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Wednesday, January 23, 2008

Feliz Aniversário!

- Esse menino vive no mundo da lua.

Minha mãe tinha razão. Jamais conheci alguém tão distraído quanto eu. Ela mesma foi vítima dessa minha carcterística mais de uma vez: passei alguns anos dando-lhe os parabéns dia 22 de fevereiro. A cena era surreal: beijo, abraço, presentinho e ela alí, a ignorar-me, imóvel com um olhar gélido. Era como abraçar um poste. Não, acho que abraçar um poste seria menos constrangedor. Ao menos não haveria aquele olhar. Nunca dei bola nem entendi muito de horóscopo, mas sei que meu irmão Bruce, o caçula da família, é do signo de peixes e faz aniversário dia 14 de março. No meu método particular para não esquecer a data do aniversário dela, eu considerava que, sendo do signo de aquário, que é anterior ao signo de peixes, o aniversário dela poderia ser em fevereiro, que é o mês anterior a março. Mas por uma lógica matemática muito acima da minha compreensão, o aniversário dela é mesmo no dia 22 de janeiro e sob o signo de aquário. Desistí da astrologia e casei com uma mulher prática, daquelas que não esquecem datas importantes.

Na Itália as comemorações mudam de acordo com a idade. Até os 7, 8 anos, festinha na escola, no salão paroquial, no clube ou em qualquer outro lugar com disponibilidade para um bando de crianças. Os prédios não possuem salão de festas. Depois começam as saídas para as pizzarias; alguns levam a classe inteira, outros, os amigos mais próximos e nem sempre o convite inclui a conta. Leva-se a criança à pizzaria e enfia-se o dinheiro da pizza num dos bolsos. Alguns têm a gentileza de concordar antes e evita-se o constrangimento na hora da conta. Os presentes, qualquer que seja a participação na conta, são como um ingresso: sem pacotinho ninguém vai. Nós adotamos a prática de convidar os amigos mais próximos (uns 10 ou 15) e um casal de adultos, pais de um dos convidados. Fazemos duas mesas separadas, com os adultos em uma mesa à parte e pagamos toda a conta.

Passado a fase da pizza, começa a fase em que é o aniversariante quem deve levar uma torta e uma garrafa de vinho aos colegas no trabalho. Ou seja, fim dos presentes. À exceção dos parentes e uns poucos amigos realmente íntimos. O que me tem poupado inúmeras gafes, pois eu esqueço mesmo. Ainda vivo no mundo da lua. Passei anos com 23 anos; depois, me convenci de que tinha 27 e isso durou outros cinco anos, até que completasse 32, que durou por quase dez anos. As pessoas me olhavam meio de lado e repetiam: “32…?” Eu parava e pensava em que ano estávamos, fazia as contas e dava a resposta correta. Nunca me levaram a sério, pensavam ser mais uma das minhas brincadeiras. Melhor.

Mas ainda vivo no mundo da lua. E é esse o motivo desta carta. Sei que para você o seu aniversário é importante e até pensei em montar uma agenda com todas as datas (mais de uma vez), mas eu perderia a agenda, como perdi todas as outras. Juro que penso em você, caro parente ou amigo; às vezes penso em como você reagiria em determinada situação ou vejo algo que me faz lembrar você, ou lembro de alguma experiência que dividimos, seja um churrasco ou uma situação complexa, coisas que para você não tiveram a mesma importância que para mim. Pode ter sido somente um olhar, um ar de cumplicidade ou um sorriso na hora certa, por que eu vivo no mundo da lua e essas coisas são importantes por . Então, saiba: eu me preocupo com você, gostaria de ter mais notícias e de poder estar próximo nos momentos difíceis. Provavelmente, estarei morto de cansaço no dia do seu aniversário, vou acabar deixando para ligar mais tarde para não transmitir-lhe meu mau humor num dia tão especial e vou acabar esquecendo ou dormindo antes que o fuso horário me garanta encontrar você em casa. Ou, simplesmente, vou esquecer do seu aniversário, como às vezes esqueço do meu. Mas não vou esquecer de você, mesmo daqui a muitos anos. Como jamais esqueci a Nádia Pacheco, que me esninou a ler quando eu tinha três anos; como jamais esqueci a Denise, minha namoradinha dos cachos dourados de quando frequentava o Jardim da Infância; como jamais esqueci meus tios, primos que não vejo há muitos anos e sobrinhos; como jamais esqueci de qualquer outra pessoa que tenha participado da minha vida com um mínimo de importância. Lembrei de você neste momento e decidí antecipar-me, para não deixar passar essa oportunidade:

Feliz Aniversário!
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Monday, December 24, 2007

O Natal É Da Família

Caros e Caras,

Paz e saúde!

1976. Aquele foi o último Natal que passei em família. Lembro da casa dos meus avós em Macaé entupida de gente. Tudo parente. Lembro do meu avô, atônito, buscando um lugar em que não hovesse gente falando de gente. “Como você engordou!”, “você viu que a menina casou?”, “aquilo não é roupa para esse tipo de festa”, “gente, quem fez essa maionese deliciosa?”. Alguns minutos depois vi o velho Tonico do outro lado da rua, com um olhar perdido de quem se sente em culpa. Cheguei a pensar em ir falar com ele, mas desistí. Tudo o que ele queria, naquele momento, era estar sozinho.

Nos anos seguintes, preferi ajudar meu amigo Cláudio, com seus strudels e stollens no Embu. Tinha sempre um monte de trabalho por e o perfume dos doces faz parte da minha memória olfativa de modo permanente. O tempo passou, eu me casei e mudei. Em Salvador nasceram as filhas e comecei a dar uma importânia maior à festa. Uma festa que sempre achei hipócrita e excludente, que perdeu o significado religioso e que permite comemoração a pagamento. Não fui batizado e não professo nenhuma religião, mas a mensagem que o Natal me transmite é a solidariedade, a paz entre os homens e a inexistência das diferenças.

Com o tempo aprende-se a conviver com todos os tipos de pessoas, desde que haja a disposição de aceitar-lhes não apenas as qualidades e os acertos. Desse modo, a família se alarga, ultrapassando os limites do sangue. A minha família são as pessoas com quem me preocupo. Irmãos, mãe, tios, primos e todos os outros parentes, mas também são os amigos, por mais longe e sem contato que se encontrem. A essas pessoas espero e desejo que a vida lhes seja clemente e lhes faça sorrir.

Hoje o Natal é mais uma esperança que um sentimento. É o momento de desejar reencontrar cada uma dessas pessoas para conversar amenidades. Nos natais que se que se seguiram ao de 76 e até 86, pouco antes de mudar-me para Salvador, trabalhava com o Cláudio fazendo doces por mais de 30 horas seguidas. Nosso trabalho terminava por volta das 4, 5 da tarde do dia 24, quando entregávamos o último strudel, fluden, Stollen, Torta Silvana ou Floresta Negra. Quando recebíamos o último sorriso do último cliente satisfeito. Exaustos mas mais satisfeitos que as lojas ou os clientes particulares que servíamos todos os anos.

A esperança de um mundo melhor onde o sentimento do dever cumprido possa ser traduzido em um sorriso de satisfação, sem necessidade de palavras. Essa é a melhor lembrança dos natais que vieram depois da minha infância e que renasce a cada Natal passado com as minhas meninas.

sinto falta do delicioso perfume dos doces da casa do amigo Cláudio.


Feliz Natal a todos vocês.


Allan, Eloá, Bianca e Luiza.

...E você.

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