Sunday, September 27, 2009

Penne alla norcina

Nos comentários do post abaixo, uma leitora solicitou uma receita que leva tartufo nero. Se você quiser aproveitar e não tiver o tartufo, procure funghi seco, reidrate com um pouco de água morna e substitua.

Elaine,

Se você teve a paciência de ler as minhas receitas, normalmente enroladas em uma série de palavras que pouco tem a ver com elas, deve ter descoberto que não como cogumelos de qualquer tipo. Não sou mal educado a ponto de recusar o prato se convidado por alguém, mas prefiro deixar claro antes, que não como nada que passarinho não bique. E como o prato típico umbro leva tartufo nero, bem, prefiro abdicar. Mas a receita é realmente muito simples, considerando que, como toda receita italiana, pode sofrer variações.

Penne alla norcina (porção para quatro pessoas)

Ingredientes:
500 g de penne ou pennete
1 tartufo nero
Azeite de oliva extra virgem
1 dente de alho
4/5 filés de anchova
Sal
Pimenta do reino


Limpe e lave os filés de anchovas e ponha para enxugar sobre papel toalha. Cozinhe o macarrão em abundante água salgada, mas lembre-se de deixá-lo ligeiramente cru, pois irá para a frigideira depois. Enquanto a água ferve, frite o alho (amasse o dente de alho mas não o corte) em uma frigideira grande com um pouco do azeite. Quando dourar o alho, abaixe o fogo, junte os files de anchovas e amasse-os com uma colher de pau até virar um creme de anchovas. Apague o fogo, retire o alho, adicione o tartufo em fatias finas ou picado, sal e pimenta do reino e misture bem. Escorra o macarrão, acenda o fogo da frigideira deixando-o baixo, despeje o macarrão na frigideira e faça saltar tudo para misturar por uns 2/3 minutos. Sirva e bom apetite.

Lembre-se de me convidar quando fizer um prato sem cogumelos. :)

Thursday, September 24, 2009

Cinco anos de Lúcia Malla

Corria o ano de 1982 e eu fazia strudel no Embu, pertinho de São Paulo. A rádio misturava notícias e músicas e nos fazia companhia, a mim e ao meu amigo e sócio Cláudio. De repente nos olhamos e murmuramos algo: “mas só tem maluco nesse mundo?”, ou coisa parecida. A notícia que nos chamara a atenção era a de que um brasileiro tentava atravessar o oceano em um barco a remo. Claro que me interessei e, sem internet nem flashes ao vivo, fui descobrindo que de maluco o cara não tinha nada. Quando saiu o livro contando a aventura, comprei-o e descobri o quanto aquela viagem fora planejada.

Anos mais tarde, já pelo fim dos anos 90, em uma convenção da empresa em que eu trabalhava, tive a oportunidade de assistir a uma palestra do Amyr Klink. Mais: fui sorteado para levá-lo ao aeroporto e aproveitei para bater um papo muito descontraído com o simpático aventureiro. Contei-lhe algumas das minhas viagens de moto e ele – gentilmente – chegou a dizer que eu seria um bom companheiro de viagem. Aproveitei para lhe contar da primeira vez que ouvi o seu nome, naquela notícia do rádio. Ele estranhou, pois afirmou que os amigos que monitoravam o evento não tinham tido notícias de que alguma rádio tivesse noticiado o fato antes da chegada da longa travessia. Apesar do ligeiro mal-estar, o Amyr continua sendo o viajante que mais admiro.

Alguns blogs fazem sucesso, enquanto outros fazem menos. O sucesso de um blog não se mede apenas pelo número de comentários, mas por uma soma de fatores. Quem já teve a curiosidade de pesquisar na rede o próprio nome ou o de um amigo, poderá se assustar com a quantidade de páginas como resultado de “lucia malla” ou “uma malla pelo mundo”. A querida Lúcia
é linkada e citada por muita gente de peso. Curiosamente o blog tem um número de comentários inferior a blogs que, na realidade, fazem menos sucesso. Ter muitos comentários não pode ser considerado como único parâmetro para medir o impacto de um blog ou do seu autor na grande rede.

Não lembro exatamente como conheci o blog da Lúcia, mas posso dizer que virei leitor assíduo desde o primeiro post que li. Gosto de tudo. Das viagens, da sexta sub, daqueles posts cheios de links que me fazem perder a noção do tempo e que, muitas vezes, me faz enveredar por outros links, outras leituras e acabo esquecendo de comentar. Às vezes acredito ter comentado e não volto para controlar.

Foi através dos comentários de um post que nasceu a ideia do blog coletivo do qual fazemos parte, o Faça a sua parte.

E você, que não está acostumado à minha prolixidade, deve estar se perguntando: “que diabos tem a ver a Lúcia Malla com o Amyr Klink?” Bom, se você teve o prazer de conhecer a Lúcia e o André pessoalmente, vai entender que eles tem em comum esse prazer em viajar, descobrir e escolher aventuras que não se encontram nos guias turísticos. Se você os conheceu, vai entender porque a Lúcia é uma pessoa tão querida e que a imagem positiva que o blog transmite não é só imagem. É isso, associo facilmente o casal Lúcia e André ao Amyr. E continuo viajando nas viagens deles.

Parabéns pelos cinco anos do blog, abração no André e beijocas. :)

Friday, September 18, 2009

Demais, faz mal

Sumido, eu?
Culpa do excesso de trabalho. Aliás, do muito excesso exagerado de trabalho. Semana que vem tudo torna como antes (ou quase) e o blog voltará à programação normal, se é que algum dia já teve uma.

Saturday, September 12, 2009

Sunday, September 06, 2009

Pronúncia italiana – O, P, Q, R, S

Com o fim das férias, voltamos à nossa lição de italiano. Se é verdade que “todos os caminhos levam à Roma”, vá treinando. Nunca se sabe quando seu italiano será útil. O difícil será você entender um romano falando. Às vezes, nem eles se entendem.

Com a letra o entramos na complicada seara do regionalismo. A letra e, também, faltou dizer. Em algumas regiões ela soará aberta. Como se houvesse um acento agudo; em outras regiões, normalmente aquelas ao norte, o som é fechado, como se houvesse, dessa vez, um acento circunflexo. Claro que quando a letra é acentuada a coisa fica fácil, mas o italiano é um língua parcimoniosa com acentos. Só as palavras oxítonas levam acento, além do acento de diferenciação (que nem chega a ser obrigatório): ancora (âncora) e ancóra (ainda), por exemplo.

Com o p a única diferença do protuguês se dá quando a letra aparece dupla, que deve ser pronunciada alongando-se o seu som. O q é igualzinho ao nosso, recordando-se, porém, que a letra u que virá depois será sempre pronunciada, como em guerra. Com o r e o s a coisa também não muda, mas aquele r carioca (Rio, rua) é impronunciável, por aqui. Portanto, quando o r aparecer duplo, pense no som do r de “caroço” e o alongue.


Vá treinando (entre colchetes, a pronúncia com a vogal tônica em negrito):
Cacciatori – [katchatóri] caçadores; um tipo de salame que eu adoro
Quasi – [kuási] quase
Casa – [casa] casa
Carrozza – [kar_rótza] carroça
Coppa – [côp_pa] troféu; tipo de embutido que aprecio muito
Ancora – [ancôra] ainda
Quaderno – [kuadérno] caderno
Acqua – [ák_kua] água
Sasso – [sásso] pedra
Roma – [r_rôma] Roma (lembrou do “r” de caroço?)
Andò – [andó] andou
Sopporre [sop_pôr_re] supor

Tuesday, September 01, 2009

Férias das férias

Como eu já devo ter informado em alguma carta anterior, as férias na Europa são divididas em semanas por ano. Duas ou três no Verão (uma em Julho, duas em Agosto, por exemplo), uma outra durante o Inverno, para esquiar e outra semaninha entre um período e outro, que ninguém é de ferro. Dependendo do tipo de trabalho, de acordos sindicais, da carga horária – part-time ou jornada completa – e da quantidade de horas extras trabalhadas, o trabalhador acumulará, além dos dias de férias, horas de folga. Não é raro, portanto, que um italiano faça até seis semanas de férias por ano.

O problema das férias é sempre a volta. Quando acaba Agosto as estradas ficam congestionadas. Fico imaginando a paciência de holandeses, poloneses e demais turistas no funil viário das rodovias italianas. Como reagem os italianos, eu sei: férias. Pelo menos dois dias para descansar e se convencer de que a rotina profissional deve ser retomada.

Dos três cinemas no centro de Piacenza (oito salas, ao todo) dois fecharam na metade de Julho. Um deles reabriu sexta-feira, 28; o outro só reabrirá na próxima sexta-feira. O terceiro fechou do dia 3 ao dia 28, assim como a maioria das empresas. Mas é claro que parte do comércio só reabre mesmo no dia 1 de Setembro. Sabe como é, as férias acabam no sábado, dia 30 e o cidadão precisa de uns dois dias para se readaptar. Semana passada visitei alguns clientes e liguei para alguns fornecedores. Não consegui falar com ninguém que resolvesse. Só os subordinados voltaram ao trabalho, mas apenas para informar que “é melhor voltar na semana que vem, quando o chefe voltar”, ou “o ano só começa em Setembro”. Claro que se você estiver em férias o seu celular irá tocar e alguém, do outro lado, irá perguntar, indignado: “Como assim, na França?”

A verdade é que a vida só recomeça em Setembro, quando toda a preguiça será esquecida e a impaciência voltará a temperar as relações, num comportamento que funciona em sentido único. Ou seja, todos são impacientes com os prazos alheios, mas ninguém admite ser cobrado. Mas a verdade maior é que as coisas por aqui têm um ritmo diferente para acontecer. Diferente do meu ritmo, pelo menos. Uma negociação pode levar anos, num vai-e-vem de conversa mole que não leva a lugar nenhum. De repente, pimba! Tudo resolvido e eles querem tudo pra ontem. Afinal, o que você fez que não se preparou nesses últimos dois anos? Incompetência tem limite. Ou deveria ter.

E não venha com aquela lenga-lenga de que você acabou de voltar das férias e ainda não teve tempo de se readaptar.