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Sunday, December 01, 2019

Hospital italiano


Gianni tem 72 anos, mas parece ter um vinte a menos. Média estatura, magro, sorriso fácil. Ele e a atual esposa – vinte anos mais jovem – são ciclistas apaixonados. Viajam de bicicleta por toda a Europa. E foi justamente uma bicicleta que o trouxe até aqui. No sentido figurado, ao menos. Passeavam numa tarde de domingo pela val Trebbia quando decidiram ir para a val d’Aveto e encontraram uma cratera. No final das contas, foi uma ambulância que o trouxe. Nenhum osso quebrado, só uma luxação num dedo da mão esquerda e um enorme hematoma nas costas, o que minimizou o joelho inchado e os muitos arranhões. Alguns leves, outros, profundos. A forte dor nas costas o impossibilitava de ficar em pé, que dirá de caminhar. Os muitos exames não revelaram traumas na cabeça, só no bolso: a bike de mais de seis mil euros acabou no ferro velho. Gianni tem apenas três dedos na mão direita. Uma prensa hidráulica lhe esmagou a mão trinta anos atrás. Tinham-na dada por perdida e seria amputada. Foi o médico bebum, idoso e desacreditado quem decidiu que meia mão era melhor que nenhuma. O indicador foi transformado numa pinça para permitir pegar objetos. E Gianni estava lá, adaptado e feliz. Feliz por não ter quebrado nada, feliz pela sua esposa passar quase o dia inteiro com ele, feliz com a meia mão. Fez amizade com todo mundo, sorrindo e batendo papo.

— Gianni, você precisa se esforçar. Procure levantar e caminhar um pouco, mesmo com alguma dor.
Ele olhou o médico e não disse nada. As pupilas e narinas se expandiram, a respiração mudou de ritmo. Só olhava.


Enrico foi largado no hospital. Pelas caras da esposa e da filha – acho que era filha – ficou claro que fora levado contra a sua vontade para o hospital. Passou os primeiros quatro dias deitado sem falar ou reagir, apenas alguns “não sei” quando o médico perguntou que remédio tomava para o coração, para o diabetes e outras questões de saúde. A mesma  bermuda, a mesma camiseta, barba por fazer e uma absoluta ausência do mundo. Vinte e quatro horas de silenciosa imobilidade por dia. Ia ao banheiro, pé enfaixado mancando, beliscava a comida que traziam, dormia e mergulhava na mudez. No quinto dia reapareceram a mulher e a filha. Levaram roupa limpa, pijamas, produtos de higiene e um pouco de conforto. Aos poucos descobriu-se que Enrico tem 74 anos, o pé direito em péssimas condições por causa da doença e um cateterismo que identificou a necessidade de uma angioplastia. Enrico serviu o Exército Italiano como paraquedista, trabalhou na construção civil e criou com a esposa as duas filhas. Aposentou-se e foi prestar serviço no bar da esquina. Cabeça dura, se recusava a ir ao médico e evitava passar perto de hospitais. Homem rude, um verdadeiro “duro”, Enrico. Sorriu quando recebeu a visita do neto de treze anos, internado por um pé quebrado no futebol, levado em cadeira de rodas ao quarto do avô. A outra vez foi quando um OSS (Operador Sócio Sanitário, o antigo auxiliar de enfermagem) se propôs a fazer-lhe a barba. Um sorriso de menino no espelho e um curativo no pequeno corte da lâmina de barbear. Um novo cateterismo, duas angioplastias e a proibição de colocar o pé direito no chão. A situação era complicada e teria que ser operado. Enrico continuaria internado, esperando a cirurgia. Ele mesmo declarou que não voltaria ao hospital, caso saísse. Descobriu-se que a esposa e filhas tinham ido todos os dias ao hospital naqueles primeiros quatro dias, que advertiram que ele não voltaria, que tinha sido levado praticamente à força, o que as fez abandoná-lo, no início. Enrico, emburrado atávico, mas de coração bom, diabético, cardiopata e silencioso.

Domenico velho de guerra. De família numerosa, recebia visitas o dia inteiro – inclusive fora do horário de visitas – de amigos, ex-funcionários, parentes e conhecidos. Reclamava. Casado a mais de cinquenta anos, dividia a atenção entre a esposa, os filhos, amigos e ex-colegas. Reclamava do sol, da chuva, do calor, do frio do ar-condicionado, da comida do hospital, da pouca atenção (sic) da equipe médica, da limpeza (duas vezes por dia), da política, do mundo e até de você, que nunca o viu mais gordo. Com 78 anos, era um eterno insatisfeito. Reclamava do colega de quarto, Enrico, que nunca falava, que ia ao banheiro e não o deixava limpo, que parecia um bicho, como se Enrico não estivesse ali, ocupando uma das três camas do quarto. “Aquele ali não é normal”. Nas poucas vezes em que não havia visita com ele, colocava ambas as mãos no peito, junto ao corpo e praticava  um lento e contínuo movimento com os dedos, fazendo o polegar deslizar nos outros dedos, do mínimo ao indicador. Se percebia que alguém notava, explicava que era um truque hindu para acalmar a mente. O diabetes tinha causado um estrago no pé direito e ele estava ali para uma nova cirurgia. Nos horários estabelecidos, as enfermeiras entregavam os remédios a cada paciente, tudo muito controlado. Ele agradecia, esperava a enfermeira sair, escondia os remédios que lhe foram entregues e tomava os que trouxera de casa. “Ah, esses médicos não sabem de nada. Esses remédios genéricos não têm a mesma eficácia dos de marca. Sou eu o meu próprio médico.”

O controle no hospital é rigoroso, tudo registrado e anotado, remédios com hora certa, dietas sendo respeitadas, limpeza, organização e cuidados acima do esperado.

Gianni voltou a andar quatro dias depois de dar entrada, com o auxílio de duas muletas. Mais uma semana, um procedimento cirúrgico para a aspiração do hematoma nas costas e tornou a caminhar normalmente, carregando pra cima e pra baixo um saco de drenagem com o tubo inserido nas costas. Recebeu alta poucos dias depois. Llivre da drenagem, comprou uma bicicleta nova e contratou um advogado para processar a prefeitura onde se encontrava a cratera. Atualmente está pedalando por aí.

Domenico foi transferido para outro hospital, sempre reclamando (mais de cinquenta anos de casado, santa esposa), para submeter-se à nova cirurgia. Vai reclamar até o fim dos tempos. E isso é tempo pacas!

Enrico continua internado, aguardando a cirurgia. Poderia ter ido pra casa esperar a nova internação com tranquilidade e conforto, mas se sair, Enrico não volta. Ah, não volta, não.

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Obs.: val Trebbia e val d’Aveto são as zonas adjacentes do rio Trebbia e do riacho Aveto, respectivamente, e não apenas o vale dos cursos d’água.

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Sunday, April 23, 2017

Democracia alheia



Dois mecânicos conversavam ontem, sábado, 22 de abril, num bar de Cremona, Itália.

▬ Seria legal se voltássemos a ter um rei.

▬ Tá maluco…?

▬ Um cara meio doido, que executasse quem se aventurasse a lhe fazer oposição.

▬ Entrou pro partido da monarquia? Eu é que não quero viver à sombra de um mandão decidindo a minha vida.

▬ Um rei com uma meia dúzia de ministros e mais os parentes e cunhados – que cunhado não é parente – livres de roubar. Um rei e seus quarenta ladrões.

▬ Da última vez não deu certo…

▬ Isso porque vieram com aquela conversa mole de igualdade, liberdade…

▬ E você acha correto deixar a nobreza roubar do povo?

▬ Seriam só uns quarenta, cinquenta. Hoje, quantos são? Dez mil, vinte mil?

▬ Ainda prefiro a democracia.

▬ O quê…? Não escolhemos em quem votar, votamos em quem decidem eles; reduzem os nossos benefícios e salários, enquanto os deles só aumentam; chamam de vagabundo quem trabalhou a vida toda pra se aposentar; decidem até o que podemos ou não fazer e criam leis para se protegerem… Se isso é democracia, então eu não sei o que é ditadura.

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Saturday, March 26, 2016

Preparação para a Páscoa - 2016

Check list de Páscoa:

- Igreja? R: tem uma em frente de casa

- tira-gosto? R:...esqueci

- comida? R: tem de montão

- ovos? R: tem. Inclusive de chocolate

- bacalhau? R: alguém vai ter que cozinhar


- colomba? R: comi


- cerveja? R: umas caixas


- amigos? R: só os que comem pouco e trazem cerveja


- pão de queijo? R: congelado (vale como tira-gosto?)


- vinho? R: e o que cê acha que eu fui fazer em Ziano Piacentino ontem?




Sunday, October 20, 2013

Copo de geleia





Aqui em casa é proibido comprar Nutella em copo. Qualquer embalagem é permitida, inclusive as maiores (não, as gigantes não), só não pode ser em copo. Sabe aqueles copos promocionais cheios de desenhos ou com a marca do produto? Aqueles da geleia de mocotó? Aqueles que não quebram nunca e ficam lá no meio dos copos que custaram uma fortuna e que acabam sendo usados, quando as visitas são muitas? Pois é, aqui em casa é proibido comprar.

Algumas coisas merecem durar para sempre. Outras, não. Apesar da minha obstinação contra o desperdício e o descartável, o passado não pode ser arrastado no dia a dia. Mesmo que esse passado seja apenas um copo promocional inquebrável. E “inquebrável” explica tudo.

Levanto no meio da noite – sem acender luz, que me incomoda e me desperta – para beber água e adivinhe que copo pego no escuro?  Na hora de quebrar os ovos da receita e com as mão cheias de massa, sabe qual é o único compo limpo? Uma amiga das meninas vai à cozinha pegar um copo de suco ou chá gelado e... Sim, sempre ele. Já tentei guardá-lo diversas vezes junto com os copos de vinho, mas o copo reaparece sempre. Misteriosamente. Jogar fora, reciclar, deixar escorregar? Sou contra o desperdício e o descartável, lembra?

O primeiro copo decorado de Nutella durou anos e resistiu a muitas quedas. O último, comprado por falta de opção de outras embalagens durante uma crise de abstinência, no mercadinho próximo de casa, já completou alguns aniversários e vem participando do cotidiano familiar impávido e infrangível, rumo à eternidade.

Me peguei pensando porque não o mando à reciclagem, como todas as outras embalagens que vieram depois dele. Raspando um vidro de Nutella quase vazio, olhava filosoficamente para o copo e o imaginava em meio às chamas, junto a tantos outros vidros que derretiam e tornavam a ser simplesmente matéria prima, para outros vidros ou copos, tanto faz. Acho que ele resistiria e ficaria lá, atrapalhando o processo produtivo e impedindo o fluxo do mercado global.

Pensei em mandar de presente para você. Quer? Só espero que não quebre na viagem.
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Wednesday, March 20, 2013

Caruso

Minha insônia agora tem companhia. Há uns dez dias, apesar das temperaturas não deixarem dúvidas sobre a intensidade e a longevidade desse inverno, o Caruso vem anunciando a primavera. Caruso é o melro-preto [Tuldus Merula], um pássaro canterino que mora em frente, do outro lado da rua, no telhado da igreja. Já virou tradição escrever sobre o Caruso e prefiro não interromper tradições (veja AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI). Canta, Caruso. Canta.

Telhados antigos devem possuir muito nichos, aberturas e espaços vazios. Ou isso, ou eu não sei porque tem tanto pássaro vivendo no telhado da igreja da frente e no convento nos fundos (são duas estruturas religiosas, uma na frente e outra nos fundos do apartamento onde moramos). Quando chega a primavera, falta telhado.

Nesses anos de Itália, ampliei meus conhecimentos sobre o melro-preto. Descobri o que já desconfiava: em regiões frias, o pássaro migra, sim. E Piacenza é muito fria durante o inverno. Deveria ter aprendido com ele, procurando sempre um clima agradável. Que lugar do mundo tem primavera quando aqui é inverno? E outono, quando aqui é verão?

O retorno do Caruso é sempre um momento de festa. O que me faz lembrar de começar a deixar migalhas no balcão da cozinha. Mas esse ano tem algo diferente, pois o bichinho começa a cantar por volta das três e meia da madrugada, três horas antes do nascer do Sol. Sou testemunha e vítima. Dou de ombros e tento me convencer de que deve ter alguma coisa de positivo em não conseguir cochilar pelo canto do passarinho. Mas que ele podia deixar para cantar depois das seis, Ah, podia sim.

O Caruso faz festa com migalhas, troca de ninho toda vez que a fêmea depõe ovos (o que acontece três vezes por ano) e, ao que parece, passou a sofrer de insônia. Eu também não dormiria se fizesse tantos filhos assim. O Caruso parece não se importar muito com os vizinhos, não tem prestações nem faculdade dos filhos. Também não paga impostos, não enfrenta filas nem tem que lidar com a burocracia. Vai ver, é por isso que está sempre feliz. Canta, Caruso. Canta.
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Thursday, February 14, 2013

Luli bijou

Minha filha Luiza fazendo gracinha por 7 segundos:


Sunday, January 27, 2013

O avesso do contrário

Tem alguma coisa errada com essa sociedade. O cidadão foi julgado culpado de extorsão e começou a gincana da captura dele. De um lado, as polícias de metade da Europa; do outro, milhares de fãs que torciam e deixavam mensagens de incentivo Internet afora. Onde foram parar os mocinhos que salvarão o mundo?

Noutro dia me surpreendi lendo o depoimento de um artista que admiro: “Além disso, o cara é muito arrogante. Como não gostar de um cara assim?” Concluí duas coisas: a primeira, que na realidade admiro a obra dele, e não o artista em si; a segunda, que subestimei a minha capacidade de me surpreender.

Anos atrás escrevi sobre o efeito nocivo dos telefones celulares nos jovens. Bem, os jovens cresceram e contaminaram todo mundo. A vida virtual tornou-se mais importante que a vida real (aquela em que as pessoas devem sentar em redor de uma mesa para fazer as refeições, dormir, lutar para melhorar e – quem sabe – comprar novos celulares), e é por isso que ela deve poder ser vasculhada e divulgada. Certamente vai estar longe da vida real escondida a sete chaves e sem conexão.

 Mensagens curtas, artigos de jornal curtos, matérias de TV superficiais. Muitos SMS, compartilhar, curtir, smiles. A vida telegráfica para poder se multiplicar em todos os lugares onde houver alguém disposto a retribuir o breve e fútil contacto. E pensar que são poucos os que hoje ainda sabem usar o código Morse.

Pensei em criar um site para desensinar a vida como ela é. Mas me dei conta , desaprendendo, as pessoas não iriam conseguir acessar o site e desanimei. Como desensinar de maneira contínua? Acabei indo parar na desciclopédia e pensei: “quantos malucos acabam levando a sério textos irônicos como este?” clique aqui

Quer saber? Melhor deixar tudo como está e esperar para ver aonde esse mundo vai parar. Quem sabe dou sorte e não estou mais aqui para descobrir a resposta?

Tuesday, December 11, 2012

Fim do mundo na Itália



Segunda de manhã, o bar cheio de gente que toma café para espantar o frio de -4 ºC. São operários, motoristas de caminhão, o rapaz das entregas, o frentista, viajantes, enfim, gente que acorda cedo. O pessoal de escritório começa mais tarde e perde parte do espetáculo cotidiano, onde todo mundo comenta os últimos acontecimentos, impressos nos jornais espalhados pelas mesas do bar.

...Com a saída do Professor Mario Monti a economia italiana volta pro buraco

Mas se ele deveria conduzir um governo técnico e não fez nada...?

É verdade, ele anunciou um monte de medidas que já tinham sido tomadas como se fossem dele...

Uma coisa ele  fez: aumentou todos os impostos. Assim, até eu!

Será que a Itália vai sobreviver à volta de Berlusconi?

Bem, a alternativa não é mais confortante. A alternativa é Pier Luigi Bersani...

...Itália? Será que a Europa vai sobreviver?

Todo esse falatório por nada. A eleição só será antecipada de umas quatro ou cinco semanas. E os candidatos são sempre os mesmos. Ou alguém esperava que aparecesse um novo salvador da pátria uma semana antes da eleição?

Ah, o meu voto será de protesto...

O único candidato “de protesto” é o Beppe Grillo [cômico italiano].

...A nossa última esperança é o calendário Maia.
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