de uma árvore ou num xaxim, chuva, poeira, sol forte

Mas se a gente não tivesse aprendido a comer a gente seria mais livre. A gente não sente necessidade do que não conhece. O que os olhos não veem…

A gente, a gente! Saco vazio não pára em . E não sei se os inventores e o pessoal do marketing concordariam com você.

Como assim?

São as invenções que nascem das necessidades, e não o contrário. Às vezes a necessidade pode até ser estimulada ou inventada, mas será sempre a necessidade a vir primeiro.

Claro que não! As pessoas inventam as coisas e os outros aprendem a usar, consumir. E passam a ter necessidade.

Hum, então tive uma ideia: vou inventar um gerco portátil.

E que diacho é um gerco?

Um instrumento que serve para polgar o menefisto.

Eu conheço “googlar”, “deletar” e outros babados, mas não tenho a menor ideia do que é polgar e menefisto. Explica.

Ah, nem vem! Eu vou invetar o gerco portátil, quem quiser que invente o polgar e o menefisto! Eu quero é ficar rico. Vai fazer o jantar, vai.
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Sunday, June 05, 2011

Glam

As discotecas fazem muito sucesso por aqui. Ainda. Não existem boites e as opções de lazer – construídas pelos homens – devem oferecer música e ambientes fechados, ou funcionarão três meses por ano. , ainda, o problema da paz pública, o que as faz se instalarem em zonas desabitadas. Além disso, as discotecas são opção para os jovens a partir dos 16 anos; gasta-se pouco, passa-se a noite e tem-se a impressão de já ser adulto. Até que um dia o adulto descobre que não é divertido ser mais um no meio daquela multidão doida para ser adulta, abdicando-se da música em volume lobotomizante até que os filhos (ou filhas, no meu caso) atinjam a idade de frequentar discotecas. Mas a partir de então, seremos apenas motoristas.

Ela ensaiava há tempos uma tática que me demovesse da decisão de frequentar discoteca depois dos 18. A ocasião apareceu com a festa da amiga. Reapareceu, pensando bem, pois a festa da escola do ano passado não contou com a presença dela, ainda com 15 anos. A animação nem era tanta e resolvi ceder. Não sem antes deixar claro que a próxima vez seria aos 18 (esperando que nenhuma outra amiga resolva comemorar o aniversário em uma discoteca antes).

Oito da noite. Um bando de meninas invade o apartamento e se entrincheira no quarto dela. O barulho dos saltos altos no pavimento de madeira se funde com o ininterrupto tagarelar. A porta fechada não encobre o barulho das granadas e metralhadoras. Às dez e quinze a tropa sai pronta para abater o inimigo, qualquer que seja ele. Uma parte se despede e desce para esperar o pai motorista de uma delas; as restantes me olham radiantes, esperando os elogios que prontamente chegam. A irmã mais velha saiu há mais de uma hora, com destino mais tranquilo e um sorriso maroto de quem passou por isso. As senhorinhas vestidas de noite, maquiadas e equilibradas sobre saltos muito altos me apressam, como se eu não tivesse passado a noite esperando para levá-las.

Deixo-as na frente da discoteca Glam, em Sarmato, a 18 quilômetros de casa, e descubro que todas conbinaram vestir-se do mesmo modo. A caravana de pais não se atreve a entrar no amplo e engarrafado estacionamento, sob pena de ficar preso até às duas da madrugada, limite dado às debutantes disco. Volto no horário marcado, como todos os outros pais. As senhorinhas não parecem tão entusiasmadas nem tão elegantes como na chegada. Pela quantidade de meninas mancando imagino que uma epidemia abateu-se nos saltos altos da discoteca. O grupinho finalmente encontra o carro à entrada do estacionamento, comigo dentro. Ela está abatida e desiludida; os adultos não frequentam o lugar; os pés doem e há uma ponta de inveja da irmã mais velha: não há uma irmã mais nova para o futuro sorriso maroto. consegue murmurar: “Nunca mais!”
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