Wednesday, October 29, 2008

Pronúncia italiana - B, C

Continuando a nossa lição de pronúncia italiana.

Comparando a língua italiana com a portuguesa a letra b não muda. Vale, porém, uma ressalva para quando aparece dupla. E essa é uma regra que vale para todas as letras duplas (bb, cc, dd, tt, etc.). Nestes casos a pronúncia respeita a escrita, ou seja, não se deve pronunciar a letra duas vezes, mas “alongar” a pronúncia. No caso da letra b a boca fica fechada, emitindo o som da preparação da letra, como se fosse em câmara-lenta e só depois se conclui a palavra. Parece complicado, mas é mais fácil fazer que explicar. Ler em voz alta é um ótimo exercício e com o tempo aprende-se a pronunciar letras duplas com naturalidade (eu ainda faço confusão. Faltou-me uma lição como essa).

Já a letra c, que também pode ser dupla, tem uma pronúncia diferente quando precedida de e ou i. Aqui a ‘regra do tchau’ é muito útil. Tchau é um cumprimento que em italiano se usa com pessoas próximas, a quem se trata por ‘tu’. Amigos, parentes e colegas de trabalho ou escola, para quem é adulto (entre os jovens o ‘tu’ é uma regra não escrita). Pois bem, o tchau, em italiano, tem a mesma pronúncia, mas escreve-se ciao. Assim, c + i = tchi; c + e = tche. E não importa se a letra c aparece dupla ou não.

Vá treinando:
Nebbia (neblina)
Bacco
Tabacco
Abbaco (ábaco)
Pubblicità (publicidade)
Ciao
Macello (açougue)
Ciabatta (a sandália que se usa em casa)
Macinare (moer)
Cicerone
Lucertola (lagartixa, lagartos em geral, calango)
Certo
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Monday, October 27, 2008

“Abre Aspas”

A Lunna fez o convite e decidi aceitar. A ideia é postar uma poesia e escrever algo sobre o autor. Como a poesia recente que mais me chamou a atenção foi escrita por um senhor, avô de uma ex-colega de escola de uma das meninas, e eu sequer me lembro o nome dele, prefiro dizer que o texto apresentado mostra muito da personalidade italiana, sempre sob uma ótica masculina, mesmo quando expressa por mulheres.

Tirando o aspecto ligeiramente machista, não deixa de ser interessante a capacidade de síntese do autor, resumindo uma filosofia de vida em uma frase.


Bacco, tabacco, Venere
Fanno d’uomo cenere
.”


***

POST SCRIPTUM - Faltou a tradução, que ninguém é obrigado a saber italiano. Deixo a tradução literal, que altera a rima mas deixa o conceito claro (valeu a dica, Yvone):

"Baco, tabaco, Vênus
Fazem do homem cinzas.
"



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Saturday, October 25, 2008

Cores d'Outono


















A neblina toma conta de tudo e limita o horizonte.




















O sol nasceu. Mas dorme ainda.




















Cores quentes.




















O caminho para a neblina.






















Vilarejo (Carpaneto Piacentino)




















Ops!





















Casa no campo.

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Tuesday, October 21, 2008

Quase vegetariano

De repente o pedaço de carne na minha boca fica com gosto de couve-flor, de repente. Como o ex-operário da fábrica de cerveja que tem o nariz impregnado de cevada e que não encontra prazer na cerveja, mesmo anos depois de não trabalhar mais lá. Tudo começa a ter gosto de couve-flor e a minha vida escorre como um rio diante dos meus olhos.

Às quartas e sábados saía correndo da escola e ia direto pra Rua do Muro, onde tinha a feira, antes que estação fosse construída. A mãe me esperava com as sacolas, que ela ia enchendo com os produtos encalhados – xepa, mesmo – que os feirantes vendiam por poucas liras, pra não ter que trocar pela dignidade das famílias pobres como a nossa. 20 liras. Era quanto custava uma sacola de couve-flor. Voltávamos pra casa e a mãe cozinhava sobre a lenha catada nos dias de sol, amontoada na cabana que o pai construiu antes de desaparecer. Como havia fartura de couve-flor e pouca coisa mais, comíamos couve-flor todos os dias. Couve-flor tem gosto de lira velha. 20 liras. Eu era garoto mas entendia tudo. Com a cabeça enfiada no prato, sentia o olhar da mãe e podia ouvir seu coração apertado, eu entendia tudo. Comia de limpar o prato e ela suspirava aliviada. Almoçava e saía pra catar lenha e vender nas ruas do centro. A mãe usava o dinheiro pra ir à feira.

Nas férias de verão trabalhava na poda das videiras e, depois, na colheita da uva. Aquele dinheiro era importante e a mãe rezava pra que a safra não atrasasse e eu pudesse voltar pra escola em setembro, no início do ano escolástico. Durante a colheita os outros levavam pão pra comer com uva. Como não tínhamos dinheiro pra farinha, levava apenas couve-flor e trocava com um pouco de pão, eu trocava. Couve-flor alimenta os calos das mãos. Pão com uva sob o sol é a lembrança bela e dura das minhas férias.

Quando deixei a escola pra ir trabalhar na construção da estrada de ferro, levava a couve-flor que a mãe cozinhava às cinco da manhã. Comia longe dos outros operários, que o cheiro de couve-flor é desagradável e denuncia os mais miseráveis. Couve-flor fede como suor, fede.

Íamos a poucas festas. Uns poucos casamentos e a festa da padroeira. Pobre tem pouco a festejar, mas quando casei teve festa. Pouca, mas teve. E não teve couve-flor, que comida assim, pobre, come-se escondido e não se oferece a ninguém. Massa, peixe, pão, vinho. Couve-flor, nunca. Couve-flor é a vergonha da pobreza.

Cresci meus filhos com calos e resignação. O salário mal dá pras despesas e não podemos nos permitir os supérfluos da modernidade, mão não posso privar os garotos de desejarem ser iguais aos demais, não posso. O dinheiro dos serviços ocasionais e da campanha da uva, nas férias, fica separado pra ser usado com falsa naturalidade em algumas poucas, das muitas vontades deles. No próximo verão levo os meninos pra ajudar na uva e eles começam a ganhar o próprio dinheiro. Até lá, carne só muito de vez em quando, que pobre tem que suportar privações e eu sou um que suporta. E tem o primo dela, feirante, que trás sempre um saco de couve-flor. Mas quando ela leva os meninos pra velha benzer, uma vez por ano, antes da festa da padroeira, como carne. É por isso que esse pedaço deve ser mastigado devagar, fingindo não ter o gosto da couve-flor que os meninos não comem de jeito nenhum, e que está impregnado no meu nariz pra sempre. Nem enfio a cabeça no prato pra comer depressa e me livrar logo, como fiz a vida inteira, não. Hoje como devagar, pensando no primo dela que só aparece quando estou trabalhando; na lira que nem existe mais: vinte liras equivalem a menos de um centavo de euro (aquela moedinha de cobre azinhavrado), nem existe mais, nem existe; na estrada de ferro que ajudei a construir e que hoje leva a gente embora daqui; no almoço de pão com uva durante a colheita; na lenha catada e vendida por poucas liras pra quem nem precisava dela; na dignidade que restou.

Tento lembrar dos momentos alegres e esquecer a vida dura que sempre tive, tento lembrar. Esquecer da carne sem gosto de carne; do peso das sacolas da feira; do olhar desviado das pessoas pra quem vendia a lenha; do cheiro de couve-flor em baixo da lona, onde almoçávamos em dias de chuva, na construção da estrada de ferro; das poucas festas; dos calos nas mãos irremediavelmente grossas; do dinheiro sempre pouco; da frase dela encerrando a discussão essa manhã, pouco antes que saísse com os meninos pra pegar o trem das sete e meia: “você nem imagina os sacrifícios que tive que fazer pra não faltar nunca a couve-flor que você tanto gosta.”
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Friday, October 17, 2008

Pronúncia italiana - A

Ao longo desses anos recebi algumas solicitações para dirimir dúvidas sobre a pronúncia em italiano. Não acho ser a pessoa mais indicada para respondê-las, mas na falta de um professor ou de alguém que fale um italiano melhor que o meu, tentarei esclarecer com os recursos linguísticos que acumulei (portanto, não leve muito a sério. Aliás, não leve nada muito a sério).

Sabe aquele som anasalado do ã ou do a antes de m ou n? Esqueça-o quando falar em italiano. O a terá sempre um som aberto. Tá achando fácil? Experimente dizer Bianca, Grana Padano ou divano (sofá) com o a aberto. Se você conseguir, terá superado um enorme obstáculo para fazer-se entender em italiano.

Vá treinando:
Banana
Domani (amanhã)
Italiano
Lampada (lustre, luminária)
Milano (Milão)
Quando
Salame
Samba
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Sunday, October 12, 2008

O caso da mozzarella

“Mande notícias.”, “cadê você?”, “você anda tão sumido…”. Considerando os incontáveis e-mails que reclamavam o meu sumiço – nem tão incontáveis assim: foram três – resolvi contar desde o início.

Tudo começou na última semana de agosto. Fazia um calor terrível e o sol, que às oito da noite ainda brilhava la fora, só piorava a situação. Noite ideal para uma insalata caprese, com mozzarella di bufala campana DOP, tomate e folhas de manjericão. Sem truques; só fatiar tudo em rodelas, ajeitar no prato e comer. Um fio de azeite de oliva extra-virgem. Minhas três meninas preferiram sorvete e fiquei sozinho na cozinha. Retirei a mozzarella da geladeira para que atingisse a temperatura ambiente. Cortei os tomates, lavei o manjericão e abri o primeiro saquinho de mozzarella. Escorri o soro, fatiei, montei o prato e abri o outro saquinho para que o soro escorresse, deixando a segunda mozzarella em cima da pia. Degustei cada fatia vagarosamente. O calor derreteu a dúvida entre cerveja ou vinho: cerveja. Estupidamente gelada, como desaconselha qualquer bom entendedor de cerveja, como eu. Preparei o segundo prato e fui fatiar a… Cadê a outra mozzarella? Sumiu. A pia estava limpa e vazia, procurei pelo chão, esvaziei o armário em baixo da pia, a lata de lixo continha só os dois saquinhos vazios de mozzarella, vasculhei, procurei, investiguei e refiz cada passo três vezes. Nada. Minhas filhas me encontraram revirando a cozinha e perguntaram o que eu fazia. Contei tudo e recebi a ajuda de duas excelentes caçadoras de mozzarellas perdidas. Em vão. Nos dias seguintes vigiava as formigas, esperando que me levassem à entrada do buraco negro que – tenho certeza – existe em algum canto da minha cozinha. Todas as manhãs entrava e vasculhava com o olfato, de olhos fechados. Nada.

Nesse meio tempo o mundo não parou. A Alitalia faliu, apesar das promessas do governo de que isso não aconteceria. O mesmo governo que está oferecendo o que restou da companhia na bacia das almas. Perdi dias pensando nisso.

Um incêndio destruiu completamente o prédio da OBI, um hipermercado de bricolage. Em uma cidade onde muitas empresas estão a alguns euros da falência e algumas, alguns euros depois, a notícia de cinquenta funcionários que correm o risco de perder o emprego assusta a escaldada comunidade piacentina. Solidarizei-me com o movimento sindical que luta para manter os empregos.

Começou a temporada de caça, que vai até janeiro próximo. Nunca gostei ou tive passarinho em gaiola, peixes em aquário ou cães acorrentados. Entendo quem caça para comer por falta de opção; sou carnívoro mas não aprovo a caça esportiva. Além disso, os caçadores são as únicas pessoas autorizadas a entrar, sem pedir licença, nas terras e quintais de qualquer um. Colocar um placa que proíba a caça custa muita burocracia e leva anos. Fico horas, indignado, refletindo se não seria possível caçar os caçadores.

Aconteceu, em Piacenza, o primeiro Festival do Direito, com muitos temas delicados sendo debatidos: a Europa entre o direito e a política; mobbing; a ilusão da segurança; Seriam os juízes os patrões da vida?; a responsabilidade dos médicos e hospitais; saúde e segurança no ambiente de trabalho; procriação; a sociedade da vigilância, foram alguns dos assuntos que esquentaram o festival. Na realidade discutiu-se muito sobre votos aos imigrantes, regras claras para regular a imigração, direito da mulher, incluindo poder dar aos filhos o sobrenome da mãe, direito à manifestação política e religiosa dos grupos radicais e conflitos entre culturas e o direito. As faculdades de direito nunca tiveram tantas matrículas. Depois da lei promulgada para esvaziar as penitenciárias, que reduz a pena antes mesmo do primeiro dia de cadeia do réu, o direito nessa terra tira o sono de qualquer um. E esse qualquer um sou eu.

As Jornadas do Patrimônio, evento que acontece em setembro em toda a Europa, permitiu-nos conhecer este ano o antigo monastério de Santo Agostinho, construido em 1573. Ocupado por Napoleão, acabou virando um quartel, que funcionou até 1995, quando foi definitivamente desocupado e entregue aos pombos. Parte da imensa – e bota imensa nisso – estrutura abandonada está sendo reformada para abrigar o Arquivo de Estado de Piacenza. Uma parte do terreno será transformada em um estacionamento subterraneo, se as descobertas arqueológicas permitirem, mas ainda sobra muita coisa a ser restaurada. A maioria dos piacentinos jamais havia visitado as instalações e ficaram impressionados com a jovem guia Bianca, de apenas 16 anos, que cumpriu muito bem o seu papel, esclarecendo dúvidas e respondendo a todas as perguntas com segurança. Dias lambendo a cria.

Quando pensei que o ano recomeçaria de forma monótona, eis que a economia mundial vai à falência e me assusta mas não me deixa surpreso. E me pergunto: onde diabos foi parar a mozzarella? Depois de mais de um mês, decidi encerrar as buscas.
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Friday, October 03, 2008

Em menos de um mês

Quinta-feira, 4 de setembro de 2008: as autoridades locais alertam para o alto consumo de energia provocado pelo contínuo uso do ar-condicionado. O sistema riscava de entrar em colapso. Apesar das férias terem chegado ao final, as pessoas continuavam a agir como se estivessem veraneando em algum hotel.

Quinta-feira, 2 de outubro de 2008: a primeira neve nas montanhas faz cintilar os olhos dos esquiadores.
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