Monday, March 28, 2005

Sintetizando

Caros e Caras,
Paz e saúde!

- Olha, Gianni, a união da curiosidade à capacidade de aprender coisas tão diferentes produz resultados inovadores, e é ótimo que você procure sempre dar o máximo em tudo que faz. A curiosidade é uma das alavancas do progresso que nos conduziu até o século vinte e um. Quando se é jovem, no mercado de trabalho, haver iniciativa pode fazer a diferença entre uma carreira brilhante e a mediocridade dos relatórios. Não tenha pressa. Procure utilizar um pouco mais de tempo em cada fase do seu processo de aprendizado para evitar a superficialidade. Use o seu potencial para absorver o máximo e certificar-se de que realmente entendeu cada detalhe. Queimar etapas no momento em que a empresa ainda não espera resultados concretos pelo seu desempenho é um desperdício. Você poderá ter dificuldades quando não houvermos a mesma disponibilidade e tiver que conduzir um projeto.

- Você está me dizendo que não devo ser tão ansioso e prestar mais atenção para não cometer tantos erros?

- Não. Eu acreditava, até segundos atrás, poder contar com você para auxiliar-me em algumas tarefas simples, que cresceriam de importância à medida em que você fosse demonstrando maior domínio de toda a nossa operação. Mas devo confessar que eu questiono a inteligência de quem tenta enfiar toda a minha diplomacia em uma frase tão curta. Me soa arrogante. Volte ao trabalho.

***

A capacidade de síntese é, muitas vezes, essencial. Podemos ser prolixos numa conversa de bar, ou quando a situação não exige atitudes práticas. Os filósofos (pelo menos os antigos, que podem ser citados sem o risco de uma discussão cara a cara) não davam tanta importância à forma dos seus discursos. Estavam mais interessados ao conteúdo. Mas um repórter que tem os segundos contados não pode permitir-se longas dissertações.

Um amigo me mostra um anúncio de emprego em um jornal, e pede para que avalie se ele corresponde ao perfil solicitado. Está lá, bem destacado: Capacidade de síntese. Ofereço-lhe um olhar condescendente e balanço a cabeça de forma negativa. Um anúncio idêntico deve ter sido usado para contratar aquele locutor da rádio RTL (Radio Tele Lombardia – 102.5). Ao ouvir a opinião de uma ouvinte sobre uma pesquisa, o locutor tentou resumir o que ela havia dito, conduzindo suas palavras para um ponto de vista ligeiramente diferente. A ouvinte protestou e, diante do agradecimento e despedida do radialista que se preparava para falar com outro ouvinte, não se conteve e disse um sonoro palavrão no ar.

Ainda na área da informação (que este é o segmento que mais necessita da economia das palavras), é irritante a mania que os jornalistas televisivos italianos têm de interromper os enviados (especiais ou não) no meio da transmissão. O repórter está no Iraque, nos Estados Unidos ou no estádio de futebol apresentando uma matéria, quando a frase é interrompida pela voz e imagem do(a) apresentador(a) no estúdio: “Obrigado Fulano de Tal. Passamos agora a outro assunto.” Ou, pior, quando o jornalista avisa que tem poucos segundos para encerrar a matéria, usa todo o tempo para formular uma pergunta marota, onde expõe o próprio ponto de vista, e conclui com um convidativo “não acha?”. Enrolar era uma característica do programa jornalístico satírico Stricia la Notizia, que apresentava poucas matérias mas as explorava bem, fazendo-me recordar a incrível capacidade de encher lingüiça do Joelmir Beting (com dois t ou com um? Betting, Beting… Ah! Deixemos como está). Agora que o programa está se especializando em denúncias, perdeu o charme.

Não sou jornalista, posso ser prolixo. Não daqueles que interrompem a palavra-chave da frase para respirar e provocam expectativa, enquanto controlam com o olhar a pequena plateia para averiguar se todos no escritório prenderam a respiração, como desejado, até que ele complete, depois de um gole de café: “…uma maçã vermelha.” Há quem reclame do tamanho das minhas cartas, sugerindo que eu deveria aproveitar para desenvolver a capacidade de escrever com menos palavras. Não respondo (e espero que ninguém esteja prendendo a respiração) e continuo escrevendo-as sem estressar-me.

Vivemos num mundo imediatista. Tudo requer uma resposta urgente e definitiva. As decisões devem ser tomadas em segundos e não há possibilidade de errar. Cada decisão precisa estar certa pois não há tempo para uma nova tentativa. A ação seguinte depende do sucesso da anterior. Estamos conectados a uma série de instrumentos que nos permitem conhecer e avaliar cada informação. Celular, internet, ipod, antena parabólica, enciclopédias digitais, televisão, computador, rádio, vídeo game, Google, jornal e crianças que já nascem sabendo tudo. Não existe a alternativa de não saber, de não entender a pergunta. Devemos ser ágeis em respostas que digam tudo com o mínimo.

Me sinto um dinossauro, dividindo uma garrafa de vinho na cozinha, olhando nos olhos dela enquanto decidimos o que fazer nas férias. Ou sentado numa mesa da Birreria Cristiania, esperando a hora em que poderei entrar no centro da cidade com a placa final ímpar. Ficamos ali, os colegas de trabalho, jogando conversa fora e lembrando do tempo em que não precisávamos de imposições para tomar uma com os amigos. Quando havíamos tempo de não nos preocuparmos com o tempo e podíamos ser prolixos o quanto quiséssemos.

Estaremos fadados à filosofia de botequim?
Bem, é melhor que nada.

Ciao.

Wednesday, March 23, 2005

A Vitória Do Marketing

Caros e Caras,
Paz e saúde!

O case da cerveja Corona é conhecido por muitos (um amigo mineiro traduz como “causo”). É muito interessante e permite uma idéia bastante clara dos riscos das jogadas de marketing.

Conta a lenda que um alto funcionário da empresa viajava constantemente à Flórida para verificar a venda do produto. O marketing decidido pelo fabricante para tornar o produto mundialmente famoso foi a garrafa transparente. Ocorre que a cerveja deles era do tipo pilsen, que não suporta o contato com a luz. As cervejas produzidas pelo sistema draft beer, fabricadas com uma filtragem especial a frio, resistem por mais tempo a exposição à luz, mas têm um sabor muito mais leve que a cerveja comum e, por esse motivo (somado, provavelmente, ao custo de produção) foi inicialmente descartado pela Corona.

O tal funcionário orientava aos comerciantes guardar as caixas da cerveja em um local escuro, cobertas com um tecido preto que ele fornecia. Mas bastava pouca exposição à luz para que a cerveja se tornasse intragável. O México é um dos poucos países que ainda utiliza outros cereais em estado natural na produção de cerveja, além da cevada. Neste caso, o milho, que deixa um odor desagradável na cerveja oxidada. No Brasil, como na maioria dos outros países fora da Europa, desde os anos noventa, os produtores de cerveja adicionam ao malte de cevada um produto à base de glucose de milho muito parecido com o mel chamado high maltose, (como o produto “Karo”), mas sem o cheiro característico.

O sujeito vivia a desventura de presenciar a recusa dos consumidores pelo produto que ele timidamente tentava transformar em sucesso mundial, partindo, não por acaso, dos Estados Unidos. Acreditava que uma vez conquistado aquele povo, o resto do mundo o imitaria. Ao final de mais um dia de desilusões profissionais, sentou-se em uma mesa na varanda do hotel em que estava hospedado e viu um grupo de brasileiros que se preparava para mais uma noitada. Os quatro rapazes pediram cerveja e ele se apressou em oferecer o seu produto, para uma degustação gratuita. Como, grátis, brasileiro toma até ônibus errado, eles toparam. Mas a cerveja era realmente muito ruim e, para não ofender o gentil mexicano, um dos rapazes pediu um limão e espremeu um pouco do suco dentro da garrafa e, de quebra, enfiou um pedaço no gargalo, dizendo ser um hábito brasileiro. O executivo o imitou e descobriu a limonada alcoólica. Eureka!

Numa peregrinação que durou todo um verão, ele visitou diversos bares das costas Leste e Oeste dos Estados Unidos difundindo a novidade e viu as vendas do produto estourarem como champanhe. Com a típica agilidade sul-americana, foram criados comerciais que mostravam o limão sendo enfiado no gargalo comprido da garrafa e a mágica estava feita. As praias, sempre ávidas por novidades de verão, não tiveram dificuldade em adotar a moda e o marketing de boca (aquele em que o consumidor conta a outro próximo, e que pode realmente fazer toda a diferença, para o bem ou para o mal) ajudou na difusão da nova irreverência, que no fim do verão já havia conquistado outras fronteiras.

Anos mais tarde…
A Corona continua sendo uma cerveja comum, produzida com cevada e milho, apesar de não mais oxidar dentro das garrafas transparentes, graças a um processo híbrido de produção desenvolvido pelo fabricante (que me recorda o processo de flash pasteurização do chopp da Kaiser, que é como estar relativamente grávida). Em qualquer supermercado italiano é possível encontrar a cerveja Corona. Nos bares noturnos, encontra-se o neon que reproduz a garrafa com o pedaço de limão no gargalo, além de espelhos, copos, abridores de garrafas e um mundo de brindes com a marca do produto. Aos consumidores são distribuídos porta-moedas, chaveiros e até porta-skipass. Nas estações de ski (no inverno, é claro!) o consumidor compra um skipass, que nada mais é que um cartão magnético para usar em todas as ocasiões: entrar na pista, subir no teleférico, etc. A Corona oferece como brinde uma espécie de chaveiro com uma cordinha retrátil e um gancho na ponta, por onde se prende o cartão magnético. O “chaveiro” fica preso em uma das cordas externas da roupa de esqui, o que evita procurar o cartão dentro dos duzentos bolsos com zíper, ou congelar a mão ao tirar a luva para procurá-lo. O esquiador pau-d’água leva pra casa uma pequena lembrança da cerveja mexicana, recebida nos Alpes gelados. É a bizarra política do marketing.

***

Marketing e política têm se encontrado com freqüência. Apesar de ser duramente criticado, o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi usa o marketing correto. Assim como no caso da Corona, ele é que é errado como produto. O Lula, por sua vez, não mudou radicalmente, como muitos imaginam. A mudança aconteceu de forma gradual. O que mudou foi o marketing dele. E uma das regras do marketing é não mentir sobre o produto. Pode-se até não mostrar os aspectos negativos (admitindo-se que o produto possa ter aspectos negativos) e ressaltar apenas as qualidades, mas mentir, nunca! Eis porque é difícil encontrar um bom profissional de marketing disponível em ano de eleições, e porque existe um lobby para que todo ano seja ano de eleição no Brasil.

Políticos são como cerveja: há os que são produzidos na Europa, e por isso podem conter exclusivamente cevada (malteada), lúpulo, fermento e água. Os sul-americanos levam milho ou arroz, além dos produtos europeus, e têm um cheiro característico. E há os que se curvam ao high maltose dos Estados Unidos.

Dois verões europeus chegarão antes das eleições brasileiras. Por aqui, teremos que suportar outra saraivada de comerciais das bóias em forma de flamingos que transportam a Corona. E por aí…?

Se você não tiver a capacidade criativa de um profissional de marketing e não conseguir engolir determinado político, faça como a Corona: enfie-lhe um pedaço de limão no gargalo!

Ciao.

Thursday, March 17, 2005

Novos Ventos

Caros e Caras,
Paz e saúde!

…E de repente tudo mudou. É como se os gnomos estivessem brincando e, na confusão, alguém esbarrou no botão que desliga o inverno fazendo a primavera chegar antes do tempo.

Domingo passado a chuva e o vento gelado nos convenceram a protelar o último passeio sobre a neve. Na segunda-feira o sol e o calor de vinte graus derreteram nossos planos para este fim-de-semana. Os últimos cinco dias foram muito agradáveis mas causaram alguns transtornos: as últimas reservas nas estações de esqui foram canceladas; as pessoas preocupadas com a moda ainda não haviam comprado a roupa adequada à nova estação; frutas e legumes típicos do inverno começaram a apodrecer nos mercados e o prefeito, indeciso, controla continuamente as informações meteorológicas antes de decretar que os aquecedores sejam desligados.

Saindo para um charuto, parei em um café para fazer boca de pito. O sujeito que entrou em seguida olhava de modo tão insistente para a malha leve que eu usava sobre a camisa, que não consegui evitar de encará-lo. Constrangido, tirou o pesado casaco que usava, sorriu e disse:
- Depois de tantas coisas negativas que o inverno provoca, demoro a me convencer quando ele vai embora…

É somente quando o inverno acaba que conseguimos nos lembrar que ele não dura para sempre, que neve, lama e vento gelado participam das nossas vidas apenas por um curto período do ano. Como gatos escaldados somatizamos o medo de sair de casa sem um casaco de pena de ganso. Aliás, tenho muitas dúvidas de que todos esses casacos sejam realmente feitos com penas de ganso. Todos os anos são milhões de casacos expostos na vetrines com cartazes anunciando “vero piumino”. Haja foie gras!

Mas a debilidade dos ventos do Norte cede lugar ao do Sul, quente vento africano soprado pela linha do Equador, provocando outras transformações à velha Europa, ora aquecendo-a acima do imaginável, ora refrescando-a.

A eterna cortejada Rússia acaba de confirmar Putin como porta-voz da nova classe milionária dos Urais. A mesma turma de novos-ricos que começa a participar da alta sociedade centro-européia através de maciças aquisições de imóveis e times de futebol, com fortunas conseguidas através do petróleo russo, atraindo para si as luzes dos holofotes das festas providenciadas para torná-los acessíveis.

A Espanha cai de joelhos em memória aos acontecimentos de um ano atrás, arrastando todo o continente para uma reflexão coletiva lembrando os mortos das explosões de 11 de março de 2004. No momento da eleição, o primeiro-ministro Aznar pagou com o cargo a leviandade de tentar transformar a desgraça em plataforma eleitoral, acusando o ETA como responsável pelos ataques. Soou estranho a todos que apenas duas horas depois das explosões, sob o movimento dos que socorriam as vítimas, a polícia espanhola já houvesse individuado alguns dos envolvidos através de uma mochila que não teria explodido. O governo espanhol ainda tentou uma saída honrosa, alegando que os presumíveis terroristas da Al Qaeda teriam contado com o apoio logístico do ETA. Não colou.

Rei morto, rei posto. Silvio Berlusconi, sempre de olho nas eleições (qualquer eleição), convoca constantemente os chefes de governo dos principais países europeus a formar uma política comum contra o terrorismo. Para não ser deixado de lado, como ocorre cada vez que Inglaterra França e Alemanha se reúnem para decidir os destinos do continente, Berlusconi sugere que participem do vértice os sete maiores países, o que incluiria obrigatoriamente a Itália e a própria Espanha.

Se a nova Espanha surgida das urnas foi firme sobre a decisão de retirar seus soldados do Iraque, numa atitude responsável de quem reconhece o próprio erro e escolhe a convivência pacífica, como fez o Japão depois de Hiroshima e Nagasaki, a Itália continua indecisa, ora afirmando ser o principal aliado dos Estados Unidos, ora informando que planeja a retirada do Iraque. Usa tal argumento como moeda de troca, numa tentativa de manter o Sr. Berlusconi como principal interlocutor e centro das relações entre Estados Unidos e Europa.

Pois é! A estação que chega antes do tempo não derrete apenas a neve do dia anterior, mas muda radicalmente as previsões para o próximo inverno. Uma nova Europa está se formando, descobrindo os efeitos das próprias atitudes e que não poderá contar para sempre com a ajuda providencial da América, cada vez mais envolvida e interessada em dilemas caseiros, além de ocupada na conquista do mundo. A fatia do bolo europeu torna-se cada vez menor para tanta fome. Melhor garantir mercados em outras bandas.

…Mas o problema que mais aflige neste início repentino de primavera é: que frutas e legumes consumiremos, se os horticultores não foram avisados da mudança do clima?

Ciao.

Friday, March 11, 2005

Listas de Preferências

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Passada a fase do Oscar, acabaram-se os posts sobre os candidatos e vencedores. Preferi não comentar. Tem gente mais capacitada fazendo isso. Mas não pude deixar de notar que teve muita gente menos capacitada dando pitaco, também. Aliás, O Oscar desencadeou uma verdadeira epidemia de listas. Uma seleção dos melhores discos está movimentando o universo blogueiro neste momento, mas teve quem escrevesse sobre filmes antigos, assim como tem o cinéfilo de respeito que sempre nos aconselha sobre o que vale a pena assistir.

Antes do Oscar, confesso ter ficado tentado a participar do Clube de Leituras, mas tenho vivido dias mais curtos que o normal ou tenho assumido compromissos demais. E não gostaria de reler alguns dos livros indicados em detrimento de uma lista que só tem feito crescer.

O verdadeiro motivo para não participar ou montar listas é que sempre tive a impressão de que estaria correndo o risco de concentrar-me na minha lista e esquecer o resto. Pergunta: Qual a música preferida? R.: Depende do momento. Pelé, Maradona ou Garrincha? (ou Zico? Ronaldinho Gaúcho?…) Que diferença faz? Eu quero é curtir um bom espetáculo sem me preocupar se o Lorin Maazel é melhor que o Ricardo Mutti.

Até os meus dezesseis anos, só usava roupas brancas, azuis, cinzas ou pretas. Até hoje me arrependo por ter recusado uma linda camisa vermelha. Desde então, decidi abolir listas de preferências e alargar horizontes. Acabei precisando de óculos, para enxergar tão longe, mas valeu a pena. Sorvete de creme? Nem morto! Dentro de certos limites, que nem todos conhecem, vou provando de tudo.

Piacenza não passa de um grande vilarejo, mas não chega a ser o interior do Zaire, por estar próximo a grandes cidades e por haver uma tradição cultural forte. Assim, se vocês quiserem saber o que está rolando por aqui, selecionei os três principais eventos: os duzentos anos do Municipal, com uma programação tão variada quanto imperdível, o Festival de Jazz que acontece todos os anos e o Cine Festival, que está longe do fim.

Afinal, nem só de Oscar e de trabalho se vive.

Ciao.

Sunday, March 06, 2005

Cotidiano

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Esse é o período em que a saudade bate mais forte. O inverno tomou conta da nossa rotina. Até a tradicional falta de neve em Piacenza não se confirmou, tendo nevado nos últimos dez dias, além do frio polar. Vez ou outra sopra uma brisa primaveril que nos ilude e nos convence a deixar os pesados casacos em casa, ousando uma escapada com roupas mais leves. Mas não dura mais de dois dias. A posição do sol incomoda, sempre num ângulo de quarenta e cinco graus em relação ao horizonte, mesmo ao meio-dia. O pequeno consolo é que ganhamos algumas horas de sol, depois das limitadas oito horas de dezembro.

Fazendo as contas, descobri que os dias da Merla, que são os últimos três dias de janeiro, marcam o meio do inverno no hemisfério norte. No ano passado creio ter contado a lenda desse pássaro, que teria ficado preto por ter-se escondido em uma chaminé nos dias mais frios do inverno. Lembram? Por algum motivo que talvez Freud explicasse, Os dias da Merla funcionam como o ponto de inércia do inverno no imaginário deste povo. É o momento em que as pessoas começam a notar a mudança da temperatura e o aumento das horas de sol. Mesmo sendo fevereiro o mês dos recordes de frio.

O clima da Planície Padana é realmente atípico. Não havendo nevado (de verdade) em Piacenza, resolvemos ir encontrar a neve no Passo Penice, uma pequena estação de esqui a poucos quilômetros. No fim-de-semana seguinte, para contrastar, fomos a Gênova visitar o maior aquário coberto da Europa, onde é permitido tocar as arraias.

De volta a casa, a rotina reinicia: Me levanto cedo e (havendo coragem e ausência de chuva) saio para uma volta de bicicleta ou a pé. Uma hora pelas ruas geladas e iluminadas na madrugada italiana. Sob duas camadas de roupas de ginástica apropriadas para o frio, cachecol, capa de plástico (muito útil contra os ventos gelados) e luvas de esqui, observo o lento e preguiçoso despertar da pacata cidade. Quatro e meia, cinco da manhã. Neste período os carros ficam todos brancos e quem não tem garagem coberta, encontra dificuldades em sair de casa. É necessário aquecer bem o motor antes, raspar pacientemente o gelo grudado nos vidros ou derretê-lo com água morna. Por volta das seis a cena é comum. O gelo também toma conta das calçadas e beirais das janelas.

Ano passado, nessa época, pudemos observar uma experiência raríssima: No Norte soprava um vento polar, com neve cobrindo cidades com até um metro de altura. No Sul, o vento vinha da Africa, elevando a temperatura em Palermo, na Sicília, a vinte e oito graus. Naquele dia saímos para uma volta e descobrimos um dia nublado, pouco antes da neve cair, mas com uma coloração amarelo alaranjado. O dia, as nuvens, as ruas, tudo estava da mesma cor e os olhos não conseguiam se habituar aquilo que parecia um defeito na revelação de uma foto. A sensação era quase desagradável. No dia seguinte, após a pouca neve derreter, descobrimos casas e carros cobertos por uma fina camada de areia do Saara…

A partir do fim de janeiro fala-se muito dos preparativos do Festival de San Remo (ai…) e do Carnaval de Veneza. Mas como essa não é uma festa levada a sério por aqui, fica difícil saber exatamente quando é. Os calendários são desprovidos de qualquer informação a respeito. Vai-se ao trabalho, à escola, a vida não pára nem muda. Até as notícias pela internet não informam sobre as datas, apenas dizem: “…os preparativos para o desfile…” mas sem esclarecer se o desfile ocorrerá no fim-de-semana seguinte ou dentro de um mês. A única certeza apareceu na necessidade de ajudar numa redação de escola, a qual deveria contar o Carnaval da própria cidade. Aí então tive a certeza: é Carnaval! Mas já era sexta-feira e o Carnaval em Salvador começa na quarta…

Cinzas. A neve continua a cair misturada com a fina chuva. E se vocês pensavam que a meteorologia fosse uma ciência exata, podem tirar o cavalo da chuva. Ou da neve. Existe sim a neve misturada com chuva. Os telhados ficam brancos, com uma fina camada de neve, mas o asfalto transforma a neve rala em água. Os carros passam mais lentos, por causa do gelo. As bicicletas passam mais lentas, por causa do vento. A vida escorre como um fio d’água mais denso, quase congelada, no meio fio do calçamento secular da cidade do pisarei e faso’. Nem mesmo o cheiro (resgatado na memória) do acarajé fritando no dendê de Itapoan reaquece os meus sentidos.

A luz alaranjada que toma conta de Salvador neste período quando o sol se põe, me fará recordar (um dia) dos dias da Merla passados em Piacenza. Da mesma forma que a areia da praia e a música de Caetano (“… Eu sou a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma…”) poderão suscitar lembranças italianas. Difícil será reviver a sensação de frio intenso por longos períodos. Hummm… Acho que isso pede uma meditação a dois em companhia de uma garrafa de vinho.

Ciao.

Tuesday, March 01, 2005

Ela

Caros e Caras,
Paz e saúde!

▬ Será que ela não vem?
▬ Ela virá. Ela não pode me deixar esperando…
▬ Vocês dois estão malucos! Eu espero que ela não venha nunca mais.

Mas ela finalmente chegou. Não sem visitar todos, antes de nós. Mas chegou. Tímida e silenciosa. Provocando a tristeza de muitos e a alegria de uns poucos, como eu, que já não acreditava que ela viria: “Ela me esqueceu”, pensei. E sonhava com a falsa paz que a sua presença provoca. A mais doce ilusão. Uma consciente. Procuro seus olhos e ela não me vê. Só eu a vejo. E me sinto feliz como uma criança, a pele fria e o coração aquecido.

Noutro dia, sobre o Vesúvio, fazia-o parecer o Monte Fuji, escorrendo uma lava branca como o leite. Paralisou o trânsito em muitas estradas, provocando contratempos, atrasos e bate-bocas entre os políticos. Queriam que o ministro se demitisse, por causa dela. Pelos estragos na economia e na liberdade de locomoção que ela causou. De que adianta ser ministro e não poder controlar a natureza das coisas da natureza? Que dê o lugar a outro, da oposição. Mas ela nem ri da tragicomédia que provocou. Nem sabe ter causado mal-estar, tímida que é.

O melhor momento da sua chegada acontece na frente da escola. As crianças a adoram e brincam com ela. As mesmas crianças que um dia crescerão para detestá-la. Irão se irritar quando ela participar das brincadeiras. Paro e observo um menino de bochechas vermelhas. Ela o envolve e ele está sorrindo. Não existe nada, só ela e o menino. Ele esqueceu a mochila com os livros sobre a calçada e brinca feliz. Não pensa no horário da escola ou na própria escola. Não entende nada de contratempos ou de políticos. Talvez torne-se político, quando crescer. Naquele momento é somente um menino que brinca, com a felicidade faiscando nos olhos.

O pátio da concessionária está repleto de carros brancos. A mesma cor que predomina por toda a cidade. A imagem parece ter sido fotografada de um sonho ou copiada de um quadro surrealista. O pintor esqueceu as cores e decidiu usar a única que havia disponível. Não vê que assim as pessoas não entendem nada? Não conseguem distinguir as formas, a perspectiva. Até o imenso gramado da fábrica de cimento perdeu o cinza desta época do ano, e foi nivelado à calçada, à rua e ao pátio do estacionamento. É tudo um imenso manto liso e traiçoeiro, como a serpente que ataca por precaução. Parece que a neblina típica desses meses frios se solidificou. Parece um imenso bolo coberto de chantily.

Estava pensando em como o clima interfere no humor da maioria das pessoas, com poucas exceções. É difícil entender como ainda não nos habituamos às mudanças, depois de tanta convivência. Ou, definitivamente, não fomos programados para ser felizes no inverno. O Carnaval do verão é festa, corpos semi-nus que dançam e bom-humor pra dar e vender. O Carnaval do inverno não tem música, as pessoas caminham e a melancolia cobre as fantasias pesadas. Parece dia de greve. Ou a obrigação em manter tradições sem sentido.

Mas ela passa. Indiferente a tudo e a todos. Ignora até as minhas cartas. E, com certeza, não irá ler essa também. Não se trata de uma esnobe, apenas não tem consciência do amor e do ódio, dessas coisas da natureza humana. Ela é fria, mas de uma frieza diferente, que não é dos homens, apenas fria. É capaz de gerar emoções alheias, mas não de gerar calor. Não lê jornais, não se preocupa pelos amigos (terá amigos?), não se interessa pela previsão do tempo e não sabe da Isabella que está para nascer. Apenas passa.

Quando ela chega não perco a oportunidade de sair para fumar um charuto. Na realidade uso a desculpo para vê-la, para caminhar na sua presença, para senti-la. O hálito quente se mistura com o vapor do café. Depois, com a fumaça do charuto. E some tranqüilo na noite escura. Escura, não: o céu, sobre as minhas pegadas, ganhou o tom amarelo do reflexo das luzes no asfalto branco, na cidade branca. Paro e me sinto um bonequinho sobre o bolo de casamento. Mas a sensação de pureza com a sua chegada me conforta. É como a chuva que limpa e rejuvenesce, só que mais densa, mais pesada e mais eficaz. Deixa uma sensação de liberdade de respirar o ar limpo; o asfalto limpo, as árvores adormecidas prontas para acordar numa cidade mais limpa.

Assim como veio, ela se foi. Silenciosa. Agora, ela é apenas aqueles poucos pedaços espalhados aqui e ali, como a serpentina do Carnaval que passou. Nem cinzas. Só o branco, que vai perdendo lugar às outras cores tristes da cidade que ainda não despertou.

Ciao.