Piacenza, Itália, -8 ºC e deu
Yogurte
Uma
Bavarese alla fragola
250 ml de
300 g de
200 g de açucar
4
2
300 ml de
1
Limpe os
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
Piacenza, Itália, -8 ºC e deu
Yogurte
Uma
Bavarese alla fragola
250 ml de
300 g de
200 g de açucar
4
2
300 ml de
1
Limpe os
1976.
A esperança de um mundo melhor onde o sentimento do dever cumprido possa ser traduzido em um sorriso de satisfação, sem necessidade de palavras. Essa é a
Allan, Eloá, Bianca e Luiza.
...E
.
Tudo começou quando escrevi lamentando-me dos correios. Dois dias depois, a Bianca ligou o computador assim que chegou da escola para uma pesquisa. A Bibba, com seus 15 anos, está naquela fase em que as coisas devem ser resolvidas imediatamente. Foi quando o carteiro tocou a campainha – ele sempre chega nesse horário, quando chega – e ela se levantou correndo para atender. Tem-se muita pressa aos 15 anos. A joelhada na CPU foi inevitável, assim como a queda dela (da CPU, não da Bibba). Uma esfregadinha no joelho e a dor passou, mas a CPU ficou ali, no chão, agonizando e apitando.
Três dias para decidir se substituir o PC ou encontrar e mandar trocar a placa mãe e acho que uma tia e um primo, também, sei lá. Apesar das finanças da família estarem meio fragilizadas neste período do ano em que as contas anuais de aluguel, condomínio e seguro do carro chegam juntas, somado ao momento crítico que atravessa a economia italiana, optamos por substituir o computador, já recauchutado. Fiz uma única recomendação: não quero o Vista, prefiro continuar com o XP. “O novo chega na quinta”, disse o técnico. Aqui é assim: todas as lojas são virtuais, mesmo que existam fisicamente. Pode-se tocar e ligar o computador, mas aquele é só o mostruário, que ninguém é besta de fazer estoque de equipamentos que se tornam obsoletos no dia seguinte. Quinta-feira chegou, mas o PC não. “Desculpe, não foi possível atender a todos os pedidos, mas semana que vem prometo que vocês terão um novo PC em casa”, garantiu.
Passo o dia com o computador do escritório ligado, respondo a um tsunami de e-mails profissionais mas não tenho tido tempo de acessar a internet ou checar meus e-mails pessoais. O ritmo de trabalho fica alucinante nesta época do ano e a situação que a empresa atravessa não é das melhores. Já contei sobre o momento crítico que atravessa a economia italiana…?
Foram 20 dias sem computador, mas finalmente ele chegou. O técnico instalou o disco rígido velho como back up – o que me salvou a vida, pois estava tudo lá – e fez todas as configurações. Chego em casa e descubro uma pilha de caixas que a Eloá amontoava, o velho monitor no chão, fios novos, cabos velhos e a promessa de que o teclado novo vai chegar junto com o mouse. Havia brigado com todos no trabalho. A última coisa que desejava era ter que montar o PC de noite, mas na minha casa as mulheres são maioria. Nem mesmo as duas aspirinas resolveram a dor de cabeça. Montei tudo e só fui tomar banho depois.
Tec, telec, tec…
Nada de internet. Muda a tomada ADSL, tenta reinstalar o programa do provedor, recontrola todos os cabos… Nada! “Traz o PC aqui que damos um jeito”. No dia seguinte ele jura: “Reconfiguramos tudo. Pode levar e se não conseguir acessar a internet, pode me dar uma paulada na cabeça!” Ela traz o PC para casa e… Nada! “Já está tarde. Amanhã vou pessoalmente descobrir o que aconteceu”, promete. Veio e tentou, tentou, tentou e não conseguiu. Liguei para o meu provedor, que é, também, a cia. telefônica que nos serve e expliquei a dificuldade de acessar à rede com o novo PC. “É um típico problema do Vista…” mas eu o cortei esclarecendo que usava o XP. “Qual o modem você instalou?” e respondi que era um Siemens NMU700086 velho. “É por isso que não funciona. Nosso programa não está configurado para esse modem.” De nada adiantou esclarecer que uso o mesmo modem há anos. Agradeci. “A Tele2 agradece a sua chamada.” Gambiarra. Não sei como se diz gambiarra em italiano, mas foi isso que o técnico fez. A tomada ADSL foi abandonada, ele ligou tudo na tomada do telefone, com o modem velho e tudo. Desistimos de dar paulada nele, mas ele apresentou a conta e quase mudamos de idéia. Internet outra vez. Milhões de e-mails, bites, bytes e uma pesquisa concluída com atraso. Ué, por que não foi à biblioteca?
Dias de muito stress e uma vontade louca de dar um soco em alguém, no trabalho. Antes que não consiga me conter, mandei o funcionário chato de férias por 15 dias. Volto para casa e descubro que alguém tentou instalar o Windows Live Plus em versão beta. Como uso o Firefox como programa padrão, o programa travou. Cada vez que ligo o PC o WLinstaller tenta concluir a instalação. E se bloca. Já tentei de tudo, desde desinstalar e reinstalar o programa com o Explorer, até reconfigurar o sistema. O máximo que consigo é fechar a instalação através do task manager, e esperar que um dia a coisa se resolva. Ou comprar outro PC.
Os livros atrasados? Que nada! Naquele dia o carteiro trouxe apenas mais contas a serem pagas. Esse, sim, anda merecendo umas boas pauladas.
Tenho o hábito de ler jornais. Sábado, então, nem se fala. Saio, tomo um café, fumo o meu charuto, compro os meus jornais e vou ler em casa. Pois foi num sábado, quando ainda não entendia perfeitamente o italiano, que passei em umas dez bancas de jornais antes de desistir. Em todas a cena se repetia. O proprietário abria os braços desconsolado, balançava negativamente a cabeça e proferia uma frase enigmática com uma palavra mais enigmática ainda: “sciopero” – principalmente quando a frase era pronunciada no mais perfeito e incompreensível dialeto piacentino. Não me conformava e partia a outra banca de jornal. Finalmente entendi que naquele sábado eu teria que ler outra coisa.
Na Itália a greve (sciopero, em italiano) tem um caráter puramente político. Tem data e hora para começar e acabar. Normalmente não dura mais que oito horas, mas é mais comum “uma tarde de greve”, sempre anunciada com muita antecedência. Aqui a greve é uma forma de expressão, de mostrar insatisfação de modo muito civilizado. Ou era, até esta segunda semana de dezembro. Os empregados das empresas de transportes de cargas – camionistas, mesmo – decidiram fazer uma semana de greve para pressionar o governo. Começou segunda-feira e, já na terça, o governo decretou o final da greve. O problema é que foi uma decisão unilateral e sem uma proposta às pretensões dos transportadores. O resultado é que a greve endureceu e nem mesmo os caminhões particulares e das próprias fábricas está podendo circular sem problemas.
A cena, nós, brasileiros experts em greves, conhecemos perfeitamente. Quem não se precaveu ficou sem combustível e corre o risco de ficar sem comida, pois os mercados estão se esvaziando rapidamente. Sabe aquela corrida aflita ao supermercado para comprar tudo o que couber na dispensa, com medo de uma guerra mundial?
Os caminhoneiros prometem manter o movimento até sexta. O país promete quebrar antes. O governo promete não ceder. Boa parte da população, apesar do imenso transtorno, começa a entender que a greve pode, também, ser um instrumento de pressão. Só acho maldade toda essa confusão no início de Dezembro: se fosse em Salvador, a essa hora eu estaria na praia. Na dúvida, vou correr até a banca e fazer um estoque de jornais e revistas, que café e charutos eu tenho.