Thursday, October 28, 2004

Gulodices

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Giovanni é uma daquelas pessoas simples mas especiais. Fala pouco e come muito. Pensando bem, há muito que não saímos juntos. Ele está fazendo uma dieta para emagrecer e manter sob controle o mal que herdou da mãe: o estômago dilata até começar a pressionar outros órgãos. Quando atinge esse ponto, precisa da ajuda de remédios para fazê-lo voltar ao normal, sob risco de impedir o coração de funcionar. Deve ter um nome médico, um termo técnico, mas prefiro não saber. Já questionei porque ele não pára de comer antes de atingir tal limite, mas como presidente honorário da confraria Santo Cibus (“santo alimento”, com direito a fardão, chapéu e um enorme babador com um garfo bordado), ele argumenta não se conter diante de um prato de qualquer coisa. Certa vez levou-me ao mercado de Piacenza, onde são comercializados a maioria dos produtos agrícolas que abastecem os supermercados e quitandas da região. Era pouco antes das nove da manhã e fazia um frio de assustar pingüin. Entramos no bar do mercado para um café e encontramos um fornecedor que fazia o seu lanche: um homem de seus sessenta e cinco, setenta anos, forte, alto e que deveria pesar uns cento e vinte quilos. Cumprimentamo-nos e Giovanni, rindo, alertou-o sobre o papel alumínio que ele distraidamente comia junto com a fatia de gorgonzola. O sujeito deu um bom gole do vinho tinto no copo e respondeu no mesmo tom: “Ho pagato pure la carta stagnola!” (Eu paguei pelo papel alumínio, também!).

Takeo também falava pouco, mas esse comia pouco. Além de típico pintor japonês, produzindo desenhos minimalistas, foi ele quem me ensinou algumas curiosidades da língua japonesa: “As palavras it, ni, san, shi, go, ditas assim, de forma pausada, são traduzidas como: um, dois, três, quatro, cinco. Mas se você falar depressa elas serão traduzidas como: tem cinco formigas.” Foi ele, também, quem primeiro me falou sobre macrobiótica, que pratiquei por um breve período. No livro “Sois Todos Sanpakus” colhi as primeiras informações. A moda (mais que um estilo de vida) que se espalhou por Sampa naquela época, tornava tudo mais fácil. Mas a experiência não durou mais que alguns meses: Eu não resistia ao perfume do churrasco que cobria o ar nos fins-de-semana. San (três) + paku (branco), sanpaku (três brancos) é uma referência à íris que não toca a parte inferior do olho, formando, assim, três partes brancas: as laterais e embaixo, o que alerta para uma alimentação inadequada. Desde então aprendi a controlar no espelho a qualidade da minha alimentação. Às vezes tenho a impressão de que o olho ficou todo branco, lembro da degustação dos novos salames e queijos marcada para aquele dia, desvio o olhar para a lâmina e termino logo de fazer a barba. Além do bem-estar e da calma que a macrobiótica proporciona, me chamava a atenção a completa inutilidade do papel higiênico.

Sexta e sábado são dias de comer cedo, em Salvador. Levanta-se às cinco, cinco e meia (geralmente acordado por algum amigo voltando da noite) e vai-se comer no mercado de Itapoã, ou no Rio Vermelho. Aliás, endereços não faltam, pois toda a cidade tem esse hábito. É óbvio que os mercados não fecham nunca e são sempre uma opção aos notívagos, inclusive nos outros dias, mas até o meu aparelho digestivo tem limites. Comer um sarapatel, uma rabada, ou um prato de mocotó às seis da manhã, acompanhado de uma cerveja estupidamente gelada, permite ter o resto do dia livre de compromissos para almoçar, pausa para o acarajé ou beliscar tira-gostos. Também dá uma preguiça danada, que os turistas acham pitoresco e batizaram de “malemolência baiana”.

Aqui, não. Aqui é diferente. Caso você tenha decidido vir à Itália, certifique-se antes do café da manhã oferecido pelo hotel em que ficará hospedado. Solicitar mais que uma xícara de café preto e um brioche, pela manhã, pode provocar um incidente diplomático. Como a maioria das lanchonetes abre mais tarde, por volta das dez, uma opção seria ir à padaria e comprar pão e um pouco de queijo e presunto. Mas coma escondido: eles se impressionam fácil com esse tipo de coisa. E têm memória curta: antigamente (no tempo do Onça), por estas bandas, acordavam no meio da noite, início da madrugada, e faziam uma ceia com os alimentos mais pesados e gordurosos. Depois, voltavam para a cama e dormiam até a metade da manhã. Só quem fosse miserável demais para poder comer de madrugada, estaria acordado logo cedo.

Hoje, a dieta mediterrânea é alardeada como aquela ideal. Baseada no consumo de pouca massa, verduras e legumes em abundância, azeite de oliva (na Bahia se diz “azeite doce”, para diferenciar daquele outro, o azeite de dendê), peixes e frutas, deixa pouco espaço para os excessos à mesa. O que não proíbe um copo de vinho tinto, que chega a ser benéfico. Apesar de tudo, os fast foods se multiplicam e a obesidade começa a ser discutida, mas de modo mais ameno que a obesidade norte-americana. Culpa da TV? Ou da nova realidade econômica que obriga às mães a trabalharem, transcurando os cuidados com a casa? Podemos considerar como uma pequena taxa a pagar pelos possíveis benefícios da globalização?

Os italianos são obstinados. A dieta mediterrânea realmente é muito saudável. E é de pequeno que se torce o pepino. Daí que eles adotaram (há muito tempo) a dieta nas escolas. Cada dia um cardápio diferente, respeitando e consumindo os vegetais da estação, pratos típicos da região e frutas produzidas localmente. Para vencer a resistência natural de toda criança por vegetais, dividem as classes em mesas de cinco ou seis crianças. Cada uma tem um lugar fixo, com o mesmo grupo de amigos por todo o ano. Todos precisam comer de tudo: primeiro prato, verdura, segundo prato e fruta, todos os dias. Caso contrário, a mesa não ganha a estrela do mês, colocada em um quadro de avisos ou algo parecido. Acaba estimulando o espírito de equipe, além de ter ensinado às minhas filhas a gostarem de verduras. As escolas não possuem uma cantina e boa parte proíbe a consumo de guloseimas industrializadas, permitindo apenas sanduíches e frutas como merenda. Coca-cola, nem pensar!

Talvez resida nesse hábito, das escolas, a tradição de reunir-se com amigos para almoçar ou jantar. Se for num domingo, melhor! É possível (e muito comum) alongar o almoço até a hora do jantar e passar o dia inteiro comendo. Depois, não há dieta mediterrânea que consiga colocar os olhos no lugar.

Ciao.

Sunday, October 24, 2004

Mulher de Um Homem Só

Li, nessa sexta-feira, o romance “Mulher de Um Homem Só” do Alexandre Cruz Almeida. Depois de mais de 9.000 downloads, creio que qualquer coisa que eu diga será como chover no molhado. Provavelmente ele já recebeu a mesma opinião diversas vezes, mas, como fiel leitor, não podia não atender a solicitação de uma opinião pessoal, que ele faz no final do romance.

Piada velha: O sujeito entra na livraria, pega um livro e começa a folhear. Começa a ler, arregala os olhos, dá um respiro profundo e continua a leitura. Minutos depois, dá um respiro mais profundo ainda (ruidoso, mesmo!) e continua lendo. Pouco depois, caiu no chão roxinho da silva. Ambulância e médicos chegam e não há mais nada a fazer: morreu! Curiosos, os balconistas resolvem ler o livro para descobrir o que assustara tanto assim o cidadão. O voluntário repete a cena sob os olhos do médico, que o reanima quando ele desmaia. Ao acordar, explica: “O livro não tem ponto nem vírgula.”
Foi mais ou menos assim que eu li o romance: num fôlego só.

Pelo que pude notar, achei que o Alexandre fosse formado em Letras. (Não quiz entrar no blog para tirar a dúvida, mas depois de ler este e-mail, ele esclareceu ter feito História.) Técnica é o que não falta e isso demonstra o alto grau de estudo e uma revisão profissional. O romance é cheio de referências, o que amarra direitinho a história. O ritmo escolhido obriga à leitura da frase seguinte, do parágrafo seguinte, da página seguinte. Comecei a ler na hora do almoço e tive que ligar desmarcando um compromisso. E olha que não desmarco compromissos! Com certeza ele irá publicar não apenas esse, mas muitos outros romances.

Minha impressão: Personagens bem construídos, parecem-se com pessoas que conhecemos. Gostei mais da Júlia que da Carla. O tal do Murilo me pareceu dono de uma personalidade que se pode manipular. Ritmo (ou cadência?) muito forte, principalmente para quem acostumou-se – na adolescência – com o ritmo de Faulkner. Talvez pudesse ser mais soft, mas essa é uma decisão que ele deve considerar em função do público-alvo escolhido e, provavelmente, eu não faço parte do perfil desse público. A narrativa em primeira pessoa obriga a malabarismos linguísticos que o Alexandre domina muito bem. Romper dogmas pode enfrentar certa resistência no início, mas os pioneiros insistentes costumam vencer. Faço uma pequena ressalva pelo modo como ele escolheu terminar o romance. Fiquei com a impressão de que haveria uma continuação, me envolvi e imaginei uma cena que não aconteceu. Fiquei aguardando um desfecho que não se consumou. Inusitado. Inesperado.

Se você não quer saber detalhes, pare por aqui!
Durante toda a leitura acreditei que a Carla conversasse com amigas, num cabeleireiro ou outro lugar. A um certo ponto Carla conta que o controle do espólio de Júlia passa à Mariana, filha de Raquel, que é filha de Carla e Murilo. Neste ponto a própria Carla estaria morta (e Murilo, idem). Essa referência muda o ritmo dos acontecimentos, me faz achar que Carla narra do túmulo e se contrapõe ao suicídio de Júlia, que na realidade não aconteceu (“Pensam mesmo que Júlia se matou? A doidisgóia? Por favor! Foi é passar o ano na Europa, pra espairecer. Depois, voltou.”). Isso muda as ligações tão bem amarradas entre si e induz a novas perspectivas. Reiniciar o romance deixa de ser mera possibilidade, pois o autor nos oferece a possibilidade de questionar finais em que tudo se resolve, distanciando a maioria dos romances da realidade. O resultado depende da expecttiva que cada leitor criou. Do alto da minha opinião um tanto conservadora, não nego ter ficado um pouco confuso: Forma e conteúdo merecem a mesma atenção do autor? No fundo, a intenção não é penetrar nos personagens e relacionar emoções vividas por eles com as nossas? Não é viajar para dentro do ambiente criado pelo autor? Adquirir novos conceitos? Divertir-se? Se uma ou mais respostas a essas perguntas for “sim”, então leia!
Vale a pena!

Aproveite para baixar o romance gratuitamente aqui. Mas faça logo o download. O Alexandreestá procurando uma editora para publicar o romance (que é curto e certeiro!) e aí, acabou a mamata. Depois, mande a sua opinião a ele. E a mim.

Ciao.

Wednesday, October 20, 2004

Make Love!

Caros e Caras,
Paz e saúde!

No início dos anos setenta (ou final dos anos sessenta) surgiu na Argentina um movimento pacifista chamado siloismo. Silo, o seu fundador, batizou a organização de “A Comunidade”. Era (ou é) uma associação não religiosa e apolítica. Um dos seus princípios alertava: “Quando você força algo para um fim, o efeito será o oposto”. Não, não é um corolário da Lei de Murphy. Está muito mais para aquela famosa lei da física sobre ação e reação. A máxima siloista era representada por uma tira em quadrinhos que mostrava um homem tentando puxar um burrico que teimava em não se mover, até que, cansado, o sujeito dava de ombros e ia embora. E então o burrico o seguia.

Além da mensagem de paz que A Comunidade pregava, achei oportuno lembrar da orientação de Silo e sugerir uma mudança na nossa atitude em relação ao conflito no Iraque. Quem sabe se todos começarmos a gritar em favor da guerra Mr. Bush não decide fazer exatamente o contrário? (Associar a imagem do presidente – deles – com algum dos personagens acima não era proposital nem obrigatório, mas foi inevitável.)

As TVs italianas acabaram: agora só existe a guerra. Os telejornais que duravam meia hora foram inchados com até uma hora a mais. Os talk shows têm um único assunto e minhas filhas reclamam que os desenhos são interrompidos por flashes ao vivo de Bagdad ou de qualquer outra cidade do conflito. Só os eventos esportivos são respeitados. O Auditel, que mede a audiência das TVs, divulgou que o índice dos telejornais está se reduzindo a pó. Somente uma rede evitou usar as expressões “aliados”, “forças de coalizão”, “aliança ocidental” e “terroristas”. Também foi a única que desde o início vem informando sobre a dura resistência iraquiana.

As reações são as mais diversas. A grande maioria finge normalidade. Vão à discoteca, saem para restaurantes, cinemas, bares, gozando todas as oportunidades para divertir-se. Evitam assistir os telejornais. Bastaria uma olhada no Mapa Mundi para entender que entre Bagdad e os EUA estamos nós, na Europa. E que seria menos difícil uma ação militar (suicida ou não) contra um membro europeu da “Aliança”, como ficou provado no ataque às estações na Espanha. As autoridades italianas juram não existir riscos. Os americanos, antes do 11 de Setembro, também.

Uma parte da população tem se organizado e promovido passeatas, greves de fome e manifestações que pedem o fim da guerra. Em todos os eventos comparecem com bandeiras com as cores do arco-íris, símbolo da paz. Reclamam que a ONU jamais adotou ou adotaria contra os EUA, as mesmas atitudes que tem utilizado com os países periféricos, apesar dos americanos se recusarem a cumprir todo e qualquer acordo sobre armas (químicas, nucleares ou de qualquer outro tipo). Não obstante o que ocorreu em Iroshima, no Afeganistão e em todas as outras invasões e contravenções americanas em similares eventos macabros, eles continuam decidindo o que é melhor para o mundo.

As pessoas querem protestar mas sentem-se impotentes. Assim, continuam frequentando os MacDonald’s e Blockbusters, enquanto as vendas dos automóveis Ford só aumentam na Europa. O argumento defendido por todos é que devemos ser contra a guerra e evitar o anti-americanismo. É óbvio que parte do povo americano não pode ser acusado de nada, mas não consigo esquecer que eles permitiram a manipulação das eleições, o que nos proporcionou um maluco no controle do joystick mais perigoso do planeta. Creio que um pouco de desemprego e recessão não lhes faria mal, mesmo ciente da nossa submissão à economia deles. Quem sabe se devendo preocupar-se com o próprio umbigo eles deixem de lembrar o desenho do Pink e o Cérebro, que tentavam dominar o mundo e divertiam minhas filhas nas manhãs de domingo.

A indecisão do povo italiano é alimentada pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que mantem-se rigorosamente em cima do muro sobre o assunto. Na última viagem de beija-mão aos EUA, Berlusconi afirmou ser a Itália o maior aliado dos americanos, pois permitiu o uso das inúmeras bases militares americanas em solo italiano durante as invasões no Afeganistão e Iraque. Nas TVs locais, não se cansa de afirmar que a Itália não está em guerra contra o Iraque, mas evita comentar que enviou soldados italianos para o Afeganistão, para liberar parte das tropas americanas transferidas a Bagdá, além de mandar soldados italianos à cidade de Nassirya, no Iraque. E tampouco lembra de comentar o convite feito aos representantes diplomáticos iraquianos para que a retornassem à casa, a pedido de Bush, antes mesmo da guerra começar.

Silo, assim como muitos líderes políticos e religiosos, pedia aos seus seguidores que fossem à rua para divulgar a mensagem da organização fundada por ele e conquistar novos participantes à causa. Dono de um otimismo e sorrisos contagiantes, ele realmente acreditava na difusão das suas idéias. E solicitava a quem não tivesse a mesma determinação que permanecesse apenas como simpatizante, evitando ocupar cargos ativos no movimento, pois acreditava na capacidade de entusiasmar-se e de entusiamar aos outros como prerrogativa fundamental à transformação do mundo.

A certeza de que a opinião europeia não irá mudar os destinos desta guerra, além da falta de uma tomada de posição clara por parte do governo, faz com que o italiano se torne apático. Parece-se com o passageiro do trem que observa pela janela: ele está parado e a paisagem é que se move.

Talvez fosse o caso de alguém informá-lo que o trem vai numa velocidade absurda; que os trilhos sob as rodas desapareceram. E que o maquinista é um psicopata surdo.


Ciao.

Singrando e Língua de Mariposa

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Há alguns dias li num comentário do Liberal Libertario Libertino um aviso do amigo Reginaldo, do Singrando, sobre o fechamento do Mblog, levando todos os blogs na enxurrada. Pouco depois o Reginalo deixou-me um comentário informando que estava procurando uma casa nova para hospedar o blog, e que até lá ele continuaria visitando os amigos com menos freqüência mas que avisaria quando retornasse. O Mblog hospedava, também, o Língua de Mariposa, da Nora, que não deu mais notícias. Aos amigos, órfãos do Mblog, informo que os blogonautas estão torcendo pelo retorno deles. Torcemos, também, para que atitudes mesquinhas como a do Mblog (cobrar para liberar os arquivos) possam ser evitadas. O Alexandre dá umas dicas de como recuperar os arquivos. Passem lá!


Ciao.

Saturday, October 16, 2004

Um dia eu venci o Aldo Pereira

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Dois de outubro foi aniversário da Eloá (que recebeu esse nome em homenagem a avó, que era mais velha que a ex-esposa de Jânio Quadros). Entre os presentes que ganhou – incluindo uma bicicleta para substituir aquela que lhe foi furtada – há um CD: Ney Matogrosso interpreta Cartola.

Minha memória funciona sem aviso prévio, quando funciona. Enquanto encomendava ao balconista o CD para o final da tarde, lembrei de um Ney que expunha seus trabalhos em couro numa recém iniciada feira de artesanato na cidade de Embu, na Grande São Paulo, onde eu morava. Minha mãe, pintora e antiquária, foi uma das artistas que aderiu ao movimento artístico que o escultor Assis e o poeta e pintor Solano Trindade haviam decidido transformar em realidade, atraindo vários outros artistas plásticos à então pacata e bucólica cidadezinha. A feira não possuía mais de vinte expositores, entre alguns dos artistas que iniciaram o movimento e uns poucos artesãos (encontrei o Cristo em 2002, único remanescente hippie que expõe desde o início). Foi pouco antes do início do grupo Secos & Molhados, cuja maquiagem extravagante influenciou o grupo de rock Kiss (e não o contrário, como muitos pensam). Belonzi, o coreógrafo e figurinista do grupo (e da Rita Lee), também freqüentava a cidade à época. Muitos anos depois, Belonzi vendeu uma casa no então longínquo bairro da Ressaca ao meu irmão Dawidson, que mora lá até hoje.

O Embu da época era uma convergência não só de artistas, mas também de intelectuais. Jornalistas, arquitetos, poetas e músicos perambulavam pelas ruas de terra ou paralelepípedos do centro do lugarejo. E a cidade se resumia a umas poucas aglomerações espalhadas pelo imenso verde da região. Ali no centro, onde morávamos, havia um restaurante que funcionava também como ponto de encontro, bar, sorveteria e, mais tarde, discoteca. Era no Garrafão que eu desafiava os jogadores de xadrez nas tardes de sábado. A cada semana aparecia alguém para ser derrotado. Já nem prestava atenção no nome, título ou idade da vítima. Meia hora, quarenta minutos, e mais um jogador humilhado. Revanche: aumenta a humilhação. Melhor parar. Poucos paravam. A vingança: sábado seguinte trago o Fulano e acabo com essa festa! No sábado seguinte, humilhava o Fulano também! Começava a pensar em russo…

Certa vez decidiram fazer alguma coisa. Aquele garoto de quinze anos precisava de uma lição. Sérgio – o dono do local – juntou-se ao escultor Zé Figueiredo, ao desenhista e caro amigo Joel Câmara (que freqüentava o restaurante em troca de um mural que ele levou anos para terminar, levando o Sérgio à exasperação) e ao advogado Ênio, para, juntos, estudarem todas as jogadas e, enfim, derrotarem o jovenzinho arrogante que ameaçava humilhar a guerra-fria, batendo russos e americanos de cambulhada. Foi o jogo mais longo. Uma hora para vencer o incrédulo quarteto. Cuspiam marimbondo, juravam vingança! Mas tinham juízo: não pediram revanche. Eu sorri e pedi outro milk shake: “De chocolate e bem batido, por favor.”

Sábado seguinte o Ênio trouxe um amigo para tentar a sorte. Era um jornalista. Eu conhecia os jornalistas pela barba e pelo cheiro forte de cigarro, mas o sujeito não fumava e achei aquilo esquisito. Provavelmente aterrorizado pelos relatos do amigo Ênio, o cidadão levava longos minutos pensando após cada jogada minha. Minutos que me pareciam dias. De longe e sem esperança, os eternos derrotados torciam pelo desconhecido. Observavam o relógio com o canto do olho, controlando quanto tempo resistiria. Eu fingia não vê-los e apenas oferecia meu sorriso de ser superior. A certa altura da partida, o sujeito olhou-me (tinha evitado encarar-me todo o jogo) e disse com voz baixa, mas sem timidez: “Xeque-mate!” Dois minutos observando o tabuleiro para convencer-me. Revanche. Dessa vez ele precisou de apenas quinze minutos para repetir a sentença. Compreendi ter encontrado outra pessoa capaz de jogar em meio à confusão barulhenta do Garrafão.

Só voltei a freqüentar o lugar quando virou discoteca. O jornalista Aldo Pereira apresentou-me seu filho Cássio, de quem tornei-me amigo, e ofereceu-me outras oportunidades de revanche. Geralmente na sua casa, à entrada do ex-clube Para Todos, alguns poucos quilômetros mato adentro. Apesar do silêncio do lugar, dos chás e mimos que a sua mulher Virgínia oferecia a mim e ao Cássio, jamais ganhei uma única partida do Aldo. Mas depois de conhecê-lo na intimidade, isso deixou de ser uma humilhação.

Aldo Pereira escreveu para a Editora Abril a enciclopédia em fascículos “Os Bichos”. Alguns anos depois, escreveu também outra obra (sempre para a Abril): “Vida Íntima”. Jornalista obstinado, capaz de aprender línguas ou o que quer que seja sozinho, manteve uma coluna na Folha de São Paulo, na época em que a Folha era a “Folha”, sob o pseudônimo de Arquimedes Leite. Irônico e provocador, Aldo beirava o limite permitido aos jornalistas de então. E quando decidia ultrapassar tal limite, o fazia com subterfúgios, burlando a capacidade de compreensão dos censores de plantão.

Numa bela tarde de sol, levei um tabuleiro de Go à casa do Aldo. Ele não conhecia o jogo japonês e isso era uma surpresa. Ensinei-o, ganhei dele duas vezes e nunca mais jogamos outra partida. Meticuloso como de hábito, ele comprou livros e um tabuleiro. Estudou e informou-se. Deve ser um oitavo dan (sim, os grandes jogadores de Go no Japão têm até dan, como nas artes marciais).

A feira de artesanato do Embu cresceu e transformou-se, como a própria cidade. Pouca coisa lembra a cidadezinha tranqüila e aconchegante dos anos setenta. Pouca coisa resta de arte e artesanato na feira. Minha mãe continua lá, com seu antiquário e pintando. Meus irmãos e meu pai, também. Alguns poucos amigos, além da família, me ligam ao presente da cidade, mas já não a reconheço. Até o Aldo mudou-se há anos. E talvez nem se lembrasse mais do Garrafão ou do jogo de xadrez. A amizade é alimentada através de e-mails trocados.

Na paz do seu sítio em Itapevi (ainda moras lá, não?), o ativo jornalista Aldo Pereira, autor de livros e de uma vasta contribuição ao jornalismo brasileiro, carrega uma única certeza a cada vez que olhar o tabuleiro de Go: não haverá revanche!

Ciao.

PS – o post abaixo foi um e-mail enviado pelo Aldo, que me autorizou publicá-lo aqui no Carta da Itália. O post ficou um pouco longo, mas vale a pena. Mais abaixo, o texto da revista The Scinetist que ele enviou como anexo.

Texto de Aldo Pereira

"Em reunião de família no Dia dos Pais de 2004, o jornalista Aldo Pereira propôs como tema de reflexão aos presentes a opinião segundo a qual o fim do mundo já começou. Já. Agora. Ou, noutras palavras, que em três ou quatro gerações, seus descendentes não chegariam à idade de ser pais.
Esclarecimento: agnóstico, o Aldo não estava referindo nenhuma profecia como a que seitas milenaristas de vez em quando propõem. (Testemunhas de Jeová acreditaram que o fim se daria em 1914, mas desde então deixaram de mencionar datas.) Segundo ele, sua “profecia” não inspirou nos filhos e netos presentes nenhuma reação melhor do que “Ah, é? Puxa! Hum, me passa a garrafa.” Claro. Todos nós temos problemas imediatos e prioritários. Embora conformado com o natural ceticismo de seus descendentes, o Aldo distribuiu entre eles, na terceira semana de agosto, a seguinte mensagem.
Não desafiei ninguém para aposta; admito que o resultado seria inverificável, pelo menos para mim, já que estamos falando de uma antecipação de décadas. Não houve aposta, também, porque, como a grande maioria das pessoas, meus interlocutores viram nessa previsão algo de lunático, talvez até um daqueles prenúncios de senilidade que obrigam pessoas educadas a uma discreta e polida desconversa. Outra razão é a aparente improbabilidade: pois o mundo não esteve sempre aí, sem registro histórico de nenhum cataclismo? (Isto é: um ou outro terremoto, vá lá, a erupção do Krakatoa em 1883, e a devastação florestal causada por aquele meteorito caído na Sibéria em 1908; mas nada disso ameaçou de extinção a espécie humana.)
Não proponho abandono de nossos deveres, afazeres e planos imediatos para nos ocuparmos do tema. O que proponho é levarmos em conta alguns dados presentes, acompanharmos os eventos, e irmos refletindo não apenas sobre o que pode sobrevir nesta geração, mas sobre o que já está acontecendo. E, pelo que vejo e leio, o que acontece é que o fim do mundo já começou. Vai durar algumas décadas, se tanto, mas acelera. Poderemos revertê-lo? Por favor, respostas informadas, com fundamento científico, não meros palpites céticos daquilo que, naturalmente parece mesmo incrível.
Por “fim do mundo” não quero dizer a aniquilação astronômica do planeta, colisão com asteróides ou cometas, e outros acidentes cósmicos. Não que estejamos inteiramente a salvo desses funestos encontros cósmicos. O meteorito caído na Sibéria em 1908 causou a devastação de 2.000 quilômetros quadrados de floresta; mas a Terra já recebeu impactos milhões de vezes mais potentes, inclusive o que se supõe haja aniquilado os dinossauros e a maioria das outras formas de vida que havia há 65 milhões de anos.
Mas astrônomos calculam a probabilidade de catástrofes desse tipo em uma cada 100 milhões de anos. Ou seja, são altamente improváveis. Apesar das horríveis alterações geológicas em curso na superfície, acho que a Terra continuará sendo, por milhões de anos, esta gotinha de lama azul perdida na Via Láctea. Sosseguemos.
O que refiro aqui como “fim do mundo” é o suicídio involuntário da humanidade, resultante de uma combinação paradoxal de muito saber com ignorância, muito poder com impotência, muita ação com inação. Também me parece evidente e inevitável que levaremos conosco a maior parte da criação. Esta impressão fatalista resulta da configuração de alguns fatos, sem significação maior em si, mas cada um contribuindo como peça de mosaico para uma visão perturbadora.
Noutro dia, enquanto assistíamos a um jogo do Brasil no Peru, notei a majestosa geleira que se recortava contra o céu, ao fundo. O ambientalista galês Mark Lynas, filho de geólogo, também se impressionou com fotos da Cordillera Blanca, a serra mais alta do Peru, tiradas pelo pai durante pesquisa feita em 1980, a foto que mais o encantou, tirada por seu pai, era da majestosa Geleira Jacabamba, que se abria em leque até a borda de pequeno lago, no qual flutuavam icebergs que a franja de gelo desprendia continuamente. (Geleiras escorregam pela rocha das montanhas como rios lentíssimos, porque, nessas quantidades maciças, o peso do gelo lhe impõe progressivas deformações plásticas.)
Já fazia algum tempo que Lynas cogitava de verificar o progresso do aquecimento terrestre e suas medonhas conseqüências. A foto, segundo ele, inspirou-lhe a decisão de implementar os planos, que apropriadamente incluiriam uma visita à geleira fotografada. Veja abaixo o que sobrou da geleira com o degelo que ela sofreu entre 1980 e 1922. (O próprio Mark Lynas me autorizou a reproduzir as fotos.)

glacier_jacabamba.jpg Posted by Hello
Desaparecimento de gelo (o minério mais abundante no mundo, escrevi eu num fascículo da Abril, há mais de 30 anos) ocorre no mundo todo. Hoje, todas as geleiras estão em progressiva e nítida retração. Nos últimos 30 anos, informa Lynas, as geleiras da região de Lima, no Peru, perderam 811 milhões de metros cúbicos de água, volume três vezes maior que o do Lago Windermere, o maior da Inglaterra. A Agência Européia de Ambiente prevê que as geleiras dos Alpes terão desaparecido por volta de 2050 e que, em 2080, a Europa não terá mais inverno. Quem gostar de humor negro pode imaginar Papai Noel num trenó de rodas e colorida roupa tropical. Como se sairá dessa a indústria de cartões de Natal?
E daí? — poderão perguntar os menos informados. Não seria até interessante vermos a rocha nua que há por baixo de tanto gelo?
Bem, afora o dado teórico de que o degelo total elevaria o nível dos mares em 90 metros, acontece que, numa escala mais realista, geleiras são tetas montanhosas que amamentam os principais rios do mundo. No Himalaia, o degelo pode afetar diretamente meio bilhão de pessoas que vivem nos sopés, primeiro com inundações como as que têm flagelado Bangladesh, depois com desertificação. A fabulosa riqueza hídrica do Brasil se deve, em grande parte, à água que escorre pela vertente oriental dos Andes. Se as geleiras andinas desaparecerem, os rios do Peru secarão, as áreas cultivadas dali se tornarão desertos, e uma horda faminta se deslocará, adivinhem para onde. Estamos preparados?
O desaparecimento do gelo sugere outra arrepiante possibilidade: a do feedback. Isto é, a de cada processo afetar outro que, em rebote, venha agravar o primeiro. Assim, à medida que a brancura do gelo reduz a reflexão da luz solar incidente no planeta, mais luz e concomitante energia térmica são absorvidas. Noutras palavras, quanto mais gelo desaparecer, mais depressa a Terra se aquecerá. Idem com o aquecimento dos mares. Teoricamente, quanto mais quente a água, maior a liberação de metano dos oceanos para a atmosfera. E quanto mais metano, mais quente a água. O teor de metano dos mares é estimado em valor igual ao dobro de todo o carbono contido pelas florestas, e que vem sendo liberado por queimadas e abate.
No século 20, a temperatura média do globo subiu 0,6º; neste século, poderá subir de 1,4º a 5,8º, conforme as variáveis de diferentes modelos. Até medidas corretivas podem ser contraproducentes. Por exemplo, a redução de fumaça e poeira pode aumentar a incidência de radiação solar e agravar o aquecimento da atmosfera e da hidrosfera. Nesse caso, a temperatura média poderia subir até 7 graus no curso do século 21, algo sem precedente na história geológica do planeta. No fim do período permiano, há 251 milhões de anos, erupções maciças de vulcões siberianos e a decorrente formação de grossas camadas de fumaça e pó elevaram em 6 graus a temperatura média da atmosfera; uns 95% da vida terrestre se extinguiram. Enfim, fumaça protege e fumaça destrói; este é apenas um dos paradoxos a nos ameaçar.
Quanto a preparativos, o Pentágono parece ocupar-se de alguns. Alterações climáticas, diz um relatório militar americano, podem evoluir de debate científico para tema de segurança nacional dos Estados Unidos. Escassez de alimento, água e energia podem levar a guerras e anarquia mundial com a disputa de recursos de sobrevivência entre países; alguns deles se verão compelidos, então, ao emprego de armas atômicas.
O clima pode superar em gravidade o drama atual do terrorismo e das guerras étnicas em moda. Perto de 3.000 pessoas morreram no atentado de 11/9/2001. Mas furacões e inundações têm matado centenas de milhares — e o número aumenta ano a ano. Malária, disenteria e fome decorrentes de alterações climáticas têm custado em média 160.000 vidas anuais, segundo estima a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.
Vocês acham coincidência que, pela primeira vez em minha vida, furacões comecem a preocupar brasileiros? Furacões na costa sul do Atlântico? E tão abaixo do trópico como está Santa Catarina? Saibam que nunca antes houve registro meteorológico de furacão nessa latitude sul. Será apenas coincidência que o poder destrutivo dos furacões do Caribe venha aumentando em linha sincopada, mas sempre ascendente?
Ponderem estes outros fatos, que tirei do livro de Lynas (que dá outros dados em seu blog) e de fontes de monitoria ambientalista, inclusive a Agência Européia de Ambiente:
 Tuvalu é um arquipélago de atóis de coral no sul do Pacífico, povoado por umas 10.000 pessoas. Até 1978 foi colônia britânica, mas não gozará sua independência por muitos anos: em duas ou três décadas, Tuvalu será inabitável, e deverá estar inteiramente submerso antes do fim do século. Mesmo hoje, é difícil achar em qualquer de seus atóis “altitude” superior a meio metro. E essa altitude média é progressivamente menor a cada maré.
 A cada verão aumenta o número de pessoas mortas na Europa por hipertermia (“insolação”, mesmo sem exposição ao sol). Áreas crescentes de florestas ressequidas têm sido destruídas por incêndios naturais, lá e nos Estados Unidos.
 Um climatologista inglês concluiu, referindo-se aos aumentos anuais na freqüência de inundações da Inglaterra: “Não temos invernos mais: temos estações chuvosas”. Na década de 1990, a temperatura média na Inglaterra foi meio grau centígrado superior à média do período 1960-90. Flores que normalmente se abrem em março já desabrocham em janeiro. Fauna e flora se deslocam, e novas doenças afetam plantas e animais. Em seis dos últimos 10 anos, Oxford, onde mora Lynas, passou o Natal sem neve. É como se o país se houvesse deslocado 75 quilômetros rumo ao sul.
 No Alasca, é só esporadicamente que as temperaturas de inverno têm caído abaixo de –20º; há poucas décadas atingiam 40-50 graus negativos. O relativo degelo do permafrost (solo permanentemente congelado) ondula ruas, abre frestas nos pavimentos, e faz desabarem falésias, junto com as casas nelas construídas, nos pontos de beira-mar em que o degelo desampara rochedos. Ventos e marés têm roído ultimamente algumas povoações costeiras, a ponto de imporem deslocamento de todos os habitantes. Isso decorre, em parte, da rarefação do gelo flutuante. Antes, grandes icebergs se fundiam à frente de certas enseadas e protegiam a orla arenosa como se fossem diques. O gelo de hoje é tardio e “jovem”, muito menos espesso, uns 30 centímetros em média, contra a média de mais de um metro que ocorria uma geração atrás. E o congelamento que sobrevinha em outubro só se dá atualmente em dezembro, quando começa o inverno. Tem havido verões de 25 graus C., que os avós de hoje nunca experimentaram lá. Ursos desconcertados não sabem direito se é hora de hibernar, salmões não chegam quando deviam, aves migratórias atrasam partidas e concomitantes épocas de acasalamento e desova.
 Diferente do que muita gente pensa, o mar não está pra peixe. Isto é, nem todo o mar. Salvo algumas solitárias exceções, oceanos são mais como desertos percorridos por esparsas “caravanas” de cardumes migratórios. A grande diversidade de fauna e flora oceânicas está nos “oásis marítimos” que são as formações de coral, montanhas quase totalmente submersas, constituídas por bilhões de certos invertebrados vivos e os esqueletos de seus ascendentes mortos. A parte viva dessas agregações depende da delicada simbiose entre certas algas e o coral (“coral” aqui refere-se ao bicho, o pólipo antozoário, não ao esqueleto calcário dele, usado em joalheria). Sem alga, o coral morre, e vice-versa. Colônias de coral saudáveis são esverdeadas e acastanhadas; as mortas são sinistramente brancas. Nos últimos anos, formações de coral de todo o mundo vêm branquejando. Quando a temperatura da água ultrapassa certo limiar, o pólipo ejeta a alga alojada nele, e, desfeita a simbiose, o animal perece. Especialistas dizem que um sexto do coral do mundo já desapareceu nas últimas três ou quatro décadas; em algumas formações, a mortalidade ultrapassa os 90%, causando extinção local de peixes e outros organismos que compõem a cadeia alimentar circundante. É como se um sexto das florestas do mundo tivesse deixado de existir, mas sem chamar tanta atenção. A não ser a de predadores humanos que continuam atacando o coral a dinamite.
 Na China, o Rio Amarelo, menor apenas que o Yangtze, só atinge o mar durante metade do ano: nos outros meses, seca durante o percurso, quilômetros antes do litoral. Também estão secos, estes permanentemente, os seis rios que contornavam a histórica cidade de Wuwei, antes convertida pelo governo revolucionário em centro duma área de lavoura irrigada. O governo admite que a cada ano uns 1.500 quilômetros quadrados de área se tornam desérticos, com resultantes tempestades de areia que têm flagelado povos nômades das planícies da Mongólia. Uma dessas “tempestades pretas” matou 85 pessoas em Beijing, em 1993, e descascou o asfalto por onde passou.
Há salvação? Pode haver, mas não a vejo, porque:
1) A apuração de fatos conducentes a predições exatas levaria anos, ainda que não lhe faltassem recursos financeiros e tecnológicos.
2) Sem domínio dos fatos, não haverá consenso; e mesmo que soubéssemos tudo quanto precisamos saber, ainda restariam duas questões cruciais: a) Dispomos da tecnologia necessária para reverter o processo? b) Haveria condições políticas e militares de acomodação dos muitos interesses divergentes? Os lobbies do carvão e do petróleo controlam o governo e o Congresso dos Estados Unidos, aquecedor-mor do planeta. Embora nada ganhem com o fim do mundo, esses lobbies tudo fazem para que a prevenção, se houver, se dê à custa de outros, não com prejuízo de seus interesses.
3) Havendo conhecimento, recursos e consenso, haveria tempo? É verdade que, a despeito da recalcitrância de Bush et al, o chamado Protocolo de Kyoto entrará em vigor quando, como se prevê, a Rússia aderir a ele. Mas, penso, o efeito será insuficiente e tardio, porque defasado.
Entre as muitas críticas que faço à educação institucionalizada está a falta do ensino metódico de pensar. Não me refiro às tentativas ineptas de introduzir filosofia européia no currículo, mas à formação de conceitos necessários à reflexão produtiva sobre os dados de conhecimento. Conceitos como o multidisciplinar de defasagem.
O solstício de inverno no hemisfério sul ocorre em 21 ou 22 de junho. É o dia em que o Sol descreve seu arco mais curto no céu, e o mais próximo do horizonte. Conseqüentemente, é o dia mais curto do ano. Como a temperatura baixa ou sobe em razão da duração e do ângulo de incidência da luz solar, esse deveria ser o dia mais frio do ano.
Não é. Tipicamente, as temperaturas continuam a baixar ainda por uns dois meses, embora dia a dia o Sol passe mais alto e por mais tempo. Essa diferença de fases entre causa e efeito é a defasagem. Aplicada ao caso do aquecimento terrestre, e supondo que fosse possível deter imediatamente todas as suas causas, quanto anos decorreriam até a reversão eficaz do fenômeno? Qual seria a defasagem?
Ninguém sabe. Igualmente, ninguém sabe em que medida e prazo seria possível: a) conter o crescimento da população; b) diminuir significativamente a emissão de dióxido de carbono (CO2), isto é, reduzir em até 75%, nos paises mais ricos, o consumo de petróleo e energia mecânica; desativar fábricas, e não apenas as de automóveis; desempregar milhões; reduzir rebanhos (peidos de gado introduzem na atmosfera volume significativo de carbono na forma de metano, CO4, liberado do capim digerido). Imaginem a gritaria de frigoríficos, frangueiros e hamburgueiros, em meio a concomitantes massacres repressivos da horda desempregada.
Subitamente, encaramos a cara feia da política sem a máscara cor-de-rosa da propaganda e a lubrificação dos lobbies. Deparamos a essência da política que, em minha opinião, se exprime numa pergunta: quem paga a conta, e do quê? (Para escrever seu livro, Lynas voou milhares de quilômetros em aviões que, nessas viagens, acrescentaram mais de 15 toneladas de CO2 aos gases do efeito estufa. E ele não diz de quantas árvores estão vindo as toneladas de papel consumidas na produção de seus livros. Moral: mesmo bem intencionados esforços e intervenções agravam o problema.)
........................................................................................................................................
Ao aposentar-se este ano, o astrofísico britânico Martin Rees, nome prestigiado no mundo das ciências, calculou em 50% nossas chances de sobrevivência neste século. Afora riscos de guerra nuclear, erupções vulcânicas descomunais, colisão de asteróide, cometa e outros bólidos, ele acrescenta ao cômputo os riscos recém-chegados da biotecnologia e da nanotecnologia. (Caso você tenha acabado de chegar de uma viagem a Marte, e queira saber algo elementar a respeito de nanotecnologia, dê uma espiada no arquivo “Fim do mundo nano” que vai anexo a este. E se quiser ver um panorama atual da nanotecnologia, lindamente ilustrado, veja outro anexo, o “Nano Scientist.html que baixei da última edição da revista Scientist
Terrorismo ou acidente de engenharia genética poderão causar epidemias, epizootias e epifitias calamitosas, talvez incontroláveis, receia ele. E como para confirmar essa opinião, logo depois autoridades sanitárias do governo americano advertiram como provável que uma variedade mutante do vírus causador da gripe de frangos na Ásia possa causar pandemia mais grave que a gripe espanhola; a qual, ao se propagar pelo mundo em 1918, deixou no rasto mais de 20 milhões de mortos.
........................................................................................................................................
Bem, o poeta T.S. Eliot previu que o mundo acabaria não com uma explosão, mas um soluço. Com resignação e modéstia, discordo: acho que teremos explosões, sim, afora gritos, gemidos e soluços. Você não ouve?
Para não dizer que neguei uma nota menos sombria a esta advertência, que conselho tenho a dar, eu, tantas vezes já pai nesta cascata de filhos, netos e bisnetos? Ocorre-me apenas uma ode de Horácio que, de tão citada, virou provérbio romano: Carpe diem. “Aproveita o dia [de hoje]".
Hum, alguém me passa a garrafa?
...............................................................................................................................
Um mês depois de eu ter enviado a filhos e netos a mensagem acima, notei as seguintes notícias que contribuem para configuração de uma tendência:
 No mês de agosto formaram-se oito furacões no Atlântico (o primeiro deles, Alex, formou-se em julho, mas atingiu intensidade de tempestade tropical e furacão em agosto). Agosto de 2004 quebrou o recorde de sete furacões ocorridos em agosto de 1933 e repetido em 1995. A média histórica é de quatro.
 Flórida e adjacências foram atingidas por uma tempestade tropical (Bonnie) e antes de outro ciclone (o furacão Charlie) se haver dissipado; havia 98 anos que não se registrava atividade simultânea de dois ciclones na costa Atlântica da América.
 Em setembro, o furacão Ivan matou em seu trajeto 000 pessoas em ilhas do Caribe e 00 nos Estados Unidos; enormes danos materiais e sofrimento com a perda de bens. Para sorte do povo cubano, ao avançar para os Estados Unidos o olho de Ivan passou no vão de mar que separa Cuba da península mexicana de Iucatã. Apesar do enorme diâmetro e da potência do ciclone, sua borda causou poucos estragos por atingir regiões relativamente despovoadas.
 Ainda em setembro, a tempestade tropical Jeanne matou centenas de pessoas em Haiti (o desflorestamento do país agrava o efeito de inundações e favorece deslizamentos que afogam muita gente em lama). O número hoje, 22, estava perto de 700, mas aumentando à medida que o escoamento de água e lama deixava aflorar cadáveres. Havia esperança de que, embora se tornasse furacão e seu rumo parecesse incerto, a tempestade Jeanne e o furacão Karl se dissipassem no alto-mar dentro de umas duas semanas. Já o jogo de pressões atmosféricas no Atlântico parecia prenunciar que a tempestade tropical Lisa atingiria o Caribe e a Flórida como furacão ainda na primeira quinzena de outubro.
 Como todas geleiras do mundo, também a de Yulong, na China, está derretendo depressa: sua língua de gelo encurtou uns 10% nos últimos vinte anos, e o degelo se acelera. No oeste da China a temperatura média tem subido 0,3 graus C. a cada ano, nesse período. Graves reduções no volume de água de rios alimentados pela geleira podem afetar cerca de 300 milhões de pessoas. Esse não é o único problema climático atual na China: tem havido recordes de inundações no sul e no leste, ao mesmo tempo em que secas e no norte e no oeste estão estendendo desertos a cercanias de grandes cidades, inclusive Beijing. Nuvens de gafanhotos, favorecidas por variações climáticas, têm destruído lavouras. Indiretamente o problema tem trazido vantagens a países como o Brasil, dos quais a China vem comprando cada vez mais alimentos para compensar a minguante produção própria. A longo prazo, porém, a perspectiva de uma China faminta é um pesadelo estratégico para seus vizinhos."

(By Aldo Pereira)

Nano Scientist - Revista Scientist

"Promessas e perigos da tecnologia
Nanotecnologia é uma conjugação de engenharia, química e física para manipular substâncias em porções que, na maior dimensão, não excedem 100 nanômetros (do grego, nanos, “anão”). Como um nanômetro ou milimícron equivale a um bilionésimo de metro, pode-se estimar em cerca de um milhão de nanômetros o diâmetro deste ponto final. No mundo nanométrico, moléculas de diferentes elementos podem ser montadas na construção molecular de materiais até então inexistentes, e dotados de certas propriedades não conseguidas na indústria química tradicional. Entre as vantagens de se lidar com materiais em pedaços tão pequenos está sua condutividade elétrica, superior à do cobre.
No momento, a nanotecnologia tem servido apenas para produção de certos pós ultrafinos, usados por exemplo no revestimento de placas de vidro não refletivas ou que repelem poeira. Mas outras aplicações nanotécnicas já no mercado ou ainda em teste incluem microcomponentes de computador e celulares, toca-discos DVD, tecidos que repelem poeira, equipamentos dessalinizadores de água do mar etc. Especialistas na área procuram conjugá-la com a robótica para criar próteses microscópicas capazes de restaurar em cegos ou surdos as capacidades de ver ou ouvir. Muitos desses técnicos descartam como exagerada a visão de robôs microscópicos que destruam em regiões inacessíveis do corpo tanto micróbios hostis quanto tumores de câncer ou formações de colesterol que entopem artérias. Mas há consenso quanto a outras aplicações em medicina, como drogas menos tóxicas e mais eficazes.
Nos primeiros anos deste século, a nanotecnologia gera tanto receios e suspeitas quanto entusiasmo. Uma das mais alarmantes advertências proveio da demonstração teórica de que certas nano-estruturas podem ser dotadas da capacidade de produzir cópias de si mesma. Isto é, de multiplicar-se como micróbios. O astrofísico britânico Martin Rees avalia como cientificamente plausível a possibilidade dessa reprodução exponencial de certas nanopartículas: uma construiria duas iguais, que construiriam quatro etc. Outro pesadelo é o de nano-robôs. (Nanomáquinas simples já são realidade.) Se dotados da propriedade de desestruturar moléculas orgânicas como as de proteínas ou amino-ácidos, esses nanomicróbios poderiam transformar toda a biosfera numa gosma cinzenta. (A idéia inspirou uma versão hollywoodiana de infecção de nano-robôs no filme Eu, Robô e em outras obras de ficção científica.)
Quem propôs originalmente a teoria da gosma cinzenta foi o mais conhecido dos especialistas nesse campo, Eric Drexler, no livro Motores de Criação (1986). Já em 2004, talvez intimidado pelos cortes de verba e outras precauções que as pesquisas do campo passaram a sofrer, ele tem dito que não é bem assim, muito pelo contrário. Mas, ao mesmo tempo, reafirma em murmúrio, como Galileu, que a possibilidade, sim, existe.
Muitos de seus colegas contestam e desdenham tal hipótese, embora admitam vários outros riscos. Uma comissão de especialistas britânicos formada por membros da Real Sociedade de Engenheiros e da Sociedade Real (academia de ciências) divulgou em meados de 2004 um relatório que recomenda o enquadramento da fabricação e do comércio de nano-substâncias em legislação especial, que leve em conta a nocividade potencial desses materiais. Isto porque qualquer substância pode apresentar propriedades muito diferentes quando reduzida a nanopartículas.
Tamanho, por si, já preocupa. Sanitaristas ponderam que quaisquer pós finos, mesmo quando bem maiores que nanopartículas, constituem risco de saúde pública. Por exemplo, fumaça de motores diesel formada por hidrocarbonetos e metais pode lesar as cavidades mais finas dos pulmões. E o amianto de telhas onduladas, tardiamente proscrito no Brasil, continua causando câncer pulmonar e decorrente morte de milhares de pessoas por ano.
Nanopartículas liberadas no ambiente como resíduos poderiam ser absorvidas pela boca e pela pele para acumular-se nocivamente em órgãos internos. Lesões pulmonares e cerebrais já foram induzidas por inalação de nanopartículas em ratos e cães. Diluídas em água, elas também causaram lesões cerebrais em peixes. Além disso, ao passo que os seres humanos já desenvolveram certa imunidade contra muitas das substâncias naturais do ambiente, ninguém sabe como reagiriam às propriedades de nanomateriais até agora inexistentes na natureza."
(The Scientist)

Wednesday, October 13, 2004

Preferências

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Nesses anos de experiência profissional na área comercial, aprendi que preferência é hábito de consumo. As pessoas “preferem” determinada marca de produto a que estão acostumadas a consumir. Aqui vale um parêntese: a dona de casa que usa determinada marca de sabão em pó por ser o mais barato, prefere o outro, que lava mais branco mas custa mais caro. Somente por uma questão de economia não o usa. Já um bebedor de cerveja “prefere” a marca a que está habituado a consumir. Neste campo, todas as influências são externas: a opinião de um amigo, a sugestão que a propaganda conseguiu transmitir e a imagem que ela imprimiu no ego do consumidor (“em Portugal, a cada aparição da propaganda do cigarro Marlboro, as vendas de cavalos aumentam…”), a disponibilidade do produto, a chamada venda por impulso nos supermercados, enfim, mil armadilhas do famigerado marketing.

Da mesma forma, alguns produtos nascem de uma necessidade até então não estimulada, como no famoso caso dos filtros solares, por exemplo. Gênio é aquele que descobre o óbvio e consegue transformar em produto uma resposta a essa necessidade. Tais descobertas estão muito mais ligadas à cultura local, mas podem ser exportadas, com as devidas ressalvas. Tudo uma questão de mercado. Um amigo nigeriano comentava que as vendas de filtros solares no seu país são um fiasco, pois além do fato de o seu povo encarar o produto como inútil, a importação faz com que o preço seja inadmissível para a maioria da população.

Aqui na Itália o sabão em pó muda conforme a estação: na primavera vende-se muito o tipo de sabão que “deixa as cores mais vivas”; no verão, “o branco total”; outono e inverno são as estações do “deixa as roupas escuras mais escuras”. Pois é! Aqui tem um sabão em pó que deixa as roupas pretas sempre pretas. Produto que alcança um grande sucesso num país onde todos usam preto no inverno. Um detalhe: embalagem de sabão em pó inferior a dois quilos é mais raro que pé de cobra.

Outras curiosidades: propaganda de cerveja, só a partir do início da primavera. Nos bares, a diversidade de chocolates se resume a dois tipos: com ou sem avelãs e a reduzidíssimas quantidades, no verão. Marca de macarrão que fizer propaganda mostrando pratos pesados ou gordurosos, adeus! Todas as propagandas de água mineral mostram pessoas tomando água na garrafa. Estão formando uma geração de mal-educados. Depois, não poderão reclamar.

O telefone celular muda de acordo com a moda. Carro, a cada dois ou três anos. Férias nas Ilhas Maurício, México, Santo Domingo, Cuba, Tailândia ou Jamaica (porque o Brasil não faz a mesma divulgação turística que tantos outros países?).

O consumo de água mineral em garrafa plástica é de impressionar, graças ao elevado teor de calcário na água doce de grande parte da Europa. As propagandas esmeram-se em mostrar montanhas para associar ao produto uma imagem de frescor, transmitindo a informação de que aquela água não atingiu solos profundos nem planícies, onde se encontra o calcário. Pelo mesmo problema, toda dona de casa consome produtos para evitar a formação de calcário nas máquinas de lavar roupas, máquinas de lavar louças e água destilada para os ferros de passar a vapor. A maioria dos lava-rápidos usam água desmineralizada para um último enxágüe, o que evita manchas na pintura.

Frutas e verduras são compradas em quantidades suficientes para dois, três dias no máximo. Devem ser frescos. Abarrotar o carro no supermercado, somente se for dia de festa. Ou estrangeiro. Mas ao menor sinal de crise (qualquer que seja) os consumidores de mais idade aumentam o estoque de farinha e sal. Serve para o pão, que sustentou muitos em tempo de guerra.

Sorvete vende o ano inteiro, inclusive quando neva. O primeiro sonho de consumo é uma Bianchi, uma marca chique de bicicleta. Usam a camisa do time do coração, mas a da Seleção Italiana, não. É mais fácil encontrar alguém com a camisa da Seleção Brasileira. Apesar de não existir propaganda de cigarro, todo mundo fuma. E já começaram as críticas à lei recentemente aprovada, que obriga bares e restaurantes a haverem locais reservados a não fumantes. Encontrar charutos aqui é mais fácil que no Brasil. E, com um câmbio favorável e uma política equivocada do mercado brasileiro, um charuto cubano custa o mesmo que um made in brazil. Vinho. Muito vinho. Uma garrafa de cachaça brasileira custa mais que uma garrafa de um razoável scoth escocês. Mas custa menos que uma boa grappa.

Festa sem música brasileira (velhas músicas de carnaval) não é festa. Quando querem exprimir alegria verdadeira e contagiante, costumam referir-se à torcida brasileira, que consideram patrimônio mundial. E nós nem aproveitamos para exportar!

Tudo uma questão de mercado. Os hábitos diversos são o que caracterizam as diversas culturas. Mas é o tal marketing que decidirá se a nova geração usará copo ou irá beber água na garrafa. Se vale a pena ou não, montar uma fábrica de filtro solar na Nigéria. E até o período em que chocolate e cerveja serão consumidos. A única certeza que nos cabe é que seremos cada vez mais consumidores. Mesmo dos produtos que inicialmente rejeitamos. Ou alguém aí irá me dizer que o primeiro gole de cerveja foi uma experiência positivamente inesquecível?

Ciao.

Friday, October 08, 2004

Fragmentos de vidas

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Antonio: branco do Sul da Itália. 49 anos, casado, quitandeiro. Discursa sobre tudo, de política a construção civil, de economia a futebol. Seu hobby é a eletrônica. Explica que todas as fábricas de pneus pertencem à italiana Pirelli. Ensina que a qualidade inigualável do gado italiano produz o melhor leite, o melhor queijo e a melhor carne do mundo. Sua principal característica é a disponibilidade para consertar aparelhos elétricos ou eletrônicos dos amigos, a quem ele recebe com o sorriso complacente dos seres superiores. Da última vez que nos encontramos, ensinou que semente da laranja não serve pra nada. Esclareceu que as laranjeiras só se reproduzem por mudas retiradas de uma árvore adulta.

Jazz: negro da Costa do Marfim. 31 anos, solteiro, formado em sociologia e economia, trabalha como operário. Fala pouco, tem uma aparência intimidadora, apesar da baixa estatura. Conta que no seu país a diversidade de línguas é um dos pontos fortes: cada tribo tem seu próprio idioma, mas com o fluxo de estrangeiros desenvolveram o hábito de aprender diversas línguas. Além do francês, a língua oficial, fala fluentemente inglês, espanhol e italiano. Pretende ficar pela Europa. Sua principal característica é um sorriso fácil, espontâneo e infantil. Da última vez que nos encontramos, fez questão de mostrar um velho ciclomotor que acabara de comprar que, com o frio desses dias, o obriga a andar enrolado em um cobertor.

Rosaria: branca do Sul da Itália. 43 anos, casada, faxineira. Imagem folclórica do italiano: estoura por qualquer motivo, gesticula, fala alto com um carregado sotaque napolitano. Duzentos palavrões por dia. É a quota. Como qualquer italiano, tem celular e deu um outro para a filha de treze, quinze anos. Recarrega o telefone com €$ 10,00 por semana. É a quota. Quando acaba a carga, entra no escritório e pede para telefonar à filha, controlando-a na saída da escola e orientando-a sobre os serviços da casa. Três vezes na quinta-feira e quatro na sexta. É a quota. Sua principal característica é o hábito de xingar, de forma escandalosa, qualquer um que a atrapalhe ou que ouse provocá-la. Da última vez que nos encontramos, contou-me que mudara para um convento, após a surra que o marido ofereceu a ela e à filha. Ela, a filha e o filho de sete anos: os três no convento. É a quota.

Omar: negro da Somália. 45 anos, viúvo, casado, formado em economia, trabalha como operário. Seu nome se pronuncia “ômar”, mas só na Itália. Ex-funcionário menor do governo do seu país, fugiu para a Itália há dez anos para não ser morto pelos inimigos políticos do governo de então. Não conseguiu trazer a família, mulher e cinco filhos. Quatro filhos e a esposa morreram na guerra, tentando escapar. Seu tio, patriarca do clã, decidiu que com a morte da mulher, a irmã dela tomaria o lugar de esposa de Omar, como é o hábito entre eles. Desta forma, a cunhada de Omar assumiu a identidade da irmã, pegou o único filho dele que sobreviveu, transferiu-se para Adis Abeba e de lá conseguiu, através da Igreja, uma autorização para entrar na Itália. Agora eles tem um segundo filho, nascido na Itália. Seu filho maior, de nove anos, come pouco, vive doente e constantemente desanimado. Omar parou de beber e adora discutir futebol. Sonha em voltar. Sua principal característica e o olhar perdido, que tenta disfarçar com brincadeiras em dialeto piacentino. Da última vez que nos encontramos, pediu-me conselhos sobre a saúde do filho e anotou minha sugestão de óleo de fígado de bacalhau e mel com própolis – além do médico, é claro.

Gianni: branco do centro-norte da Itália. 63 anos, casado, empresário. Responsável chefe de família, preocupava-se em trabalhar e educar bem os filhos. Há nove anos conheceu o Brasil com uns amigos. Quando voltou, trouxe na bagagem duas mulatas e as alojou em um confortável apartamento, deu carro, crédito no supermercado do amigo, jóias e casacos de pele. A aventura não durou muito, pois ele descobriu que podia variar. As moradoras do tal apartamento não são mais as mesmas, aliás, nunca são as mesmas. Seu irmão e sócio precisa controlá-lo para que as besteiras não tenham dimensões catastróficas. Mas bem que ele tenta. Sua principal característica é uma alegria contagiante estampada na face bem barbeada, perfumada e tratada. Da última vez que nos encontramos, contou que está fazendo um curso de computação para empresários. E que depois do curso sai com os amigos.

Maurice: negro da Nigéria com cidadania italiana. 36 anos , casado, representante. Vai à igreja todos os dias, tem carro japonês de fazer inveja aos ex-colegas operários. Cordial, educado e com pose de dândi, é mais italiano que muitos italianos. Está desenvolvendo um projeto comercial binacional, com o objetivo de ajudar seu povo de forma sustentada e dinâmica. Amigo fiel e divertido. Sua principal característica é a ingenuidade e um sorriso fácil de menino. Da última vez que nos encontramos, foi em uma festa de criança. Era ele quem mais se divertia.

Marco: branco do Centro-norte da Itália. 38 anos, casado, chefe de departamento. Voz grave, um metro e noventa, cento e cinquenta quilos, óculos grandes e olhos estalados: assusta! Mas é o que chamamos “uma flor de pessoa”: fala mansa, andar lento e arrastado. Seu hoby é ganhar das máquinas de vídeo-pôquer. Ganha sempre. Certa vez, contou-me que era perseguido pelo tenente, quando prestava o serviço militar. Pegava os piores serviços e fazia plantões no frio durante as festas. Depois de seis meses resolveu por um fim na situação. Estava no escritório do quartel fazendo faxina quando o tenente entrou e passou por ele. Aproveitou a ocasião e passou lentamente a mão na bunda do tenente, que virou-se e fixou-o assustado. Ele, sério, deu com os ombros e abriu os braços, como quem diz: “foi mais forte de mim…” No dia seguinte o tenente transferiu-se para o Sul. Sua principal característica é uma profunda capacidade de avaliar as pessoas. Como qualquer psicopata. Da última vez que nos encontramos, ele estava de férias e levou-nos um generoso pedaço de focaccia (uma espécie de pão) para acompanhar o cafezinho das dez.

Killy: negra do Senegal. 24 anos, solteira, sem formação definida, desempregada. Não a conheço, mas sei que está fazendo um curso de computação para empresários.


Ciao.

Síndrome de Estocolmo

A Denise andou por aqui e registrou o meu esquecimento. Pois bem: esqueci de citar mesmo, mas foi um post que eu preferia não ter escrito, pois foge à proposta do Carta da Itália. Aliás, estou aguardando que os outros esquecidos se manifestem. Nem sei como pude esquecer teu blog, pois eu o visito quase diariamente. Desculpe!
A Denise montou algo que deveria ser um blog, mas virou uma comunidade. Conta o dia a dia de uma vida em constante movimento e notícias interessantes. Taí um blog que merece ser visitado sempre, com muitos links relacionados a uma luta honesta e bela. Vale a pena!

Ciao

Monday, October 04, 2004

Adaptações

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Minhas filhas começaram a aprender a ler muito novas, a partir de três meses de idade. Através do livro “Como Ensinar Seu Bebê A Ler”, do doutor Glenn Doman (livro terminantemente desaconselhável às grávidas!), descobri que ler é uma função mais fácil que aprender a falar, pois exercita a mesma capacidade de interpretar símbolos, sem a necessidade de articular vocábulos. É o próprio Glenn Doman a informar a idade ideal para iniciar as lições. Não se trata de literatura. Portanto, espere uma primeira parte excessivamente explicativa, que serve para informar ao leitor o processo que levou o Dr. Doman e sua equipe às conclusões sobre a capacidade de ler de recém-nascidos.

O mesmo livro, aqui na Itália, possui apenas metade do material da versão original e indica que a leitura deva ser iniciada aos três anos. Foi completamente modificado para que não restasse nenhuma dúvida sobre o momento correto para ensinar a criança a ler. Duvido que alguém da equipe do Dr. Doman tenha autorizado tal mutilação.

Os americanos compram o pé-de-moleque brasileiro, que, para ser consumido na terra do Tio Sam, deve ser ligeiramente salgado. Em troca nos mandaram o Mac Donald, adaptando os sanduíches ao paladar brasileiro (e parece que agradaram!). Para serem degustados pelos italianos, os famosos hambúrguers foram divididos em duas finas camadas, o que lhes permite atingir o ponto bem-passado do hábito local. Sal, nem pensar! Os diversos molhos que normalmente acompanham cada um dos sanduíches sofreram grandes adaptações, com pouquíssima cebola, nenhum alho e pouco condimento. Bem ao gosto do freguês. Como os salários da rede de fast food é o mais baixo da península, os balconistas costumam ser adolescentes na primeira experiência profissional, geralmente gordinhos e gordinhas que tiveram dificuldades em encontrar emprego em outras empresas. Parece um verdadeiro exército de consumidores de katchup com sanduíche, katchup com batata frita e katchup com katchup. Chega a ser cômico a anti-propaganda involuntária dos funcionários.

Nomes estrangeiros são um caso à parte. Para evitar a contaminação da raça e da cultura, Mussolini proibiu os nomes em outras línguas. O hábito permanece até hoje. A família real inglesa é composta pela Rainha Elisabetta, Príncipe Filippo e Príncipe Carlo, o mesmo nome daquele outro estrangeiro famoso, Carlo Marx. Nosso Oscar Mão-santa, do basquete, foi rebatizado como Óscar. E não adianta discutir.

Recentemente li um artigo que jogava areia na pizza italiana. Ela teria sido inventada na Grécia, e não em Nápoles, na Itália. Não tive interesse em aprofundar-me no assunto e jamais comentei a matéria. Até fiz questão de esquecer o nome do historiador que fazia tal afirmação. Seria uma provocação grande demais para um povo que acredita na origem siciliana da laranja, e não no Oriente, como todos os cítricos. É verdade, os italianos são muito bons em adaptar hábitos alimentares de outros povos. Deu certo com as massas e com o tomate. O vinho também não fica atrás, mas começo a perder a isenção para julgar assuntos gastronômicos nessa terra. Conto com a vossa compreensão, mas acho que no caso da pizza eles não suportariam.

A cerca de uns dois anos, o escritor Georges Bourdoukan, atendendo a uma minha solicitação, enviou-me, gentilmente, cópia da matéria intitulada “O Divino Plágio”, publicada pela revista Caros Amigos. Começava assim:

“A Divina Comédia de Dante Alighieri, quem diria, é um plágio. Foram necessários quase seiscentos anos para que isso fosse descoberto e a revelação viesse a público. Talvez este tenha sido o mais longo e fascinante plágio de que se tem notícia. O autor da façanha foi um dos maiores eruditos europeus do fim do século passado e inícios deste, o professor e arabista espanhol Miguel Asin Palácios, cuja obra La Escatologia Musulmana en la Divina Comédia, publicada 1919, despertou enorme inquietação e uma viva polêmica.
E muita indignação dos italianos que tudo fizeram para que ela não fosse editada na Itália.”

Todas as referências em italiano que encontrei sobra a obra, sugerem que ela, na realidade, promove uma comparação entre hábitos muçulmanos e a obra maior da língua italiana.

Músicas estrangeiras que ganham versões antes mesmo que aquelas originais sejam tocadas nas rádios, pratos de outras culturas que se transformam em características regionais locais, obras modificadas para atender às exigências de uma censura prévia coletiva. Tudo isso poderia significar uma tentativa de tapar o sol com a peneira ou de puxar a brasa para a própria sardinha, mas pode, também, significar uma enorme capacidade de adaptar-se e de adaptar tudo ao próprio estilo, num exercício cármico de manter viva e unida uma sociedade que um dia impôs sua vontade ao mundo, na esperança de voltar a fazê-lo.

E vocês, o que acham? Eu confesso não ter opinião formada sobre esse argumento e não sei se isso possa ter alguma importância. Na dúvida, relaxo e gozo.

Ciao.