Monday, June 29, 2009

Não façam isso em casa

Atendendo a uma solicitação de um dos poucos leitores deste blog, vasculhei quase todo o histórico procurando um comentário. Descobri que a grande maioria dos comentários são de leitoras. Diverti-me imaginando os motivos dessa estatística.

Sempre tive muita preguiça em revisar qualquer texto, mas a quantidade de erros ortográficos, de concordância e gramaticais encontrados me assustaram. Principalmente porque sempre preferi escrever de maneira simples, de modo a poder ser lido por qualquer um. Adquiri vícios e perdi vocabulário. Não revisei nada - é óbvio! - e prometi a mim mesmo nunca mais repetir uma busca dessas.

Sunday, June 21, 2009

Pronúncia italiana – I, L, M, N

Liçãosinha fácil, essa de hoje. A letra i não muda nunca. É como em português. Já com a letra l é necessário um pouco de atenção: ela também não muda nunca, ao contrário do português falado na maior parte do Brasil, que lhe dá um som de u antes de consoante e no final de palavra, como em “futebol” ou “solto”, por exemplo. Portanto, em italiano, a pronúncia da letra l será sempre com a língua torcida, como em “bolo”. Sempre.

Já as letras m e n, em italiano, serão sempre pronunciadas de forma inequívoca no final de palavras ou antes de consoante. É necessário fechar a boca quando acontece de uma das duas letras for a última da palavra ou preceder uma consoante, respeitando o som da prória letra. Na prática, é como se houvesse uma vogal depois. Complicado? Então adicione uma pequena letra quando a palavra terminar em m ou n ou quando uma das duas aparecer antes de uma consoante. A letra ee não chegará a ser pronunciada, mas apenas sugerida.


Vá treinando (entre colchetes, a pronúncia com a vogal tônica em negrito):
Chiesa – [kiêsa] igreja
Quasi – [kuási] quase
Isola – [ísola] ilha
Atollo – [atólo] atol
Con – [cône] com
Senza – [sênedza] sem
Compito – [cômepito] lição de casa, dever
Vita – [víta] vida
Sempre – [sêmepre] sempre
Scuola – [skuóla] escola
Volo – [vôlo] vôo
Impaurito – [impauríto] assutado, apavaorado
Immaginare – [imadjináre] imaginar

Thursday, June 11, 2009

Aquela besta

Ele sai do banheiro com as mãos ainda úmidas, pega o controle remoto da tv, tira o som e se coloca entre a tv e os dois sofás. Com ar calmo – coisa incomum – olha a família que o aguarda para o almoço na mesa atrás do sofá e começa:

- Cena um: alguém vai ao banheiro e descobre que a tampa do vaso sanitário se soltou. “Eca!, que nojo! Agora vou ter que arrumar. Como será que se conserta isso? Ah…! Parece que é só desatarraxar esses parafusos de plástico, encaixar a tampa no vaso – Eca!, que nojo! – e atarraxar tudo no lugar. Nem é tão complicado assim. Eca!, que nojo! Vou aproveitar que está tudo desmontado e limpar o vaso e a tampa. Pronto! Ficou tudo limpo e no lugar. O próximo que entrar não terá que passar pela mesma experiência. Agora é só lavar as mãos e ir almoçar.”

Ele gesticula, faz mímica imitando a pessoa arrumando a tampa do vaso sanitário, faz cara de nojo – Eca! – e a família ri do teatro dele. O cunhado, fingindo estar concentrado no que lê no jornal, permanece imóvel no sofá [por que é que cunhado sempre combina com sofá?]. Ele segue em frente, ignorando o fato de eu estar em pé no meio da sala à espera de alguém que me tire dessa cena constrangedora. Divertida, mas constrangedora.

– Cena dois: alguém vai ao banheiro e descobre que a tampa do vaso sanitário se soltou. “Eca!, que nojo! Droga!, tinha que acontecer justo comigo?! Vou deixar tudo como estava e torcer pra que ninguém entre no banheiro agora. Daqui a pouco aquela besta vai chegar e cair na mesma armadilha que eu. Ele que conserte.”

A família dá gargalhadas, apesar dele não parecer estar se divertindo. O cunhado, uma estátua. Ele vai adiante no monólogo dele:

– …Aí, ‘aquela besta’ – e aponta para o peito – chega suado e correndo para almoçar. Vai ao banheiro fazer xixi e descobre que a tampa do vaso sanitário está solta, arrumadinha sobre o vaso como se estivesse tudo bem. ‘Aquela besta’ – e aponta novamente para o próprio peito – conformada, desatarraxa os parafusos de plástico, lava a tampa e o vaso, encaixa tudo no lugar, atarraxa os parafusos e deixa a tampa do vaso consertada. Lava as mãos e vai, puto da vida, almoçar com a família que já está na mesa. Que versão vocês acham que corresponde à realidade?

A família se contorce de rir. Todos me ignoram, como se eu não estivesse ali. O problema é que eu estou ali, no centro da sala e da cena, parado como um poste ou um dois de paus. Ele dá um tapa no jornal dele que o cunhado está lendo. O cunhado, sem mover a cabeça, levanta os olhos sem nenhuma reação; o jornal vai parar do outro lado do sofá. Sem alterar a voz, ele olha para mim e diz:

– Vam’bora almoçar na trattoria. Eu pago. Se quiser, pode fazer xixi e lavar as mãos aqui, que eu já consertei a tampa do vaso sanitário.

Monday, June 08, 2009

O oceano dentro

Esse período do ano na Itália tem um cheiro característico de pólen. Com a primavera, as plantas iniciam a corrida desesperada pela reprodução. Todas ao mesmo tempo. Mal de primavera e problemas respiratórios fazem parte do cotidiano da estação, apesar de eu não saber exatamente o que significavam, até este ano. De repente passei a sofrer do tal mal-estar, que passou, mas que deixou como lembrança uma rinite alérgica, também pela primeira vez na vida. Vou lembrar para sempre desse período.

O ar do Rio também ter um quê característico, mas que não sei explicar. Algo além do perfume de mar, do ruído abafado dos elevadores que se ouvia nos apartamentos, ou do cheiro do gás usado nos chuveiros da zona sul (ainda se usa?). Não, há algo que não se esclarece com palavras, nem através de sons e odores. É algo que se sente e não se esquece, que faz parte da minha endocultura e do meu DNA. Em nenhum outro lugar reconheci aquela sensação misteriosa que me faz identificar o Rio.

A lembrança mais antiga é da praia de Copacabana, acho que do tempo em que morávamos na 5 de Julho, pertinho da Constante Ramos onde nasci. Depois, as lembranças de outros mares se misturam. Longos passeios noturnos; rodas de amigos e as risadas abafadas pelas ondas quebrando nos pés; pescarias; até churrasco na praia já fiz, de noite. A barraca montada sobre a areia e a tampa da lata de leite Ninho voando para avisar que o siri, cozido com água do mar dentro da lata, estava pronto. Lembro que pesquei tucunaré (juro!) na foz de um riacho em Arembepe e que nadávamos de noite com medo das arraias. Porque é que o Cacau esperava sempre a sexta-feira para pisar nos ouriços-do-mar em Ilhabela? Que trabalheira que me dava.

É estranho considerar a praia como a meta preferida das férias, mas sei que voltarei à beira do mar, onde me sinto parte da silhueta topográfica, com os – poucos – cabelos ao vento e os pés na água. Imagino as filhas crescidas, tendo descoberto novas amizades em outras paisagens. Eu, vou voltar para o mar, de onde saí com má vontade e prévio arrependimento, com a certeza de que, cedo ou tarde, receberei um telefonema delas pedindo uma receita qualquer, das muitas que invento. Vou inventar uma na hora como resposta e rir. Vou comer peixe com as mãos.

Quer saber? Já estou com saudades do futuro.

Thursday, June 04, 2009

Um mar de histórias

A querida amiga Lucia Malla convida:

"Dia 08 de junho, próxima segunda-feira, é o dia mundial dos oceanos. A proximidade da data com o dia do meio ambiente não deve ser coincidência, mas fato é que, cansados de tanta discussão sobre ambiente, a gente termina deixando de lado o dia 08 - e com isso, perde-se uma chance de ter mais pessoas conversando sobre o mar.

Sabemos que os oceanos são o suporte da vida no planeta - "sem o azul, não há verde", lembram? E sabemos que os mares vêm sofrendo um "desgaste" incomparável nas últimas décadas, com poluição, sobrepesca, aquecimento global... e mais uma lista enorme de outros problemas. Quase todo dia eu leio/comento/ouço um novo problema envolvendo os oceanos. A ladainha é sempre a mesma. É triste, confesso.

Para mudar um pouco o ritmo desse maremoto de más notícias - e mostrar o quão precioso para as nossas próprias experiências de vida o mar é - convido a todos para celebrarem o dia 08/junho de uma forma bem diferente. Podem chamar de blogagem coletiva; prefiro chamar de "um mar de histórias".

A "viagem" é: cada um conta em seu blog uma história/caso/causo/momento/evento/reflexão que teve em sua vida em que o mar esteve como cenário ou personagem, de uma forma positiva/bem-humorada/animadora. Uma história pessoal; o oceano "incorporado" ao indivíduo. Vale tudo: desde um passeio de barco que você curtiu até a primeira vez que viu o mar. De uma ação para proteger uma espécie em que você tomou parte a um domingo na praia que foi inesquecível para você. Porque acho que tão importante quanto denunciar/reclamar/choramingar pelos problemas que vemos hoje nos oceanos (algo que eu já faço quase todo dia aqui no blog e na vida real), é mostrar o quanto ele está perto das nossas experiências pessoais, lembrarmos do quanto ele também faz parte da nossa história de vida. Afinal, a gente cuida melhor daquilo com o qual nos "conectamos" de alguma forma, não é mesmo? É um exercício quase terapêutico.

Vamos agregar as histórias que os amigos e participantes enviarem entre dia 05 e 08 de junho e listar num post na segunda-feira. Convidamos então quem quiser participar a entrar nessa onda, compartilhar a sua história, compartilhar a sua história. (E se quiserem repercutir, fiquem à vontade, agradecemos antecipadamente de coração.)

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- Recentemente, o NYTimes fez uma reportagem enorme sobre os erros das campanhas ambientais, sobre essa falta de conexão com a realidade das experiências de cada um. O texto, enviado pelo Guto, é extremamente interessante e foi o que inspirou a lembrar da data desta forma. Recomendo a leitura."