Sunday, January 29, 2006

Dia Da Memória

alguns anos Roberto Begnini respondia às entrevistas sobre o que o havia inspirado quando filmou “A Vida É Bela” indicando o livro em quadrinhos “Maus”. Art Spiegelman, autor do livro, ficou furioso e afirmou que Begnini não entendera nada da sua obra. Não entendera a metáfora dos personagens com máscaras de animais e brincava sobre um argumento sério. Spiegelman foi mais longe e acusou Begnini de criar um novo gênero de filme que, em breve, deveria concorrer ao Oscar em uma categoria própria: filmes sobre o holocausto.

Na realidade, havia a saudável tradição de lançar livros, filmes e outras manifestações sobre o tema. Como fez a revista diário em sua última edição mensal. O número foi inteiramente dedicado à shoah, com textos, depoimentos e entrevistas, além de indicar livros, filmes, músicas, debates, grupos de estudo, encontros e exposições comemorativas. O objetivo é o mesmo dos últimos sessenta anos: recordar para não esquecer.

A revista cometeu apenas um único deslize (outra tradição dos últimos sessenta anos): nem uma palavra sobre o massacre aos ciganos ou sobre os negros de Auschwitz. Que pena.


Friday, January 27, 2006

Sunday, January 22, 2006

Casa Da Mãe Joana

Caros e Caras,

Paz e saúde!

Todos os anos uma caravana de briosos machos italianos atravessa o Atlântico em busca da atenção das meninas das periferias latino-americanas. As respectivas namoradas, companheiras, esposas e amantes fazem vista grossa e participam do jogo freqüentando obscuros terminais de ônibus, permitindo aos gentis e atenciosos representantes da Africa negra de arredondarem os minguados salários. Nem todos aprovam o exercício de hipocrisia, mas a coisa tem funcionado bemanos e ninguém motivos para mudar.

O fisco italiano descobriu que aquela senhora de quarenta anos jamais havia apresentado declaração de imposto de renda, apesar de possuir seis apartamentos no centro de Milão, o que constitui uma pequena fortuna. Fez as contas e mandou-lhe duas faturas: uma de 98 mil euros relativa a 1998 e outra, também de 98 mil euros relativa a 1999. Informou que o débito dos outros anos seriam contabilizados mais adiante.

O advogado contratado pela contribuinte (ou deveria ser não contribuinte?) juntou velhos anúncios de jornais e revistas, além dos recibos de aluguel de uma linha telefônica – a mesma linha que aparecia nos anúncios – e entrou na justiça pedindo a irregularidade da cobrança, alegando que a sua cliente ganhava a vida como prostituta desde que fugira de casa, no sul do país, com apenas dezessete anos. Mais: informou que com uma idade inadequada para continuar na profissão, a sua cliente possui como única renda o aluguel de cinco dos apartamentos, dos quais teria que se desfazer para fazer frente à cobrança.

O fisco riu. Rebateu que a lei italiana permite taxar inclusive ganhos com ações ilícitas. A coisa virou simples questão judiciária aguardando o parecer dos juízes da suprema corte.

Na sentença dos juízes percebe-se o mesmo empenho e atenção que a senhora oferecia aos clientes durante vinte anos. A sentença esclarece que a lei italiana proíbe o incentivo e exploração, mas não a prostituição em si. Portanto, prostituição não é crime. Mas também não é atividade regulamentada.

Os senhores juízes, percebendo a armadilha em que haviam caído, evitaram dizer que a prostituição não existe aos olhos da Lei (o que sugere que pelo menos alguns deles tiveram a oportunidade de conhecer essa realidade pessoalmente). Sentenciaram que o débito com o fisco inexiste, pois a compra dos imóveis teria sido efetuado com o pagamento que a senhora recebia como prostituta. E que tal pagamento seria o ressarcimento por danos físicos e morais causados durante o ato sexual. A senhora riu. Seus apartamentos continuam sendo seus e o fisco quelamber sabão.

Uma silenciosa corrida deve estar ocorrendo neste momento: milhares de prostitutas (e falsas prostitutas) virão à tona declarar bens adquiridos com o suor dos próprios clientes. O fisco também deve estar correndo para evitar uma avalanche de causas que o impeçam de taxar tais bens. Aposto que a regulamentação da profissãoque existe em outros países – dessa vez sai.

Cedo ou tarde os governantes da América Latina vão acabar descobrindo o fluxo do turismo sexual e a coisa pode acabar numa taxa de ingresso a italianos desacompanhados. Mas terão que convencer os países asiáticos a fazer o mesmo, pois a concorrência deles é dura. Talvez não seja ético, mas a alternativa é a atual hipocrisia e governantes não costumam dar bola para a ética.

Fica somente uma dúvida no caso de Milão: a decisão teria sido a mesma, caso o não contribuinte fosse um dos gentis africanos? Creio que não.

O advogado da senhora fez questão de declarar ter sido pago com um cheque, masquem duvide.


Ciao.

Monday, January 16, 2006

Retalhos Coloridos

Caros e Caras,
Paz e saúde!



Nunca entendi bem por que homens devem usar gravata. Compor a camisa, evitando que esta fique aberta, revelando parte da intimidade masculina não chega a ser uma explicação aceitável (tradições nem sempre mantém a coerência). Nem chega a ser um cachecol, usado para proteger do frio. Por outro lado acho interessante a capacidade humana de transformar tudo em moda, recriar um acessório, transformá-lo em pequenas obras de arte, …e cobrar uma fortuna por isso.

Quem pensa que pizza seja difícil de fazer, nunca tentou. A pizza Margherita é um clássico não na Itália. Anote a receita:
Pizza Margherita:
Massa: 
250 g. de farinha
5 g. de fermento para pão
1 pitada de 3 dedos de sal
1 pitada de 3 dedos de açúcar
1 colher de sopa de azeita extra virgem de oliva
1 copo d’água morna (+ ou - 150 ml)

A minha implicância com a gravata se estende ao cachecol quando usado apenas como acessório de moda, sem enrolá-lo no pescoço, ficando desprotegido do frio. É como se alguém caminhasse carregando os sapatos nas mãos. Cachecol tem uma função. Ou deveria ter, pelo menos na minha cada vez mais ranzinza visão.

Em uma bacia plástica, coloque a farinha formando um pequeno vulcão. Dissolva o fermento na água morna e adicione-o à farinha. Junte o azeite, o sal e o açúcar. Misture bem e amasse sem bater. Quando a massa estiver homogênea e elástica, faça uma cruz no centro com uma facapara ajudar na fermentação – e cubra com um pano limpo. Deixe descansar por uma hora, uma hora e meia, dentro da bacia e longe de corrente de vento (costumo deixar dentro do forno desligado). A massa deve dobrar de tamanho.

É comum, em dias de jogo, ver uma multidão usando cachecóis com as cores dos times. Ficam todos , cobertos da cabeça aos pés e o cachecol do time cobrindo a face. os olhos ficam de fora. Mais curioso ainda é a rebeldia coletiva que domina os italianos e a tentativa de ser mais criativo que o resto da humanidade. Homens de ternos sóbrios e cinzas descem dos trens com longos cachecóis amarelos, brancos ou vermelhos. E nos dias de festa nacional, cachecol com as cores da bandeira, o Tricolor.

Recheio:
200 g. de mozzarella de búfala
100 g. de tomate sem pele e sem sementes
Sal
Manjericão
Azeite de oliva extra virgem

Não deixa de ser criativo o modo como cada um tenta compor o próprio cachecol. Alguns o mantém jogado displicentemente sobre os ombros, sem dar uma volta à frente do pescoço. Outros, escolhem o cachecol mais comprido que encontram (não posso crer que não sejam feitos sob medida) e o enrolam em dezenas de voltas no pescoço. E tem os que costumam dar nós, como se fossem enormes gravatas. No inverno passado reparei um que me pareceu novo: dobre o cachecol ao meio, passe-o em volta do pescoço e, à frente, enfie as duas pontas no laço que se forma. É prático e não fica se desfazendo.

Quando for abrir a massa, acenda o forno e deixe-o à temperatura de 220 ºC. Amasse com um garfo os tomates e adicione uma pitada de sal. Corte a mozzarella em cubinhos, lave e enxugue as folhas do manjericão. Quando a massa estiver no ponto espalhe um pouco de farinha sobre a mesa e abra-a com um rolo de macarrão. Coloque-a na forma de pizza ligeiramente untada com azeite, ajeite-a com os dedos até que a assadeira fique completamente coberta. Com uma colher, espalhe a polpa de tomate sobre a massa, adicione a mozzarella, um fio de azeite e algumas folhas de manjericão. Espalhe bem os ingredientes, deixando a pizza bem colorida. Leve ao forno e deixe até dourar. Sirva com um copo de vinho ou uma cerveja gelada. Abra uma pizzaria e fique rico.

Uso os meus curtos e discretos cachecóis no modo clássico, enrolados com apenas uma volta no pescoço e caídos sobre o peito. Protegem do frio e não me sinto cobaia de algum estilista bizarro. Talvez meus cachecóis nem combinem com as duas princesas que acabam de entrar na sala, enroladas em enormes cachecóis coloridos, que me oferecem beijos gelados do frio da rua e transformam a casa numa algazarra deliciosa. Talvez a minha rabugice seja apenas o sintoma da dificuldade em aceitar todo esse frio em janeiro.

Quer saber? Vou botar um cachecol e sair pra comer uma pizza.

Ciao.