Caros e Caras,
Paz e saúde!
Quando se muda de cidade, estado ou país, costumam haver dificuldades em adaptar-se aos novos padrões, ruas e vizinhos da mesma forma que às novas culturas e realidades. Tem-se a impressão de tatear no escuro e nos falta um manual. Não raro, faz-se papel de bobo ou presunçoso.
Descobri, há algum tempo (mais precisamente quando mudei pra Salvador, em 87, um país diferente do Brasil do Sudeste, onde a língua é até parecida. A cultura, não.), que tão importante quanto falar a língua local é conhecer e dominar em breve tempo, os costumes e assuntos locais, sob risco de ser rejeitado pela comunidade. No caso do Centro-norte da Itália (onde moramos atualmente), é importante, por exemplo, ter opinião sobre aquele político, o novo pacote do governo, a migração clandestina, os pífios resultados sindicais ou sobre o técnico de futebol do time da cidade. Da mesma forma que os filhos, mesmo pequenos, devem praticar algum esporte, ou fazer parte do grupo de escoteiros ou do coral do colégio. Enfim, devem ter uma outra atividade social, além de frequentar a escola das 8:00 às 16:30.
No manual de sobrevivência na selva italiana, em que se transformou o mosaico destas minhas cartas, faltava um glossário, que começo a suprir neste momento. Aos não iniciados na língua, sugiro tentar ler com o sotaque italiano: c+e pronuncia-se tche; c+i, tchi. Assim, escrevo Piacenza e leio piatchêntza. Como estarei no Brasil nestas três semanas, muito ocupado comprando livros em Sampa, vagabundeando no Embu ou pescando no Paranapanema, preparei este pequeno e incompleto glossário para apresentá-lo em partes. Dificilmente visitarei blogs amigos ou abrirei e-mail. Por favor, não se ofenda. Juro que naquele rancho à beira do rio não tem sequer tomada.
• Aldo, Giovanni e Giacomo – versão italiana dos Trapalhões, no cinema. No teatro, são impagáveis.
• Armani, Giorgio – um cara que transformou a camiseta preta num estilo. E que estilo.
• Bel Paese – o modo como se referem ao próprio país. (Posso dizer ufanismo?)
• Berlusconi, Silvio – político de centro-direita (sic). Chefe de Governo. E não só.
• Bo – se diz: bôôhhh…! Com uma cara séria e as sobrancelhas levantadas. Significa “sei lá!”
• Bossi, Umberto – político de extrema-direita, de propostas separatistas (o Norte rico do Sul pobre e supostamente corrupto). Aliado de Berlusconi.
• Brasiliana – sinônimo de mulata. Normalmente à caça de gringo. No caso italiano, os gringos é que vão à caça de uma brasiliana.
• Brodo – caldo resultante do cozimento de carnes, cenouras e cebolas inteiras, louro e folhas de salsão. Ou, se preferir, um cubinho de caldo Knorr fervido em um litro d’água.
Ciao.
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
Wednesday, June 29, 2005
Friday, June 17, 2005
Vou Tomar Cachaça De Rolha
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Madrugada de sexta-feira na Itália. No Brasil, ainda é quinta. A geografia da casa foi ligeiramente modificada. Malas na sala, o cheiro de limpeza na despensa vazia e a ausência das plantas alertam os meus sentidos para a viagem desta noite. A falta de ansiedade reflete o nômade que há em mim. Minha única dúvida é sobre o que ler durante a viagem, pois não faltam opções. Amanhã, a esta hora, estaremos chegando ao Brasil. Todos nós, inclusive o cabrito e o rato. De pelúcia.
Planejei não planejar nada. Só férias. Vamos perambular pelo Embu, tomar chopp na praça e fazer uma devassa em alguma livraria. Se encontramos um sebo decente, encaixotamos tudo e trazemos para casa. Vamos conferir o caos de Sampa e procurar um pôr-do-sol na Rubem Berta. Vamos comer pastel na feira. Enquanto avós e tios mimam nossas princesas, vou simplesmente não fazer nada com a Eloá. Há muito tempo não faço nada e isso me faz perder um pouco do baiano que aprendi a ser. Planejei jogar conversa fora com a família, com os parentes e amigos, ensinar besteira aos sobrinhos e fazer cosquinhas na Isabella, mais nada.
Sou carioca mas conheço São Paulo como poucos. Isto é, conhecia: a cidade jamais parou de crescer. Dizia ser professor de motorista de táxi e ninguém duvidava. São Paulo cresce sempre. Assim como o Embu, que perdeu todo o charme dos anos setenta, apesar da insistência da minha família e dos amigos que lá fincaram raízes. E do cheiro de strudel da casa do Cláudio. Vou jogar sinuca com o Cláudio. Creio que o único lugar que não muda é Itaquira, lugarejo entre o Rio e Campos, onde meus avós moravam antes de voltar para Macaé. Se mudou, prefiro não saber. O único modo de se chegar a fazenda em Itaquira era de trem, que parava na estação duas vezes por dia, ou a cavalo. Lembro de uma vez, voltava de Carapebus a Itaquira de trem com minha tia Carmélia. Tinha uns cinco anos e compramos um saco de biscoito de polvilho, que em alguns lugares é conhecido como biscoito de cuspe. O vento espalhava farelo de biscoito pelo trem e eu perguntei-lhe o porquê daquele nome. Minha tia explicou que usava-se um enorme tacho com óleo fervente, alguém subia em uma escada e cuspia. O cuspe fritava e virava o tal biscoito. “Mas não se preocupe, não. O óleo quente mata todos os germes.”, disse ela. Fiquei anos sem comer biscoito de polvilho. Já adulto, viajava com meu pai e compramos um saco de biscoito. Ele contou-me que ficara anos sem comê-lo porque uma sua tia havia-lhe explicado como era feito. Itaquira é como o centro de qualquer cidade italiana: não muda nunca. Prefiro não saber. Quando estiver no Embu, vou comer biscoito de cuspe com meu pai.
Serão três semanas de pura vagabundagem, sem a obrigação de provar dezenas de queijos, presuntos, copas e salames todos os dias. Não vou ter nem tempo de escrever minhas cartas, pois pretendo passar boa parte dessas férias pescando num barranco ou de barco, no meio do Paranapanema, sem lap top, luz elétrica ou gerador. Aliás, pescando, não. Que eu e seu Zé dificilmente pegamos alguma coisa quando vamos pescar juntos. Só quando vamos sozinhos, como todo pescador mentiroso que se preze. A única exceção aconteceu na Itália, quando pescamos uma fieira enorme de trutas. Os minguados barbadinhos em dias e dias de pescaria no barco que ele construiu, não contam. O que conta mesmo é a companhia isubstituível do seu Zé, meu sogro e amigo. Portanto (e como não teria sentido escrever uma carta da Itália estando no Brasil), fiquem sossegados: vocês também terão três semanas de folga.
Infelizmente vai faltar tempo para visitar amigos e parentes em Salvador e outras praias. Porto Velho vai ficar para uma outra ocasião. Assim como o acarajé da Cira, de Itapoã. Vou ter que me contentar com os deliciosos quitutes da Laura, no Embu. Com intermináveis churrascadas e com muito pão de queijo feito na hora. E quando cansar dessa vida besta, vou ler. Preguiçosamente.
Não vou fazer barulho. Vou evitar poluir e procurar proporcionar alguns bons momentos a quem estiver por perto. Numa atitude de consciência social, vou consumir produtos genuinamente nacionais. Nem os peixes correrão perigo comigo. Querem mais? Pra quê? Estou de férias.
Ciao.
Paz e saúde!
Madrugada de sexta-feira na Itália. No Brasil, ainda é quinta. A geografia da casa foi ligeiramente modificada. Malas na sala, o cheiro de limpeza na despensa vazia e a ausência das plantas alertam os meus sentidos para a viagem desta noite. A falta de ansiedade reflete o nômade que há em mim. Minha única dúvida é sobre o que ler durante a viagem, pois não faltam opções. Amanhã, a esta hora, estaremos chegando ao Brasil. Todos nós, inclusive o cabrito e o rato. De pelúcia.
Planejei não planejar nada. Só férias. Vamos perambular pelo Embu, tomar chopp na praça e fazer uma devassa em alguma livraria. Se encontramos um sebo decente, encaixotamos tudo e trazemos para casa. Vamos conferir o caos de Sampa e procurar um pôr-do-sol na Rubem Berta. Vamos comer pastel na feira. Enquanto avós e tios mimam nossas princesas, vou simplesmente não fazer nada com a Eloá. Há muito tempo não faço nada e isso me faz perder um pouco do baiano que aprendi a ser. Planejei jogar conversa fora com a família, com os parentes e amigos, ensinar besteira aos sobrinhos e fazer cosquinhas na Isabella, mais nada.
Sou carioca mas conheço São Paulo como poucos. Isto é, conhecia: a cidade jamais parou de crescer. Dizia ser professor de motorista de táxi e ninguém duvidava. São Paulo cresce sempre. Assim como o Embu, que perdeu todo o charme dos anos setenta, apesar da insistência da minha família e dos amigos que lá fincaram raízes. E do cheiro de strudel da casa do Cláudio. Vou jogar sinuca com o Cláudio. Creio que o único lugar que não muda é Itaquira, lugarejo entre o Rio e Campos, onde meus avós moravam antes de voltar para Macaé. Se mudou, prefiro não saber. O único modo de se chegar a fazenda em Itaquira era de trem, que parava na estação duas vezes por dia, ou a cavalo. Lembro de uma vez, voltava de Carapebus a Itaquira de trem com minha tia Carmélia. Tinha uns cinco anos e compramos um saco de biscoito de polvilho, que em alguns lugares é conhecido como biscoito de cuspe. O vento espalhava farelo de biscoito pelo trem e eu perguntei-lhe o porquê daquele nome. Minha tia explicou que usava-se um enorme tacho com óleo fervente, alguém subia em uma escada e cuspia. O cuspe fritava e virava o tal biscoito. “Mas não se preocupe, não. O óleo quente mata todos os germes.”, disse ela. Fiquei anos sem comer biscoito de polvilho. Já adulto, viajava com meu pai e compramos um saco de biscoito. Ele contou-me que ficara anos sem comê-lo porque uma sua tia havia-lhe explicado como era feito. Itaquira é como o centro de qualquer cidade italiana: não muda nunca. Prefiro não saber. Quando estiver no Embu, vou comer biscoito de cuspe com meu pai.
Serão três semanas de pura vagabundagem, sem a obrigação de provar dezenas de queijos, presuntos, copas e salames todos os dias. Não vou ter nem tempo de escrever minhas cartas, pois pretendo passar boa parte dessas férias pescando num barranco ou de barco, no meio do Paranapanema, sem lap top, luz elétrica ou gerador. Aliás, pescando, não. Que eu e seu Zé dificilmente pegamos alguma coisa quando vamos pescar juntos. Só quando vamos sozinhos, como todo pescador mentiroso que se preze. A única exceção aconteceu na Itália, quando pescamos uma fieira enorme de trutas. Os minguados barbadinhos em dias e dias de pescaria no barco que ele construiu, não contam. O que conta mesmo é a companhia isubstituível do seu Zé, meu sogro e amigo. Portanto (e como não teria sentido escrever uma carta da Itália estando no Brasil), fiquem sossegados: vocês também terão três semanas de folga.
Infelizmente vai faltar tempo para visitar amigos e parentes em Salvador e outras praias. Porto Velho vai ficar para uma outra ocasião. Assim como o acarajé da Cira, de Itapoã. Vou ter que me contentar com os deliciosos quitutes da Laura, no Embu. Com intermináveis churrascadas e com muito pão de queijo feito na hora. E quando cansar dessa vida besta, vou ler. Preguiçosamente.
Não vou fazer barulho. Vou evitar poluir e procurar proporcionar alguns bons momentos a quem estiver por perto. Numa atitude de consciência social, vou consumir produtos genuinamente nacionais. Nem os peixes correrão perigo comigo. Querem mais? Pra quê? Estou de férias.
Ciao.
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férias
Wednesday, June 15, 2005
Queijos E Vinhos
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Quem nunca comeu queijo com goiabada levante o dedo lambuzado. Carlo Petrini, fundador e presidente da entidade Slow Food, é uma daquelas pessoas que acreditamos só existir nos filmes. Para defender tradições culinárias, conversa com pessoas tão diversas quanto o príncipe da Inglaterra em seu castelo e pastores no interior da China, produtores de queijo de leite de iaque. Trata-se de um progressista que acredita num estilo de vida menos estressante, mas nem por isso passiva ou somente contemplativa, onde a importância não está apenas no resultado final do que se põe à mesa, mas no ritual das tradições encontradas em todo o percurso, do campo ao prato.
Aluno aplicado, por obrigação do ofício e prazer, vou desenvolvendo uma afinada capacidade como provador de queijos italianos. Não apenas os produtos DOP (Denominação de Origem Protegida), mas também os queijos regionais, de produção artesanal e consumo restrito a pequenas localidades. E, acreditem, existem muitos tesouros a serem garimpados por toda a península italiana. De nada adiantaria citar nomes de produtos que jamais serão encontrados no mercado brasileiro, mas a idéia do queijo com goiabada mostra um caminho a ser percorrido.
Quando no Brasil, participei de algumas noites de queijos e vinhos, onde todos se empanturravam de dezenas de queijos diferentes e se embriagavam de vinhos nem sempre de qualidade. Meus professores e tutores provavelmente teriam uma crise histérica digestiva, caso se deparassem com uma daquelas mesas. Eles aconselham, enfaticamente, um máximo de quatro tipos de queijos. O que não encurta o programa entre amigos.
Escolha quatro tipos de queijos com características muito diferentes, como uma mozzarella de búfala, um queijo de cabra suave, um pecorino maturado e um último queijo com sabor decididamente mais forte, como um Bito. Na impossibilidade do pecorino e do Bito, substitua-os por um queijo de Minas bem curado e um pedaço de Grana Padano. Mas não restrinja a lista, o importante é a seqüência. Não encontra a mozzarella de búfala? Substitua-a por algo muito suave. Torce o nariz para queijos de cabra? Experimente com camembert ou brie. Também não tenha medo de incluir um Stilton, um Roquefort ou um Gorgonzola, mas tenha o cuidado de deixá-los por último. Ou seja, os de sabor mais delicado devem ser servidos primeiro e os mais marcantes, por último. E não me perguntem sobre vinhos. Estou me tornando conhecedor de queijos, o vinho fica por conta dos amigos enólogos. Que alguém se faça presente.
Um queijo pode e deve ser degustado como se degusta um vinho, desde que ambos sejam de qualidade. Aliás, o processo de degustação aproveita as mesmas expressões em ambos os produtos. O ideal seria ter a forma inteira do queijo, mas se você não estiver interessado em tornar-se um provador de queijos, pode contentar-se com apenas um pedaço dele. Caso esse pedaço se encontre em uma embalagem a vácuo, retire-o da embalagem original, enrole-o em uma folha de papel manteiga ou papel forno e deixe-o na parte menos fria da geladeira por pelo menos um dia, para perder o cheiro e sabor do plástico. Da mesma forma, deve ser retirado da geladeira uma hora antes de ser consumido.
Prove o queijo servido em fatias que contenham todas as informações, com um pedaço da crosta (caso haja), para realçar as diferenças entre as diversas partes do produto. Antes de levá-lo à boca, procure descrevê-lo através dos aspectos visíveis, descobrir perfumes que serão confirmados – ou não – e discuta-os com os amigos. Uma vez saboreado, analise a textura, consistência, as referências gustativas iniciais que desaparecem e o sabor residual uma vez deglutido. Reconhecida a qualidade e analisadas as características, insista no queijo, dessa vez com o vinho. Tenha um pequeno arsenal de geleias, mel de diversas flores e até uma garrafa de Sambuca ou Arak.
Com exceção da mozzarella de búfala, que tem um sabor extremamente delicado (ou de uma burrata pugliese, por exemplo), não tenha receio de ousar e, por exemplo, servir-se de uma fatia daquele queijo de cabra com um anel de mofo cremoso, com uma colher de geleia de laranja e um fio de Sambuca por cima. Mas lembre-se de parar antes de se empanturrar: os outros estarão olhando. E é claro que se o queijo levar um pouco de geleia ou mel, o vinho também muda. Um Passito ou um outro vinho licoroso é ideal nessas situações. Repita a operação degustativa com cada queijo e você verá que a noite pode tornar-se traiçoeiramente curta.
Mas você estava esperando uma lista definitiva? Desculpe. Não existe. Poderia sugerir algumas seqüências extremamente pessoais, mas seria difícil achar, no Brasil, produtos como o Caccicavallo Silano DOP, produzido na Calábria, um Pecorino della Garfagnanna (Toscana), um Caprino di Cavalese (Trentino Alto Adige), uma Paglierina (Piemonte), um Ragusano DOP (Sicília) que está entre os meus preferidos, ou mesmo o famoso Bra d’alpeggio DOP, produzido na região de montanha da província de Cuneo, em Piemonte. Uma noite de queijos e vinhos deve servir para descobrir novos sabores. Portanto, não deve existir uma lista fixa. Apenas o prazer da busca. E não tenha dúvida: uma fatia de queijo Minas meia-cura com goiabada é muito chique. Carlo Petrini um dia descobrirá essa nossa tradição e irá lutar pela sua preservação.
Ciao.
Paz e saúde!
Quem nunca comeu queijo com goiabada levante o dedo lambuzado. Carlo Petrini, fundador e presidente da entidade Slow Food, é uma daquelas pessoas que acreditamos só existir nos filmes. Para defender tradições culinárias, conversa com pessoas tão diversas quanto o príncipe da Inglaterra em seu castelo e pastores no interior da China, produtores de queijo de leite de iaque. Trata-se de um progressista que acredita num estilo de vida menos estressante, mas nem por isso passiva ou somente contemplativa, onde a importância não está apenas no resultado final do que se põe à mesa, mas no ritual das tradições encontradas em todo o percurso, do campo ao prato.
Aluno aplicado, por obrigação do ofício e prazer, vou desenvolvendo uma afinada capacidade como provador de queijos italianos. Não apenas os produtos DOP (Denominação de Origem Protegida), mas também os queijos regionais, de produção artesanal e consumo restrito a pequenas localidades. E, acreditem, existem muitos tesouros a serem garimpados por toda a península italiana. De nada adiantaria citar nomes de produtos que jamais serão encontrados no mercado brasileiro, mas a idéia do queijo com goiabada mostra um caminho a ser percorrido.
Quando no Brasil, participei de algumas noites de queijos e vinhos, onde todos se empanturravam de dezenas de queijos diferentes e se embriagavam de vinhos nem sempre de qualidade. Meus professores e tutores provavelmente teriam uma crise histérica digestiva, caso se deparassem com uma daquelas mesas. Eles aconselham, enfaticamente, um máximo de quatro tipos de queijos. O que não encurta o programa entre amigos.
Escolha quatro tipos de queijos com características muito diferentes, como uma mozzarella de búfala, um queijo de cabra suave, um pecorino maturado e um último queijo com sabor decididamente mais forte, como um Bito. Na impossibilidade do pecorino e do Bito, substitua-os por um queijo de Minas bem curado e um pedaço de Grana Padano. Mas não restrinja a lista, o importante é a seqüência. Não encontra a mozzarella de búfala? Substitua-a por algo muito suave. Torce o nariz para queijos de cabra? Experimente com camembert ou brie. Também não tenha medo de incluir um Stilton, um Roquefort ou um Gorgonzola, mas tenha o cuidado de deixá-los por último. Ou seja, os de sabor mais delicado devem ser servidos primeiro e os mais marcantes, por último. E não me perguntem sobre vinhos. Estou me tornando conhecedor de queijos, o vinho fica por conta dos amigos enólogos. Que alguém se faça presente.
Um queijo pode e deve ser degustado como se degusta um vinho, desde que ambos sejam de qualidade. Aliás, o processo de degustação aproveita as mesmas expressões em ambos os produtos. O ideal seria ter a forma inteira do queijo, mas se você não estiver interessado em tornar-se um provador de queijos, pode contentar-se com apenas um pedaço dele. Caso esse pedaço se encontre em uma embalagem a vácuo, retire-o da embalagem original, enrole-o em uma folha de papel manteiga ou papel forno e deixe-o na parte menos fria da geladeira por pelo menos um dia, para perder o cheiro e sabor do plástico. Da mesma forma, deve ser retirado da geladeira uma hora antes de ser consumido.
Prove o queijo servido em fatias que contenham todas as informações, com um pedaço da crosta (caso haja), para realçar as diferenças entre as diversas partes do produto. Antes de levá-lo à boca, procure descrevê-lo através dos aspectos visíveis, descobrir perfumes que serão confirmados – ou não – e discuta-os com os amigos. Uma vez saboreado, analise a textura, consistência, as referências gustativas iniciais que desaparecem e o sabor residual uma vez deglutido. Reconhecida a qualidade e analisadas as características, insista no queijo, dessa vez com o vinho. Tenha um pequeno arsenal de geleias, mel de diversas flores e até uma garrafa de Sambuca ou Arak.
Com exceção da mozzarella de búfala, que tem um sabor extremamente delicado (ou de uma burrata pugliese, por exemplo), não tenha receio de ousar e, por exemplo, servir-se de uma fatia daquele queijo de cabra com um anel de mofo cremoso, com uma colher de geleia de laranja e um fio de Sambuca por cima. Mas lembre-se de parar antes de se empanturrar: os outros estarão olhando. E é claro que se o queijo levar um pouco de geleia ou mel, o vinho também muda. Um Passito ou um outro vinho licoroso é ideal nessas situações. Repita a operação degustativa com cada queijo e você verá que a noite pode tornar-se traiçoeiramente curta.
Mas você estava esperando uma lista definitiva? Desculpe. Não existe. Poderia sugerir algumas seqüências extremamente pessoais, mas seria difícil achar, no Brasil, produtos como o Caccicavallo Silano DOP, produzido na Calábria, um Pecorino della Garfagnanna (Toscana), um Caprino di Cavalese (Trentino Alto Adige), uma Paglierina (Piemonte), um Ragusano DOP (Sicília) que está entre os meus preferidos, ou mesmo o famoso Bra d’alpeggio DOP, produzido na região de montanha da província de Cuneo, em Piemonte. Uma noite de queijos e vinhos deve servir para descobrir novos sabores. Portanto, não deve existir uma lista fixa. Apenas o prazer da busca. E não tenha dúvida: uma fatia de queijo Minas meia-cura com goiabada é muito chique. Carlo Petrini um dia descobrirá essa nossa tradição e irá lutar pela sua preservação.
Ciao.
Sunday, June 12, 2005
Iª Lavagem Do Carta Da Itália
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Em Salvador costuma-se comemorar o aniversário de alguns bares com uma lavagem. É como na Lavagem do Bonfim, só que em escala menor. O mesmo vale para escolas, associações e outras entidades sociais. O cd “Chicleteiro”, do Chiclete com Banana, serviu bem à primeira lavagem do blog. A vizinha de cima estranhou, mas no semáforo houve quem me pedisse cópia do cd. Foi domingo passado, cinco de junho e eu só percebi na última hora. Mas deu tempo para comemorar. O post anterior tinha acabado de ser escrito e postado, quando decidi verificar a data do primeiro post.
Há pouco mais de um ano, navegava pesquisando não sei o que quando descobri um blog de alguém que morava na Itália e contava o dia a dia. Estranhei, pois ainda não conhecia a blogosfera. Fiquei curioso e googlei “guia do blog”. Conheci o blog do Alex Castro e, curiosando os links dele, fui conhecendo outros importantes e descobrindo muita gente séria e de excelente safra. Foi quando decidi montar o meu e entrar na festa. Através das preciosas dicas do Alex Castro e das lições iniciais do Ney, montei o Carta da Itália. Meus primeiros links, além do próprio Alex Castro e do Ney foram o Rafael Galvão, o Milton Ribeiro, o Marmota, o Reginaldo, o Inagaki e a querida Angela, que na época tinha um outro blog. Através deles, fui descobrindo e adicionando outros de qualidade. Basta ver a lista ao lado. Isso sem contar os blogs que visito mesmo sem tê-los linkado.
A esse ponto, além de agradecer aos pioneiros e aqueles que me inspiraram, devo desculpar-me pelos poucos registros que tenho deixado nos blogs amigos, mesmo visitando-os sempre. Poderia usar como desculpa o fim de ano escolar das meninas que tem me mantido muito ocupado, com apresentações de teatro infantil, festas de encerramento, jantares, pizzas com os outros pais e o fim do campeonato de basquete. Ou ainda, dizer que esse é o período de fechamento do balanço da empresa, conturbado pela presença dos ficais da Finança, além da apresentação anual de resultados e do jantar dos funcionários. Poderia ainda argumentar que os preparativos e a euforia pela viagem ao Brasil, na próxima sexta-feira têm contribuído muito para essa falta de tempo. Mas, não. Não vou usar uma dessas desculpas para justificar-me. Vou usar todas. E contar com a boa vontade de vocês.
Alguém pediu-me dicas sobre queijos e vinhos para enfrentar o mês de julho em São Paulo. Prometo que será o próximo post e que o escreverei antes da viagem ao Brasil. Até lá, tin-tin
Ciao.
Paz e saúde!
Em Salvador costuma-se comemorar o aniversário de alguns bares com uma lavagem. É como na Lavagem do Bonfim, só que em escala menor. O mesmo vale para escolas, associações e outras entidades sociais. O cd “Chicleteiro”, do Chiclete com Banana, serviu bem à primeira lavagem do blog. A vizinha de cima estranhou, mas no semáforo houve quem me pedisse cópia do cd. Foi domingo passado, cinco de junho e eu só percebi na última hora. Mas deu tempo para comemorar. O post anterior tinha acabado de ser escrito e postado, quando decidi verificar a data do primeiro post.
Há pouco mais de um ano, navegava pesquisando não sei o que quando descobri um blog de alguém que morava na Itália e contava o dia a dia. Estranhei, pois ainda não conhecia a blogosfera. Fiquei curioso e googlei “guia do blog”. Conheci o blog do Alex Castro e, curiosando os links dele, fui conhecendo outros importantes e descobrindo muita gente séria e de excelente safra. Foi quando decidi montar o meu e entrar na festa. Através das preciosas dicas do Alex Castro e das lições iniciais do Ney, montei o Carta da Itália. Meus primeiros links, além do próprio Alex Castro e do Ney foram o Rafael Galvão, o Milton Ribeiro, o Marmota, o Reginaldo, o Inagaki e a querida Angela, que na época tinha um outro blog. Através deles, fui descobrindo e adicionando outros de qualidade. Basta ver a lista ao lado. Isso sem contar os blogs que visito mesmo sem tê-los linkado.
A esse ponto, além de agradecer aos pioneiros e aqueles que me inspiraram, devo desculpar-me pelos poucos registros que tenho deixado nos blogs amigos, mesmo visitando-os sempre. Poderia usar como desculpa o fim de ano escolar das meninas que tem me mantido muito ocupado, com apresentações de teatro infantil, festas de encerramento, jantares, pizzas com os outros pais e o fim do campeonato de basquete. Ou ainda, dizer que esse é o período de fechamento do balanço da empresa, conturbado pela presença dos ficais da Finança, além da apresentação anual de resultados e do jantar dos funcionários. Poderia ainda argumentar que os preparativos e a euforia pela viagem ao Brasil, na próxima sexta-feira têm contribuído muito para essa falta de tempo. Mas, não. Não vou usar uma dessas desculpas para justificar-me. Vou usar todas. E contar com a boa vontade de vocês.
Alguém pediu-me dicas sobre queijos e vinhos para enfrentar o mês de julho em São Paulo. Prometo que será o próximo post e que o escreverei antes da viagem ao Brasil. Até lá, tin-tin
Ciao.
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Sunday, June 05, 2005
Cem Cartas
Caros e Caras,
Paz e saúde!
O Aldo Pereira sugeriu que eu fizesse uma edição particular para a centésima Carta da Itália. Pensei sobre o assunto e decidi não fazer nada de especial. Apenas uma das tantas cartas para aporrinhar o humor de vocês. A tentação seria avaliar a evolução de tudo o que vivi e procurei transmitir, mas não sou muito amigo de retrospectivas. Fazer uma retrospectiva comporta verificar quais eram os objetivos iniciais e comparar com o resultado obtido. E nem sempre o resultado é o planejado. O inventor da Coca-Cola, por exemplo, planejava produzir um elixir e deu no que deu. Num caminho inverso, minhas cartas deveriam ser um diário de bordo dessa aventura familiar em um país de cultura diversa, endereçado a amigos e curiosos. Acabou virando uma incrível batalha pessoal em busca da eloqüência, que me obriga a longos e tortuosos textos na tentativa de tornar clara uma visão meio nebulosa no caminho das minhas descobertas.
Teria, ainda, que descrever a sensação de eterno turista que sempre me acompanhou, fazendo-me sentir em casa em raras ocasiões; o que me valeu o apelido de Cigano, carregado por anos da minha eterna adolescência. Além da certeza de jamais ter a oportunidade de abdicar dessa incômoda situação de anônimo observador, nem sempre atento.
Outro motivo que me impede de fazer um balanço desses anos de Itália é a dificuldade de relacionar todas as comparações provocadas nesse período. Depois, como confessar que gosto tanto de uma boa massa quanto de uma feijoada? Ou deixar que alguém perceba que a cidade coberta de neve me fascina tanto quanto a praia de Guarajuba num dia de sol, por exemplo? Não. Não cairei nessas armadilhas. Não conseguiria separar os amigos de sempre com as novas amizades conquistadas, apesar da falta que me fazem parentes e velhos amigos. Tampouco trairia antigas paixões, tentando explicar que torcer pelo Milan não me faz menos torcedor do Flamengo. Mesmo com tantos brasileiros jogando aqui e o familiar rubro-negro da camisa (que deve valer como atenuante, espero) seria difícil explicar. Além de tudo, San Siro não é o Maracanã. E é esse tipo de coisa que me incomoda. Tenho à disposição todos os ingredientes para fazer um bom acarajé, mas não terá, jamais, o mesmo sabor dos da Cira de Itapoã, que o adorável maluco do Giancarlo me mandou antes do Carnaval.
Morando fora do Brasil há tanto tempo, já nem sei mais se estou sendo justo nas minhas comparações. Perdi referências de casa. Será que os adolescentes daí não usam celulares com a mesma freqüência que os adolescentes daqui? Quando comparo a burocracia italiana com aquela brasileira, na realidade não estou apenas querendo dizer que ela é mais visível, às claras? Fica realmente difícil separar detalhes do cotidiano e identificar até que ponto somos diferentes.
A minha proposta inicial de transmitir nossas descobertas através das comparações, muitas vezes cedeu lugar a simples registros das novidades. Falando das bicicletas, de férias em lugares diferentes e até do preconceito racial assumido que parte dos italianos ostenta, tão diferente do nosso, camuflado, miscigenado e matreiro. Enfim, como esclarecer que o estilo italiano é mais marketing que conteúdo? Que, no fim das contas, somos mesmo muito parecidos? Às vezes é difícil comparar uma novidade sem parâmetros brasileiros, e acabo atravessando o riacho que separa novidades e comparações. Não raro, acabo me afogando na minha própria compreensão.
Na realidade, essas minhas cartas nem têm mais sentido. Viajar, hoje, é fácil. A crise das empresas aéreas, a televisão e a internet encurtaram muito a distância que nos separa. Quem tiver curiosidade sobre a Itália e não puder vir conhecê-la, pode navegar pela rede e descobrir tudo sozinho. E nem precisa falar italiano. Continuo escrevendo apenas para não esquecer, para manter vivos valores pessoais e contatos. Sem a ilusão de que meu elixir será, um dia, uma Coca-Cola. Escrevo por escrever. Enquanto houver um Agnelli ou uma receita ainda não provada, prometo (ameaço) continuar relatando sobre arquitetura, rugbi (nova descoberta), heróis alheios e todo e qualquer fragmento de vida que descobrir. Você pode decidir ler ou não. Caso decida responder, prometo (mas não juro) que tentarei não usar nada contra você. Se desejar apenas uma leitura passiva, tudo bem. Espero conseguir fazer você rir às vezes. Eu estarei rindo. No fundo, rir é o que importa.
Minha memória gastronômica já está selecionando o que irá provocar saudades, na eventualidade de uma volta ao Brasil. Talvez o tempo me faça ranzinza e eu terei muito do que me queixar no meu adorado terceiro mundo. Só espero que o Bush de então, não decida atacar a Argentina (por implicância com o tango, sei lá!), pois é muito desconfortável essa sensação de estar no meio do caminho de países em guerra. Terei, então, todos os domingos livres, para caminhar pela praia com minhas meninas (Eloá, Bianca e Luiza), fumando um charuto baiano, camisa aberta, óculos escuros e chapéu Panamá. Em casa, depois de um almoço de massa com frutos do mar, sentarei no computador e escreverei, em italiano, as minhas Cartas de Salvador.
Por isso, caro amigo Aldo, me recuso a escrever uma edição comemorativa pela centésima carta. Seria impossível transmitir todas as diferenças entre as estações, apesar das minhas vãs tentativas. Você iria rir dos meteorologistas italianos e se encantar com o florescer das tulipas, se eu soubesse transmitir com palavras todas as cores e tons dessa melodia que a Itália me permite admirar. Seria necessário começar a escrevê-la já na primeira carta, para poder revisá-la (e você sabe da minha dificuldade em revisar) e conseguir uma retrospectiva fiel. Quem sabe, naquele domingo do parágrafo anterior, me lembre das cem cartas e me pergunte se não deveria ter decidido por sem cartas. Mas como sempre considerei a conjectura uma armadilha a ser evitada, desligo o computador e saio nessa manhã de primavera, pois acabo de assumir um compromisso com um (charuto) panatela dominicano.
Ciao.
Paz e saúde!
O Aldo Pereira sugeriu que eu fizesse uma edição particular para a centésima Carta da Itália. Pensei sobre o assunto e decidi não fazer nada de especial. Apenas uma das tantas cartas para aporrinhar o humor de vocês. A tentação seria avaliar a evolução de tudo o que vivi e procurei transmitir, mas não sou muito amigo de retrospectivas. Fazer uma retrospectiva comporta verificar quais eram os objetivos iniciais e comparar com o resultado obtido. E nem sempre o resultado é o planejado. O inventor da Coca-Cola, por exemplo, planejava produzir um elixir e deu no que deu. Num caminho inverso, minhas cartas deveriam ser um diário de bordo dessa aventura familiar em um país de cultura diversa, endereçado a amigos e curiosos. Acabou virando uma incrível batalha pessoal em busca da eloqüência, que me obriga a longos e tortuosos textos na tentativa de tornar clara uma visão meio nebulosa no caminho das minhas descobertas.
Teria, ainda, que descrever a sensação de eterno turista que sempre me acompanhou, fazendo-me sentir em casa em raras ocasiões; o que me valeu o apelido de Cigano, carregado por anos da minha eterna adolescência. Além da certeza de jamais ter a oportunidade de abdicar dessa incômoda situação de anônimo observador, nem sempre atento.
Outro motivo que me impede de fazer um balanço desses anos de Itália é a dificuldade de relacionar todas as comparações provocadas nesse período. Depois, como confessar que gosto tanto de uma boa massa quanto de uma feijoada? Ou deixar que alguém perceba que a cidade coberta de neve me fascina tanto quanto a praia de Guarajuba num dia de sol, por exemplo? Não. Não cairei nessas armadilhas. Não conseguiria separar os amigos de sempre com as novas amizades conquistadas, apesar da falta que me fazem parentes e velhos amigos. Tampouco trairia antigas paixões, tentando explicar que torcer pelo Milan não me faz menos torcedor do Flamengo. Mesmo com tantos brasileiros jogando aqui e o familiar rubro-negro da camisa (que deve valer como atenuante, espero) seria difícil explicar. Além de tudo, San Siro não é o Maracanã. E é esse tipo de coisa que me incomoda. Tenho à disposição todos os ingredientes para fazer um bom acarajé, mas não terá, jamais, o mesmo sabor dos da Cira de Itapoã, que o adorável maluco do Giancarlo me mandou antes do Carnaval.
Morando fora do Brasil há tanto tempo, já nem sei mais se estou sendo justo nas minhas comparações. Perdi referências de casa. Será que os adolescentes daí não usam celulares com a mesma freqüência que os adolescentes daqui? Quando comparo a burocracia italiana com aquela brasileira, na realidade não estou apenas querendo dizer que ela é mais visível, às claras? Fica realmente difícil separar detalhes do cotidiano e identificar até que ponto somos diferentes.
A minha proposta inicial de transmitir nossas descobertas através das comparações, muitas vezes cedeu lugar a simples registros das novidades. Falando das bicicletas, de férias em lugares diferentes e até do preconceito racial assumido que parte dos italianos ostenta, tão diferente do nosso, camuflado, miscigenado e matreiro. Enfim, como esclarecer que o estilo italiano é mais marketing que conteúdo? Que, no fim das contas, somos mesmo muito parecidos? Às vezes é difícil comparar uma novidade sem parâmetros brasileiros, e acabo atravessando o riacho que separa novidades e comparações. Não raro, acabo me afogando na minha própria compreensão.
Na realidade, essas minhas cartas nem têm mais sentido. Viajar, hoje, é fácil. A crise das empresas aéreas, a televisão e a internet encurtaram muito a distância que nos separa. Quem tiver curiosidade sobre a Itália e não puder vir conhecê-la, pode navegar pela rede e descobrir tudo sozinho. E nem precisa falar italiano. Continuo escrevendo apenas para não esquecer, para manter vivos valores pessoais e contatos. Sem a ilusão de que meu elixir será, um dia, uma Coca-Cola. Escrevo por escrever. Enquanto houver um Agnelli ou uma receita ainda não provada, prometo (ameaço) continuar relatando sobre arquitetura, rugbi (nova descoberta), heróis alheios e todo e qualquer fragmento de vida que descobrir. Você pode decidir ler ou não. Caso decida responder, prometo (mas não juro) que tentarei não usar nada contra você. Se desejar apenas uma leitura passiva, tudo bem. Espero conseguir fazer você rir às vezes. Eu estarei rindo. No fundo, rir é o que importa.
Minha memória gastronômica já está selecionando o que irá provocar saudades, na eventualidade de uma volta ao Brasil. Talvez o tempo me faça ranzinza e eu terei muito do que me queixar no meu adorado terceiro mundo. Só espero que o Bush de então, não decida atacar a Argentina (por implicância com o tango, sei lá!), pois é muito desconfortável essa sensação de estar no meio do caminho de países em guerra. Terei, então, todos os domingos livres, para caminhar pela praia com minhas meninas (Eloá, Bianca e Luiza), fumando um charuto baiano, camisa aberta, óculos escuros e chapéu Panamá. Em casa, depois de um almoço de massa com frutos do mar, sentarei no computador e escreverei, em italiano, as minhas Cartas de Salvador.
Por isso, caro amigo Aldo, me recuso a escrever uma edição comemorativa pela centésima carta. Seria impossível transmitir todas as diferenças entre as estações, apesar das minhas vãs tentativas. Você iria rir dos meteorologistas italianos e se encantar com o florescer das tulipas, se eu soubesse transmitir com palavras todas as cores e tons dessa melodia que a Itália me permite admirar. Seria necessário começar a escrevê-la já na primeira carta, para poder revisá-la (e você sabe da minha dificuldade em revisar) e conseguir uma retrospectiva fiel. Quem sabe, naquele domingo do parágrafo anterior, me lembre das cem cartas e me pergunte se não deveria ter decidido por sem cartas. Mas como sempre considerei a conjectura uma armadilha a ser evitada, desligo o computador e saio nessa manhã de primavera, pois acabo de assumir um compromisso com um (charuto) panatela dominicano.
Ciao.
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Thursday, June 02, 2005
O Hábito Faz O Monge
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Eu tinha doze, treze anos. Ficava maravilhado cada vez que via meu pai destrinchar um frango assado. Ele segurava aquela tesoura apropriada com tal destreza que me parecia a coisa mais fácil do mundo. Nas minhas poucas e frustradas tentativas solitárias, o máximo que conseguia era travar a tesoura com um pedaço de osso e espalhar pedaços de frango por toda a mesa, quando a mola da tesoura a liberava. Meu pai provavelmente se divertia ao notar meu interesse por algo banal, assim como talvez se sentisse orgulhoso em poder aproveitar esses pequenos momentos para contribuir à minha formação. Depois de muitos frangos assados, perguntei-lhe como é que se fazia e ele respondeu-me:
- Você segura a tesoura com a mão direita bem firme e espeta o garfo no peito do frango de modo a tê-lo imóvel no prato. Faz uma cara de quem sabe o que está fazendo e vai metendo a tesoura…
Na Itália a indústria do vestuário nunca está em crise. E não me refiro somente aquela da moda, mas todo e qualquer tipo de vestuário. A quantidade impressionante de ciclistas com roupas apropriadas para ciclistas pelas ruas, reforça a imagem esportiva profissional européia. A grande maioria, na realidade, usa aqueles trajes não mais de uma hora por semana, mas sob nenhuma condição aceitaria sair para uma voltinha em bicicleta com trajes menos adequados. A bicicleta, é óbvio, também é profissional.
Como os salários têm pouca variação e cobrem as necessidades básicas e algo mais (quando comparados com o Brasil), até a senhora da limpeza ou o operário têm condições de vestir-se bem. E o fazem. Durante o dia, no horário de trabalho, vestem-se obedecendo as regras do próprio ambiente e das normas de segurança: a senhora da limpeza usará um guarda-pó e sapatos que não escorregam mesmo sobre água ou óleo, assim como os do operário, que além de não escorregarem oferecem proteção contra quedas de objetos. Nenhum restaurante se lamenta ou proíbe a entrada de pessoas com roupas de operário ou sujas do trabalho ao meio-dia. À noite, porém, será impossível distingui-los da mulher do advogado ou do patrão do operário.
Nos cursos de vôlei e basquete das nossas filhas, a primeira ação dos organizadores é entregar as roupas que deverão ser usadas nos treinamentos. Ninguém aparece para treinar com roupas diferentes dos uniformes, o que me tem causado certa confusão, quando o momento de trocar os óculos se aproxima por um leve aumento da minha leve miopia. Mas na escola elas já não precisaram usar o guarda-pó branco de sempre, pois a obrigatoriedade havia caído, quando chegamos.
Numa carta anterior, comentei os dissabores provocados pela ditadura da moda, quando passei meses sem conseguir encontrar meias pretas, que, com a chegada do inverno, torna-se a cor obrigatória. Pois bem, o ladrão mudou de gosto. Alguém roubou todas as meias bege e marron-claro. Há muito não as encontro. Mas pude notar uma coisa interessante: mesmo com a timidez do início da primavera, é quando aparecem as tulipas que as pessoas se dão conta de que é hora de vestir-se com um pouco mais de cor, e abandonam o preto nos armários. São elas, as tulipas, as responsáveis da mudança. São causa, e não efeito. (Aliás, a primavera acabou. Alguém apertou o botão e ligou o verão. Neve no início do mês, calor sufocante no fim. É Maio.)
Como a República Italiana foi unificada, e não libertada, as tradições têm imenso peso nas coisas do dia a dia. A farda dos policiais municipais são trajes modernos como de qualquer polícia que conhecemos. Já a farda dos Carabinieri são peças de museu. E não se toca. Assim como os prefeitos estarão sempre com a faixa transversal com as cores do município, em toda e qualquer aparição pública. As togas dos juízes italianos causam risos, mas desaconselho. Os juízes, mesmo aqui, são muito suscetíveis. As professoras usam roupas de professoras. Os médicos podem ser reconhecidos pela rua. Os estrangeiros, idem.
Giovanni, um amigo, faz parte de uma confraria chamada Santo Cibus. Nas reuniões do seu reservado grupo todos devem endossar o traje tradicional, formado por um chapéu alto, em estilo medieval e uma bata aberta dos lados que se coloca por cima das roupas. O brasão é composto por um braço de armadura que segura um garfo, e está bordado sobre o imenso babador que o chefe supremo coloca, no início da reunião, em cada membro do grupo. As reuniões acontecem nos restaurantes mais distantes, para evitar testemunhas das barbáries praticadas pelos integrantes contra o santo cibo .
É possível encontrar a roupa adequada para toda e qualquer atividade. Não usá-la será visto como falta de profissionalismo ou seriedade. Garotos de cinco, seis anos com roupa de rugbi e a inconfundível bola oval, caminham em direção ao campo segurando as mãos de pais orgulhosos. O gerente do banco que veste o avental branco antes de começar a pintar a sala da própria casa. O motorista do táxi de terno e gravata. O pintor de quadros que vai às ruas em busca de inspiração com o avental multicolorido e o chapéu engraçado que se vê nos filmes.
Todos parecem ter aprendido a lição do meu pai: não é relevante o que você faz e nem se o faz bem. O importante é demonstrar segurança. Todo garoto de doze, treze anos ficará admirado.
Ciao.
Paz e saúde!
Eu tinha doze, treze anos. Ficava maravilhado cada vez que via meu pai destrinchar um frango assado. Ele segurava aquela tesoura apropriada com tal destreza que me parecia a coisa mais fácil do mundo. Nas minhas poucas e frustradas tentativas solitárias, o máximo que conseguia era travar a tesoura com um pedaço de osso e espalhar pedaços de frango por toda a mesa, quando a mola da tesoura a liberava. Meu pai provavelmente se divertia ao notar meu interesse por algo banal, assim como talvez se sentisse orgulhoso em poder aproveitar esses pequenos momentos para contribuir à minha formação. Depois de muitos frangos assados, perguntei-lhe como é que se fazia e ele respondeu-me:
- Você segura a tesoura com a mão direita bem firme e espeta o garfo no peito do frango de modo a tê-lo imóvel no prato. Faz uma cara de quem sabe o que está fazendo e vai metendo a tesoura…
Na Itália a indústria do vestuário nunca está em crise. E não me refiro somente aquela da moda, mas todo e qualquer tipo de vestuário. A quantidade impressionante de ciclistas com roupas apropriadas para ciclistas pelas ruas, reforça a imagem esportiva profissional européia. A grande maioria, na realidade, usa aqueles trajes não mais de uma hora por semana, mas sob nenhuma condição aceitaria sair para uma voltinha em bicicleta com trajes menos adequados. A bicicleta, é óbvio, também é profissional.
Como os salários têm pouca variação e cobrem as necessidades básicas e algo mais (quando comparados com o Brasil), até a senhora da limpeza ou o operário têm condições de vestir-se bem. E o fazem. Durante o dia, no horário de trabalho, vestem-se obedecendo as regras do próprio ambiente e das normas de segurança: a senhora da limpeza usará um guarda-pó e sapatos que não escorregam mesmo sobre água ou óleo, assim como os do operário, que além de não escorregarem oferecem proteção contra quedas de objetos. Nenhum restaurante se lamenta ou proíbe a entrada de pessoas com roupas de operário ou sujas do trabalho ao meio-dia. À noite, porém, será impossível distingui-los da mulher do advogado ou do patrão do operário.
Nos cursos de vôlei e basquete das nossas filhas, a primeira ação dos organizadores é entregar as roupas que deverão ser usadas nos treinamentos. Ninguém aparece para treinar com roupas diferentes dos uniformes, o que me tem causado certa confusão, quando o momento de trocar os óculos se aproxima por um leve aumento da minha leve miopia. Mas na escola elas já não precisaram usar o guarda-pó branco de sempre, pois a obrigatoriedade havia caído, quando chegamos.
Numa carta anterior, comentei os dissabores provocados pela ditadura da moda, quando passei meses sem conseguir encontrar meias pretas, que, com a chegada do inverno, torna-se a cor obrigatória. Pois bem, o ladrão mudou de gosto. Alguém roubou todas as meias bege e marron-claro. Há muito não as encontro. Mas pude notar uma coisa interessante: mesmo com a timidez do início da primavera, é quando aparecem as tulipas que as pessoas se dão conta de que é hora de vestir-se com um pouco mais de cor, e abandonam o preto nos armários. São elas, as tulipas, as responsáveis da mudança. São causa, e não efeito. (Aliás, a primavera acabou. Alguém apertou o botão e ligou o verão. Neve no início do mês, calor sufocante no fim. É Maio.)
Como a República Italiana foi unificada, e não libertada, as tradições têm imenso peso nas coisas do dia a dia. A farda dos policiais municipais são trajes modernos como de qualquer polícia que conhecemos. Já a farda dos Carabinieri são peças de museu. E não se toca. Assim como os prefeitos estarão sempre com a faixa transversal com as cores do município, em toda e qualquer aparição pública. As togas dos juízes italianos causam risos, mas desaconselho. Os juízes, mesmo aqui, são muito suscetíveis. As professoras usam roupas de professoras. Os médicos podem ser reconhecidos pela rua. Os estrangeiros, idem.
Giovanni, um amigo, faz parte de uma confraria chamada Santo Cibus. Nas reuniões do seu reservado grupo todos devem endossar o traje tradicional, formado por um chapéu alto, em estilo medieval e uma bata aberta dos lados que se coloca por cima das roupas. O brasão é composto por um braço de armadura que segura um garfo, e está bordado sobre o imenso babador que o chefe supremo coloca, no início da reunião, em cada membro do grupo. As reuniões acontecem nos restaurantes mais distantes, para evitar testemunhas das barbáries praticadas pelos integrantes contra o santo cibo .
É possível encontrar a roupa adequada para toda e qualquer atividade. Não usá-la será visto como falta de profissionalismo ou seriedade. Garotos de cinco, seis anos com roupa de rugbi e a inconfundível bola oval, caminham em direção ao campo segurando as mãos de pais orgulhosos. O gerente do banco que veste o avental branco antes de começar a pintar a sala da própria casa. O motorista do táxi de terno e gravata. O pintor de quadros que vai às ruas em busca de inspiração com o avental multicolorido e o chapéu engraçado que se vê nos filmes.
Todos parecem ter aprendido a lição do meu pai: não é relevante o que você faz e nem se o faz bem. O importante é demonstrar segurança. Todo garoto de doze, treze anos ficará admirado.
Ciao.
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