Sunday, May 29, 2005

O Vendedor

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Sexta-feira, cinco e meia da tarde. Decido sair mais cedo do trabalho para encontrar-me com Maurício, um brasileiro há três meses na Itália e que acaba de receber o direito de votar: saiu a cidadania italiana que tanto esperava. Foi uma semana daquelas, com o fechamento do balanço emperrado por uma visita da Guardia di Finanza, o que significa um mês de aborrecimento e nervos expostos. O celular, no bolso da calça, vibra (não sou fã de campainha de telefone).

(A neurolingüística ensina que criamos códigos para catalogar o que ouvimos. Assim, acabamos interpretando tudo através desses códigos. Caso um cliente entre em uma loja de automóveis e peça para ver uma carro vermelho – numa referência clara de linguagem visiva – e o vendedor, ao levá-lo ao carro solicitado, esqueça de realçar o detalhe da cor, preferindo falar sobre o conforto – referência de linguagem cinestésica –, haverá um bloqueio do cliente e a comunicação se interromperá.)

O sujeito no telefone assegura-se de estar falando com a pessoa certa e me oferece uma oferta, uma ocasião que não posso deixar passar. Pergunta se tenho cinco minutos para ouvir sua proposta. Normalmente, deixaria que ele esclarecesse o assunto e a recusaria, diplomaticamente, pois sei o quanto é difícil ouvir um não aborrecido, mas ele havia me chamado de “álem” e o bloqueio aconteceu. “Desculpe mas estou trabalhando”, cortei, seco. Ele ainda insistiu, num italiano tão perfeito que eu não consegui identificar o sotaque. Tentava propor-me algo que eu simplesmente não conseguia entender.

(Segundo os estudiosos da neurolingüística, alguns fatores podem indicar como seu interlocutor está recebendo a comunicação. São detalhes no movimento dos olhos, no ritmo da fala, no gestual e nas reações musculares, entre outros. Quando o contato acontece por telefone, pode-se contar apenas com o ritmo e tom de voz, além da metalinguagem, para tentar estabelecer uma comunicação de sucesso. Por outro lado, é mais fácil livrar-se de um chato por telefone que pessoalmente.)

Finalmente percebi tratar-se de um trote, uma brincadeira de um amigo arquiteto que mora em Riva del Garda. Rimos um bocado da minha má vontade a partir do “álem” e da capacidade dele em manipular essa minha dificuldade. Marcamos uma cerveja para uma ocasião menos conturbada, provavelmente no meio do caminho entre Piacenza e Riva Del Garda.

Talvez devesse ter me aplicado no estudo da neuroligüística, mas confesso não ter grande interesse pela matéria, que sempre estudei por imposição da empresa. Fico, contudo, impressionado com a capacidade que temos de filtrar informações segundo nossas próprias referências, criando nossas verdades pessoais, que, às vezes, pouco têm de realidade. Ou, em outras palavras, absorvemos informações e interpretamos os fatos como quem observa um mapa. E o mapa não é o território.

Ciao.

Thursday, May 26, 2005

Bruschetta

Caros e Caras,
Paz e saúde!



Uma característica pouco percebida dos súditos dos césares (desde sempre, tem sempre um césar comandando) é a escassa opção de petiscos. Sentar em um bar e tomar uma cerveja ou um aperitivo acompanhado de um tira-gosto pode frustrar. Nisso eles têm muito a aprender com os primos espanhóis, criativos inventores de tapas (tira-gosto espanhol) em qualquer situação. Por outro lado, a qualidade dos poucos tira-gostos acabam fazendo fama. Como a bruschetta, por exemplo. Experimente.

Pão pugliese (o pão italiano encontrado com facilidade no Brasil, grande e redondo)
Alho
Azeite de oliva
Sal
Tomate
Mozzarella
Manjericão

Acenda o forno e deixe-o aquecer. Corte ao meio um dente de alho. Corte o pão em fatias e esfregue um pouco de alho em ambos os lados de cada fatia. Aqueça uma frigideira grande, junte um fio de azeite de oliva e comece a tostar as fatias de pão. Uma vez que todas as fatias foram tostadas, ajeite-as em uma assadeira, cubra-as com o tomate e a mozzarella picados, adicione uma pitada de sal e umas folhas de majericão. Quando o forno estiver bem aquecido, coloque a assadeira no fogo e deixe por alguns minutos. Peça para alguém trazer a cerveja (você não vai querer fazer tudo sozinho, vai?) e bom apetite.

As variações da bruschetta têm o limite da imaginação. Há quem não as leve ao forno, quem não come alho de jeito nehum, quem prefira o alho passado na frigideira – que acaba grudando e queimando tudo – e quem não adiciona nenhum tipo de queijo (a da foto tem só tomate e scalogno, um tipo de cebola, devorada na Birreria Christiania, um bar da cidade). As variantes - que incluem o que tiver na geladeira - depende da imaginação e das sobras, mas comer bruschetta é uma unanimidade nacional. Das poucas.

Ciao.

Sunday, May 22, 2005

As Quatro Estações

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Nunca a obra de Vivaldi foi tão mal tratada. As notas parecem saltar na partitura mudando de lugar. Talvez, sopradas pelo vento. Estamos na parte da sinfonia dedicada à primavera e nos damos conta de que alguém mexeu no original. Tem um pedaço de inverno interrompido por traços de verão, salpicado com odores de outono. Executada como está, a orquestra tem provocado oscilações de temperatura enlouquecedoras. No início da estação, em Piacenza, chegamos a uma diferença de trinta e quatro graus em apenas cinco dias, saindo de -3 ºC a 31 ºC. Agora parece ter estabilizado entre os 13 ºC e 26 ºC, se considerarmos uma diferença de dez graus em poucas horas como estabilidade.

A chuva também tem feito das suas, indo e vindo, numa indecisão típica desse fim de governo italiano, onde os aliados de ontem vão pulando do que restou do navio para nadar no mar da barganha do governo de amanhã. O efeito húmido (do clima, não do governo) trouxe um pouco de alívio à saúde humana, eliminando as toneladas de pólen que tomam conta do ar neste período, provocando alergias sem fim. Fico imaginando como as plantas irão se arranjar sem o trabalho da brisa fresca e seca.

Este ano, pela primeira vez, fui contagiado pelo “mal de primavera”, que sempre julguei fricote de país rico. A sensação é a de uma gripe forte: dores no corpo, cansaço permanente, sono e um humor de fazer inveja ao gigante do pé de feijão. Cheguei a dormir dez horas; o dobro da minha média. Mas durou só uma semana e já foi tarde. Saio de camisa pólo e resisto a qualquer temperatura. Evito ao menos de participar do constrangedor desfile de mangas curtas carregando pesados casacos.

As árvores, ao contrário, vestiram suas roupas de festa. Das tulipas, só lembranças. As flores, desesperadas, desafiam chuvas, obras e temperaturas. As máquinas vão cortando o asfalto com o mesmo frenesi das flores, transformando a cidade num canteiro de obras. Tudo deve estar pronto até o fim do verão, que ainda nem começou. Rotatórias no lugar de semáforos, reestruturação da rede de esgoto e da rede elétrica. Tudo ali, a um metro da superfície, para evitar escavações que poderiam deparar com restos arqueológicos, o que paralisaria a obra por anos, causando transtornos em todo o centro histórico. As flores, indiferentes à poeira e ao barulho, crescem e desabrocham, colorindo a cidade.

Na maior parte do Brasil não se sente a mudança de estação dessa forma tão marcada. Mesmo no Sul, onde a temperatura e o vento frio fazem estágio na Antártida antes de visitar o continente, falta a neve; falta uma temperatura negativa por longos períodos; falta a completa ausência de plantas durante o inverno, típica do norte da Itália, que permite o renascimento na primavera, que provoca essa explosão de cores e perfumes. Outra diferença é a quantidade de horas de sol: no inverno, das oito e meia da manhã às quatro e meia da tarde, é dia, o resto é breu. No verão, o sol nasce quinze para as cinco da manhã e as dez da noite ainda está claro. Alguém precisa inventar uma bateria de lítio para o meu relógio biológico. Mas como o ser humano é capaz de se acostumar até com mordida de cachorro, vamos nos adaptando e observando as flores.

O inverno parece ter entorpecido, também, as cabeças governantes. Depois da surra que a direita do atual governo levou nas urnas, na recente eleição para escolher os governadores das regiões, Berlusconi já tentou de tudo: sugeriu a criação de um partido único; ameaçou retirar-se da política após o término de seu mandato, ano que vem; solicitou o enésimo pacto de governabilidade à oposição (como se governar dependesse da oposição); fez transplante de cabelo (aliás, o transplante foi feito ano passado, no verão. O efeito é que está aparecendo só agora); auto-proclamou-se gestor da reaproximação entre Bush e Putin e não perde uma única oportunidade de apresentar-se como principal interlocutor nas importantes decisões da Comunidade Européia, em constantes aparições com outros chefes de governo ou no eterno beija-mão com Bush. Que as relações entre Bush e Putin permaneçam a temperaturas siberianas, ou que os outros governantes europeus não o levem a sério, são apenas efeitos dessa típica alergia de primavera. Só não entendi o silêncio de Silvio Berlusconi, que teve, por mais de uma vez, as costas gentilmente esfaqueadas por ex-aliados, incluindo o ex-vice-primeiro-ministro. Curioso.

Pobre orquestra. Continua a tocar como se nada acontecesse. A figura patética do maestro gesticulando enquanto músicos catam partituras levadas pelo vento fresco dessa parte da sinfonia, cabelos que dançam e lhe entram nos olhos. O barulho indiferente do dia, ônibus e obras atrasadas, serve para cobrir o som da orquestra. O que nos permite imaginar a obra tocada como sempre foi, com cada nota em seu lugar, quando o calor pertencia ao verão e o vento frio, ao inverno. Quando a primavera ainda se escrevia com letra maiúscula, e tinha dias frescos e flores calmas.

Ciao.



PS – Essa carta já estava escrita quando recebi a notícia (ansiosamente esperada) do nascimento da Isabella, filha do Cássio e da Mônica. A situação mudou, em uma semana. A temperatura parece ter-se finalmente estabilizado; pólen e paina (paina?) tiveram oportunidade de fazer vítimas, mas poucas. O governo, milhares. Talvez não tenha sido uma grande mudança, afinal. (À exceção da flor nascida em São Paulo, que será novidade por muito tempo.)

Sunday, May 15, 2005

Isabella

Cara Isabella,
Paz e saúde!

Giro, giro tondo… Vi suas fotos na internet. Me apaixonei. Detesto tati-bitati, mas vou perdoar quem fizer guti-guti em você. Queria compor uma música, mas eu não sei cantar. Até estudei canto, mas não tem jeito. Abro os braços e ensaio: laralí lará… Talvez fosse melhor tentar O Sole Mio. Uma alegria embriaga e ofusca outras emoções, como na semana antes do Carnaval. Tesouro finalmente encontrado que todos querem tocar, e que, extasiados, enxergarão como um troféu. Só depois é que irão aprender a gostar de você por você. Prepare-se: o mundo vai te fazer cosquinhas.

Casca il mondo. Construa castelos de cartas e de areia. Deixe que o vento e as ondas os destruam. Tudo pode ser refeito, mas nada será como antes. O mundo é cheio de novidades. As pessoas são cheias de novidades. E de sonhos. Não as desperte. Tenha uma caixa para guardar os seus e não conte para ninguém. Mas lembre-se de abri-la de vez em quando: um dia eles viram realidade. Você vai precisar de uma caixa maior para guardar os sonhos que virão. Não conte para ninguém.

Casca la guerra… Vem brincar de roda e contar estrelas. Vem fazer cosquinha em quem te fizer também; comer pipoca com o cachorro e tomar banho no jardim. A torcida foi grande e todos querem ser seu professor. Mate algumas aulas e aprenda a nadar no riacho. Peixe, unicórnio ou passarinho, você pode ser o que quiser. E quando crescer, será domadora, bailarina ou professora. Se cansar, mude. Tudo vai dar certo.

Tutti giù per terra. Euforia. Talvez seja a palavra para descrever o fim da expectativa (que cresceu mais que o ventre). E uma princesa de verdade não se importa com vassalagens. Ou finge não se importar. Aprenda a andar descalça e deixe que os outros se preocupem, mas cresça devagar. Se cair, chore. O mundo não é um imenso carrossel, mas está cheio de gira-gira, escorregador e balanço. Se o cansaço chegar antes da noite, escolha um colo e durma. Haverá sempre alguém para cuidar de você. Dormir no tapete também pode.

U-ni du-ni-tê. Torneira fechada enquanto se escova os dentes economiza o planeta. Andar a pé faz bem à saúde e não polui. Luz acesa onde não tem ninguém, não espanta bicho e custa como um sorvete (não economize sorvetes). Andar de bicicleta não é perigoso. Livro é melhor que televisão. Livro chato, não. Tocar flauta dá câimbra e incomoda os outros, mas é divertido. Assobiar, também.

Sa-la-mê mi-ngüê. Este é um mundo estranho. Muita gente já passou por aqui, mas ninguém vem para ficar. Talvez por isso muitos o vêem como uma passagem e não como um fim. Não sei de nada, mas se houver algo a saber, espero sabê-lo só muito mais adiante. No fundo, esse mundo me atrai. Isso apesar das guerras e desigualdades sem fim. Prefiro ser um utópico otimista e continuar acreditando que um dia será melhor. Você vai encontrar um bocado de gente estranha, também, mas não se assuste. O truque é entender que todos têm um lado positivo e um negativo. E que um sorriso sincero abre um monte de portas.

Um sor-ve-te co-lo-rê. Quanto a você, pequena pérola, preocupe-se apenas com a sua saúde. Física, mental e emocional; como naquela velha música que orientava a manter a espinha ereta, a mente quieta e o coração tranqüilo. Viva com profundidade, mas sem pressa, pois o tempo passa rápido e tudo o que for preterido não poderá ser recuperado. Respire calma e profundamente. Quando sentir os pulmões cheios, vá em frente.

A es-co-lhi-da foi vo-cê. E lembre-se: eu estou nesse mundo. Também vou te fazer cosquinhas. Laralí lará…

Ciao.

Thursday, May 05, 2005

Formigueiro Global

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Uma velha piada sobre os equívocos da humanidade:
Um homem e uma mulher se encontram no fim do mundo. Nada está inteiro, só ruínas. As formigas tomam conta de tudo, estão por toda a parte. O homem está sentado sobre os escombros de uma construção, nu. A mulher, também nua, se senta perto dele. Não dizem uma palavra, mas têm a consciência de serem os únicos sobreviventes humanos. Juntos observam as formigas. Milhões de formigas. De repente, uma voz que parece vir das nuvens fala num tom amigável:
- Um dia eu lhes disse que vocês herdariam a Terra…
O homem e a mulher se olham, se reconhecem, reconhecem o local e dizem:
- É verdade! Mas olhe o que nós fizemos. Isso aqui antes era o paraíso e nós o destruímos.
- …Sim, mas agora sabemos onde erramos e o que devemos evitar. Se pudéssemos haver uma outra chance…
A voz, constrangida, responde:
- Desculpem, deve haver algum engano. Eu me referia às formigas.

Comparar um estádio de futebol aos domingos, ou o Coliseu, séculos atrás, com um formigueiro é natural. A saída do supermercado como formigas em volta de um torrão de açucar. Na realidade (mesmo que alguns tenham dificuldade em lembrar) somos animais e temos comportamentos similares, nada de estranho. A analogia poderia ser com as abelhas, uma manada de búfalos ou um cardume de peixes. Ou um grupo de baleias (um meio-termo entre peixe e búfalo).

Não me surpreende o movimento frenético do ser humano, nem a movimentação constante de material e alimentos. Observo sem muita admiração as nossas proezas arquitetônicas em cavar túneis ou construir prédios. As formigas fazem o mesmo sem máquinas ou equipamentos. Nossas estradas são cópias mal feitas das trilhas produzidas pelo movimento organizado delas, que, mais práticas, se adaptam às mudanças geográficas e não perdem tempo com cimento, asfalto e escoamento pluvial. Quando há necessidade, abandonam a velha trilha e partem em outra direção.

O que diferencia o homem dos animais é a capacidade de pensar (que poderia ter sido distribuída de forma mais homogênea, devo concordar), ter consciência da própria existência e modificar o ambiente para satisfazer às suas necessidades. E rir. (Tínhamos um cachorro que ria e tomava cerveja, mas era somente uma exceção que confirmava a regra.) Mas até essas diferenças começam a ser questionadas.

Depois de uma certa idade todos concordam que a vida é curta demais para ocupar-se de profundos conceitos filosóficos, mas não podemos perder de vista os valores que formaram e organizaram a nossa consciência, e permitiram que a aventura humana se prolongasse até os dias atuais (mesmo que um jus-naturalista acredite que tais valores compõem a natureza humana). É essa a questão que tem passado despercebida e que atrai a minha curiosidade.

Lembro que tentaram ensinar-me sobre céu, inferno e purgatório quando era criança. Sinto-me velho como um esqueleto de dinossauro quando ouço alguém falar de céu e inferno hoje, pois há muito aboliram o purgatório. O que se aprende hoje é que quem é bom vai pro céu e quem é mau vai pro inferno. Não há meio-termo nem um lugar onde purificar a alma antes de merecer o paraíso. O resultado é que após cometer o primeiro erro, o jovem desiste de preocupar-se com o céu e opta por tirar o maior proveito possível deste mundo e de quem nele habita.

Como numa colônia, cada um tem uma função: operários vão em busca não só de alimentos, mas tudo aquilo que pareça ser necessário à manutenção e o crescimento do formigueiro. Uma casta especial de machos disputa entre si para fecundar a rainha, que irá gerar os novos operários, que irão manter tudo funcionando. Quando a rainha não produz operários na velocidade desejada, constrói-se uma janela no formigueiro, defenestra-se a velha matriarca e dá-se lugar a uma nova rainha. Esse é um conceito que ainda não assimilamos, mas que poderia nos ser útil.

Quando uma catástrofe se abate sobre o formigueiro, as operárias combatem até o último grão de areia. Ou enquanto tamanduá não saciar a sua fome. Logo depois as formigas reconstroem o formigueiro e a rotina se refaz. Formigas são incapazes de prever o apetite dos tamanduás ou de montar estratégias para desestimulá-los (colocar uma formiga envenenada na entrada, por exemplo). Apenas reagem quando há necessidade ou quando aparece o tamanduá.

Os jornais e TVs italianos despejam diariamente as imagens de uma guerra que ameaçou se alastrar. Madrid e Bagdá, no entanto, continuam realidades longe demais. As pessoas só têm se preocupado com o roteiro das férias que se aproximam. O retorno a uma determinada cidade será descartado porque o hotel não tinha ar-condicionado, assim como o paraíso no Mar Vermelho, montado para os milhares de turistas europeus corre o risco de ficar vazio, por estar mais próximo à zona de conflito (considerando que turistas italianos não abriram mão das férias de janeiro, antecipadamente programadas e pagas, na região do tsunami, posso estar redondamente equivocado).

A guerra e as partidas de futebol são distantes da maioria das pessoas. Confundem-se com as outras ficções apresentadas pela Tv e provocam efeitos similares: você pode ser contra ou a favor. Participar é para poucos.

A movimentação alegórica criada pelo Coliseu, pelos estádios, estradas e supermercados lotados, oferecem a ilusão de que o formigueiro é eterno. Passada a catástrofe basta reconstrui-lo e a rotina será retomada. Me divirto quando penso que estamos cada dia mais parecidos com as formigas, que não têm céu nem inferno, mas têm o tamanduá. Ou parecidos com um grupo de baleias, em constante mutação genética cada vez mais gordos.

Só perde a graça quando percebo que o ser humano começa a diferenciar-se cada vez mais do ser humano.

Ciao.

Sunday, May 01, 2005

E Se Eu Me Chamasse José?

Caros e Caras,
Paz e saúde!

John Theodore Dawidson. Este é o nome que ocupa o espaço reservado ao avô paterno na minha certidão de nascimento. Não o conheci, não sei a cor dos seus olhos nem se ele era doce e agradável como todos os avós costumam ser. Seja como for, ele foi o responsável por eu me chamar Allan (állan). Como se não bastasse, meus irmãos chamam-se Dawidson, Cecil e Bruce. Já imaginaram a confusão desses nomes em meio a um mar de josés? Durante toda a minha vida fui chamado de ális, álem, Wallace, Aldo, ála, alá, álo, alaín e, ódio dos ódios, alã.

Já pensei em mudar de nome, o problema é que não encontrei nenhum que me agradasse. Existe uma infinidade de nomes bonitos, sonoros e que eu escolheria para um filho, mas não consegui descobrir um nome que quisesse adotar. Com o passar do tempo vou me afeiçoando ao nome que escolheram pra mim. Começo a acreditar na possibilidade de levar esse nome até os últimos dias. Por pura indecisão.

Quando trabalhei com meu pai na construtora, descobri a mania de algumas pessoas em juntar os nomes do casal para formar o do filho, como Sonélio. Sei de um bocado de operários com nomes diferentes, como Euríquedes ou Nauro. Isso sem falar nas diversas cibalenas e cafiaspirinas espalhadas pelos interiores visitados pelo Projeto Rondon. Na mesma época, conheci um vizinho que os pais e irmãos chamavam de Cráudio e que eu chamava de Cláudio. Um dia ele me parou, mostrou-me a carteira de identidade e disse: “Eu me chamo Cráudio!”. Nome é uma questão delicada.

Tem aquela do sujeito que se chamava Joaquim Merda e todos o aconselhavam: “Num caso como o seu o juiz autoriza na hora! Mude de nome…!” Até que um dia ele chegou no bar e anunciou: “Mudei de nome. Agora eu me chamo Manoel Merda!”

Na Itália é hábito dar nomes humanos aos próprios animais. Ettore, Arturo e Leopoldo estão entre os preferidos. E o amigo Aurino, que até hoje mora no Embu, presenteou a própria filha com uma cadelinha que ele mesmo batizou de Tua-mãe. “Fulana, vai tirar Tua-mãe do meio da rua!”. E morria de rir.

Chamo minhas filhas Bianca e Luiza de Margarida e Gertrude, Marinalva e Rosália, Cosquinha e Dodói ou o que vier na cabeça. Se eu me chamasse José teria a enorme vantagem de que ninguém erraria meu nome. Mas um monte de gente me chamaria Zé. Menos na Itália, onde certamente me chamariam Beppe, corruptela de Giuseppe, o Zé deles. Nomes italianos são uma questão delicada. Andrea e Simone são nomes masculinos por aqui. Os correspondentes femininos seriam Andreina e Simona.

Já tive diversos apelidos. Meu tio Firmino me chamava de carrapatinho, porque vivia grudado nele. Meus irmãos, que achavam que eu fosse alemão por causa dos cabelos brancos (que estão retornando!), me deram apelido e sobre apelido: Alemão Cascudo Carrapato Barrigudo. No pré-primário (tinha isso naquele tempo), me chamavam de Russo. Quando morava no Posto 5, em Copacabana, saíamos da praia e parávamos na lanchonete; todos pediam Coca-cola, e eu, guaraná. Ficou Guaraná por um bom tempo. Fui morar em São Paulo e virei Carioca. Como vivia lá e cá, o que pegou mesmo foi Cigano. Mestre Adílson (Camisa Preta) do Grupo Bantus de Capoeira me chamava de Satã, porque eu batia rindo, quando ainda era possível subir o morro do Pavãozinho para jogar capoeira. Em Sampa, mestre Grande chamava-me de Carioca Branco, para diferenciar do outro, Carioca Preto. Depois, acabou adotando – pelo mesmo motivo – Satã. Mas os amigos insistiam em Cigano.

Entre meu nome pronunciado errado e um apelido, fico com o apelido. E isso me faz pensar sobre chamar-me José (nome do meu sogro e amigo). Como a letra j não existe no alfabeto italiano e eles não sabem lidar com ela, eu acabaria criando um outro problema. Eles me chamariam de iosê, alegando que a letra é latina e que eles chamam de i longo. Dizem iuventus, iunior e iuliano. Ou me chamariam de rosê, acreditando tratar-se de espanhol. Zé seria uma pronúncia impossível para eles, que não entendem a diferença entre e aberto e fechado. Acabaria Beppe mesmo.

E ainda tem aquela do sujeito com o balconista que lhe pergunta o nome: “Mamanoel”, responde. O balconista pede que o repita e ele: “Mamanoel”. O balconista se desculpa e confessa estar na dúvida se ele é gago; o sujeito diz: “Eu não, mas meu pai era. E o escrivão do cartório era um filho-da-puta!”

Nessa crise de identidade que dura há muito tempo, tenho analisado o dilema hamletiano com mais atenção. Confesso que todas as questões alimentam uma dúvida que se mostra voraz e insaciável. Alguém aí tem um nome para me emprestar? Alguma sugestão? Se a próxima carta eu assinar Zé, sou eu mesmo, o Allan. Quer dizer, o ex-Allan, o Zé. Quer dizer…

Se meu avô se chamasse João Teodoro da Silva, talvez minha vida seria menos complicada. E olha que o filho dele se chama Dorival!

Ciao.