Sunday, September 14, 2008

Ciclo setembrino

Alguém lamentou que sou repetitivo. Sentido, afoguei minha mágoa em um copo de barolo. Quando ela morreu (a mágoa) tratei de arranjar outra, pois a garrafa estava praticamente cheia. Aproveitei para pensar sobre o assunto e descobri que recordo muito pouco das cartas anteriores e que é provável, sim, que eu me repita. Não lembro sequer do número do meu celular e faço contas quando me perguntam a idade. Mas parte da culpa é da história, que continua a repetir-se. As estações do ano também são sempre as mesmas, assim como os chatos e os políticos.

Uma pessoa que entrasse em coma na Itália no dia 15 de Janeiro de 1995 e acordasse, digamos, domingo 14 de setembro de 2008, mais de 13 anos depois, teria a impressão de que deu apenas uma cochilada. Silvio Berlusconi é o primeiro-ministro italiano; Umberto Bossi ameaça separar o norte do resto da Itália; os diversos partidos de esquerda estão engalfinhando-se por maior destaque na oposição; o povo reclama do custo de vida e diz que a Itália tem a carga tributária mais alta do mundo; o planeta está em guerra… Nada mudou. O cidadão do coma (decidi que seria um homem) só estranharia: “mas o mandato do Bush não terminou há dois anos…?”

Quando criança, descobri os dias da semana e fiquei fascinado: domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado. Achava uma maravilha dar um nome para cada dia e fiquei muito curioso em saber o que viria depois. No sábado perguntei: “mãe, que dia é amanhã?” Fiquei frustrado ao descobrir que os dias se repetiriam. Ainda não sabia que se chamava criatividade, mas concluí que quem inventou os nomes dos dias não a possuía. Mas acredito já ter contado isso em outra carta.

…E Setembro chegou. Fim do verão, das férias coletivas, das cidades vazias, dos preços astronômicos cobrados por encanadores e fim dos vazamentos. Início do campeonato de futebol, do ano escolar, dos aumentos de luz, gás e telefone, do trabalho parlamentar e da atividade industrial. É como o nosso Fevereiro, depois do Carnaval. Só falta o Carnaval, mas ninguém se dá conta.

As questões pendentes de antes das férias voltarão a ser debatidas agora. Como a proposta de registrar as impressões digitais dos ciganos de passagem ou residentes na Itália, que fez Bruxelas espernear. De nada adiantou inventar, depois, que seriam recolhidas os dados datiloscópicos de todos os habitantes da península. Curiosamente, parece ter morrido o projeto para recolher as impressões digitais dos parlamentares, o que permitiria criar um sistema para evitar “pianistas” nas duas casas – Câmara e Senado. Parece que irão proibir a prostituição – sem risos, por favor! – e se comprometeram transferir do papel à prática a reforma tributária, a judiciária e a do ensino, já que reforma política tem a cada semestre. Uma nova lei ampliando a imunidade parlamentar será muito criticada e aprovada. E o outono promete frio.

É um ano novo. Mas nem parece.
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Friday, September 05, 2008

Uma Lenda Amazônica

- Essa terra é tão desgraçada que, se cuspir, nasce um pé de filho-da-puta.

O diabo, que ouvia quietinho enquanto mascava um naco de fumo de corda, sentado à sombra do último mandacarú naquela imensidão deserta, sorriu com o canto da boca e cuspiu.

Um sabichão da cidade, desses que estuda na universidade, me explicou que uma lei da física impede que dois corpos ocupem o mesmo lugar na mesma hora. Pensei que um corpo também não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, e é por isso que não acho certo ter duas canoas, ou, pra vocês da cidade, ter dois carros. Mas isso é uma outra prosa.

Quando a explosão verde aconteceu, adubada pela saliva do demônio, a imensa caatinga cobriu-se de árvores e arbustos. Plantas que pertenciam a outras florestas distantes foram chupadas para cá, esvaziando as matas pelo mundo até virarem imensos descampados. A vida que morria lá brotava nova aqui. Os seres humanos se reproduziram e foram preparar as lavouras, primeiro, e construir fábricas, depois. Onde era mata, hoje é cidade.

Lá os rios secaram. Os que não secaram enchem com a primeira chuva e inundam tudo. Os bichos morreram, foram extintos e só uma parte conseguiu sobreviver, se escondendo em pequenas matas ou se ajeitando com a vida nas cidades. Só o bicho homem se espalhou por todo lugar, parasita das catástrofes que é.

Mas a nova floresta logo atraiu os insetos, que polinizaram as plantas e multiplicaram a mata. Pássaros e outros bichos vieram depois. A umidade evaporava, virava chuva e evapora outra vez. Os ventos informavam e guiavam os bichos até o norte do que um dia seria chamado de América do Sul, mas que naquela época ainda não tinha nome, como ainda não tem hoje, para os que nela vivem. Os bichos foram chegando de mansinho e se emocionaram com toda aquela belezura, com plantas e árvores diferentes, de diferentes lugares, misturadas mas em harmonia. Emocionados, os bichos choraram. As lágrimas formaram os rios, córregos e riachos. Embaixo das folhas secas que aos poucos viravam húmus, a vida dos insetos se movimentava. A movimentação mudou a composição do solo e brotaram pedras preciosas e minerais. Ar, terra e água; plantas e animais. Tudo se completa e forma dependência, criando aquilo que vocês chamam de biodiversidade, mas que nós conhecemos simplesmente como “mata”.

A nova floresta tinha que ser protegida, impedindo que o diabo fugisse daquela imensa jaula de árvores. Ao norte, o mar; no sul, onças e jacarés vigiam. Os peixes criaram dentes afiados e piranham as águas. Os pássaros aprenderam gritos assustadores e controlam o ar; na terra, cobras e roedores vasculham cada buraco. Alguns macacos resolveram se parecer com o demo para fingir uma maior vigilância, e o macaco berrador, debochado que é, imita o som do tinhoso quando o fumo lhe queima a goela e ele lembra que não pode cuspir de novo.

O desequilíbrio de hoje só terá fim quando levarem o diabo para as áreas das extintas florestas e o verde retomar o espaço ocupado pelo homem. É por isso que tem tanto desmatamento na Amazônia: todos querem ajudar. Estão procurando o diabo.

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Este post faz parte da blogagem coletiva sobre o Dia da Amazônia,
estimulada pelo nosso blog coletivo Faça a Sua Parte.
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