Sunday, October 28, 2007

Que horas são na Itália?

Em 1916 a Itália adotou o horário de verão pela primeira vez. Desde então, essa prática de economia energética foi abolida e readotada diversas vezes. Em 1966 iniciou-se um ciclo que não se interrompeu mais, mudando apenas a duração do que, na Itália, se chamaora legale”. Em 1996 foi instituído que o horário de verão inicia no último domingo de março e termina no último domingo de outubro.

Fazendo as contas, resulta que o fuso horário entre Brasil e Itália é de três horas, de novembro a março, e de cinco horas, de abril a outubro, considerando os estados brasileiros que adotam o horário de verão. Ou, ainda, conclui-se que a “ora solare” italiana dura apenas cinco meses.

Quem se ocupou dos próprios afazeres durante as aulas de geografia pode achar estranho, mas em um país atravessado pelo Paralelo 45º é preciso levar em conta o vai-e-vem da luz solar. Durante o inverno o dia dura apenas oito horas, mas durante o verão o sol chega a nascer às 4:30 h. e vai se pôr às 22:00 h. O que obriga ao uso de janelas que se fecham completamente, sob pena das crianças se recusarem a dormir com o sol ainda brilhando fora.

Durante o inverno, neve, frio e uma noite que começa às quatro, quatro e meia da tarde. Haja humor para se adaptar. As bicicletas dão lugar aos carros mofados nas garagens, aos ônibus abandonados no verão e à impressão de estar perdendo algo.

A estimativa de economia com o horário de verão italiano beira os 650 milhões de kilowatt, o que deve ser energia pra xuxu, pois custaria algo próximo a 100 milhões de euros. Mas o consumo de café aumenta, assim como o de grappa e de roupas pretas.

O humor das pessoas acompanha a quantidade de luz do sol: no verão, as festas, praias e piscinas são invadidas por corpos bronzeados alegres e desinibidos. Transgressivos, até. No inverno, branquelos bêbados insones e moralistas dirigem sobre a neve na escuridão.

Por que os seres humanos não reaprendem a migrar?

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Wednesday, October 24, 2007

Notizie

Algumas notícias que ocupam as conversas nos bares nesses dias de outono italiano:

Tobias, o nome do recém-nascido filho do jogador Del Piero é considerado um nome bizarro. Mas ele se consolam com um outro jogador – chinês – que deu ao próprio filho o nome de “@”.

Depois de um ano da sentença, uma advogada decide trazer seu cliente italiano para cumprir a pena na Itália. O cidadão encontra-se preso na Alemanha depois de processado por estupro da ex-namorada: três semanas trancada em um apartamento, sofrendo agressões sexuais do rapaz e de alguns amigos dele. A notícia: o juiz concedeu como atenuante para a redução da pena, o fato dele ser da Sardenha, onde o homem e a mulher ocupam diferentes posições culturais.

A notícia acima só confirma o resultado de um fórum, promovido depois de uma denúncia do Financial Times acusando a Itália de machismo.

O ministro Mastella afasta um juiz de uma caso que não deveria existir. O ministro Di Pietro o acusa de temer os resultados do caso que deveria existir, sim senhor. Os dois trocam pontiagudas farpas e ameaçam a enésima crise de governo. O primeiro-ministro Romano Prodi rebola mas consegue uma paz armada entre os dois.

Apesar de um testamento oficial e regular, a briga pela herança de Big Luciano está apenas começando.

Paul McCartney seria, na verdade, um sósia do verdadeiro Paul. As provas estariam escondidas em algumas capas dos Beatles.

Assopre que o café esfria.
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Saturday, October 20, 2007

T-Day - Dica de leitura

O amigo Fávio Prada, indignado com os políticos, decidiu propor uma ação para livrar-nos dos maus elementos que se apossam do poder e se recusam a buscar o bem comum. Tal indignação gerou um blog e, tornando a coisa mais séria, uma petição que pode – e deve – ser assinada on-line, por todos aqueles que não concordam com uma situação que promete mudar a cada eleição e continua, obstinadamente, a beneficiar os amigos do poder, qualquer que seja o político do momento.

Talvez seja a falta de prática, ou o que uma leitora chamou de “indignação de sofá”, quando as pessoas se mostram indignadas com os abusos mostrados pela tv, mas continuam ali, sentadas no sofá.


A minha pequena colaboração é uma sugestão de leitura. O livro “Chega de Babaquices”, do professor Robert I. Sutton recebeu um título pouco criativo em português. Em italiano, “Il Metodo Antistrozi” está muito mais próximo ao original “The No Asshole Rule”.

As dicas apresentadas permitem uma vida menos estressante e a manter distância de pessoas arrogantes. Praticando o método no dia-a-dia, fica mais fácil criar uma consciência que nos permitirá (quem sabe, um dia) a esclarecer aos políticos, definitivamente, quem trabalha para quem.








Não esqueça de assinar a petição.
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Monday, October 15, 2007

Meio ambiente

O apresentador da tv mostra o prêmio do concorrente e explica que a cama – o prêmio é uma cama – possui todas as partes de madeira, nada de pregos, parafusos ou cola e que, por isso, é uma cama ecológica. Apresso-me em esclarecer às minhas filhas que o conceito está errado, que a cama seria ecológica se produzida com material reciclado e que o apresentador é uma besta.

Há um ano e meio vou trabalhar de bicicleta. São só quinze minutos de pedaladas contra os dez minutos que levaria se fosse de carro. No caminho, são seis rotatórias construídas para eliminar os semáforos. Passo por um viaduto ou uso uma passagem subterrânea para atravessar a linha do trem. Cruzo com carros, motos, ônibus e caminhões enquanto atravesso a cidade de concreto e asfalto. Os aviões deixam um risco branco, silenciosos no alto do céu. Ouço, lá longe, um apito de fábrica chamando a boiada operária.

Fica difícil imaginar como era Piacenza antes que o bicho cidade tomasse conta do lugar. O cinturão verde em volta dela é um conjunto de terrenos agrícolas onde se planta feno, tomate e girassol. Os córregos foram domados em canais usados para irrigar a plantação. Um agricultor faz os últimos ajustes no trator e toma um gole d’água da garrafinha plástica.

Foram muitos os escritores, artistas, cineastas, cientistas, que imaginaram como seria a vida humana na Terra após uma imensa catástrofe natural ou provocada. Lemos os livros, apreciamos as obras, assistimos os filmes e nos informamos sobre as conclusões científicas. Nos divertimos e nos julgamos conscientes. Mas continuamos a abater árvores demais para fabricar camas; construímos rotatórias demais; andamos de carro demais e existe asfalto demais; circulam trens demais e viajamos em aviões demais; temos fábricas demais e usamos garrafas plásticas demais.

Transformamos o planeta em um formigueiro humano, com viadutos e passagens subterrâneas, ignorando e extinguindo outras espécies. Abatemos as florestas e plantamos monoculturas lucrativas. Caminhamos inexoravelmente para uma catástrofe provocada, mas a arrogância humana nos faz acreditar que, no fim, acharemos uma saída. No fim.

O apresentador da tv é o fiel representante do bicho homem que habita as cidades. Este ser capaz de criar músicas, livros, obras de arte, filmes, e de estudar cada milímetro deste mundo sólido, líquido e gasoso, mas incapaz de evitar a própria extinção. O apresentador da tv não está sozinho: somos todos umas bestas.

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