Thursday, September 29, 2005

Cafezinho II

Caros e Caras,

Paz e saúde!

Uma propaganda americana da Pepsi dos anos noventa mostrava um rapaz pedindo uma Coca-cola em um bar. O balconista lhe pergunta que Coca ele prefere e desfia todos as opções, sem esquecer das versões diet e light. No meio do monótono monólogo do balconista, o sujeito o interrompe e diz: “Me dá uma Pepsi.”

Piacenza fica a 70 quilômetros de Milão, mas prefiro pegar o trem. Evito o caos que é estacionar, o tempo perdido no tráfego e, de quebra, ganho duas horas (ida e volta) para ler ou simplesmente observar a paisagem. Mas creio que o verdadeiro motivo para escolher ir de trem é o café. Descendo na Central, à esquerda, antes de sair da estação, há um bar que serve todos os cafés do mundo quando chega um novo trem. E eles conseguem servir sempre o mesmo cremoso e delicioso café. Quando tiver a oportunidade, experimente.

Com exceção de lugares onde a agitação do dia a dia comandacomo numa estação ferroviária, por exemploentrar em um bar e pedir um café pode não ser tarefa fácil por aqui. O café pode ser normal, curto, longo, com leite (capuccino), descafeinado, café de cevada (d’orzo), correto (com bebida alcoólica) e mais de uma centena de outros tipos. Mas em um bar ou restaurante, será sempre expresso. Como era feito antes da máquina de café expresso eu não sei: cheguei aqui depois. Mas não se preocupe: se você entrar em um café italiano e pedir simplesmenteum café”, receberá uma pequena xícara do melhor café brasileiro, preparado pelo modo italiano. O melhor.

em casa, a grande maioria dos italianos usa a moka. E precisa saber fazê-lo, ou risca-se de desperdiçar tempo e paciência em tentativas vãs. Prometo um breve curso em outra carta, mas posso adiantar que todos os produtores de cafeteira e de café recomendam, enfaticamente, usar apenas água na limpeza da moka. Detergente ou sabão, de jeito nenhum. Na maioria das empresas, as máquinas de café tem lugar de destaque e devem oferecer, pelo menos, quatro tipos diversos de café. Tanto que a situação acabou virando um programa humorístico, onde a vida dos funcionários de um escritório acontece diante da máquina de café.

Um amigo insistia em esclarecer que a moka produz um café com menos cafeína. Eu continuo achando que não é o método, mas a quantidade de café ingerida: menos café é igual a menos cafeína. Italianos e fluminenses devem ser os menores consumidores de cafeína do mundo. O primeiros, pela dose curtíssima de café que ingerem. O café curto é pouco mais que uma sujeira no fundo da xícara; os segundos, pela exígua quantidade de utilizada. Com o perdão dos parentes, o café que se bebe na região de Macaé é, na realidade, chafé.

Contudo, o cuidado italiano com o consumo de café é admirável. Conheço diversos notívagos que bebem café até às quatro, cinco da tarde. Depois disso, vinho ou outra bebida, para não perder o sono.

Até os trinta eu não bebia café. Ou o fazia raramente. Tomava chá ou sucos, sempre sem açucar. Para me enturmar mais rapidamente em um novo ambiente de trabalho, passei a tomar o cafezinho com os colegas, participando das conversas e desarmando os prevenidos. Acabei tomando gosto. Cheguei a tomar muitos cafezinhos por dia, longe daquela empresa. um ano resolvi reduzir para dois cafés por dia. Descobri que a insônia cultivada por longos anos, que existia antes mesmo de aprender a tomar café, diminuiu. Hoje chego a dormir até seis horas por noite e, em algumas, até oito horas, contra uma média histórica de quatro horas e meia. Repito: a insônia existia antes do café. Deve ter sido um tratamento involuntário de saturação.

Mas não abro mão de um café quando saímos para jantar fora.

Oferecer um café é uma demonstração de amabilidade. Não precisa ser íntimo para aceitar um cafezinho feito na hora: pode ser o encanador, um vizinho, ou a professora da filha que veio para uma conversa reservada. Nem tampouco convida à intimidade. Oferecer um café é mais que um bom dia no elevador mas é menos que uma cerveja dividida. Desculpem o trocadilho, mas um café quentinho é um bom quebra-gelo.

A propaganda italiana nãodúvidas: quando querem atestar a qualidade de uma marca de café, associam-na ao Brasil. A Segafredo até faz questão de mostrar a fazenda de café que possui em Minas Gerais. Impossível não comparar a propaganda da Pepsi com o hábito do café italiano. Após o almoço, paro no bar para um café e observo: os clientes pedem todos os tipos de café que a pobre balconista sabe preparar, mas é impossível não confundir-se em meio a tantos clientes ao mesmo tempo, cada um pedindo um café diferente. Não raro, o cliente que pediu um capuccino acaba bebendo um café correto com grappa. Noto o sorriso aliviado quando lhe peço “un caffé”.

E você, aceita um cafezinho?

Ciao.

Sunday, September 25, 2005

Cafezinho


O verdadeiro café italiano - aquele que se toma em casa - ainda é preparado com a moka. Descobrimos quando chegamos aqui e hoje ela é insubstituível.
E você, que café prepara em casa?
E mais: você usa filtro descartável ou costuma lavá-lo com sabão?

Ciao

PS - A foto foi descaradamente copiada da Segafredo.

Wednesday, September 21, 2005

Tá Nublado

Caros e Caras,

Paz e saúde!

alguns anos, resolvi fazer um curso de piloto privado de avião. Todos os professores eram oficiais da Aeronáutica da Base Aérea de Salvador, além de trabalharem no DAC (Departamento de Aviação Civil) torre de controle, etc. No dia do exame oficial, encontrei muita gente que não frequentava o mesmo curso e descobri que a maioria tentava a aprovação por anos seguidos. Para não me deixar influenciar pelo pessimismo dos “veteranos” e manter a tranquilidade adquirida em três meses de curso, afastei-me com a desculpa de fumar um charuto e não falei com mais ninguém até a hora do exame.

No curso, descobri que algumas verdades que se aprende na escola são relativas. Por exemplo: ensinaram que a velocidade do som é de 330 metros por segundo, mas se esqueceram de nos informar que isso acontece em uma atmosfera padrão. Ou seja, à temperatura de 15 ºC, ao nível do mar, com pressão atmosférica de 1013,2 milibares e se você estiver no paralelo de latitude 45º. Se qualquer um destes fatores for alterado, a velocidade será diferente. Aos mais gordinhos, sugiro levar a balança de casa à linha do equador e descobrir a mágica de perder quilos viajando. Aos que querem engordar, levem a mesma balança a um dos pólos e usufruam do efeito de uma maior força de gravidade, além de poderem ferver a água do café com o ponto de ebulição muito inferior aos 100 ºC. O problema será encontrar a lenha para a fogueira. Aprendi, ainda, a respeitar o desafiador trabalho dos meteorologistas. A Meteorologia não é uma ciência exata e não respeita nem mesmo o churrasco daqueles profissionais.

Os meteorologistas italianos falham tanto quanto os nossos e, mesmo mostrando a simulação por computador dos movimentos de nuvens e de massas de ar, tem sempre um vento imprevisto que muda tudo, fruto do bater de asas de alguma borboleta mal avaliado ou ignorado. A máxima continua valendo: se você encontrar o meteorologista no açougue comprando uma picanha, corra para pegar um guarda-chuva. Não que falte profissionalismo ou que haja má , apenas descobri que tem sempre alguém que sabe mais do que a gente. No caso daqueles profissionais, a imprevisibilidade da Natureza.

Nós, latinos, somos arrogantes por natureza. Como o berço latino é na Itália, essa característica se faz mais forte por aqui. Para um italiano, a verdade relativa é sempre a do outro. Mesmo aqueles que nos parecem humildes e estão sempre calados são um poço de sabedoria e conhecimento, quando o assunto é algo que se possua algum domínio. Estão sempre prontos a esclarecer que não têm mais nada a aprender e têm sempre um argumento para rebater as mudanças propostas. A contradição, nestes casos, não será, por eles, considerada. Um colega de trabalho me esclarecia a posição dele: “Eu não sou racista, muito pelo contrário, sou da filosofia do ‘viva e deixe viver’, mas nunca saí e não sairia jamais com uma romena ou com uma siciliana. Até porque, pra mim, a Itália começa no Norte e termina em Módena…”

Esse tipo de situação se repete a cada dia. Tem o cozinheiro do restaurante típico que afirma não existir alimento mais saudável e saboroso que a comida piacentina, definida pelos outros italianos (e por mim) como monótona e sem sabor; o simpático consultor de programas de qualidade que não reconhece o padrão alemão e diz que eles (os alemães) não entendem porra nenhuma – “non capiscono un cazzo!” – e que o padrão europeu deveria ser aquele italiano; o professor da faculdade de nutrição que informa na Tv sobre as qualidades da carne de coelho numa semana e, na semana seguinte, critica um outro programa que apresentou receitas com aquela carne e afirma que carne de coelho é inadequada ao paladar italiano…

Aqui vale a regra: “faça o que eu digo, não faça o que faço.” Mesmo que ele mude de opinião. O problema é justamente este: todos querem ganhar no grito. O mais importante não é o conteúdo, mas a aparência. As livrarias vendem montes de livros que jamais serão lidos. Recentemente, uma colega de trabalho presenteou-me com dois romances, um de Tolstoi e um de Goethe, informando-me que não entendia droga nenhuma (e eram romances!). Dois dias antes, todos a haviam visto no estacionamento lendo (?) um dos livros.

A Comunidade Europeia adotou o HACCP (Harzard Analysis and Critical Control Points) como padrão de auto-controle para todos os estabelecimentos que manipulam alimentos, numa louvável iniciativa de proteção ao consumidor. Atuando nessa área, descobri que pouca gente o leva a sério. Estão mais preocupados em produzir a planilha que os irá salvar de uma possível e quase certa fiscalização, que em aplicar os conhecimentos adquiridos no curso obrigatório.

É possível que os dois colegas citados acima se casem e morem no restrito mapa italiano redesenhado pelo primeiro. Se isso acontecer, a casa deles será cheia de livros. Além disso, não correrão o risco de ver o churrasco deles virar sopa, pois irão se deliciar somente com a maravilhosa cozinha piacentina. O açougueiro deverá se virar com o meteorologista e com os aventureiros sul-americanos.

Ah! Se você ficou curioso, informo que fui aprovado nos exames teóricos e que cheguei a fazer as primeiras horas de vôo, mas o custo das aulas, a distância do aeroclube e o excesso de trabalho, me impediram de pegar o brevê. O que pode ter lhe privado de inesquecíveis emoções… E para os meus churrascos, uso o olho e a pele: se não houver nuvens e a temperatura for agradável, o açougueiro poderá receber a minha visita. Por segurança, perguntarei sobre o meteorologista ao açougueiro. Se ele afirmar que não o dias, compro minha picanha.

Ciao.