Sunday, November 30, 2008

Dia da bomba

Domingo passado, 23 de novembro, foi o dia de desarmar a bomba. Nada explodiu, a vida continua.

Aproveitamos para fazer um passeio pelo campo. Num dia de sol, com pressão atmosférica altíssima como só acontece no outono, pode-se ver os Alpes. As montanhas na foto abaixo parecem perto. Na verdade estão longe pra chuchu, um vegetal muito raro por aqui.



Friday, November 21, 2008

Eu sabia!

Logo que chegamos em Piacenza a prefeitura resolveu restaurar uma praça do centro. A previsão era de três meses para a conclusão da obra, mas os moradores demonstraram um mau humor muito maior. Diziam que ninguém sabia quanto tempo realmente seria necessário para a conclusão da obra. O projeto previa reformar a praça, com bancos e jardins, além da substituição do calçamento das ruas que a circundam.

O trânsito foi modificado e todas as informações sobre a nova viabilidade foram publicadas nos jornais e nas tvs locais. No dia informado, a praça foi fechada e chegaram os calceteiros. No décimo dia os trabalhos foram suspensos e só foram retomados dois anos e cinco meses depois. Tinham encontrado fragmentos arqueológicos durante as escavações. Na Itália é assim. Quem cavar o quintal de casa corre o risco de ver a propriedade transformada em sítio arqueológico e não poderá nem mesmo cobrar ingresso. Encontrar bombas ou fragmentos bélicos também não é uma novidade. E é por isso que toda obra deve ser antecipadamente comunicada, assim como a limpeza de córregos ou áreas rurais só pode acontecer com a supervisão da polícia.

Piacenza é conhecida como “La Primogenita” – a primeira filha – mas não por ter sido o primeiro acampamento militar ao norte, lá no ano de 218 a.C. E sim por ter sido a primeira cidade a aderir ao documento que deu origem à unificação da Itália. Também é conhecida como sendo a cidade das igrejas e quartéis. À época de Napoleão não devia haver quartéis suficientes e o grande general decidiu transformar algumas igrejas em quartéis, quando ocupou a cidade. Foi assim que o Mosteiro de Santo Agostinho, a uns 470 metros de casa, foi transformado em quartel. O mesmo quartel desativado em 1995 e que visitamos em setembro, durante as Jornadas Europeias do Patrimônio, quando aproveitei para observar desconfiado o imenso buraco que a prefeitura está escavando para construir um estacionamento subterrâneo.

Bom, o final era óbvio: encontraram uma bomba da segunda guerra, próximo à outra descoberta, uma olaria que teria servido para produzir os tijolos do mosteiro, no século XVI. Não uma bomba qualquer, mas uma imensa, capaz de mandar todo o bairro pelos ares.

Como é costume nesses casos, um perímetro de 500 metros será evacuado neste domingo, 23 de Novembro, quando a bomba será desarmada e retirada. Caso fosse uma área livre de construções, o perímetro seria de 3 quilômetros. Se tudo correr bem, devemos abandonar nossas casas das oito da manhã até a metade da tarde. Prefeitura, Polícia Militar, Polícia Municipal, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e Exército estão mobilizados e um refúgio foi organizado no ginásio municipal, a 6 km do local. Se tudo der errado, o preço dos alugueis deverá aumentar muito, a mão-de-obra dos pedreiros será super valorizada e não sei quando terei a oportunidade de escrever outra carta. Melhor levar o computador no porta-malas.

Na imagem anexa indiquei com a palavra “aqui” escrita à mão a localização da nossa casa. No centro do círculo, um soldadinho verde e a bomba, que, espera-se, não explodirá. Por míseros 30/40 metros.





Sunday, November 16, 2008

O frio tá chegando



































Pircher - destilado à base de peras williams produzido na zona de Bolzano e em toda a região do Südtirol. Graduação alcoólica: 40%. Para bebericar em casa, sentado, nos dias de muito frio, pouco antes de se arrastar para o sofá, já que a cama estará longe demais.
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Friday, November 14, 2008

Afeto à distância

Em meados de 2000 o governo italiano estudava investimentos em países do terceiro mundo com a finalidade de reduzir a imigração clandestina. Um amigo argentino à época: “Eles vão construir semáforos pra gente poder trabalhar como flanelinha por lá mesmo.” Polêmicas e conjecturas se alternaram com os políticos que entupiam tvs e jornais, como se todos não soubessem tratar-se de mais uma cortina de fumaça. No ano seguinte o mundo mudou, o medo de imigrantes aumentou e o assunto sumiu.

Parte da população europeia aproveita cada desculpa para reafirmar que estrangeiro bom é aquele que permanece no próprio país, recebendo bem os turistas em viagens de férias ou de turismo sexual. Outra parte dessa mesma população não vê barreiras para uma convivência pacífica e civilizada. E é esta gente que engrossa as estatísticas da benificência e que vê na adoção a resolução de muitos problemas, seja por escolha ou pela incapacidade de gerar filhos. Nesses casos, a adoção de crianças estrangeiras acaba prevalecendo sobre as outras possibilidades, como a “adoção temporária”, nos casos de pais impossibilitados de educarem ou cuidarem corretamente dos filhos.

Mas existe uma outra solução, em que crianças do terceiro mundo podem ser adotadas à distância. Para isso, basta ser maior e não precisa ser casado. O candidato se apresenta a uma das muitas entidades que promovem a adoção à distância – sempre ligadas a algum movimento religioso e muito controladas – e contribuir com uma pequena soma mensal. Do outtro lado do mundo, esse dinheiro servirá para comprar alimentação, roupas e remédios a alguma criança, que não poderá deixar a escola e cujo responsável deve andar na linha. Não é incomum que um dos pais seja um presidiário ou que os pais sejam separados, mas quem for o tutor da criança deve realmente seguir uma vida exemplar.

Cartas e fotos serão trocadas e cartões de boas festas chegarão sempre pontuais. Uma visita, pelo menos, será organizada para possibilitar um contato pessoal do pai adotivo com a criança na realidade em que ela vive.

Nunca ouviu falar de adoção à distância e está achando que é uma nova moda? Pesquise na net o termo “adoção à distância” em qualquer língua e espante-se com o resultado.

E, não, não é como construir os semáforos do meu amigo argentino. É uma forma de se ocupar de alguém que necessita de ajuda. Conheço pessoas que financiaram até a faculdade do filho “adotado”. Um desses filhos – hoje dentista – mudou-se para a Itália para cuidar dos pais adotivos, um casal de operários aposentados, sem filhos, velinhos e doentes. A irmã, também dentista graças a uma outra adoção, é quem está cuidando do consultório com a ajuda da futura cunhada.

Nesses anos de Itália descobri como é imenso o exército de voluntários sociais e benfeitores, e de quanto esse exército é importante para a comunidade e para milhares de anônimos mundo afora. Por outro lado, nos últimos anos notei que os semáforos de Piacenza foram substituídos por rotatórias.
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Sunday, November 02, 2008

(Con)Fuso horário

De algum lugar da China (eu acho), recebo o seguinte e-mail: “…cheguei de Lhasa ontem à noite, cansado à beça, mas em forma. Estou reaprendendo a respirar sem tubo de oxigênio pendurado no nariz, como estive obrigado a fazer durante todo o tempo passado no quarto do hotel em Lhasa.

Aliviava, mas não resolvia. No resto do dia, eu tinha de me contentar com o oxigênio da atmosfera rarefeita e seca. Oxigênio o qual, além de pouco, vem misturado com a poluição do tráfego (sim, Lhasa está altamente motorizada). Mas o maior sufoco (literal) é o do interior dos templos, superlotados, sem janelas nem sistema de exaustão, o pouco oxigênio consumido por incontáveis lamparinas alimentadas a manteiga de iaque derretida. Acrescentem a isso a fumaça de incenso e tentem imaginar a nauseada aflição de meu nariz, dos pulmões, e do coração que tentava compensar com aceleração o baixo suprimento de oxigênio chegado ao cérebro e outros órgãos.”

O segundo e-mail é enviado já do Brasil: “Se hoje não for amanhã nem ontem, acho que cheguei da China esta manhã. Vour dormir agora, a 1h30 da tarde (ou já é noite?) e dou mais notícia amanhã, digo, ontem (ou ontem já é hoje?) Credo!”

Com o início do horário de verão no Brasil, o fuso horário entre Itália e Brasil se reduz para quatro horas. Com o fim do horário de verão italiano, a diferença caiu para três horas. Só em Março voltará a ser de cinco horas, a enorme diferença que nos deixa mais distante de parentes e amigos: quando ligamos a pessoa está trabalhando (ou dormindo); no horário em que as pessoas chegam em casa e podem telefonar com calma, já dormimos nós. Aniversários, datas festivas ou simplesmente vontade de falar com alguém que conhecemos desde sempre, correm o risco de passar em branco. A redução do fuso horário nos aproxima, mas não resolve outras diferenças.

O pior é lembrar que enquanto entramos no período frio do ano, o horário de verão no Brasil está apenas começando. “E. T. phone home.” A neblina não combina com a lembrança que tenho de Salvador nesse período e esse clima criado pela iminente eleição nos Estados Unidos, com todo mundo acreditando que, com Obama ou McCain, todos os problemas se resolverão, que a crise financeira se dissipará, que as guerras terão fim, que o clima voltará a ser como há cem anos, que todos viverão mais e melhor e que a torrada nunca mais cairá com o lado da manteiga para baixo. Essa sensação falsa que mantém o mundo suspenso e que o manterá pelos primeiros meses da nova administração, como sempre acontece. Esse ar viciado que cria expectativas e contribui para um estado de espírito melancólico e cansado.

Esperar pela Primavera (uma outra meia estação) com a certeza de que jamais irei a Hollywood ou a Lhasa. Não por vontade própria.

E eu nem sei se tem meia estação por lá, só sei que são duas localidades muito próximas: