Wednesday, April 30, 2008

Absurdo!

O vice-ministro da Economia Vincenzo Visco ordenou a Agenzie Delle Entrate (o Fisco italiano) a tornar públicas as declarações de renda (IRPF) de todos os italianos, com base nas declarações de 2006. Segundo o vice-ministro, a decisão está fundamentada numa lei de 1973.

A autoridade que tutela a privacidade do cidadão italiano (Il Garante dela Privacy) mandou bloquear o site, após algumas horas em que era possível consultar a renda do vizinho, dos políticos, ou de qualquer outro cidadão italiano.

A notícia tinha sido antecipada pelo jornal Italia Oggi, que ensinava os cinco passos para consultar os dados no site do Fisco.

Que exista tal lei há 35 anos já é algo que assusta; tornar os dados acessíveis com apenas cinco cliks do mouse, no conforto de casa, anonimamente, é algo que deve ter deixado muito mafioso feliz da vida. “Você ganhou 1.000 e só me pagou 10. Quero os outros 490.” Isso sem falar nos outros problemas que cada um dos leitores deve estar imaginando.

No final da manhã Visco já havia decidido suspender tais informações, mas não sem antes declarar que estava tudo pronto para ir ao ar em janeiro e que só esperou as eleições passarem para cumprir uma ação que ele julga democrática. Não sei se vai rolar briga de cachorro grande ou se vai acabar tudo em pizza.

Só espero que o presidente Lula não tenha o hábito de ler este blog.
.

Saturday, April 26, 2008

Chuvinha

Eu moro em Piacenza e Piacenza fica na Planície Padana (Pianura Padana). A característica da Planície Padana é ser do contra. Não me refiro à atitude das pessoas, mas ao clima. No verão, os ventos que sopram por toda a Itália não refresca a região, que, úmida, torna a vida um inferno. No inverno, a neve que alegra turistas e paralisa tudo, deixa um círculo limpo e úmido em torno à cidade. Primavera? Onde? A temperatura fica oscilando entre os 28 ºC e 2 ºC, matando as flores e os pernilongos que se aventuram nesse período.

alguns dias uma chuvinha chata tem frustrado os planos dos primeiros pic-nics da temporada e vem azedando o humor piacentino. Chuva mesmo, com relâmpagos e trovoadas, aquela que vira um toró de alagar as ruas e deixar em pânico a Defesa Civil, vi uma três ou quatro em quase nove anos. O normal por aqui é aquela chuvinha que não pára por dias, ou fica se alternando com momentos de sol opaco. Como em todo fim de verão, no início de setembro haverá uma chuva de granizo tão intensa, que as estradas ficarão paralizadas por algumas horas.

Piacenza fica apenas a 68 metros acima do nível do mar. Anos atrás um político sugeriu que se abatessem algumas montanhas, para fazer com que o vento do mar escoasse pela Planície Padana. Foi a carreira política mais breve da região. Mas eu entendo, a Planície Padana é circundada por montanhas. Partindo do nordeste, percorrendo todo o norte da planície até o sudoeste, estão os Alpes; onde estes terminam começam os Apeninos, que ocupam todo o sul até quase todo o leste, deixando apenas uma única saída em direção ao mar Adriático, no extremo leste da planície. Olhando do alto (ou do Google Maps) as montanhas formam um “U” em volta de Piacenza e região.

Os camelôs africanos, que durante o ano vendem bolsas e cintos de grife falsificados, sempre de olho na chegada da polícia, enchem os bolsos no período das chuvas vendendo guarda-chuvas e sombrinhas a preços irrisórios. A vida útil do material também é irrisória. No período de chuvas seguinte, estarão eles vendendo a mesma mercadoria aos mesmos passantes. Apesar de comprarmos sombrinhas e guarda-chuvas em quantidade superior às nossas necessidades, quando chove descubro não haver nenhum guarda-chuva disponível e saio desprovido até o primeiro camelô. Tendo absorvido a ironia dos italianos, o camelô tem sempre uma piadinha pronta sobre a minha banhada condição.

Mais alguns dias e o clima muda, trazendo temperaturas saarianas e provocando um arrependimento pelas imprecações primaveris. O verde cobrirá as árvores hoje tímidas; as sorveterias oferecerão uma infinidade de sabores; um colorido de flores e pássaros irá invadir os dias ensolarados; o perfume e a algazarra da primavera finalmente transformará o clima em festa e os pernilongos poderão invadir tudo calmamente. Calmamente os policiais caminharão, para que o camelô tenha tempo de recolher a mercadoria.

Quando esse período chegar, vou fazer uma oferta pelo estoque encalhado de guarda-chuvas de algum camelô. E esperar que na próxima temporada de chuvas eu possa, finalmente, caminhar pela chuva sem encharcar-me. Com um guarda-chuva todo meu.

.

Monday, April 21, 2008

Dia da Terra













Blogagem Coletiva


A Terra foi fundada muitos anos atrás, mas naquela época se chamava Água. Depois, alguns peixes dissidentes resolveram criar pernas, caminhar pela terra e ganhar o pequeno mundo feito de terra mais ou menos firme. Como castigo, perderam a capacidade de respirar na água, pois os peixes previam que algo de ruim estava para acontecer. Os rebeldes rebatizaram o planeta com o nome de Terra, numa demonstração de que uma minoria arrogante poderia decidir os destinos do planeta. Por fim, aprenderam a dominar o fogo, inventaram a roda, o telefone celular, a esbórnia aos sábados e o churrasco na ressaca dos domingos.

No início os aerantas se alimentavam de bananas. [Aeranta é o nome de uma orquídea, que, como se sabe, é uma bonita epífita que necessita de pouco mais que água e ar e é, também, como os peixes chamam esses bizarros seres auto-destrutivos.] Com o tempo, desenvolveram a capacidade de comer qualquer coisa e produzir toneladas de resíduos que levam séculos para se decompor. Como a disponibilidade de comida se alastrou através das redes de supermercados e dos mac donald’s da vida, a alimentação deixou de ser um problema e, como acontece com as demais espécies em fases de abundância alimentar, perdeu o poder sobre o controle da natalidade. A procriação em grande escala provocou a explosão demográfica dos aerantas, que se viram obrigados a destruir florestas para construir cidades e plantar soja. De quebra, exterminaram diversas espécies e vão continuar exterminando enquanto houver outras espécies.

O futuro dos aerantas é se tornarem bárbaros. Bárbaros inteligentes que dominarão bárbaros menos inteligentes, mas sempre bárbaros. Analisando a evolução das espécies, os peixes acreditam que os futuros aerantas mudarão de forma, com cabeças minúsculas dotadas de grandes bocas. O resto do corpo deverá ser composto de uma enorme barriga com órgãos genitais gigantescos. As pernas provavelmente serão substituídas por algum aparato locomotor movido pelos próprios gases produzidos. Os aerantas aprenderão a flutuar, utilizando os mesmos gases produzidos nas imensas barrigas que lhes servirão de combustíveis. Tocar a terra será impossível e perigoso. Uma massa homogênea e esburacada de resíduos tóxicos fundidos e ferozes ratos venenosos serão a grande ameaça aos aerantas.

Em memória dos bons tempos, quando ainda tocavam a terra e se divertiam atropelando pedestres distraídos e jogando bitucas de cigarros no chão, usarão um avatar holográfico para cobrir a decadente aparência. Bilhões de brad pits e angelinas jolies infestarão as camadas mais baixas da atmosfera, onde uma opaca luz do sol mal conseguirá atravessar a barreira formada pelo lixo espacial e pelas nuvens tóxicas. Olhares se cruzarão até que o cortejamento tenha sido concluído e então começarão a copular, excitando os demais em uma orgia que durará dias. Saciados e esfomeados, começará a seção de canibalismo coletivo, uma vez que os próprios aerantas serão a única fonte de alimento. A bárbara ceia terminará quando um deles perderá o gás e cairá no chão antes de ser devorado pelos demais. Os ratos gigantes assustarão a todos com seus urros agudos e o barulho de ossos sendo triturados. A rotina de flutuar e trocar olhares continuará até que a próxima orgia recomece todo o ciclo.

Quando esse dia chegar, um rato venenoso certamente estará rindo com a cabeça fora do buraco, lendo o último capítulo do livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias”. Ele saberá que não será necessário eliminar o planeta, pois todos os aerantas terão sido esterilizados pelo ar contaminado. Bastará esperar alguns milhares de anos para que novas bactérias sejam capazes de dissolver a massa tóxica e o planeta será belo como o fora uma vez. Sem o menor registro dos aerantas.

Os ratos, apenas ratos normais, apostarão todas as fichas nas baleias, enquanto observam o planeta renascer. O planeta que se chamará para sempre Água.

.

Friday, April 18, 2008

Aprendendo a ler


















Vivendo há alguns anos na Itália, fica difícil analisar a atual situação do analfabetismo no Brasil. Apesar disso, tenho a impressão de que as coisas não são muito diferentes da época em que ainda morávamos lá (ou, aí), pois é um nosso hábito gastar muito tempo debatendo detalhadamente os grandes problemas nacionais, empurrando as possíveis soluções para um futuro que não chega nunca. As boas intenções se transformam em projetos; os projetos, em propostas parlamentares; as propostas parlamentares passam anos sendo distorcidas por comissões que buscam tirar algum proveito e no fim se descobre que a verba foi utilizada em viagens de turismo de alguns parlamentares.

Na Itália a educação é obrigatória até os 16 anos, mesmo para quem não tem residência fixa, como os ciganos. Há um progeto de lei transitando no Congresso Italiano para aumentar esse limite para 18 anos, mas congresso é tudo igual. Mesmo assim é possível encontrar analfabetos por aqui, normalmente entre os anciãos. O problema é maior quando se trata de estrangeiros, muitas vezes alfabetizados nos países de origens mas absolutamente analfabetos na língua italiana.

Sou do tempo do Mobral. Uma multidão de voluntários que ensinavam a ler e escrever, mas poucos alunos saíam de lá com capacidade de compreender e interpretar textos de uso cotidiano. Produzir um texto escrito, então, nem se fala.

Pouco antes da Bianca nascer, li uma matéria sobre um certo Dr. Glenn Doman e comprei um livro chamado “Como Ensinar Seu Bebê A Ler”. A primeira parte do livro esclarece que o médico operava recém-nascidos com problemas no cérebro e a experiência dele com o mundo dos bebês, esclarecendo que aprender a ler é mais fácil que aprrender a falar. A segunda parte é o método desenvolvido por ele, que usei seja com a Bianca que com a Luiza, que nasceu dois anos e meio depois. O resultado é que tenho duas filhas solares, comunicativas e extrovertidas, que vivem a idade que têm e são absolutamente normais e diferentes entre si. A Luiza chega a ler cinco livros por mês, mas pode passar até dois meses sem ler nada além de sms e revistas juvenis. Já a Bianca lê até três livros por dia, mas também tem seus períodos de recesso, ainda que mais breves que os da irmã.

Temos um casal de amigos com um filho de cinco anos. O garoto possui uma inteligência acima da média. O pai é nigeriano, a mãe, italiana. Até pouco tempo atrás, antes de começar a frequentar a pré-escola, o menino respondia ao pai em inglês, à mãe em italiano e aos avós maternos em dialeto piacentino, que não se parece com nada que eu consiga entender. Depois que começou o período da pré-escola, ele reponde sempre em italiano, apesar do pai continuar falnado-lhe em inglês. Só abriu mão do italiano quando a avó paterna veio passar um mês com eles e viu-se obrigado a responder a avó em ibu, a única língua conhecida por ela.

Em contra-partida, conheço pessoas (muitas, infelizmente) que, apesar do diploma na parede, possuem a mesma capacidade cognitiva de alguns ex-alunos do Mobral. Moral da história: não basta saber ler e escrever para considerar-se alfabetizado. Mas como podemos ajudar a resolver o problema sem esperar pelo governo? Daqui da Itália é possível praticar a adoção à distância. Funciona assim: com um mínimo de 60 euros por mês o cidadão adota uma criança pobre que viva com os pais (ou com um deles) e os missionários se ocupam em pagar parte das contas daquela família, desde que a criança frequente regularmente a escola e não trabalhe. A criança que recebe um auxílio escreve uma cartinha de agradecimento, manda fotos e recebe cartões no Natal. Todos os 60 euros são gastos com aquela família. Há algum tempo fiz um levantamento e descobri que 3% dos italianos que conheço pratica a adoção à distância e que 18% participa de algum serviço voluntário, oferecendo umas poucas horas por semana a alguma causa assistencial. Imaginem se no Brasil existisse um serviço voluntário para combater o analfabetismo? O método do Dr. Glenn Doman poderia ser mais difundido [desaconselho a leitura do livro às mulheres grávida], mas como fazer se os pais são analfabetos ou semi-alfabetizados? O trabalho voluntário é a única saída. E voluntário não significa necessariamente participar de uma ONG ou associação, mas precisa ser organizado, metódico e responsável. É possível obter maiores informações no site Alfabetização Voluntária.

Lembro do programa Vila Sésamo – sesamo, em italiano, é gergelim. “Abre-te gergelim!” – que estimulava o aprendizado da leitura. Infelizmente a TV de hoje está cada vez mais preocupada em índices de audiência, que atraem patrocinadores para sustentar os altos custos operativos. Mas ainda acho que parte da programação deveria ser dedicada a uma educação lúdica, voltada à infância. O problema da educação – e aí entra a alfabetização – está na base. Professores sub pagados, mal treinados e desatualizados acabam se desestimulando. Os pais, cada vez mais empenhados em garantir a sobrevivência, muitas vezes de formas indignas, têm cada vez menos tempo e paciência para a educação dos filhos e a TV só ajuda a piorar o que já é ruim. Talvez se enviássemos um projeto de lei ao Congresso Brasileiro…
.

Saturday, April 12, 2008

Ossário

O voto é uma conquista democrática. Existem exceções, mas na maioria dos casos é assim. O povo escolhe os seus representantes, aqueles que decidirão o futuro da coletividade. (Nunca havia escrito tanta besteira junta em um parágrafo tão curto. Ou …?)

Nos dias 13 e 14 de abril de 2008 serão eleitos os novos representantes do povo, aqueles que decidirão o futuro da coletividade. O governo de Romano Prodi, 69, caiu e um novo governo terá a responsabilidade de tirar a Itália do atoleiro em que se meteu desde que o euro foi implantado. Muito provavelmente a classe política estará olhando de longe, enquanto a coletividade estará patinando na lama, exaurindo inutilmente as próprias forças rumo a uma recessão inevitável.

O mandato de Prodi começou há dois anos e deveria durar outros três. Todos esperávamos uma guinada na economia e nem mesmo a vitória no último campeonato mundial de futebol serviu para criar o esperado clima de otimismo. Prepotente, Prodi não soube capitalizar os poucos acertos do seu mandato como primeiro-ministro e perdeu-se no debate político, tentando manter a enorme e frágil coalizão montada para garantir a sua eleição. Nos dois últimos anos as principais propostas do governo passaram pelo parlamento contando com os votos dos Senadores Vitalícios, que não foram eleitos pelo povo. Cada presidente da República pode nomear até cinco senadores vitalícios; além disso, legislação italiana transforma automaticamente em senador vitalício todo ex-presidente ao fim do mandato ou em caso de demissão. Atualmente são sete os Senadores Vitalícios:

- Sergio Pininfarina nasceu em Turim em 1926. Engenheiro mecânico, herdou do pai a empresa de carrocerias e design. Foi presidente da Cofindustria, a federação italiana das indústrias e foi nomeado Senador Vitalício em 2005, pelo então presidente Carlo Azeglio Ciampi.

- Emilio Colombo nasceu em Potenza em 1920. Foi o mais jovem membro do parlamento constituinte em 1946, então com 26 anos. Foi ministro da agricultura, ministro do comércio exterior, ministro do tesouro, das finanças, da indústria, do exterior e primeiro-ministro. Em 1977 foi eleito Presidente do Parlamento Europeu. Candidatou-se ao senado mas não foi eleito. Foi nomeado Senador Vitalício em 2003 pelo então presidente Carlo Azeglio Ciampi. No mesmo ano, acabou sob investigação numa operação sobre drogas e prostituição. Admitiu aos magistrados ser consumidor de cocaína, alegando uso terapêutico.

- Rita Levi Montalcini nasceu em Turim em 1909. Em 1986 recebeu o Nobel de Medicina. Cientista com diversas publicações, por ser judia, foi constrita a emigrar para a Bélgica pelas leis raciais do regime fascista. Com a invasão da Bélgica, voltou para Turim e depois transferiu-se para os Estados Unidos, onde prosseguiu suas pesquisas no departamento de zoologia da Washington University, Missouri. De 1961 a 1969 dirigiu o Centro de Pesquisas de Neurobiologia, em Roma e participa de diversos centros de pesquisa Nos Estados Unidos, Itália, Suécia e Israel. Foi nomeada Senadora Vitalícia em 2001 pelo então presidente Carlo Azeglio Ciampi.

- Giulio Andreotti nasceu em Roma em 1919. Estadista, político, escritor e jornalista, Esteve no centro da cena política italiana durante toda a segunda metade do século XX, ocupou quase todos os ministérios e foi primeiro-ministro sete vezes. Sua vida também é marcada por acusações de ligações com a Máfia, o que gerou uma infinita coleção de processos. Foi nomeado Senador Vitalício em 1991 pelo então presidente Francesco Cossiga.

- Francesco Cossiga nasceu em Sássari, na Sardenha em 1928. O jurista Cossiga foi tudo no ambiente político italiano. De deputado a primeiro-ministro, de ministro a presidente. Foi investigado pelo Parlamento italiano por diversas declarações infundadas. Durante o sequestro de Aldo Moro, m0ontou duas comissões de crise. Uma oficial e outra que ele chamou de “restrita”. Após constatar a fuga de notícias que informavam as Brigadas Vermelhas sobre as decisões da comissão restrita, o especialista americano Steve Pieczenik foi afastando um a um dos outros membros, até que restaram apenas o próprio Pieczenik e Cossiga, mas a fuga de notícias continuou. Assumiu o cargo de Senador Vitalício em 1992, após a sua demissão como presidente da república.

- Oscar Luigi Sacalfaro nasceu em Novara em 1918. Ex-magistrado, ex-ministro de diversas pastas, ex-presidente da câmara dos deputados, ex-presidente do senado, ex-primeiro-ministro, ex-presidente da república, acumula mais de 50 anos de vida política, com muitos altos e baixos. Foi o único presidente a não nomear nenhum Senador Vitalício. Antifascista e anti-comunista, Scalfaro protagonizou a mais controverso mandato presidencial, contando com o apoio dos partidos que sobreviveram a uma intensa investigação sobre corrupção. Assumiu o cargo de Senador Vitalício em 1999, após cumprir o mandato de presidente.

- Carlo Azeglio Ciampi nasceu em Livorno em 1920. Foi Governador da Banca d’Italia, primeiro-ministro, ministro do tesouro e presidente da república. Combativo durante a II Guerra, recusou-se a aderir à República de Saló e refugiou-se na região de Abruzzo. De onde partiu com outros 60 homens numa empreitada perigosa em meio à neve alta e ao frio polar para chegar a Bari, em 1944, para integrar-se ao renascido exército italiano. Durante o seu mandato como presidente, revitalizou o sentimento patriótico italiano e foi o presidente mais amado pela população, com índices de aprovação entre 70% e 80%. Recusou, delicadamente, o convite para um segundo mandato. Assumiu o cargo de Senador Vitalício em 2006, após deixar a presidência.

O Governo Prodi serviu para mostrar que as grandes coalizões não funcionam na Itália e as eleições de amanhã serão um verdadeiro balaio de gatos. Quase todos os partidos apresentam candidato próprio e ameaçam oposição responsável, qualquer que seja o eleito. Mas a disputa fica mesmo entre Sílvio Berlusconi, 72, e Walter Veltroni, 53, e ameaças de campanha não assustam ninguém. O leque se abriu, mas os partidos pequenos têm poucas chances de ocuparem muito espaço, mesmo os radicais de centro – tem de tudo.

O duro é saber que o resultado da eleição não mudará o panorama. O povo continuará na lama enquanto esse musgo ressecado em fase de fossilização não decidir abandonar a atividade política. Prodi avisou que não iria se recandidatar e cumpriu a promessa. “Vou cuidar dos netos”, prometeu. Mas não basta. É preciso deixar o campo para a possibilidade de novas ideias, novas caras e novos modos de governar. A classe política que hoje decide o futuro da coletividade italiana o faz desde o fim da II Guerra, com visíveis sequelas à população, como o remédio que põe em risco o paciente. A decisão de Romano Prodi deveria ser copiada por boa parte do Parlamento Italiano.

Enquanto as decisões do país precisarem passar pelo crivo dos velhinhos do senado, corre-se o risco de ver o angustiante presente perpetuar-se no futuro, por mais simpáticos que possam ser. Os Vitalícios.

.