Queridas Bianca e Luiza,
Paz e saúde!
O sonho das gotas transparentes na escuridão que vão formando uma transparência gigantesca vira pesadelo. Tenho a impressão de que o sonho começou na fase uterina e me acompanha pelos primeiros anos de vida, fazendo-me acordar assustado, ter medo de voltar a dormir, até adormecer e sonhar de novo. E de novo…
Na casa de Petrópolis, deito encolhido de frio no tapete na frente da lareira acesa e adormeço. Acordo suado, sob o olhar da minha mãe, que conversa com uma amiga encostada no batente da porta da cozinha. Tento, com muita dificuldade, mostrar nos dedos os três anos que estou para completar. Um bolo em forma de navio pirata é o que mais me impressiona na festa e não fico feliz quando é o momento de cortá-lo. Na corrida com os irmãos, primos e amigos pelo bairro do Cremerí, o tio vira e me grita: “corre, molenga!” Todos riem e eu rio também, mas as pernas do caçula da turma não conseguem acompanhar o grupo lá na frente. É o tio predileto e por isso dói. Aquela dor que vai ficar para sempre. Como ficará para sempre a primeira imagem do meu irmão de apenas três meses, enrolado como uma múmia naquele quarto escuro. O bebê que virou advogado.
Fecho os olhos e sinto a areia quente de Copacabana sob os pés, o cheiro do querosene usado no fogareiro Jacaré que alguém sempre leva à praia, da mariola Lula sob o sol. O sol e o vento brincam com os meus curtos e quase brancos cabelos. Sinto o cheiro do mar, a temperatura fria da água cada vez que me aventuro em pegar jacaré, mas já não há o fogareiro ou a mariola; biscoitos O Globo e mate gelado misturam-se aos meus longos e dourados cabelos. Brinco com a língua no dente que está para cair e descubro que a vida começa a mudar quando o último dente cai. Ou é arrancado com barbante.
Aos 16 anos se apaixona todo dia, mas basta o coquetel de hormônios se diluir e a perfeição vira ideologia a ser alcançada. Melhor matar aula e perder-se com a turma e os cachorros pela mata atrás da Fonte. Agua Mineral Embu. Melhor jogar capoeira. O difícil de crescer não é abrir mão do infantil, mas ter que tomar decisões e conviver com as próprias escolhas. Não seria tão difícil se soubesse onde essas escolhas me levarão, mas vou ter que esperar anos para saber. Gozar ou me arrepender. Vez ou outra aperto ligeiramente os lábios e balanço negativamente a cabeça. Um ato quase imperceptível, que há muito aprendi a não externar sempre as minhas emoções.
Olho no espelho e não me reconheço no senhor de 50 anos que vejo. Passo a língua e confiro: nenhum dente está para cair, mas a juventude está aqui. A mesma curiosidade, a mesma energia e a vontade de jogar tudo de pernas pro ar, mudar o mundo. As ideias brotam como sempre brotaram, são as escolhas e a incapacidade para identificar a ocasião justa a criarem impasse. Mas eu vou em frente. Sempre. Só a dificuldade de fazer o “três” com os dedos voltou, culpa do acidente. Aprendi a aceitar as pessoas como elas são. E não tenho certeza de que vou me conformar com a calvície e os cabelos quase brancos.
Boas intenções não bastam, mas no fim são os propósitos que contam. Cresçam cometendo os próprios erros. Lutem pelos próprios sonhos. E vivam desesperadamente, que a vida é breve demais para se arrepender de tudo. Revivo cada emoção e a impossibilidade de mudar o que já aconteceu. Por isso vou em frente.
Vivam tudo, mesmo que sejam sonhos pequenos ou projetos malucos. Indispensável é a oportunidade de se arrepender. E sejam felizes.
Com amor,
Papai.
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
Wednesday, November 25, 2009
Saturday, November 21, 2009
O Brasil visto daqui
Dona Anna e seu Paolo compraram casa no Brasil. Na beira do mar, é claro! Vão e voltam com as desculpas mais esfarrapadas: “Tínhamos que verificar se da última vez esquecemos alguma lâmpada acesa”, “ficamos preocupados em saber se alguém estava dando comida ao cachorro e, ao chegarmos lá, lembramos que ainda não temos um cachorro. Isso nos deu um alívio danado. Relaxamos e decidimos aproveitar uns dias para descansar.” E assim vai.
Tenho a impressão de que assim que a mãe da seu Paolo se for, as férias à beira do paraíso irão se prolongar. Afinal, os filhos estão crescidos, casados e bem. Seu Paolo e dona Anna são aposentados. Mas a saúde da mãe do seu Paolo é de ferro. Vive sozinha na casa de montanha, comendo o que de mais natural pode haver, as coronárias limpas pelo sobe e desce da montanha, ar limpo. Nem óculos usa, no apogeu dos seus 94 anos.
Quem sabe convencem a velha senhora a passar uma longa temporada no Brasil, com a desculpa do melhor futebol do mundo, que ela adora e conhece. Não, talvez seja uma mudança radical demais e ela não resista. Não. Melhor esperar. Mas haja passagem de avião.
Tenho a impressão de que assim que a mãe da seu Paolo se for, as férias à beira do paraíso irão se prolongar. Afinal, os filhos estão crescidos, casados e bem. Seu Paolo e dona Anna são aposentados. Mas a saúde da mãe do seu Paolo é de ferro. Vive sozinha na casa de montanha, comendo o que de mais natural pode haver, as coronárias limpas pelo sobe e desce da montanha, ar limpo. Nem óculos usa, no apogeu dos seus 94 anos.
Quem sabe convencem a velha senhora a passar uma longa temporada no Brasil, com a desculpa do melhor futebol do mundo, que ela adora e conhece. Não, talvez seja uma mudança radical demais e ela não resista. Não. Melhor esperar. Mas haja passagem de avião.
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comparando
Wednesday, November 11, 2009
Sunday, November 08, 2009
Post curto - notícia emocionante
Vira-e-mexe alguém se lamenta por receber poucos comentários nos posts sérios – e longos – que escreve, enquanto o número de comentários aumenta nos posts curtos. Já reparei que comigo também acontece [não sobre o fato de escrever coisas sérias, mas o volume de comentários ser inversamente proporcional ao tamanho do post]. Não conheço - apenas intuo - a relação entre comentários e número de visitas ou de leitores, incluindo-se os leitores via Feed e afins, mas acabo de inventar um modo para melhorar a situação. Dos comentários, pelo menos.
Quando você chegar a este blog e ver o título “post curto” basta apenas ler a segunda parte do título e lembrar de algo que diga respeito àquele assunto. Depois, vá direto aos comentários e deixe o seu recado. Nem perca tempo lendo essa encheção de linguiça que estará repetida em todos os posts da série “post curto”. Basta apenas um ponto de exclamação, um smile, mas, se preferir, pode deixar o seu comentário, curto ou longo que seja. Vou ler todos e, na medida do possível, retribuir.
Fica combinado que terá sempre uma foto, para parecer um post mais sério, mas que não terá, necessariamente, nenhuma referência ao teor dos comentários a serem deixados. Ou sim, você escolhe.
Quando você chegar a este blog e ver o título “post curto” basta apenas ler a segunda parte do título e lembrar de algo que diga respeito àquele assunto. Depois, vá direto aos comentários e deixe o seu recado. Nem perca tempo lendo essa encheção de linguiça que estará repetida em todos os posts da série “post curto”. Basta apenas um ponto de exclamação, um smile, mas, se preferir, pode deixar o seu comentário, curto ou longo que seja. Vou ler todos e, na medida do possível, retribuir.
Fica combinado que terá sempre uma foto, para parecer um post mais sério, mas que não terá, necessariamente, nenhuma referência ao teor dos comentários a serem deixados. Ou sim, você escolhe.
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eu mesmo
Friday, November 06, 2009
Explicando a receita
Mês passado completamos dez anos de Itália. Perdemos referências, não sabemos quem é o cantor ou cantora da vez e desconhecemos muita gente que domina a mídia brasileira dos últimos tempos. Não há Internet que substitua o rádio do carro ligado, uma passada na banca de jornal, meia hora de tv ou a conversa de botequim. Por outro lado, adquirimos a cultura popular italiana. Chegamos a enviar e-mails falando de coisas que o nosso interlocutor não deve ter a mínima ideia do que seja. Isso quando não trocamos a língua. Noutro dia simplesmente não conseguia lembrar que melanzana, em português, é beringela – que eu detesto nas duas versões.
Algo parecido aconteceu quando dei a receita de “Penne alla norcina”. A querida Luma comentou:
Os dias passaram e descobri que cometi a indelicadeza de não responder, o que faço agora. Eu não gosto de cogumelos – sim, o Cássio chamou à minha atenção que cogumelos são fungos, como os que se encontram em alguns tipos de queijos que eu devoro. Talvez a diferença esteja na dimensão, na consistência e no sabor acentuado dos fungos usados na caseificação, o que pode valer uma outra carta. Mas cogumelo, sejam porcini, tartufo e demais aliados, só se for pra não fazer feio como convidado.
Fica a ressalva de que existem diversas receitas com o mesmo nome. Algumas sem o tartufo ou outro tipo de cogumelo, e até com linguiça desmanchada. A receita que ofereci é apenas a mais clássica, mas não a única.
Sobre o alho: é comum por aqui amassar o alho e retirá-lo no final da receita e a coisa é bem simples. Descasque-o e, com um socador, – até o de caipirinha serve, se você não gostar de caipirinha – amasse ligeiramente o dente de alho, de modo que fique esmagado mas não aos pedaços. Isso permitirá fritá-lo sem que seus resíduos se misturem com o molho e facilitará a retirada do alho quando o prato estiver pronto, deixando apenas sabor e perfume no molho.
Anchovas. Em italiano, acciuga ou alice (plural: acciughe, alici). Podem ser vendidas salgadas em óleo, salgadas em vinagre, salgadas em salmoura, frescas ou salgadas. Normalmente usam-se as salgadas para esse tipo de receita. Devem ser lavadas, limpas da espinha e enxugadas. Para fazer o molho, frite o alho em azeite virgem de oliva, junte as anchovas e amasse-as – as anchovas! – com uma colher de pau. O alho fica no canto da frigideira, enquanto você vai mexendo as anchovas com o azeite até virar um creme e, ao final, com o alho frito mas inteiro, fica fácil retirá-lo da frigideira para completar o molho. Porque o que resta é apenas uma base, que pode ser enriquecida de diversas maneiras, inclusive com um pouco da água do cozimento do macarrão, pouco antes de escorrê-lo. Parece mais complicado do que é. Experimente – treine – e me conte depois.
Uma outra curiosidade é que algus pratos são típicos de estação. Se a feijoada fosse um prato italiano, seu consumo seria restrito aos meses mais frios do ano. Nos mercados, nesta época, as latas de anchovas salgadas são vendidas aos montes. Latas de três quilos abertas nos bancos frigoríferos, para serem vendidas a granel. 200 ou 300 gramas por cliente. Assim como as latas de enguias marinadas, que um dia tive a coragem de provar e descobri que a coragem nem sempre é boa conselheira.
Algo parecido aconteceu quando dei a receita de “Penne alla norcina”. A querida Luma comentou:
“O que é que tem os cogumelos?
Uma certa mágica nesta receita - como amassar o dente de alho e não cortar? (com casca?) e como retirar o alho depois que amassou com a anchova e virou creme?
Não captou!! Beijus”
Uma certa mágica nesta receita - como amassar o dente de alho e não cortar? (com casca?) e como retirar o alho depois que amassou com a anchova e virou creme?
Não captou!! Beijus”
Os dias passaram e descobri que cometi a indelicadeza de não responder, o que faço agora. Eu não gosto de cogumelos – sim, o Cássio chamou à minha atenção que cogumelos são fungos, como os que se encontram em alguns tipos de queijos que eu devoro. Talvez a diferença esteja na dimensão, na consistência e no sabor acentuado dos fungos usados na caseificação, o que pode valer uma outra carta. Mas cogumelo, sejam porcini, tartufo e demais aliados, só se for pra não fazer feio como convidado.
Fica a ressalva de que existem diversas receitas com o mesmo nome. Algumas sem o tartufo ou outro tipo de cogumelo, e até com linguiça desmanchada. A receita que ofereci é apenas a mais clássica, mas não a única.
Sobre o alho: é comum por aqui amassar o alho e retirá-lo no final da receita e a coisa é bem simples. Descasque-o e, com um socador, – até o de caipirinha serve, se você não gostar de caipirinha – amasse ligeiramente o dente de alho, de modo que fique esmagado mas não aos pedaços. Isso permitirá fritá-lo sem que seus resíduos se misturem com o molho e facilitará a retirada do alho quando o prato estiver pronto, deixando apenas sabor e perfume no molho.
Anchovas. Em italiano, acciuga ou alice (plural: acciughe, alici). Podem ser vendidas salgadas em óleo, salgadas em vinagre, salgadas em salmoura, frescas ou salgadas. Normalmente usam-se as salgadas para esse tipo de receita. Devem ser lavadas, limpas da espinha e enxugadas. Para fazer o molho, frite o alho em azeite virgem de oliva, junte as anchovas e amasse-as – as anchovas! – com uma colher de pau. O alho fica no canto da frigideira, enquanto você vai mexendo as anchovas com o azeite até virar um creme e, ao final, com o alho frito mas inteiro, fica fácil retirá-lo da frigideira para completar o molho. Porque o que resta é apenas uma base, que pode ser enriquecida de diversas maneiras, inclusive com um pouco da água do cozimento do macarrão, pouco antes de escorrê-lo. Parece mais complicado do que é. Experimente – treine – e me conte depois.
Uma outra curiosidade é que algus pratos são típicos de estação. Se a feijoada fosse um prato italiano, seu consumo seria restrito aos meses mais frios do ano. Nos mercados, nesta época, as latas de anchovas salgadas são vendidas aos montes. Latas de três quilos abertas nos bancos frigoríferos, para serem vendidas a granel. 200 ou 300 gramas por cliente. Assim como as latas de enguias marinadas, que um dia tive a coragem de provar e descobri que a coragem nem sempre é boa conselheira.
Sunday, November 01, 2009
Fêisbuk
A matéria em uma das páginas internas do jornal não chamava a atenção. Era uma daquelas linguiças que enchem os jornais em períodos festivos; só resolvi contar para que outros conhecessem a história dela. Ela que já nem lembrava que existia um motivo para existir. Apenas deixou-se envolver na rotina de todos os dias como se houvesse piloto automático, até que completou cinquenta anos. Como presente, recebeu o computador usado do filho caçula, o último que saiu de casa, formado e casado.
No início faltou empolgação, mas no vazio da casa e com os dias que pareciam mais longos, foi aprendendo aos poucos com a vizinha, que se comunicava com a prole espalhada pela península através de fotos, filmagens, e bate-papos pela web cam. Logo, logo, ela também aprendera a viajar pela tela do computador. Só não podia dedicar muito tempo para não atrasar o almoço, o jantar e para não esquecer de deixar a casa como o marido gostava de encontrar. Ele, sim, nunca se aposentaria e o filho mais velho só herdaria o grande escritório de contabilidade quando o velho batesse as botas. Ela recordou do diploma de ragioniera (técnica em contabilidade) emoldurado e guardado em alguma caixa no sótão, o que lhe teria permitido trabalhar com o marido e, quem sabe, ser sua sócia. Mas a ideia morreu quando nasceu o primeiro filho, logo após o diploma, ainda menina. Depois, vieram o casal de gêmeos e o caçula. Pronto. Os cinquenta se apresentaram depressa e ela nem viu o tempo passar. Só quando o caçula deu aquele sorriso satisfeito, ao sair pela última vez da casa dos pais, ela se deu conta do tempo.
Não era muito curiosa, mas aprendia fácil. No computador descobriu como procurar velhos amigos, os parentes na Sicília e chegou a montar uma página sua, com a foto do dia da formatura do Istituto di Ragioneria di Licata. Relembrou velhos amores e, só por curiosidade, deixou um recado na página daquele cinquentão vistoso, que um dia fora o seu grande amor. Seguiram-se trocas cordiais de velhas fotos, novas piadas e a chama parecia reacender.
O jantar começou a atrasar, a casa já não brilhava, a tv sempre desligada. Nem na vizinha aparecia com a mesma frequência. “Depressão”, comentava-se. A gota d’água aconteceu quando o filho gêmeo avisou que passaria o Natal na casa dos sogros, em Nápoles. “Aquela puttana vem tentando separar você da sua mãe e você acha isso a coisa mais normal do mundo?” berrou ela no meio do almoço do domingo, um dos raros momentos em que a família ainda se encontrava. E “aquela puttana” estava sentada do lado oposto da mesa. O que seguiu foi uma cena digna de um filme italiano sobre uma família italiana. O pior é que ninguém ficou do lado dela. Quer dizer, todos tentavam acalmar a situação, mas ninguém lhe disse “tens razão” e isso foi o que mais doeu. A discussão durou mais de uma hora, com ela se lamentando pela ingratidão dos filhos, pela frieza e distância do marido e a cada nova “puttana” que ela gritava a confusão recomeçava.
Mas o tempo tem o poder de mudar tudo e, em uma semana, lá estava ela, de vestido preto – como manda a tradição siciliana – batendo à porta daquele cinquentão vistoso, queimado pelo sol de Licata em horas e horas de mar. Entrou na casa simples com as portas que mostravam o mar da Sicília, aceitou o chá, conversaram sobre filhos, casamentos desfeitos e sonhos que ficaram. Mas aquele lobo de mar deixou claro que preferia continuar assim, sem ninguém que o esperasse. E que o amor que um dia existiu, era por aquela garota da foto do Istituto di Ragioneria di Licata, não por aquela senhora gordinha, de mãos pequenas e grossas, cabelos curtos e olhar triste. Não, ela também se tornara um sonho amarelado naquela foto. Se despediram amigavelmente e ela decidiu que nunca mais voltaria à Sicília. Já nem havia lágrima ou vontade de chorar.
Aceitou viver de favor com a irmã, na mesma Milão que tinha deixado dias antes. Trabalhava de noite, fazendo limpeza em shopping centers e foi assim que acabou no jornal, na foto anônima que ilustrava uma matéria sobre trabalhadores na noite de Natal. Um grande suspiro ao ver a foto no dia seguinte, no jornal que ela apertava sobre o colo. O computador e o diploma foram deixados lá no quarto do filho caçula, com aqueles cinquenta anos doídos e uma foto velha do Istituto di Ragioneria di Licata.
No início faltou empolgação, mas no vazio da casa e com os dias que pareciam mais longos, foi aprendendo aos poucos com a vizinha, que se comunicava com a prole espalhada pela península através de fotos, filmagens, e bate-papos pela web cam. Logo, logo, ela também aprendera a viajar pela tela do computador. Só não podia dedicar muito tempo para não atrasar o almoço, o jantar e para não esquecer de deixar a casa como o marido gostava de encontrar. Ele, sim, nunca se aposentaria e o filho mais velho só herdaria o grande escritório de contabilidade quando o velho batesse as botas. Ela recordou do diploma de ragioniera (técnica em contabilidade) emoldurado e guardado em alguma caixa no sótão, o que lhe teria permitido trabalhar com o marido e, quem sabe, ser sua sócia. Mas a ideia morreu quando nasceu o primeiro filho, logo após o diploma, ainda menina. Depois, vieram o casal de gêmeos e o caçula. Pronto. Os cinquenta se apresentaram depressa e ela nem viu o tempo passar. Só quando o caçula deu aquele sorriso satisfeito, ao sair pela última vez da casa dos pais, ela se deu conta do tempo.
Não era muito curiosa, mas aprendia fácil. No computador descobriu como procurar velhos amigos, os parentes na Sicília e chegou a montar uma página sua, com a foto do dia da formatura do Istituto di Ragioneria di Licata. Relembrou velhos amores e, só por curiosidade, deixou um recado na página daquele cinquentão vistoso, que um dia fora o seu grande amor. Seguiram-se trocas cordiais de velhas fotos, novas piadas e a chama parecia reacender.
O jantar começou a atrasar, a casa já não brilhava, a tv sempre desligada. Nem na vizinha aparecia com a mesma frequência. “Depressão”, comentava-se. A gota d’água aconteceu quando o filho gêmeo avisou que passaria o Natal na casa dos sogros, em Nápoles. “Aquela puttana vem tentando separar você da sua mãe e você acha isso a coisa mais normal do mundo?” berrou ela no meio do almoço do domingo, um dos raros momentos em que a família ainda se encontrava. E “aquela puttana” estava sentada do lado oposto da mesa. O que seguiu foi uma cena digna de um filme italiano sobre uma família italiana. O pior é que ninguém ficou do lado dela. Quer dizer, todos tentavam acalmar a situação, mas ninguém lhe disse “tens razão” e isso foi o que mais doeu. A discussão durou mais de uma hora, com ela se lamentando pela ingratidão dos filhos, pela frieza e distância do marido e a cada nova “puttana” que ela gritava a confusão recomeçava.
Mas o tempo tem o poder de mudar tudo e, em uma semana, lá estava ela, de vestido preto – como manda a tradição siciliana – batendo à porta daquele cinquentão vistoso, queimado pelo sol de Licata em horas e horas de mar. Entrou na casa simples com as portas que mostravam o mar da Sicília, aceitou o chá, conversaram sobre filhos, casamentos desfeitos e sonhos que ficaram. Mas aquele lobo de mar deixou claro que preferia continuar assim, sem ninguém que o esperasse. E que o amor que um dia existiu, era por aquela garota da foto do Istituto di Ragioneria di Licata, não por aquela senhora gordinha, de mãos pequenas e grossas, cabelos curtos e olhar triste. Não, ela também se tornara um sonho amarelado naquela foto. Se despediram amigavelmente e ela decidiu que nunca mais voltaria à Sicília. Já nem havia lágrima ou vontade de chorar.
Aceitou viver de favor com a irmã, na mesma Milão que tinha deixado dias antes. Trabalhava de noite, fazendo limpeza em shopping centers e foi assim que acabou no jornal, na foto anônima que ilustrava uma matéria sobre trabalhadores na noite de Natal. Um grande suspiro ao ver a foto no dia seguinte, no jornal que ela apertava sobre o colo. O computador e o diploma foram deixados lá no quarto do filho caçula, com aqueles cinquenta anos doídos e uma foto velha do Istituto di Ragioneria di Licata.
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