Sunday, March 30, 2008

Filhos? Melhor não tê-los!

Todos os dias a rotina de acordar as meninas e mandá-las à escola assemelha-se a uma negociação na ONU. No final, o relógio sempre vence. Depois, adeus! As atividades extra-curriculares por aqui são tantas que dificilmente jantamos todos juntos. Se o time de vôlei de Piacenza joga, pelo menos uma delas vai participar como gandula. Fico acordado, esperando que a Lucia (Luchía), relações públicas do time e, nas horas vagas, a catequista das duas, as traga para casa, por volta das 23:30h. Ou o Mario, filho da Lucia. Me esforço para manter os olhos abertos até a chegada delas. Entram, trancam a porta, dão um beijo veloz no pai, trocam de roupa e cinco minutos depois dormem como anjos. Eu, com o turbilhão provocado pela chegada, é óbvio, perco o sono.

Aulas de violão, redação do jornal da escola, aulas de catecismocomo alunas e como professora (a mais velha), levar para o atletismo, buscar no atletismo, ou o esporte do momento. foi basquete, vôlei, ginástica artística e hip hop. Parece que agora vai começar a fase de yoga.

- Cadê a sua irmã que não chega para almoçar e eu tenho que voltar ao trabalho?

- Pai, hoje é quinta e ela tem a sexta aula…!

Almoço, repouso, lição e desaparecem, compromissadas que são. Quer dizer, uma faz a lição sem que ninguém precise mandar, a outra, sob forte coação. Duas personalidades fortes e uma infinidade de amigas, festas, celulares que tocam, pizzas e cinemas. Saem aos bandos e o ponto de encontro é no nosso prédio, que fica no centro, rodeado de cinemas, pizzarias e sorveterias. Shopping pelas ruas do centro ou apenas olhar as vetrines, nesta parte da Itália onde os jovens podem passear tranquilamente pelas ruas. Ao menos pelas ruas movimentadas do centro. Na Itália, vive-se na rua.

- Onde vocês estão? É hora de voltar para casa.

Pilhas de livros que transitam entre a nossa casa e a biblioteca.

- Pra quê eu tenho que estudar a Revolução Científica se eu não vou usar isso nunca mais na vida?

- Bom, você vai usar na terça-feira, na prova. Portanto, vamos repassar a lição. Me fale sobre Descartes e Bacon.

- …! (suspiro)

Aos poucos elas vão crescendo, não necessitam da companhia dos pais. A não ser quando precisamos levar e torcer em alguma competição, ou há uma festa na casa da amiga que mora longe, ou nos passeios que fazemos nos finais de semana.

Domingo, curiosamente, elas acordam cedo sem que ninguém as chame. Há sempre um livro que precisa ser terminado, uma mensagem ou e-mail urgente e um telefone que precisa estar desocupado por que estão à espera de uma ligação importante. Mas se arrumam para o compromisso com hora marcada: antes do almoço minhas três mulheres vão à missa. Os celulares não tocam; as TVs, o rádio e o computador estão desligados; ninguém joga basquete no quarto; os dois violões permanecem silenciosos; ninguém discute, canta ourisadas. Finalmente um pouco de silêncio. A sensação mais próxima da paz que conheço. Mas não resisto mais de uma hora e vou esperá-las à saída da missa, logo ali, virando a esquina. Aguardo do outro lado da rua, ou não as veria na multidão que sai da igreja. Elas beijam a mãe, que irá tomar um café comigo e fazer-me companhia enquanto fumo o meu charuto. Me acenam e mandam beijos de longe. Esperam que comecemos a caminhar e vão na direção oposta, arrastando todo o bando.

Começo a me acostumar com a ideia que tenho pouco mais a ensiná-las. Há muito aprenderam a andar de bicicleta, escovar os dentes, tomar cuidado ao atravessar a rua, certo e errado. Aquela jovem mulher deitada com uma pilha de livros, que sairá correndo para o treinamento de atletismo e aquela outra, que passa o dia cantando e dançando, borboleteando e infernizando a vida de quem quiser silêncio, um dia passarão pela mesma frustração de todos os pais, impotentes em transmitir aos filhos as próprias experiências. Cometerão erros, sofrerão inutilmente por não nos terem dado ouvidos e evitarão outros sofrimentos, justamente por nos escutarem.

Com o tempo, vou me convencendo que os filhos nos são emprestados, para que possamos amá-los e ensiná-los. Mais alguns anos e elas sairão para conquistar o mundo. Se conseguirão ou não, dependerá da sorte e do que conseguimos ensinar a elas. Inclusive sobre Bacon e Descartes. Nessa imensa roleta que chamamos mundo, aposto todas as minhas fichas nessas duas. E, às vezes, tenho pena do mundo.

Poema Enjoadinho
Vinícius de Moraes
 
Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

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Wednesday, March 26, 2008

Divulgue e Participe





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Por todas as mudanças que queremos, tudo começa pela educação.

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Saturday, March 22, 2008

O Mercador de Água


- Giorgio! Há quanto tempo!

- Beppe, você na fila do supermercado? E comprando um pão, duas latas de cerveja e … o que é isso? Trezentos gramas de salame?

- Decidi que esse seria meu último jantar na cidade.

- Vai embora? O ricaço excêntrico da montanha, o playboy das mil festas, o dono da casa mais bonita da região, o magnata da água mineral…?!

- Vendi tudo. Faço minha última refeição sentado num banco da praça, apreciando as montanhas pela última vez, depois pego o carro, desço a montanha e vou dormir num hotel bem longe daqui. Hoje, 22 de Março, Dia Mundial da Água, caio fora e não volto nunca mais.

- …Até a engarrafadora?

- Uma nota preta. Depois da última ampliação a fábrica atingiu o pico máximo em pouco tempo. Nos últimos cinco anos trabalhamos no limite máximo da produção. Nunca se consumiu tanta água mineral. Só não contei aos novos proprietários que a principal geleira que fornece a água para as nossas fontes está reduzida à metade. Em cinco anos a geleira deixará de existir. Basta que a temperatura média aumente de mais 1 ºC.

- Mas você tem terras lá embaixo, com outras fontes jorrando.

- Aquela água não serve para nada. Algumas fontes já secaram, assim como os córregos que os agricultores desviaram para irrigar as plantações. O pouco que sobrou está contaminado por pesticidas e amianto.

- Amianto? Mas se nós o abolimos há anos?

- Pois é! Fizeram um buraco para enterrar o amianto, que se dissolveu com o tempo e contaminou tudo. Não tenho parentes, não me casei e não tenho filhos. Essas montanhas não têm as minhas raízes. Aliás, me sinto um barco. Volto ao mar.

- Você nasceu e cresceu aqui. Como pode “voltar” ao mar?

- Lembre-se de que meu avô era um marinheiro que se apaixonou pela camponesa. Por isso ele veio morar aqui. Eu sempre tive uma relação de amor e ódio com essas montanhas, sempre preferi a água. Depois de ver todos os córregos canalizados ou desviados, o desrespeito pelas nascentes que nunca foram protegidas e hoje estão contaminadas por agrotóxicos, a terra explorada como se fosse um bem renovável e a paisagem mudar, perdi a vontade de viver aqui.

- Ei! Mas se foi a engarrafadora a começar tudo?!

- É verdade, temos boa parte da culpa. Quando meu avô comprou o primeiro pedaço de terra com as fontes, muita gente vinha se abastecer em troca de uns tostões. Quando ele montou a velha fábrica, juntou dinheiro e começou a comprar os terrenos com água, que na época custava como um prato de comida. Comprou quase todos, mas foram os avós dessa gente, os avós de vocês, que os venderam. E o que vocês fizeram? Derrubaram todos os bosques para plantar uvas ou para criar vacas e ovelhas. Foi a engarrafadora que transformou o vilarejo de camponeses em cidade. Quando a fábrica fechar, tudo isso aqui vai virar nada. Vocês que vivem aqui há gerações não terão coragem de abandonar a terra que sempre lhes pertenceu. Mas a montanha não será mais uma montanha, apenas um punhado de terra árida e contaminada. Não vou esperar esse dia chegar para ir embora.

- E para onde você vai?

- Comprei um navio dessalinizador de água e já consegui uma licença para aportá-lo no Kuwait. Vou vender água aos árabes, que tem petróleo e podem pagar.

- Mas dessalinizar água custa caro…

- Como o petróleo. Enquanto existir petróleo na região, terá água cara para quem puder pagar, do Paquistão a Israel.

- Sei não, mas acho que quando os árabes descobrirem que você é judeu, e os judeus descobrirem que você é um judeu que não respeita o sábado e come carne de porco, você vai se queimar com todo mundo.

- Eles vão ter pouco contato comigo. Depois, aquela é uma zona de eternos conflitos e ninguém vai se importar com quem lhes vende o que há de mais precioso em zonas de guerra: a água. Além disso, toda aquela população produz detritos (fezes e urina) em quantidade industrial e não possuem o tratamento adequado, contaminando ainda mais o solo já pobre e a pouca água na superfície ou subterrânea. A água vai valer cada vez mais caro na região. Eles vão me deixar em paz e vou viver como um nababo num navio que tem até piscina e boite.

- Sempre desperdiçando água.

- É verdade, nunca liguei para essa economia de formiga.

- Eu fecho a torneira quando escovo os dentes, uso apenas o necessário na irrigação e procuro economizar sempre. Renovo constantemente um estoque de alimentos secos, farinha, sal e açúcar para enfrentar um período de dificuldades, dessas que chegam sem avisar. É assim que age um verdadeiro homem da montanha, com prevenção e economizando cada tostão. Você sempre foi esquisito. Prefere beber cerveja que o vinho produzido aqui, além de perdulário. Você realmente não pertence a essa terra.

- Vocês são um bando de formigas. Um dia serão um bando de formigas secas numa terra árida. Mas vocês estarão em boa companhia, muitos rios importantes estão secando pelo uso excessivo de suas águas para a agricultura, represas, por poluição e pelo descuido das nascentes.

- Criamos uma associação para organizar o cultivo sustentável que prevê a recuperação dos córregos e nascentes…

- Tarde demais. Vocês plantaram sem respeitar nascentes e córregos e contaminaram tudo. Dez anos atrás pensei em montar uma segunda unidade e mandei analisar a água dos terrenos lá embaixo. Descobri que tudo estava irremediavelmente contaminado, por isso decidi ampliar a fábrica onde está.

- E se o petróleo acabar?

- Faço como fiz aqui: antes que acabe, vendo o navio para algum maluco e vou viver em Las Vegas.

- Mas Las Vegas é no deserto. Tem até racionamento de água.

- Las Vegas é um oásis no meio do deserto. Depois, o racionamento lá funciona só para quem é morador. Eu serei um permanente turista, mudando de hotel em hotel para mergulhar em todas as piscinas.

- Mas por que Las Vegas?

- Há anos entrei numa sociedade que construiu gigantescas cisternas subterrâneas naquela região. Quando a coisa apertar aquela água vai valer como ouro.

- Mas por que Las Vegas?

- Na primeira vez que estive em Las Vegas vi um out door que não saiu mais da minha cabeça. A publicidade era apenas uma imensa foto com uma garrafinha de cerveja e um copo pela metade, com aquelas gotas escorrendo geladas e uma frase curta: “Economize água”.
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Saturday, March 08, 2008

Eu Gosto de Mulher

No dia 8 de Março comemora-se o Dia Internacional da Mulher, celebrando as conquistas sociais, políticas, econômicas e de igualdade entre os sexos. A origem dessa comemoração é muito controversa. Apesar da falta de documentos que comprovem a teoria, teria sido Clara Zetkin a dedicar essa data às mulheres, durante a II Conferência da Internacional Socialista, ocorrida em Copenhagen em 1910. Uma outra hipótese cita o dia 8 de Março de 1917, quando operárias russas de São Petesburgo manifestaram-se contra a guerra e à falta de comida. A versão que virou tradição, apesar de inúmeras incongruências históricas, é a da fábrica Cotton, em New York. As operárias teriam iniciado uma greve para protestar contra as condições de trabalho a que eram constritas. No dia 8 de Março de 1908, com as operárias ainda em greve, mas dentro da fábrica, teria havido um incêndio onde morreram 129 operárias. As portas teriam sido bloqueadas por fora, impedindo a fuga das operárias. No ano seguinte o evento seria recordado com a distribuição de mimosas, as flores que circundavam a fábrica. Sucessivamente, com a difusão de eventos em prol do movimento feminista, a data teria assumido uma importância mundial.

Particularmente não concordo com uma data específica para esse tipo de comemoração (Dia da Mulher, Dia dos Pais, Dia dos namorados, etc.), mas entendo a necessidade de fazer refletir sobre um assunto tão importante quanto a discriminação. Por isso, espero que o Dia Internacional da Mulher produza reflexões e efeitos práticos onde quer que falte liberdade, respeito e igualdade às mulheres. Mesmo na velha Europa existem algumas arestas que devem ainda ser aparadas. Na Itália de hoje, o dia 8 de Março tem escassas iniciativas sérias, além de alguns eventos e da festa na imprensa e no comércio. A maioria prefere mesmo ir jantar fora, ir a discotecas ou a qualquer lugar que, nesse dia, se transforme em “Clube das Mulheres”. Aos homens cabe ficar em casa com os filhos ou ir ao bar ao lado, desde que não esteja ocupado por um bando de mulheres.

Noutro dia, viajando com a família – eu e minhas três mulheres – num dos muitos passeios que fazemos pelas redondezas, as meninas falavam de como resolver um problema qualquer e uma delas disse:
- Vou colocar o Tico e o Teco (Chip e Chop, em italiano) para trabalhar e resolvo o problema.
- Não! – Replicou a outra – Tico e Teco são os nomes dos meus dois neurônios. Arranje outros para você…

Sem perder a calma mas com firmeza e o silencioso sorriso de aprovação da Eloá, interrompi e esclareci que elas não podiam admitir serem tratadas como inferiores e que, mesmo em tom de brincadeira, a discriminação estava sendo aceita por elas. A sociedade italiana é muito mais machista que a brasileira e as mulheres vão se calando submissas ou até mesmo caindo no jogo. Tratar a mulher como objeto é uma praxe muito difusa nos programas de TV e ninguém se incomoda, todos riem e acham normal. Homens e mulheres são fisiologicamente similares, mas não iguais e essas diferenças devem ser respeitadas. Além disso, minhas filhas devem lembrar que sendo brasileiras correm o risco de serem discriminadas duplamente. Na Itália, mulher brasileira, cubana ou romena, é quase sinônimo de prostituta.

O mundo é cheio de lugares comuns que acabam formando o senso comum. A maioria dos italianos se assusta quando informo ser brasileiro, pois sou branco e reservado. A visão que essa maioria tem sobre nós brasileiros é de um bando de mulatos e negros serviçais, festeiros, barulhentos e prontos ao sexo. Parte da culpa é nossa, pelas imagens vendidas pelo Carnaval, pelos cartazes nas agências de viagens, pela facilidade que o turismo sexual encontra no nosso país e, sim, pelo pequeno bando de brasileiros – de todas as cores – serviçais, festeiros, barulhentos e prontos ao sexo que fazem parte do fluxo migratório. Mesmo sendo uma minoria, são eles que acabam chamando a atenção.

Já fui machista e possessivo, até que um dia – pasmem! – fiz 16 anos e comecei a crescer. No dia 28 de Janeiro eu e Eloá completamos 21 anos de casamento, mas estamos juntos desde 1983. Durante todo esse tempo jamais tivemos uma discussão violenta nem trocamos qualquer tipo de agressão, mesmo verbal. Palavrões ou expressões como “vá a merda!” nunca tiveram espaço em nossa casa. Aliás, a única ressalva são os palavrões diante de uma partida de futebol ou outra competição, mas nunca entre nós. “Puta que pariu, Bebeto! Chuta, caralho!” repetia a Bianca em 1994, pouco antes de completar dois anos. De resto, paz e amor, bicho. Além disso, eu não conseguiria viver com uma mulher que admitisse ou suportasse ser mal tratada ou desrespeitada.

Mulher, para mim, não é sexo oposto, mas complementar. Tem quem não gosta, eu sei, mas quem disse que as minhas regras e preferências têm que servir para todo mundo? Não faço planos a longo prazo, mas espero envelhecer ao lado dela. Com quem mais eu poderia falar com olhares e trocar sorrisos cúmplices? Casei-me com a típica mulher brasileira: batalhadora, companheira, criativa, divertida e prática, capaz de arregaçar as mangas e resolver qualquer problema sem esperar por ninguém. Muito educada, sim senhor, mas que não leva desaforo para casa. E sem perder a classe. Mãe atenciosa; amiga confidente e leal, com quem divido gostos e opiniões; mulher inteligente, sensível e independente; amante apaixonada. E ainda me deixa crer que fui eu a escolher.

Mulher com jeito, gosto e perfume de mulher. Eu tenho. E sou feliz assim.
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