Levantar vagarosamente as sobrancelhas e os ombros, desviando o olhar para baixo. Assumir momentaneamente uma expressão idiota e deixar escapar – quase um sussurro – um “sei lá!” (em italiano seria “Bôh!”). Essa é uma estratégia para evitar polêmicas, quando percebo que uma se aproxima. Serve, também, para fugir de constrangimentos e longas discussões com que não deseja opiniões alheias, mas apenas encontrar alguém que avalize as suas.
A imprensa italiana tem nos bombardeado diariamente com opiniões sobre o caso Battisti. Políticos, jornalistas, artistas e as pessoas comuns: todos têm algo a dizer sobre como o governo brasileiro se equivocou ao conceder a Cesare Battisti o status de refugiado político. O ministro italiano das Relações Exteriores convocou o embaixador italiano no Brasil para consulta, o que equivale à suspensão, ainda que temporária, das relações diplomáticas entre os dois países.
Quando, em 2007, a Itália negou a extradição de Salvatore Cacciola, condenado no Brasil pelas estripulias financeiras do Banco Marka, um dos argumentos usados foi o desrespeito aos direitos humanos dos cárceres brasileiros. Alguns amigos advogados italianos me garantiram que as penitenciárias brasileiras não podem ser piores que as italianas. À época, o embaixador brasileiro na Itália permaneceu em Roma e as autoridades brasileiras engoliram o sapo caladas. Com Cacciola preso em solo monegasco e sucessivamente deportado, o governo italiano suspirou aliviado, mas tudo indica que o Itamaraty ficou à espera de uma oportunidade para retribuir a cortesia. Chumbo trocado não dói, diz-se. O que teria acontecido se Cacciola fosse disposto a viver sossegado em uma área que corresponde à metade do estado da Bahia, como é a Itália? Curioso como não ouvi ou li qualquer comentário à negada extradição de Cacciola na imprensa italiana.
O jornal local informou que o curriculum criminal de Cesare Battisti antecede a sua militância política e que teria sido na cadeia, onde cumpria pena de seis anos por roubo, que Battisti teria conhecido aqueles que seriam os mentores da sua conversão à esquerda extremista italiana. Foi um dos ex-companheiros, arrependido – por que se “arrepender” promove um enorme desconto de pena – quem denunciou Battisti, foragido da justiça, como sendo o autor de quatro homicídios. Cesare Battisti sempre negou, mas as cadeias abrigam mais pessoas que se declaram inocentes que réus confessos.
O Brasil sabia muito bem o quanto fosse importante para a Itália deixar Cesare Battisti apodrecer em uma cadeia italiana. Na melhor das hipóteses, creio que as autoridades brasileiras irão esperar que os crimes pelos quais Battisti foi condenado à prisão perpétua caduquem, o que, segundo as leias brasileiras, deve acontecer em abril deste ano, quando o último homicídio completará 30 anos. Naquele momento, Tarso Genro poderá declarar-se arrependido e negar a Battisti o asilo político, mas ele já não seria deportado, como aconteceu com Ronald Biggs. Inútil considerar a incoerência da diplomacia brasileira, que negou o mesmo asilo político aos atletas cubanos que abandonaram a delegação de Havana durante os Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio. Ao contrário, agiram rapidamente na deportação dos mesmos, quando qualquer um teria concordado em asilar os cubanos. Faltou o mesmo rigor na hora de conceder o benefício a Battisti, ou houve apenas um gesto de cortesia extrema ao camarada Fidel?
Por outro lado, me incomoda a pressão italiana para reaver Cesare Battisti. Onde estavam essas autoridades durante os 14 anos em que Battisti viveu na França sob a tutela da Doutrina Mitterrand? Sequer é uma lei, a tal doutrina. Trata-se de uma praxe das autoridades francesas após uma declaração do presidente francês em 1985. A partir de então, a França negou a extradição de qualquer pessoa condenada, em especial italianos, procurados por “atos de natureza violenta, mas de inspiração política.” Ou seja, a França acreditava que também a Itália não era um país sério. Somente em 2004, após uma série de tratados europeus e sob pressão de Bruxelas, a França informou que avaliava uma possível extradição de Battisti. Tal declaração, diante de jornalistas, foi expressa com Cesare Battisti circulando livremente pelos cafés franceses. Os entrevistados de hoje afirmam que a França facilitou a fuga de Battisti para o Brasil. No entanto, o embaixador italiano na França permaneceu sempre em Paris, mesmo durante o período em que Battisti viveu e se transformou em escritor de sucesso por lá.
Tudo muito confuso e infantil. Difícil conhecer toda a verdade por trás das verdades e a expressão de idiota dos muitos “sei lás!” e “Bôhs!” corre o risco de se tornar permanente.
Post Scriptum
1) O leitor Helion fez a seguinte observação:
"Só quero fazer uma observação: não é verdade que a diplomacia brasileira tenha negado asilo político aos atletas cubanos (pugilistas) que abandonaram a delegação de Havana durante os Jogos Pan-Americanos de 2007. Não negou porque eles jamais chegaram a pedir asilo. Caso tivessem pedido formalmente, o seu caso teria de ter sido analisado pelo governo brasileiro, já que o país é signatário da Convenção de Genebra, que garante esse direito ao requerente de asilo.
Outros dois atletas cubanos, um jogador de handebol e mais outro, pediram asilo e o obtiveram.
Imagina-se que os dois primeiros, os deportados, devem ter sofrido pressões do governo cubano. É bem provável. Também existe a história do envolvimento da polícia brasileira, mal contada, como mal contada foi igualmente a história do empresário alemão, conhecido negociador internacional de passes de atletas, que os incentivou a desertar a delegação cubana no PAN, ao que parece prometendo mundos e fundos e levando-os para uma casa na praia, enchendo-os de bebida e mulheres. Foi aí que os policiais apareceram.
Talvez nunca se saiba exatamente o que aconteceu com os dois cubanos deportados. Eles declararam que desejavam voltar para Cuba, e não permitir que voltassem geraria um incidente diplomático internacional, tipo Elian González, o garoto cubano retido na Flórida. Talvez tenha faltado orientação aos cubanos, e condições de tranqüilidade para que pudessem optar pelo pedido de asilo, sem pressões. Porém, o que eles declaravam era que tinham uma oferta de emprego pelo tal alemão, e isso não justificaria um pedido de asilo. Nem nos EUA eles seriam aceitos como refugiados com esse argumento."
2) Acontece, às vezes, de um leitor deixar um comentário que deve receber uma resposta mas o seu perfil não é acessível. Alguém aí saberia me ensinar como verificar o e-mail dos leitores que comentam? Grazie. :)
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Correção
Informa o Dr. Dawidson P. J., um dos meus irmãos, advogado.:
"A- O prazo de prescrição no Brasil é de 20 anos e não 30. Portanto, em tese, os crimes cometidos por Battisti estariam prescritos pelas leis brasileiras.
B - O Brasil, assim como vários outros países, não aceita deportar alguém para cumprir pena inexistente aqui. E não existe prisão perpétua no Brasil. A pena deve ser comutata."
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Atualização
O argumento deste post foi atualizado em 11 de Janeiro de 2011.
Clique AQUI.
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
Wednesday, January 28, 2009
Saturday, January 24, 2009
Rocca di Borgonovo

A placa informa que o prédio foi construído em 1196 pela prefeitura de Piacenza e elenca os proprietários. Hoje é de propriedade da prefeitura de Borgonovo Valtidone. Existem diversas localidades denominadas "Borgo Novo". O que as diferencia é a indicação geográfica, no caso, "Valtidone", que indica que o vilarejo é no vale do riacho Tidone.
Rocca: construção fortificada que servia como habitação de alguém importante ou, como neste caso, da tropa militar que patrulhava a cidade.

Muito comum os monumentos comemorativos em frente a prédios públicos. Tratam-se de homenagens aos soldados locais, mortos nas duas grandes guerras.

Uma das funções das funções dos prédios públicos era demonstrar o poder do governo. Outra, era a de informar de modo oficial: às suas portas vinham fixados os comunicados oficiais. Até hoje os moradores acertam o próprio relógio pelo relógio da rocca.

...Estamos sempre vigilantes.

A rocca fica no centro do vilarejo com um imenso pátio que a circunda. Uma pequena parte do pátio foi transformada em estacionamento. Um bar e um restaurante - onde comi um risoto delicioso - e a escola nos fundos, do outro lado da rua, são os únicos locais com algum movimento, além dos carros que passam indiferentes.
Uma pequena parte do prédio abriga um escritório de informações turísticas com uma funcionária e dois policiais sempre vigilantes. Restaurar e manter o prédio custa uma fortuna. Frio no inverno mas fresco no verão. Como este, existem milhares. As pessoas nem reapram ou se dão conta de conviver lado a lado com a história. Se não fosse no centro da cidade, provavelmente teria virado ruína.
[Finalmente um dia de sol!]
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história e geografia
Thursday, January 15, 2009
Telhados Brancos
Este é o nosso décimo inverno na Itália. Lembro de uma manhã de terça-feira de janeiro de 2000, quando, saindo para levar as meninas à escola – logo ali, na esquina – reparei que não fazia tão frio quanto nos dias anteriores. No termômetro -12 ºC. Bem mais quente que os -21 ºC da segunda-feira. Depois daquele ano, nunca mais o inverno foi tão frio. As pessoas comentavam que já não mais nevava em novembro, e que as estações de esqui corriam o risco de falirem. Não sei o que aconteceu, mas o Senhor Inverno voltou. Foram só seis dias de sol, desde os primeiros dias de novembro até hoje. Pouca chuva, muita neblina, neve em quantidade cinematográfica e estações de esqui superlotadas.
Quarta-feira, 24 de dezembro, começou a maratona das festas de fim de ano (sem contar Santa Luzia, dia 14, que não é feriado e 8 de dezembro, esse, sim, feriado nacional); sexta-feira, 26 foi feriado, dia de Santo Estêvão. Depois, sábado e domingo e na quarta-feira seguinte já era 31 de dezembro – Capodanno – com quinta-feira feriado; sexta-feira só abriram as lojas que começaram os primeiros saldos da estação e o fim-de-semana chegou de novo. Terça-feira seguinte, dia 6 de janeiro, outro feriado. E o reinício das aulas, marcado para o dia 7 de janeiro, foi adiado por causa da neve.
Crise? Que crise? Sabe quanto custa uma semana em uma estação de esqui? Ou um cruzeiro no Nilo? Ou 15 dias no Mar Vermelho? As três metas que mais atraíram italianos nessas férias de Natal. A esbórnia do fim de ano fez bem à economia italiana e as vendas foram superiores às do ano anterior. Um ministro foi à televisão pedir apoio à “greve do abacaxi” para evitar o consumo de produtos importados. Achei que a expressão correta deveria ser boicote, mas os políticos possuem uma certa licença andreazziana para se expressar que usam como lhes convêm, o que vanifica qualquer polêmica. Nem tentei.

Apesar da muita neve que continua caindo, a vida segue adiante. A temperatura em Piacenza tem oscilado entre 6 ºC e -14 ºC, mas existem cidades muito mais frias. A neve cai e aumenta a temperatura que derrete parte da neve. Sem neve a temperatura cai e congela a água que ficou, numa equação que todo motorista deve conhecer e respeitar. Dirigir sobre a neve é possível, desde que com correntes nos pneus; dirigir sobre o gelo, não. Assim como todo pedestre deve conhecer e respeitar a equação que derruba a neve acumulada nas árvores e nos beirais dos telhados.
E o frio não é tudo. Uma nova moda foi importada da França e agora temos a “Associação pela liberação dos anões de jardim”, que andou sequestrando todos os bonecos de papais-noel pendurados nas janelas ou espalhados pelos jardins. Todos foram localizados em praças, sentados pelos bancos com garrafas vazias ao lado. O policial achou que os bonecos estavam sorrindo.
Quarta-feira, 24 de dezembro, começou a maratona das festas de fim de ano (sem contar Santa Luzia, dia 14, que não é feriado e 8 de dezembro, esse, sim, feriado nacional); sexta-feira, 26 foi feriado, dia de Santo Estêvão. Depois, sábado e domingo e na quarta-feira seguinte já era 31 de dezembro – Capodanno – com quinta-feira feriado; sexta-feira só abriram as lojas que começaram os primeiros saldos da estação e o fim-de-semana chegou de novo. Terça-feira seguinte, dia 6 de janeiro, outro feriado. E o reinício das aulas, marcado para o dia 7 de janeiro, foi adiado por causa da neve.
Crise? Que crise? Sabe quanto custa uma semana em uma estação de esqui? Ou um cruzeiro no Nilo? Ou 15 dias no Mar Vermelho? As três metas que mais atraíram italianos nessas férias de Natal. A esbórnia do fim de ano fez bem à economia italiana e as vendas foram superiores às do ano anterior. Um ministro foi à televisão pedir apoio à “greve do abacaxi” para evitar o consumo de produtos importados. Achei que a expressão correta deveria ser boicote, mas os políticos possuem uma certa licença andreazziana para se expressar que usam como lhes convêm, o que vanifica qualquer polêmica. Nem tentei.

Apesar da muita neve que continua caindo, a vida segue adiante. A temperatura em Piacenza tem oscilado entre 6 ºC e -14 ºC, mas existem cidades muito mais frias. A neve cai e aumenta a temperatura que derrete parte da neve. Sem neve a temperatura cai e congela a água que ficou, numa equação que todo motorista deve conhecer e respeitar. Dirigir sobre a neve é possível, desde que com correntes nos pneus; dirigir sobre o gelo, não. Assim como todo pedestre deve conhecer e respeitar a equação que derruba a neve acumulada nas árvores e nos beirais dos telhados.
E o frio não é tudo. Uma nova moda foi importada da França e agora temos a “Associação pela liberação dos anões de jardim”, que andou sequestrando todos os bonecos de papais-noel pendurados nas janelas ou espalhados pelos jardins. Todos foram localizados em praças, sentados pelos bancos com garrafas vazias ao lado. O policial achou que os bonecos estavam sorrindo.
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inverno
Thursday, January 08, 2009
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