Showing posts with label comparando. Show all posts
Showing posts with label comparando. Show all posts

Sunday, April 06, 2014

Pão e salame



No início do mês passado (Março) fui levar a Bianca ao Istituto Humanitas, em Rozzano, uma cidade da região metropolitana de Milão. Ela precisava fazer os exames preoperatórios para uma pequena cirurgia no ombro direito que, rebelde, costumava sair do lugar. Chegamos cedo e ficamos em jejum – ela por força dos exames, eu por solidariedade – até à uma da tarde. Fizemos um lanche no bar do hospital e voltamos para completar os exames. Como a programação das visitas com o anestesista, a enfermeira e o cirurgião era a partir das três e meia, fomos almoçar. Às seis e meia saímos do hospital com tanto papel que não tinha dúvida de que a cirurgia seria feita por um advogado.

No final do mês, lá fomos nós de novo. Dessa vez para a cirurgia (day hospital). Chegamos às sete da manhã, depois de mais de uma hora de viagem. A Bia foi levada para a preparação às nove, nove e quinze. Eu e a Eloá decidimos que era hora de tomar café da manhã e fomos ao bar do hospital. Ai...! O café da manhã italiano se resume a cappuccino ou café e brioche doce. O meu se alarga pelos queijos, salames, pão, sobras do jantar, pizza gelada... E café. Vou me acotovelando com médicos enquanto vasculho o bar na busca por um pedaço de focaccia ou pizza, pergunto à atendente se há algo salgado e ela – de olhos arregalados – avisa que salgado só na hora do almoço.

Abandonei a Eloá com o livro dela e saí para procurar um bar. Em frente ao hospital eis que surge uma paninoteca (sanduicheria) diante do meu estômago. Fechada (quem, em Milão, entraria pra comer um sanduíche de manhã?). Caminho mais uns metros e encontro um “tudo na grelha”, também fechado. Vou até a esquina, pois lembrei da piadineria (piadina é uma tortilha pouco digerível recheada com a escolha do cliente, tipo misto quente) que simplesmente não poderia estar fechada. Mas estava. Caminhei desanimado até encontrar um bar, logo depois da banca de jornais que não vendia revistas, e deparo com o cartaz na entrada: “Pizzas, focaccias, sanduíches e pratos frios”. Sorri. Entrei e pedi dois sanduíches: um com coppa e um com salame (tinha caminhado muito e precisava repor o índice de gordura, as colorias, matar a fome, enfim). O balconista me olhou desconsolado e avisou que não tinha nada de salgado àquela hora.

Voltei derrotado ao hospital e deparei com a paninoteca abrindo. Entrei e comi. E decidi que da próxima vez levo de casa. Esperando que não tenha uma próxima vez. A Bianca? Está bem, obrigado.
.

Sunday, March 02, 2014

Nojo e inveja



Algumas diferenças culturais podem levar muito tempo para serem absorvidas, quando se muda de país. Seja por falta de tempo ou de disposição para o discernimento, a verdade é que alguns pequenos incômodos passam anos ali, como uma etiqueta grande demais na camisa, que você só lembra que precisa tirar quando já se abotoou e está saindo com pressa.

Assumo a responsabilidade pelas minhas falhas. A culpa é minha se passei tanto tempo brigando com o termo schifo (nojo, em italiano). Simplesmente não possui a mesma ênfase, a mesma conotação que em português. Não causa o mesmo impacto. Ou perdeu a força com a banalização do termo. “Não, obrigado. Eu tenho nojo de cuzcuz.” Dito em italiano, não chega a ofender o cozinheiro. Sim, um pouco de polidez seria cordial, mas essa é uma terra melodramática, cheia de ênfases e gestualidade. Não poderia ser diferente.

A inveja – confesso – ainda é um estorvo. Pequeno, mas estorvo. É difícil encontrar quem não aprecie a cozinha italiana, quem não admire a cultura, a história, a arte, a genialidade e os monumentos dessa terra. Quem, ao planejar a primeira viagem à Europa, excluiria a Itália do roteiro? Mas isso não significa ter inveja.

É lugar comum – incentivado pelos jornalistas e convidados de tvs, rádios, jornais e sites de informação – confundir admiração com inveja, na Itália. Às vezes, as frases têm efeito conrário, demonstrando um certo desconforto na comparação. Às vezes, não sempre. “...a nossa cozinha, que o mundo inteiro inveja!”, “É a França que deve ter inveja do nosso vinho!”,  “Temos que cuidar melhor nas nossas maravilhas, que são de causar inveja...” E por aí vai. Inveja daqui, inveja dali e uma falsa superioridade incomoda quem conhece outras terras, possui uma cultura diferente ou aprecia uma culinária mais vasta (incluindo a italiana). Não chega a dar nojo, mas um certo schifo, eu diria.

Agora, cá entre nós, aprendi a fazer um cuzcuz de causar inveja...
.

Monday, September 02, 2013

Lugar comum



A capacidade de observação carece de distância. É preciso olhar de fora para ter uma visão completa e esse é um dos motivos de tantos palpites errados na vida digital das mídias sociais.

De longe tenho aprendido a observar com mais atenção. Descobri que pontos de vista quase nunca refletem a realidade; são somente isso, pontos de vista. Inclusive os meus. A distância e o tempo ajudam a afinar a capacidade de discernir. Evitar lugares comuns, etiquetas, rótulos e frases feitas é somente consequência.

No início dessa nossa experiência em terras italianas, me irritava o uso excessivo de lugares comuns, como se enxergar o “copo meio cheio ou meio vazio” definisse alguém. Um dia me dei conta de que sempre fui contra a banalidade. Aos poucos fui baixando a guarda até não me importar mais (ou quase). Que cada um crie os próprios limites, desde que não precise do meu aval.

Vez ou outra me surpreendo com a minha arrogância, como quando me assusto com o uso de frases feitas por alguém de quem eu esperava mais. E quem sou eu pra esperar lucidez de quem quer que seja? A vida é muito curta. Rótulos, etiquetas, frases feitas e lugares comuns devem servir para simplificar; para dividir as pessoas em grupos e selecionar aliados e adversários, mesmo que eu não concorde com isso. Conscientes da brevidade da vida, as pessoas têm urgência em emitir opiniões, marcar território e dizer as próprias verdades. Talvez tudo aconteça com a esperança de fazer a diferença, de deixar uma marca no tempo vil e volátil, na futilidade que é a vida em tempos de Internet, comunicação virtual, avatares e desinformação orquestrada.

Continuo achando que, ao contrário das gírias, os termos inventados e as palavras adaptadas de outras línguas, que contribuem para enriquecer e manter vivo um idioma, os lugares comuns empobrecem a capacidade de criar, limitam, constrangem e levam à náusea. Na terceira vez que uma nova expressão tiver sido usada, já terá perdido a graça. Inflacionada, terá virado chatice.

Última coisa: “coxinha” não. Só consigo pensar nessa palavra ligada aos quitutes de bares e botequins, que eu adoro encher de pimenta até não mais. Coxinha me transmite uma imagem muito gostosa e não vou conseguir associar a nada de ruim. Inventem outra.
.

Sunday, August 04, 2013

Cutucada verbal



Italiano gosta muito de parecer mais europeu do que já é, como se a Itália estivesse mais ao norte, ali pros lados da Holanda e da Bélgica e, apesar de orgulhar-se por ser a Itália o berço do latim, mãe de outras línguas,  deixa claro que o italiano é uma língua única. Concorda?

Uma das diferenças entre brasileiros e italianos está no contato físico. Apesar do italiano ser festeiro e de gesticular teatralmente, os contatos no dia a dia na Itália respeitam uma certa formalidade, sabia? Já o brasileiro gosta mesmo é de um abraço apertado, tapinha nas costas e beijinhos no rosto, não é mesmo? Mas esse tipo de comportamento não deve ser repetido por aqui, ok?

O mesmo vale para quem gosta de cutucar, entendeu? Sabe aquela pessoa que cutuca com o cotovelo ou com a ponta dos dedos? Pois é, aqui também tem. Mas como o contato físico nem sempre é apreciado, usa-se a cutucada verbal, fui claro? E se você ficou na dúvida sobre o que eu chamo de “cutucada verbal”, vou logo esclarecendo: hein?, não é mesmo?, hum?, entendeu?, fui claro?, né?, e aí?, concorda comigo?, ok?, então?, sabe? ...(A lista é longa). Pior quando a cutucada é dupla, física e verbal.

Quem cutuca espera uma resposta, obriga a uma tomada de posição ou ponto de vista. A cutucada verbal tem sempre uma interrogação e a resposta deve concordar com a opinião do cutucador. Caso contrário a cutucada pode virar um soco, uma agressão: “Ah, você não sabe de nada!” [“non capisci un cazzo!”] Minha tática para evitar atrito e mal estar: basta um sorriso. O silêncio costuma falar mais, nessas horas. Entre a cutucada física e a verbal, prefiro a distância. Também fujo das perguntas fechadas (aquelas que só permitem uma resposta: “você não vai fazer isso, vai?”) e me defendo no silêncio. Afinal, a pergunta já se respondeu e o interlocutor só espera que eu concorde.

Se o tempo não me trouxe sabedoria, ao menos se ocupou de transformar a minha elegante diplomacia num gélido silêncio. Aprendi que não preciso responder nem ter opinião sobre tudo. Hoje sou mais zen: que cada um fale a besteira que quiser e será reribuido com um sorriso. Basta calar e sorrir, que sorrir foi das poucas coisas que restaram do jovem dândi. 
.

Sunday, July 14, 2013

Enquanto isso...


“O povo novo quer muito mais do que desfile pela paz” (Tom Zé)

Um amigo – comerciante de carros – exprimia a admiração dele pelos protestos no Brasil: “nós, italianos, jamais iríamos pras ruas exigir as mudanças de que tanto precisamos. Eu mesmo, me lamento dos efeitos da crise, tenho consciência de que a classe política poderia fazer muito, sou contra toda essa corrupção cuspida na cara da gente todos os dias, mas não teria coragem de ir às ruas. Prefiro ficar aqui, reclamando que as vendas caíram, reclamando dos políticos e botando a culpa no governo. Fazendo de conta que não sei que somos nós a escolher o governo.”

Italiano é capaz de mover o mundo para defender a receita tradicional da massa de todo dia, mas não move uma palha para tentar mudar o que realmente afeta a vida de todo dia. “Cambiare tutto per non cambiare nulla” [mudar tudo para não mudar nada]. Basta que algum político apareça na imprensa gritando palavras de ordem e dando socos na mesa. Aplausos, tapinhas nas costas, holofotes e a consciência de que no dia seguinte tudo continuará como antes.

Neste mês de Julho-verão, três assuntos dominam os noticiários e as conversas de bar: “Será que dessa vez o Berlusconi vai ter que se exilar pra não ir em cana?”; que jogador cada time comprou, está comprando, se interessa ou está fingindo que não interessa; como sair de férias sem gastar o dinheiro que a crise não permitiu ganhar.

A classe política vive num mundo virtual, no qual é obrigatório falar muito para não esclarecer nada. As leis se adaptam às necessidades dos legisladores e a aparência é de que tudo vai bem, obrigado; o futebol europeu está sendo vendido aos sheiks árabes e uns poucos jogadores fortunados começam a ganhar cifras estratosféricas. Diante de um cheque em branco, os astros do futebol trocam de time jurando amor eterno, até o próximo árabe; entre o delírio dos políticos e os salários futebolísticos, o italiano comum se envergonha em dizer que não tem dinheiro para viajar durante as férias e se esconde nas piscinas públicas longe de casa. Depois do verão, quando todos voltam à dura rotina de ter que se virar para sobreviver até o ano seguinte – quando (juram os políticos) tudo vai melhorar – , a regra é fingir não ter visto o colega de trabalho no mês anterior, escondido na mesma piscina de todos.

Quando chegará a hora dessa gente esbranquiçada mostrar seu valor? Será que o primeiro passo seria um desfile pela paz?