Thursday, April 30, 2009

San Polo

Nesta terra de lugarejos é curioso como às vezes nem nos damos conta de que a vida é feita de detalhes. Detalhes do cotidiano impressos nas casas, nos hábitos, nas almas. Passamos de carro sem olhar, sem notar os pequenos símbolos que guiam a comunidade, que a mantém unida e faz de cada morador um defensor dessa união, uma parte da vida do lugar e não apenas um detalhe.


















































“Paulo, milagrosamente convertido ao cristianismo nas vias de Damasco, sofreu o martírio com são Pedro, em Roma, durante o império de Nero, no ano 64 d.C.
Esta igreja foi documentada pela primeira vez no séc. VXI, foi completamente reestruturada entre os anos de 1823 e 1875. Ao seu interno estão conservadas algumas pinturas interessantes: Nossa Senhora e santos do séc. VXI, a conversão de são Paulo, do séc. XVII e a Sagrada Família de Paulo Bozzini (1852). Notáveis as decorações de Alberto Aspetti e Nazzareno Sidoli (séc. XX).”





Sunday, April 26, 2009

O Eu Meteorológico

Chove e faz frio; na montanha voltou a nevar. É o adeus anual do Inverno azedando o humor italiano neste início de primavera. Curiosamente é o clima que mais me faz lembrar do Embu, em São Paulo. Sim, curioso porque no Embu também faz sol, calor e quase todas as outras manifestações atmosféricas. Noites frias e chuvosas embuenses, bebericando conhaque num bate-papo com amigos.

As tardes frescas da primavera italiana me lembram Assis, sempre em São Paulo. Horas e horas esperando o peixe que nem sempre mordia a isca, o que não chegava a incomodar a descontração ou as risadas provocadas pelos ‘causos’ narrados pelo seu Zé, sogro e amigo. Nem só de memória gastronômica vivo eu, mas essa associação com o clima tem a capacidade de me fazer reviver momentos e lugares como nenhuma outra circunstância.

Algumas experiências são únicas, como a primavera em Sampa: saía de casa com pulôver e casaco na manhã gelada; por volta das dez o calor e a umidade provocavam uma sensação de coceira, como se milhares de agulhas me espetassem todo o corpo, numa agonia que me obrigava a ficar em mangas de camisa o mais rápido possível e sem saber o que fazer com os agasalhos incômodos. Lá pelas três da tarde, com o calor que fazia, ninguém suportava sequer olhar para os casacos e roupas de lã, amontoados em um canto qualquer. Voltava para casa cansado, com frio, os olhos vermelhos e ardendo, consciente de que a cena se repetiria no dia seguinte. O verão no Rio é inigualável, não só pelo calor mas pelo ar que se respira. Uma sensação de casa como em nenhum outro lugar, diferente do verão de Salvador, ventilado e festivo, mas onde me sentia sempre como alguém de passagem, apesar dos quase 12 anos vividos lá. Reencontrei o clima de Ilhabela aqui na Itália, na ilha d’Elba, talvez por ambas serem ilhas, mas em Elba não tem borrachudos.

Óbvio que a neve é uma ocasião especial e incomparável com os diversos climas no Brasil. Nem chego a ter certeza de que sentirei saudades dela. Ir trabalhar debaixo de neve está longe do meu conceito de divertimento. Depois, carioca que sou, prefiro o mar à montanha. E agradeço aos céus que nem todos pensam como eu.

Enquanto houver memória haverá história. Troquei o conhaque pelo vinho, o ar não é aquele do Rio nem a brisa é a mesma de Salvador. Na última vez em que seu Zé esteve aqui pescamos mais peixes que em muitas tardes à beira do Paranapanema somadas. As estações costumam ser mais marcadas e aprendemos as ocasiões em que se deve levar um casaco, ainda que por precaução. Mais uns dias e a primavera torna senhora da vida. E eu nem sinto saudade dos borrachudos.

Tuesday, April 21, 2009

Chico Mendes - Milão

Recentemente a Lucia Malla e o André Seale esteviram na Itália para retirar o prêmio do concurso fotográfico internacional sobre a natureza (Asferico 2009), vencido pelo André.

A ocasião serviu para conhecer pessoalmente a querida Lucia (ou Lúcia?), companheira do blog Faça a Sua Parte e o excelente fotógrafo André Seale (tem uma foto multicolorida de corais sobre o meu pc que o André e a Lucia me enviaram a uns três anos). O Flávio, outro companheiro do ‘Faça’ e grande amigo de infância dos últimos 5 anos, a Alline, que morava na Amazônia com a irmã de um outro grande amigo de infância – esse há mais de 30 anos – e a nova amiga Luisa, também curtiram a presença do casal na tarde agradável em Milão. Pena que o tempo voa nos momentos felizes e uma avalanche de trabalho me impediu de reencontrá-los.

Aproveitei para pagar uma promessa a uma leitora e tirei uma foto da árvore em homenagem a Chico Mendes, no centro de Milão, nos fundos da catedral Duomo, como se vê na foto. Ficou faltando o café prometido há algum tempo pela Alline, mas a quem está com a cabeça e o coração nas nuvens tudo é perdoado. Não faltará oportunidade.

















“Este ‘Tiglio’(*) vive para recordar Chico Mendes e os povos da Amazônia, que defenderam e defendem a grande floresta e essa nossa pequena Terra.” Prefeitura de Milão – 18-03-1989

(*) da família das Tiliaceae – quem souber o nome em português, por favor, deixe um comentário.




Sunday, April 05, 2009

Sobre nós e laços

Lembro de quando tudo o que eu queria da vida era ser um grande jogador de bolinhas de gude. Não o melhor jogador de bolinhas de gude do mundo, queria apenas ser melhor que o Clóvis. Ele, sim, era o melhor jogador de bolinhas de gude do mundo. Mas isso não importava, pois eu só queria ser melhor que o Clóvis. Foi ele quem rapelou todas as bolinhas de gude do meu embornal, um saco de pano que servia para guardar bolinhas de gude e os sapotis que enterrávamos para amadurecer. Ficava olhando de longe, comendo sapoti enquanto o Clóvis rapelava alguém que precisava demonstrar ser homem. Quem parava antes de perder tudo era considerado café-com-leite e ninguém jogava com os cafés-com-leite. Às vezes a campainha da escola salvava a vítima, mas normalmente o estrago era irremediável. Eu ficava olhando, de longe, preservando minhas bolinhas de gude e minha reputação.

Quando nos mudamos do Rio perdi o contato com todos os amigos e menos amigos. Novas amizades, novos Clóvis e uma lição a menos para aprender. Muitos dos grandes amigos simplesmente desapareceram. Aliás, foram substituídos, o que é normal para um garoto de 11 anos, mas lembro deles sempre e, às vezes, penso em como estarão hoje.

Na adolescência os laços ganham maior importância, mas também acabei perdendo o contato com grandes novos amigos. Morei em muitos lugares e a cada nova mudança os laços se desfaziam, restando apenas aqueles mais fortes. Com os parentes também foi assim. Por onde andam meus primos? Alguns nem conheci, ainda. Mas lembro sempre. Notícias esparsas e a minha capacidade de ser absurdamente distraído. “Mas já passaram vinte anos?”

Longe. Mais longe do que gostaria de estar neste momento, mas essa é uma daquelas amizades que resiste a tudo. Impotente diante da fatalidade que o risco de viver comporta, solidário na medida do possível, porque a solidariedade de quem está longe se manifesta sem contato físico, e um forte abraço pode confortar.

Lembro dela como uma moça decidida. Não aquele tipo de pessoa que vai conquistar o mundo, mas o tipo que deixa claro desde o início que irá viver a própria vida buscando as próprias respostas; que não tem medo dessa aventura que é entregar-se às emoções e exigir sempre mais; que olha nos olhos e fala de modo direto; que não tem medo de mudar de rumo. Lembro dela com um sorriso que brilhava no rosto e que contagiava.

É isso. Perdemos alguns laços – que podem ser tantos – e os que ficam tornam-se muito importantes. Gozamos e sofremos juntos. Nos resignamos com a vida que continua, apesar das perdas. Às vezes, nem mesmo um abraço conforta.