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Friday, June 28, 2019

'Panema


— Seu Zé, quantos quilômetros tem esse rio?
— O Panema? Num sei.
— O nome não é Paranapanema?
— É, mas aqui nós chama ele de Panema, mesmo.
— E como é que o senhor não sabe quantos quilômetros tem?
— Nunca midí. Eu sô pescadô, não agrimensô.
— Mas a quantos anos o senhor pesca nele?
— Ah, tem tempo. Nós vem pescá aqui desde que eu era muleque.
— E nunca teve a curiosidade de saber o quanto é grande?
— Eu venho pra pescá, num é pra tê curiosidade, não.
— Pescar o quê, se nós quase nunca levamos peixe pra casa?
— Você, que eu sempre pesco arguma coisinha.
— Eu teria vergonha de levar esses dois barbadinhos pra casa e dizer fui pescar.
— Tá certo, quem vai levá sou eu. Cê num pescou nada, até agora.
— Mas é isso, Seu Zé. Nós vimos sempre no mesmo lugar e aqui não tem peixe. Será que mais pra baixo ou mais pra cima é tudo igual?
— Nossa, como cê tá gastano português hoje! “Nós vimos” fez duê azureia. Né mais fácil dizer “a gente vem, nós vem”? Quando o rancho foi construído tinha muito pêxe aqui. Foi as barrage que acabaram cos pêxe.
— ‘Bora virar esse barco e descobrir o quanto ele é longo?
— Quando chegá nas barrage nós tem que carregá o bote nas costa.
— E qual é o problema?
— O problema é que o bote é leve, mas o motor, não. Come umas laranja. Laranja é a melhor coisa pra pescadô. Engana a fome e a sede. Vai vê, cê tá cum fome.
— Tô com fome, não, Seu Zé. Tô só curioso pra saber o comprimento desse rio.
— Acho bão cê cumê. Cê deve tá cum fome, sim. Vamu subí o rio, não.
— Mas eu só quero saber quanto mede o Panema. E nós comemos um churrasco agorinha, não tô com fome, não. Depois, que pescador é esse que traz carne e cozinheiro pra pescaria?
— Pescadô é pescadô, cozinhêiro é cozinhêiro. E se nós num traz o cozinhêro vamu tê que cumê estalazói.
— “Estalazói”?
— O pão cum mortandela, que é a única coisa que tem no bar do Jão. Aquele pão muxibento que istica qui nem elástico quando a gente morde.
— Aliás, não entendi por que nós viemos em cinco e só nós dois saímos pra pescar.
— O cozinhêro vem pra cozinhar; o Miguel e o Júlio pesca também, mas eles prefere pescá na margem. O Júlio às veiz vem no barco, mas só de salva-vida, que o bote virou com ele, uma vez.
— E se ele caísse aqui e só conseguisse sair no fim do Panema, quantos quilômetros iria nadar?
— Num sei. Mas acho que ele afogava antes. Depois, o Panema num acaba, ele só deságua no rio Paraná.
— Que o senhor não sabe quanto é longe.
— Não.
— Lembra quando levei o senhor pra pescar no Trebbia?
— Foi bão demais! Ô, rapaz!
— Lembra quantas trutas pescamos?
— E cumé que eu ia esquecê? Dizoito trutas.
— E a mulheres ficaram fulas da vida quando viram tanto peixe.
— S’isqueceram que truta num tem escama e acharam que elas que teria que limpar.
— Mas bem que gostaram de comer.
— Passa uma laranja pra mim.
— Péra, Seu Zé! Fisgou um aqui.
— Dá linha pra ele! ...Aperta um pouco a carritilha pra cansá o bicho, mas dêxa ele puxar. ...Vai! Isso, devagar. Quando ele vié pra cá, carretilha pra linha num bambiá. ...Passa pro lado de cá, vem! Vai carritilhando devagarinho. Isso!
— Olha, Seu Zé! Uma baita duma piracanjuba.
— Té quinfim, né? Viu que num precisa pesca em ôtro lugá?
— Seu Zé, deve ter uns dois quilos.
— Mais ou menos.
— Aproveita que o senhor levantou de cima da geladeirinha e me dá uma cerveja.
— Ah, agora cê tá falando a minha língua.
— Mil quilômetros?
— O quê?
— O Panema. Deve ter uns mil quilômetros?
— Faz uma coisa, na próxima vez cê fica em casa pesquisando no computadô e depois conta tudo pras mulheres.
— E pro senhor?
— Num sei, num quero saber e tenho raiva de quem sabe.
— Dá outra cerveja aí, Seu Zé.


 (Seu Zé no Rio Trebbia)

Friday, September 08, 2017

Guia no Hawaí


Quinta meta mundial do turismo em 2015, a Itália recebeu mais de cinquenta milhões de turistas estrangeiros. Só para dar uma ideia do potencial turístico deste pequeno país, o Brasil recebeu em 2016 – ano dos Jogos Olímpicos – pouco menos de sete milhões de visitantes. Apesar disso, o turismo de casamento – wedding tourism italiano (entre outros segmentos), perde feio para o Hawai. Sim, o Hawai é muito mais que surf. E não só no verão: para um havaiano, 26 graus é um calor terrível e 24 graus é frio glacial. Primavera de doze meses.

Tudo isso para dizer que se você gosta de viajar, certamente o Hawai é uma das suas metas. E aqui vem a boa notícia: há algum tempo a  brasileiríssima Lucia Malla organiza viagens ao Hawai. Existe coisa melhor que visitar um país com alguém que mora na região e a conhece bem? Não, a especialidade dela não é casamento, ela está mais para mergulho, passeios e surf, mas organiza a sua viagem com muita competência (até para casamentos, se esse for o seu caso). A Lucia é uma bióloga pesquisadora que vive em Honolulu e adora viagens, fotografia e eventuras. Muito simpática e inteligente, decidiu investir no que gosta. Mas talvez seja melhor deixar ela mesma explicar os objetivos e os porquês dessa empreitada:

“A empresa Zero CO Tours nasceu da necessidade de compartilhar ao vivo o sentimento havaiano de aloha, com qualidade e respeito ambiental. Queremos mostrar que fazer um tour ecoconsciente respeitando o meio ambiente é bem mais fácil que você imagina, sem recorrer a perrengues nem privações desnecessárias.

O nome da empresa é um trocadilho com “Zero CO2” dito em inglês, que é (ou deveria ser) o objetivo de todos nós: minimizar ao máximo nossas emissões de gás carbônico (CO2), principal causa das mudanças climáticas.  O CO2 é derivado principalmente da queima de combustíveis fósseis para geração de energia e produção de artigos de consumo da nossa vida em sociedade. “Zero CO2” diz respeito à meta de minimizar ao máximo as emissões adicionais, diretas ou indiretas, não provenientes da nossa própria respiração. ZERO de emissão de CO2: esse é o verdadeiro luxo de um passeio atualmente.




Na liderança da Zero CO Tours estou eu, LUCIA MALLA, bióloga, PhD em Biologia Molecular, e há 10 anos editora do blog Uma Malla pelo mundo. No blog, compartilho minhas viagens e reflexões sobre o mundo que nos cerca – principalmente o pedaço de mundo onde vivo e pelo qual sou apaixonada, o Havaí.
Achei meu lugar no planeta quando pisei no Havaí pela primeira vez, em 2002. E desde então, cada dia mais me apaixono pela cultura das ilhas, pelo jeito relax cheio de sorrisos e aloha das pessoas. Adoro principalmente a importância que dão ao mar e ao ambiente.

10 anos de blog instigaram o início dessa nova empreitada, para compartilhar esta paixão pelo Havaí com mais brasileiros (ou falantes de português) ao vivo e a cores – e em muitos tons de azul… Foi daí que nasceram os TOURS RECEPTIVOS COM A LUCIA MALLA. Quem sabe depois do passeio você também não sai apaixonado(a) por estas ilhas incríveis, levand0 para casa um pouco do espírito de aloha havaiano?

Acoplada a essa intenção, também me preocupo muito com os rumos ambientais do planeta, principalmente com as mudanças climáticas. Foi esta preocupação que ditou e ainda dita muito das minhas escolhas ecoconscientes no dia-a-dia – mas sem perder o bom senso. Valorizo o efeito formiguinha: nossas pequenas ações “verdes” do dia-a-dia podem – e devem! – colaborar para um planeta mais sustentável e bacana.
Por isso, quando decidi oferecer tours pelo Havaí, privilegiar o compartilhamento de escolhas ecoconscientes virou meta. Sendo os tours com a Lucia Malla, eles não poderiam ser de outra forma: sustentáveis, priorizando a qualidade ambiental na experiência das pessoas.

PASSEAR PELO HAVAÍ COM QUEM É REFERÊNCIA NO ASSUNTO E COM O MÍNIMO POSSÍVEL DE IMPACTO AO MEIO AMBIENTE: VAMOS LÁ?”

Se você ficou interessado e já começa a sonhar com o Havaí, deixo uma sugestão MUITO IMPORTANTE: Organize e reserve com o máximo de antecedência a sua viagem. Não de semanas, mas de meses. Europeus e norteamericanos costumam programar férias muito, mas muito antes que nós, brasileiros. O risco é não encontrar vaga naquele hotel luxuoso/charmoso/baratinho que você imaginou. Se você, por exemplo, estiver planejando ir no período das altas ondas para os campeonatos de surf – de novembro a janeiro – saiba que terá que se contentar, pois os melhores locais já estão reservados.

Portanto, não espere. Entre em contato com a Lucia Malla e…
…Aloha!

Contatos: 
Blog Pessoal: Uma Malla pelo mundo
Zero CO Tours: Zero CO Tours
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Fontes:
Turismo Brasil
Turismo Itália

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Thursday, July 27, 2017

Passageiro Gracia - parte final




Garcia partiu ontem às quatro da tarde.

Dormiu para não mais acordar. Não sofreu, já tinha sofrido antes. Nos últimos dias foi piorando cada vez mais e decidimos não prolongar a sua dor. Foi a decisão mais difícil e dolorosa para nós.

Anteontem à noite, depois da janta, dividiu uma cerveja com a Eloá, hábito criado a uns dez dias. Quando cheguei o encontrei no sofá deles, com a cabeça apoiada no ombro dela (apertada no canto do enorme sofá). Nem se mexeu, só os olhos me seguiam atentamente, apesar de roncar alto. Muito mais tarde dormimos, eu e ele, abraçados no sofá deles. Acordou às três da madrugada para um xixi longo como um rio, no balcão dos fundos. Em seguida, me mandou dormir no sofá pequeno.

Acordamos às sete. Um novo passeio até o balcão, remédios, um pouco da comida que preparo para ele (batata, cenoura e verduras cozidas até desmanchar, misturado com frango cozido sem pele e sem gordura, desfiado). E é nesse momento que ele sempre deixou claro o quanto um pitbull pode ser feroz com a comida. Novo passeio ao balcão, uma coleção completa de beijinhos e a mordidinha de sempre no meu nariz. Cochilo.

Uma hora depois, fomos ao Jardim da Memória, na rua de casa. Como tenho feito no último ano, levo ele no colo, desço um andar de escada (mais fácil que pegar o elevador, acreditem), Entramos no carro, dirijo por cem metros, estaciono, pego no colo e procuro fazêlo caminhar um pouco. Cheira alguns pontos do jardim, faz xixi e cocê (mas nem sempre, às vezes prefere fazer na garagem, quando voltamos) e tenta dar alguns passos. Se esforça mais na presença de outros cães. Tem dificuldade para permanecer em pé, mesmo com a minha ajuda. Um gole d'água da sua garrafa, talvez acreditando ser um humano ele também. Deita esperando que eu colha um punhado de grama, que ele devora como se fosse uma cabra. Vinte minutos depois, quer voltar para casa. Colo, carro, escada...

Em casa, espero que ele se adormente e saio para alguns afazeres urgentes. Volto ao meio-dia e ofereço comida a ele, que cheira e vira a cara. Assombro. Lembro dos primeiros dias logo após a adoção, quando estava tão triste que parecia decidido a deixar de viver. Pego aquela gororoba cremosa e grudenta com as mãos e aproximo dele. Come tudo até lustrar minhas mãos. Aproveito para comer também (a minha comida, não a dele) e saímos para outra voltinha. Primeiro de carro, que ele tanto gosta, depois, no jardim. Somos só nos dois e o cheiro de xixi - que só ele sente - dos seus muitos amigos. Ficamos ali até às três e meia. É um lindo dia de sol, temperatura agradável, uma brisa constante e as cigarras que cantam para nós. De alguma janela ali perto, toca repetidamente "Somewere Over The Rainbow" na voz doce de Iz. Ele ronca, eu choro enquanto o acaricio. Voltamos para casa e ele se vai.

Foram quase três anos intensos e maravilhosos.
Ele nos fez conhecer gente boa e especial. Cuidamos dele esperando fazer o melhor possível. Em troca, recebemos um amor imenso como não imaginávamos. E mais: fez um monte de amigos (menos o Mojito - doce Mojito - vai saber porque); suportou as minhas mordidas sem se lamentar e sem me machucar. Ou quase. Destruiu todas as bolinhas de tênis que encontrou; nadou no Trebbia; enriqueceu o dono da farmácia; destruiu o armário da cozinha, as latas de lixo, o banheiro, a prateleira do pet shop, quando o proprietário o fez experimentar um daqueles colares elisabetanos afirmando "esse ele não destrói!" Destruiu tudo, inclusive o colar, com a velocidade de fórmula 1. Destruiu, também, um monte, mas um monte de corações.

Estamos tristes pela sua partida. Ao mesmo tempo, felizes por ter dividido com ele seus últimos anos de vida. Garcia nos ensinou muito e nos amamos além do limite. Era, acima de tudo, um amigo. Fazia parte da família e nós compúnhamos a sua matilha. No fundo tínhamos esperança... E no entanto, nos deixou uma última lição: cães não conhecem a esperança, um sentimento que nos tira o fôlego e deixa suspensa a vida. Não, cães vivem um dia de cada vez, aproveitam o que podem. cães vivem e basta.

Sentiremos muito a sua falta.
Tchau Amorzão.
Tchau Amigo.
Tchau Garcia.

R.I.P.
31.1.2003
26.7.2017
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Mais sobre Garcia:





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