Wednesday, September 29, 2004

O rosa choca

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Amélia não é um nome que se encontra fácil por estas bandas. Eu não conheci nenhuma, até agora. Abnegação e cumplicidade? Não diria. A mulher italiana está mais para Nelson Rodrigues que para Vinícius de Moraes.

No bar da via del Capitolo, onde costumo tomar o café depois do almoço, as duas balconistas são mulheres, hábito comum na pacata Piacenza. Entre meio-dia e meia e as duas da tarde o bar fica inacessível. Entra-se, pede-se um café (que pode ser acompanhado de uma grappa) e dois minutos depois cede-se o lugar a um dos muitos que aguardam pacientemente a vez. São operários, motoristas e funcionários dos escritórios das diversas empresas vizinhas. Homens e mulheres que dividem não apenas o mesmo balcão, mas também um salário e emprego iguais, pesado ou não. Muitas vezes entram no bar sem os trajes do trabalho, mas basta uma olhada para baixo para descobrir os inconfundíveis sapatos anti-infortúnio de uso obrigatório aos operários.

Falar palavrão e contar detalhes, numa roda de amigos, sobre uma noite quente entre lençóis, não é prerrogativa masculina. O discurso feminista seguiu um rumo próprio desde o primeiro sutiã queimado na península italiana.

Entre os italianos, pesa a imagem da mulher fácil sobre as brasileiras. Inútil tentar esclarecer que onde haja turista, existirá alguém pensando em um modo fácil para convencê-lo a deixar ali todo o dinheiro. De preferência, com a promessa de voltar (com mais dinheiro). Prostitutas têm um olhar acostumado a identificar quem não é do local. E quando uso o termo prostituta, não me refiro somente a quem troca sexo por dinheiro, mas também quem aluga a própria companhia em troca de uma noite agradável, um jantar, uma bebida e outras experiências que normalmente não teria acesso com a mesma facilidade. Sei que é um conceito um pouco vasto, mas temos que nos adaptar às mudanças.

Ouvindo as conversas pelos corredores, entre os amigos ou no bar, permito-me concluir que a mulher italiana é bem mais acessível do que a brasileira. Pelo menos aquela brasileira que não se enquadra no parágrafo anterior. Contribuem para reforçar a falsa imagem, o jeito amável da nossa gente; as prostitutas encontradas nos locais onde os turistas freqüentam; a mensagem que o nosso governo historicamente vende do Brasil turístico, com fotos de paisagens lindas e uma mulata sempre presente (contrastando com cartazes de outros países – como México e Egito – em que aparecem somente as paisagens); a maioria das brasileiras que encontramos por aqui.

Vejo a mulher brasileira como uma batalhadora, alguém que luta pelos próprios sonhos, que defende a união da própria família e sonha com o príncipe encantado. O tal príncipe, na versão italiana, deve ser rico, muito rico. O casamento italiano de hoje é uma convenção. Na Itália, a maior parte das mulheres que permanecem casadas, o fazem por falta de opções. Ou porque ficou caro demais manter uma casa sozinha.

O mesmo linguajar, os mesmos empregos, as mesmas possibilidades, a mesma liberdade. Tudo isso contribuiu para tornar a mulher italiana muito parecida com o homem italiano. Muitas nem chegam a se casar e garantem serem felizes assim. Motoristas, operárias ou faxineiras: todas têm a mesma aparência solitária e independente dos seus pares masculinos. No mesmo bar, o mesmo café, a mesma grappa.

É muito comum o homem italiano fazer programas e viagens desacompanhado. Num pacato vilarejo de montanha, conheço um comerciante que viaja ao Brasil com os amigos uma vez por ano. Todos são casados. Juram que é pelo programa… digamos, geográfico. As respectivas esposas pouco se importam e gozam a liberdade reconquistada. Provavelmente em companhia.

A italiana está descobrindo que não precisa gastar em viagens ao exterior para aproveitar-se do caráter doce e quente dos estrangeiros. Todos os anos uma horda de africanos, sul-americanos e migrantes de outras plagas, aportam nos leitos mornos italianos. Quais serão as conseqüências? Ainda é cedo para decifrar. Ma uma curiosidade começa a chamar a atenção: as mulheres que se rendem à convivência de parceiros de outras raças, procuram adaptar-se ao modo de vida deles. Contrariando a própria família, sociedade e religião. Contradizendo a própria liberdade conquistada com passos de operária, tornando-se submissa ante um marido de cultura menos tolerante.

Vinícius, que viveu em Roma, talvez não encontrasse na Itália de hoje a inspiração para sua obra, melosamente romântica. Nelson Rodrigues, faria a festa!

Ciao.

Saturday, September 25, 2004

Molho de manjericão

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Doure um pouco de cebola bem batida em uma frigideira com azeite de oliva, mexendo sempre. Adicione um pouco de alho, também batido (ou socado). Pimenta do reino e uma pitada de louro em pó. Mas só uma pitada. Quando estiver tudo bem frito, junte um pouco d’água, abaixe o fogo e cubra por alguns minutos. Apague o fogo, adicione um bom punhado de folhas de manjericão e bata tudo no liqüidificador. Sal. Se necessário, corrija com um pouco mais de água, até formar um molho denso. Umas gotas de limão.

Use esse molho para acompanhar carnes grelhadas. Como o verão não chegou e o frio ainda pode incomodar, faça bifes de contra-filé ou picanha na chapa, dentro de casa. Batata cozida ou arroz branco, além de uma salada com muita folha. O vinho? Invente!

Sem sobremesa, só café.

Ciao.

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POST SCRIPTUM

Se você caiu neste post procurando a receita do PESTO, o tradicional molho de manjericão italiano, clique aqui.

Rafael, seu sacana!

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Desde o início deste blog, poucos meses atrás, decidi que não iria escrever nada que não fosse fruto dessa experiência no exterior. A idéia era contar aos amigos as diferenças vividas, assim como as novidades e curiosidades. A minha intenção é desmistificar um pouco a imagem que sempre tivemos sobre o primeiro mundo, que, visto de perto, nem chega a ser tão primeiro mundo assim.

Sentido a necessidade de uma resposta a uma crítica anônima (bem-vinda, repito!), abri uma única exceção uns dois posts abaixo. Aproveitei a oportunidade para criticar quem sai para mendigar elogios anônimos, fazendo comentários em blogs alheios, e deixei claro minha predisposição em aceitar críticas. Como se pode observar, o post está entre parênteses. Trata-se de um hiato, uma anomalia que esperava não repetir.

Acontece que um certo senhor Rafael Galvão não resistiu à tentação de me provocar e escreveu um post elogioso no blog dele (procurem! Vocês irão encontrar um link nesta página). É óbvio que ele foi muito diplomático e evitou comentar a gramática nem sempre correta, ou a falta de uma técnica mais apurada para envolver o leitor, ou o domínio rudimentar no desenvolvimento de uma idéia, que qualquer cursinho de literatura e a ESPM ensinam na primeira semana de aula. Foi pura provocação! Eu critiquei quem vem só para elogiar e ele elogiou.

É um sacana por dois motivos: Primeiro, porque ele tornou-se um amigo e tem toda a liberdade de expressar-se como quiser. Na maioria das vezes me envia dicas e respostas por e-mail. Não preciso esclarecer que ele tem um texto limpo e envolvente, além de um humor afiado como o de Machado de Assis. Outros já o disseram e ele conhece a própria competência. Assim, fica o recado: Rafael, fim da rasgação de seda! Segundo: porque não é justo! Outros amigos já me fizeram elogios e eu preferi calar, respondendo e agradecendo nos respectivos comentários, justamente para evitar fugir da proposta deste blog e para evitar o ping-pong elogioso.

Pois bem: Milton Ribeiro foi o primeiro a dedicar uma palavra de incentivo a este blog. E olha que o Milton é dos grandes, outro que não precisa de elogios! O amigo Reginaldo, do Singrando (aquele, com uma visão crítica do cotidiano), também foi muito gentil numa referência que guardo com certo mimo. Depois teve a Ângela, a Cobra do Cobra, Jacaré e Elefante (um texto leve e intimista), que indicou aos próprios leitores o link para as minhas cartas. Cedo ou tarde ela irá se encher de ver o link do blog dela no multiply apenas como Ângela e irá me informar que sobrenome adicionar. Teve o Cláudio, que creio ser um psicólogo, do Pras Cabeças, com outra referência inesperada e estimulante. A Leila, uma escritora de primeiríssima, a ser acompanhada no Cadernos da Bélgica (vão lá conferir!) também deixou-me constrangido pela recomendação. Mas não poderia deixar de citar o Manoel Carlos, do Agreste, um dos blogs mais divertidos que freqüento, e que acredita que eu seja pernambucano. Talvez o seja, mas meus pais negam. O André, do Marmota, outro que contribui para a difusão dos anti-dogmas que assolam a mesmice da nossa sociedade internauta. A colega de desventuras expatriadas Simone, do Lá Longe, uma das poucas a entender a briga com duas línguas (às vezes muito similares), teclados sem acentos e corretores de textos em italiano. A Nora, do Língua de Mariposa, é outra leitura obrigatória, que retribui sempre de forma carinhosa e participativa. Quem mais? Esqueci de você? Escreva-me. Reclame! Depois do Rafael ter-me obrigado a quebrar uma minha regra, prometo abrir outra exceção para você também, além do outro parênteses que estou preparando para o Aldo Pereira. Aguarde!

Viram? Não gosto de elogios e o Rafael me fez elogiar. É ou não é um sacana?

Ciao.

Thursday, September 23, 2004

Arquitetura

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Os dias 29, 30 e 31 de janeiro, na Itália, são chamados i giorni della merla (os dias da merla). A merla é a fêmea do melro (merlo, em italiano), um pássaro preto comum por esses ares.

Conta a lenda, que quando os melros ainda eram brancos, sofriam muito com o rigor do inverno neste período. Os três últimos dias de janeiro costumam ser os mais frios do ano. Assim, nestes dias a fêmea do melro passou a fazer o seu ninho nas chaminés, quando estas foram inventadas. Com a fuligem os melros e os seus filhotes ficaram pretos.

Uma chaminé pode ser um detalhe na arquitetura de uma casa. Mas, como todo os outros detalhes em arquitetura, tem uma função específica. As chaminés nos centros das cidades na nossa região diminuíram com o tempo. Nas capitais de províncias e na maioria das cidades italianas é proibido a queima de madeira para o aquecimento das casas. Usa-se o aquecimento a gaz ou outros combustíveis fornecidos pelo concessionário público local. Lenha, só para as consideradas casas de campo ou em algumas periferias. As atuais chaminés servem somente para dispersar o vapor e os gases do aquecedor de água.

Um amigo italiano lamentou não ter reconhecido a pequena cidade no Paraná, vinte anos depois de ter passado três meses por lá. A cidade chamava-se Londrina. Inútil tentar explicar-lhe que temos muito pouco a preservar. Nem me atrevi a contar-lhe que a Rua Henrique Schaumman, em são Paulo (que ele conheceu num mês de trabalho, ano passado), era uma rua que ligava o nada a lugar nenhum, quando eu morava em Sampa. E que a vi crescer e desenvolver-se comercialmente com a habitual pressa paulista. E que depois de muito conhaque, chope e fritas, a vi entrar em decadência, por pouco não me arrastando junto. Até virar uma pequena mas importante ligação entre bairros. Como tantas outras ruas que fizeram parte de algum período do meu humilde mas divertido exercício de sobrevivência naquela cidade.

A realidade é que as cidades italianas não mudam, ou mudam pouco. Os centros históricos são protegidos pelas leis de conservação do patrimônio histórico e não podem ser modificados. As casas são reformadas por dentro, mas a fachada e até as telhas devem ser preservadas.

A cidade é usada como referência da história pessoal de cada um. As casas onde habitaram os avós, os pais e onde habitarão os filhos, são as mesmas e, provavelmente, sobreviverão à história de outras gerações que, espera-se, virão. Às vezes, já com trezentos, quinhentos anos de construção.

Observando bem, é possível reconhecer as diversas invasões e colonizações das cidades italianas. O estilo de cada prédio revela a época de construção e as eventuais misturas de estilo informam sobre os restauros efetuados, assim como as datas aproximadas e as utilidades de tais modificações.

Piacenza, a cidade onde moramos, era um acampamento romano, fundado em 31 de Maio de 218 a.C. e usado como a primeira base militar para a expansão do Império Romano rumo ao norte, contra os longobardos. Construída às margens do Rio Po, era protegida por altos muros, com alguns trechos ainda hoje intactos. Suas ruas foram detalhadamente planejadas, de modo a facilitar a movimentação de tropas em momentos de necessidade. Pena que tenham sido projetadas para a passagem de bigas e carroças. As ruas do centro são muito estreitas.

Foi, também, a cidade de onde partiu a primeira cruzada e o local onde se enterravam os corpos dos escravos romanos. Toda a sua história está impressa na sua arquitetura e toda a sua arquitetura reflete o resíduo cultural desses mais de dois mil anos.

A geografia de uma casa reflete, também, o modus vivendi dos seus habitantes. E aqui surge uma curiosidade: somente a partir de 2000, uma lei obriga aos proprietários de casas acima de determinada metragem à construção de um segundo banheiro. Encontram-se pouquíssimas casas de um, dois ou três quartos com mais de um banheiro. Muitos tentaram convencer-me que o custo de construção de um banheiro é muito alto, ou que o aquecimento de muitos cômodos torna-se complicado no inverno, além de custoso. Em vão, até porque, as casas antigas também estão nesta situação. Realmente não consigo entender como um povo que passa tanto tempo em torno da mesa, possa dar tão pouca importância ao banheiro.

Assim como o merlo que mudou de cor, (pássaro que no Brasil chama-se graúna ou pássaro-preto) vamos nos adaptando e aprendendo a não usar o banheiro da casa dos outros. Salvo emergências.


Ciao.

Tuesday, September 21, 2004

Criticando

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Abre parênteses. No meu último post comecei escrevendo: “quando havia cinco anos…” Um comentário pegou-me de surpresa, criticando a forma usada. A surpresa não foi a crítica (bem-vinda), mas a forma por mim escolhida. Poderia (deveria!) ter escrito “quando tinha cinco anos…” e não o fiz. Confesso não editar o que escrevo, por falta de vontade e tempo. Aliás, evito reler o que escrevo, mas eu não sou um profissional e isso não causa constrangimento a ninguém, a não ser em mim mesmo. Como consequência, o texto ficou pedante. Ocorre que morando em outro país, falando a língua local todos os dias, ouvindo rádio, vendo tv, lendo jornais, revistas e livros em uma língua às vezes muito próxima ao português, corre-se o risco de perder o contato com a própria língua. E aí os equívocos são inevitáveis. A Simone, do Lá Longe (link à direita), já escreveu sobre esse mal.

Algumas coisas despertam a minha curiosidade nesse ainda misterioso mundo dos blogs. Uma delas é um certo beija-mão recíproco, numa atitude que pode ultrapassar a linha da hipocrisia. Quando tenho tempo, visito muitos outros blogs. E me divirto muito lendo os comentários: “puxa, como você escreve bem!” ou “muuuuito interessante esse teu blog! Vou voltar sempre.” Releio o texto para me certificar e mudo de blog. Esse comportamento já foi criticado pelo Reginaldo, do Singrando (link à direita), onde ele sugeria menos confete e mais substância. Na verdade isso não ocorre entre os profissionais da área, mas entre aqueles que esperam a retribuição da visita e, quem sabe, um link pela simpatia demonstrada.

Proponho a criação de um crítico para os eventuais arrependimentos a quem exagera nos elogios. Funcionaria assim: o sujeito lê o post do blog visitado, faz os elogios que quiser, assina com o próprio nome e fica esperando a retribuição. No dia seguinte volta, faz uma crítica honesta e assina “Críticando Blog”, e-mail: criticandoblog@hotmail.com, site: http://criticandoblog.com. Pronto! Ninguém vai saber quem criticou. Só não vale cometer a deselegância de assinar com outro nome. No primeiro post deste blog, alguém assinou como Stephen Kanitz. Não só não levei a sério, como não achei engraçado. Que comente como anônimo!

Quem se arrisca a escrever em um blog, espera pelas críticas. Ou retira a possibilidade dos comentários. Existem os que escrevem para si e os que escrevem para os outros, mas todos se expõem às críticas. Textos limpos como os do Rafael Galvão e do Milton Ribeiro (links à direita) demonstram profissionalidade irretocável e é difícil criticá-los. Mas há quem se utilize dessa interatividade que o mundo dos blogs oferece para localizar um público-alvo e adequar o próprio texto. É o caso do Alexandre, do Liberal, Libertário, Libertino (link à direita), que, numa atitude saudável (além de inovadora jogada de marketing) estimula os leitores a contribuírem às mudanças do seu livro, ou mais recentemente, de um conto.

Críticas são bem-vindas. De forma anônima ou não. Elogios exagerados serão sempre desconsiderados. Eu não escrevo profissionalmente e não dependo da qualidade do que escrevo para sobreviver. Eu sequer aprendi a inserir o link no texto (por absoluta falta de tempo, juro!), por isso, links à direita. E façam como eu, quando visito um blog alheio: escolham um dos links por dia e visitem os blogs ao lado. Vocês irão descobrir pérolas que não necessitam de elogios! Fecha parênteses.

Ciao.

Thursday, September 16, 2004

Memória Gastronômica

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Quando havia cinco anos tive desidratação. Penso nisso e sinto na boca o gosto do soro que precisei tomar por três meses, na casa em Petrópolis e nas férias em Itacuruçá, ambas no Estado do Rio de Janeiro. É como se tivesse acabado de tomar o tal soro.

Em Copacabana, no Rio, a lanchonete Gordon fazia um sanduíche com molho ao curry chamado submarino. Anos depois, conheci o “Angu do Gomes” servido por ambulantes à noite. O meu preferido é o da Praça do Lido, no Leme (espero que ainda exista). Ou o cachorro quente com mate gelado na praia do Posto Cinco, em Copacabana.

Em São Paulo: Na cidade de Embu, o camarão de capote da Laura ou o strudel de maçã do Cláudio, aos domingos. Em Assis, as esfihas do Cedro do Líbano, o filé do Tatu e o churrasco do Júlio. Antes de chegar, uma parada no Rodoserv da Castelo, para deliciar-se com o misto quente deles. Em Sampa, a sopa de cebola do Ceasa (ainda tem?); o bauru do Ponto Chic, na Praça da República; o churrasquinho do bar das putas, na Consolação (25 anos atrás, antes de virar atração turística); a catuaba do Bar do Cosme, o Profeta; o fetuccini ao molho de quatro queijos do Elio’s da Alameda Santos e a pizza do Camelo, na Rua Pamplona.

Bahia: ensopado de camarão do Mar Aberto, em Arembepe; Acarajé da Cira, em Itapoã; o filé au poivre e o macarrão do Giancarlo; carangueijo do Bar Buxixo; pitú no vapor em Itacimirim; carne de sol com manteiga de garrafa, pirão de leite e feijão de corda do Lua Nova em Portão; vaca atolada do Bar do Jorge, em Eunápolis; carne de bode de qualquer botequim de Bonfim; vermelho no sal grosso da barraca Doce Mar, em Canavieiras e o beiju feito na hora em Villas do Atlântico.

A relação, na verdade, é muito maior. Sou capaz de lembrar cada fase da minha vida ou os muitos lugares onde morei, recordando-me somente dos sabores ou aromas, como o delicioso perfume dos doces da casa do Cláudio (do strudel) na época do natal.

O meu peso histórico era 68 quilos. A Partir da cervejaria em Salvador, passei a 82 e consegui reduzir para 74. Hoje, na sabedoria dos meus atuais 83 quilos, posso afirmar que é muito complicado fazer regime nessa terra, com o enorme espaço livre na minha memória gastronômica a ser preenchido e tantas novas oportunidades que se oferecem a cada dia. Não posso relegar a minha formação, mas também não devo ceder aos prazeres da carne, ou do culatello de Zibello, da Locanda dei Falconieri em Catel’Arquatto, mas o sacrifício é grande.

Quem decide fazer regime, deve evitar a Itália, ou mudar de país: é entrada, primeiro prato, salames, prato principal, queijos e sobremesa. Só uma coisa: eles comem tudo separado. Diante de um prato com feijão, arroz, carne e legumes, entram em pânico e se sentem inseguros. Alguns choram.

Um amigo convidou-me para almoçar à casa dele. Tinham cinco primeiros pratos. Quando chegou o prato principal eu mostrava o relógio, para fazê-lo entender que deveríamos voltar ao trabalho. Em vão.

A única coisa que eles não sabem fazer é café da manhã: café preto e brioches! Não adianta insistir.

Quando chegamos aqui, decidimos fazer um curso prático de enologia. É assim: você sai comprando uma garrafa de cada vinho, prova e vai anotando os melhores. Na casa dos amigos vai aprendendo o vinho correto para cada ocasião, que eles são bons nisso. Em casa, repete as situações com os vinhos escolhidos por você. Se embriaga e na semana seguinte começa tudo de novo. É simples!

Perto de casa tem um bar onde aprendi a tomar o café deles. O balconista tem uma mistura especial, um ponto estudado da torrefação e moído duas vezes. Você chega e pede: corto, normale ou lungo. Normalmente peço lungo, pois mesmo o normale é muito forte para os meus padrões cariocas. Mas quando vou fumar meu charuto, peço corto: são 10 ou 15 ml de café. Pouco mais que uma sujeira na xícara, mas é outra bebida!

Tem também um sorveteiro napolitano que já ocupa o lugar dele nos meus registros, mas esse merece um capítulo à parte.


Ciao.


PS – Como se não bastasse a implicância com o meu tosco português, agora tem quem me corrija também em italiano
Comunque, Grazie!

Sunday, September 12, 2004

Doze de Setembro

Caros e Caras,
Paz e saúde!

São sete horas do dia doze de setembro de 2004. Ligo o computador e abro a janela. Lá fora, o sol mostra a sua presença em dois pedaços de céu amarelo. À minha esquerda as nuvens cobrem tudo, filtrando uma luz amarela e cinzenta. Dois carros passam sobre o asfalto novo, repintado com faixas brancas e amarelas e a palavra “BUS” bem embaixo da minha janela. Do outro lado da rua, a porta da igreja de Santa Clara continua fechada. Dentro dela, o padre ancião que viveu no Brasil ainda não se levantou: é domingo! Certa vez ele contou que foi voltou à sua Piacenza como prêmio pelo trabalho realizado em comunidades carentes, mas, sem família, preferiria ter permanecido no Brasil e continuar a sentir-se útil. Foi esquecido nessa igreja. Todos os dias abre a porta às seis, toca os sinos para a missa das onze (ou será a missa das dez?), reza as missas aos outros anciães da vizinhança e fecha a porta da igreja. Fecha a si próprio na igreja.

Ontem, em toda a Europa houve comemorações e passeatas em memória às vítimas de onze de setembro de 2001. Os políticos não perderam a ocasião. A televisão, também não. Em algum lugar nas minhas estantes atulhadas de livros, revistas e material escolar das meninas, perdeu-se a edição especial da revista Diario, que foi inteiramente dedicada a Enzo Baldoni, o jornalista italiano morto pelos terroristas no Iraque. Nessa edição, um texto do próprio Baldoni, dava instruções bem-humoradas sobre como se comportar “se” ocorresse dele morrer. As fotos do massacre das crianças em Beslan, na Rússia começam a desaparecer, sob milhares de outras imagens mais recentes: o vídeo de Al Zawari (o número dois de Al Qaeda); os jornalistas franceses seqüestrados em Bagdad; o início do campeonato de futebol; o lançamento do Frenheit 9/11, do Michael Moore; o Festival de Veneza; a devastação provocada pelo Ivan na Jamaica; o gibí da Mônica, que acaba de ser lançado na Itália; as notícias do seqüestro das duas italianas que trabalhavam em uma entidade filantrópica em Bagdad, presente no Iraque desde 1991.

O cheiro do café inunda a sala, tornando a pausa obrigatória. O ar frio que entra pela janela, ainda aberta, contrasta com o calor da xícara, apesar dos vinte graus. Recebo um beijo pelas costas, com cheiro de pasta de dente. Logo, as meninas também levantam e fica impossível continuar a escrever.

Saímos para visitar a Pulcheria, evento que reúne diversas artesãs, italianas e não, que acontece na Piazza Cavalli. Café e brioches. Piazza Duomo, Festa Del Dom. Exposição de artistas locais em harmonia com a festa religiosa. Um desfile de cavalos me faz recordar a imensa tropa que saía todos os anos da cidade de Embu, em romaria a Pirapora. Na via Vinte de Setembro – rua comercial do centro – observamos as pequenas lojas que ocupam a lateral da igreja da Piazza Cavalli (com tanta igreja nessa terra, não lembro o nome de todas). Lojas diminutas, espremidas entre a parede lateral, nos antigos arcos da igreja e a rua. Ponto chic e caro da cidade, o aluguel ali deve custar uma fortuna. Quem será o proprietário?

Festa della Gioventù, no Passeio Público, a cinqüenta metros de casa; Pulcheria; Festa Del Dom; Festa di Sant’Agnese, a única quermesse que ainda ocorre na cidade, com pratos típicos, baile e vinhos regionais; Festa Campestre, no lado externo dos antigos muros que defendiam a cidade; a visita do presidente Carlo Ciampi, prevista para o dia quinze. Tanto acontecimento no mesmo mês, e a poucos dias do aniversário da Bianca (doze anos!) a faz sentir-se mais importante do que é (ao menos para nós).

A chuva fina que nos acompanhou por todo o passeio não chegou a atrapalhar, mas o vazio da rua nos permite uma observação mais calma. A manchete do jornal local anuncia que sete pessoas foram denunciadas por dirigir sob estado de embriaguez. Crianças de até três anos que ainda são levadas pelos pais em carrinhos para bebês. Garotos acima do peso que reclamam cansaço pela caminhada e olham com inveja os carrinhos de bebês. Vitrines anunciando os últimos dias da liqüidação de verão oferecendo roupas a preços realmente baixos. Peças que irão encalhar, pois o interesse, agora, é pelas roupas mais quentes e menos coloridas.

O prato de massa acompanhado de uma garrafa de Nero D’Avola conforta o estômago e a alma.

Nenhuma notícia sobre atentados no dia de ontem. Nada que mereça destaque superior aos motoristas bêbados. As pessoas participam das caminhadas pela paz e correm para casa para se verem na televisão. O sentimento de dever cumprido se soma à esperança de que a manifestação possa surtir efeito nos donos das guerras. As passeatas têm destaque menor nos jornais, de segunda página. A vida parece correr normal e quase monótona. Piacenza é um hiato de tranqüilidade nesse mundo de caos. O clima fresco e chuvoso contribui para a sensação de calma. O vinho, também. Mas a palavra paz, hoje, me oferece um conceito de difícil compreensão.

Ciao.

Thursday, September 09, 2004

Italiano dedo-duro

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Às vezes, aquilo que parecia moda acaba resistindo e torna-se parte da cultura de uma sociedade. Um velho tema que se recicla, tornando-se cada vez mais atual, o personagem Big Brother do livro 1984 de G. Orwell, é um desses casos. No país de Dante e do macarrão as pessoas se sentem vigiadas vinte e quatro horas por dia. Não é à toa que, segundo uma pesquisa publicada na revista Panorama, o italiano é o povo mais triste da Comunidade Européia. Assustados? Imaginem um país onde as pessoas tentam provar a própria superioridade culinária sobre a França e Espanha; ou cultural contra a mesma França e Inglaterra; histórica contra a Grécia; industrial contra a Alemanha; tecnológica e econômica contra França, Inglaterra e Alemanha. É um exercício de auto-convencimento tão inútil quanto angustiante como discutir as qualidades do azul sobre o verde. A mesma pesquisa levantou que 70% dos italianos gostariam de viver em outro lugar (avisem o Lula, o Brasil é a meta preferida).

Retomando o Big Brother. O sujeito vai até a loja comprar uma tv, um rádio, uma filmadora, uma antena, um DVD ou um simples par de caixas acústicas. Qualquer coisa relacionada a um aparelho de televisão ou a um rádio. O balconista preenche a nota fiscal com os dados pessoais do comprador, incluindo o endereço e envia uma cópia ao Departamento de Entradas ($) que verifica se o comprador paga a assinatura da RAI (a Tv do estado). O mesmo vale para vencedores de prêmios anunciados pela Tv e rádio. O pagamento da assinatura da RAI é obrigatório para quem possui ao menos uma televisão ou um rádio, apesar de ser uma emissora de sinal aberto, ter a programação mais decadente e ser tão comercial quanto as outras.

Conseguiu driblar a compra na loja indicando nomes e endereços falsos? Não se preocupe, você será denunciado pelo colega de trabalho invejoso, pela cunhada ou pelo primo chato. Isso no caso de ser morador antigo, pois caso tenha acabado de se mudar, a denúncia será feita pela vizinha do andar de cima, aquela senhora simpática que mora sozinha e que acaba de substituir os binóculos velhos por um modelo mais eficiente. Em breve você estará recebendo a intimação acompanhada do devido recibo anual. E pague! Caso contrário a polícia virá verificar as provas e a coisa será pior.

A mesma vizinha (a do andar de cima) não hesitará em chamar o Telefone Azul, caso escute ou imagine mau tratamento às crianças. Isso inclui deixá-las sozinhas em casa para ir ao mercado. Diante de uma denúncia de mau tratamento, a polícia primeiro leva as crianças a uma instituição e os pais à delegacia, depois investiga a situação.

Comprou um carro muito mais caro do que permitiria o seu orçamento doméstico (apesar das imensas facilidades de pagamento)? Começou a fazer extravagâncias que demonstrem enriquecimento repentino? Logo, logo a Guardia di Finanza estará visitando você, atendendo a diversas denúncias. Não ofereça cafezinho: eles não só não aceitam como também não entendem nada de gentilezas.

Esqueceu-se de fazer o cadastro na empresa de saneamento urbano para a coleta do lixo? – luz, água, gás e telefone só tem quem paga – eles (a empresa) e os vizinhos não. Um dia você irá receber a conta.

O programa Striscia la Notizia é a atração campeã de audiência da Tv italiana (mais de 40%). Apresentado em forma de noticiário satírico no horário nobre, logo após o jornal das oito, os apresentadores mostram as gafes cometidas em todas as emissoras, sacaneiam o patrão e primeiro-ministro Silvio Berlusconi, (na realidade acredito ser uma estratégia para manter a credibilidade do programa) e promovem a entrega do troféu “Anta de Ouro” aos mais merecedores. Sempre com um venenoso sarcasmo, fazem denúncias e mostram abusos de todo tipo: Certa vez localizaram um aeroporto e entrevistaram as pessoas que trabalham no local desde a inauguração, há quatro anos. A médica, o responsável do Departamento de Aviação Civil, o rapaz que trabalha no bar, policiais que fazem a segurança (de metralhadora e tudo) e que impediram à equipe de filmagem o acesso à sala de embarque, e outros funcionários. Tudo isso não seria engraçado de forma ridícula e assombrosa se não por um detalhe: passageiros e voos só a muitos quilômetros dali! (!!!!!) Não houve sequer o vôo inaugural. Tudo muito limpo e cuidado; a pista de pouso toda equipada; torre de controle; música ambiente. Tudo absolutamente vazio. O rapaz do bar informou que o único trabalho é tirar o pó. Com um rosto inexpressivo, continuava a repetir: “São dezenove cafés e dois copos de leite por dia. O leite, tomo eu…”

Outra coisa que impressiona é a capacidade de investigação da polícia italiana. Através de um fio de cabelo encontrado no carro usado pelos assassinos de um político e de uma bituca de cigarro numa rua de Roma meses depois, identificaram e prenderam os principais líderes das Brigadas Vermelhas. Conseguem localizar criminosos que tenham cometido o deslize de usar cartões telefônicos (o celular seria burrice demais). Através do código eletrônico do cartão, é possível identificar todas as chamadas efetuadas.

Câmeras filmando as ruas; todos os dados pessoais sendo cruzados e averiguados; depósitos bancários acima de certo valor que necessitam de justificativa. Balconistas, jornalistas, a vizinha e a cunhada. O espírito orwelliano saiu da moda para entrar na tradição. A invenção do tal micro chip localizador para ser implantado na pele é somente uma tentativa de baratear os custos.

…E esse povo sonha ir morar no Brasil.
Avisem ao Lula!

Ciao.

Sunday, September 05, 2004

Nos passos de Napoleão

Caros e Caras,
Paz e saúde!

Giuseppe Verdi nasceu em 1813 aqui perto, na província de Parma. Oferecer uma obra sua como fundo musical para a chegada de Napoleão em Piacenza, alguns anos antes, seria improvável. Mas, imaginem o segundo ato da cena dois da ópera Aida (Marcia trionfale e Coro) ecoando dentro da Igreja de Santo Agostinho. Uma igreja imponente e austera, com três enormes arcanjos de pedra sobre o teto da igreja anunciando aos homens de fé cristã, a própria fé. O conquistador abre as imensas portas e entra a cavalo com o alto comando de suas tropas, transformando a igreja em quartel-general da operação militar em Piacenza. Esse foi o motivo da dessacralização da igreja.

A duzentos metros de casa, a igreja de Santo Agostinho abriga, hoje, diversas exposições e mostras. Feiras de decoração, relógios, antiguidades e, vez ou outra, exposição das obras de algum famoso. A história continua viva nas suas paredes. Mas com tanta história espalhada por tantas paredes neste país, a igreja acaba sendo uma construção a mais, que se abre de vez em quando para algum evento.

Mudo a música. Verdi é pouco adequado para umas férias na praia. Menos ainda para um casal com duas filhas de doze e nove anos, ávidos por reviver um clima usufruído por anos em Salvador. Falta o acarajé, a simpatia e cordialidade da gente, a geografia conhecida e uma cerveja estupidamente gelada, mas a brisa e o sal na água são idênticos.

Viajar pela Toscana é uma experiência marcante. Mistura de montanha e campo (roça mesmo!). Túneis curtos e menos curtos. Vinhedos que se misturam com pequenos vilarejos e restaurantes a serem descobertos. Estradas que cortam os Apeninos tosco-emiliano. Estradas sem retorno, que obrigam a um planejamento antecipado do percurso, ou a mudança do roteiro das férias no meio do caminho.

Os sardos são pastores famosos. Pastores de ovelhas. Quando devem reunir os animais, esquecem a tradicional passividade e movem os braços com energia, girando em torno do rebanho emitindo gritos característicos (aiôô…). A balsa que nos leva à Ilha d’Elba é de uma empresa sarda, assim como todos os funcionários que nela trabalham. Para acomodar o universo de carros nos três andares da embarcação, os sardos gritam, pastoreando os motoristas dentro dos corredores. Aiôô…! Uêuê...!

Em 1814, após a derrota pela retirada da desastrosa campanha na Rússia, foi assinado um acordo entre Napoleão, a Rússia, a Prússia e a Áustria, no qual o imperador abdicava ao trono francês e aceitava o exílio em Isola D’Elba. À época dos etruscos, a ilha fornecia o ferro das suas minas abundantes. Depois passou a produzir, também, azeite e vinho de qualidade. Hoje, as minas estão fechadas, a produção de azeite diminuiu, mas o vinho mantém a boa qualidade.

Na ilha, a chamada “Costa dos Etruscos” tem como ponto principal a localidade de Porto Azzurro, que obriga visitantes e moradores em movimento pela ilha, a um percurso de cinema, com a estrada nas encostas dos morros e rochas, provocando vertigens ao olhar o vizinho mar. Marina di Campo é a parte mais aconchegante da ilha. Restaurantes, bares, lojas e adegas. Próximo à sede da empresa elbana Locman (aquela dos relógios coloridos) descobrimos um quarto. Um quarto mesmo! Bem no centro, em frente à Locman, há um imóvel (com número e tudo!) que se resume a um quarto com banheiro, beliche em alvenaria e uma mesa. Tudo em uma área de uns seis metros quadrados.

Porto Ferraio é o maior centro urbano da ilha, além de ponto de chegada e partida das balsas. Do alto do Forte dos Médicis é possível ter uma visão de todo o golfo onde se situa Porto Ferraio. Uma visita ao centro e aos vilarejos que circundam a cidade é um surpreendente programa de horas. Ou anos. Marciana Marina conclui o roteiro das maiores cidades visitadas, do lado oposto à Marina di Campo.

Em San Benedetto del Tronto fala-se checo, além do italiano, nos restaurantes, hotéis e lojas. Na Ilha d’Elba a prefeitura oferece cursos de alemão. Graças à facilidade de comunicação e a um eficiente trabalho junto às agências de turismo na Alemanha, a ilha se enche de alemães de junho a setembro. Mas, também holandeses, suecos, poloneses e outros europeus do norte.

Os alemães, com seus quilos a mais e suas enormes sandálias, provocam pegadas na areia que parecem difíceis de desaparecer sob as ondas. Os escandinavos são discretos e elegantes. Os poloneses, ruidosos. E os holandeses simpáticos e divertidos, colorindo as praias com suas camisetas e bonés cor laranja. No meio dessa confusão de línguas e culturas, os italianos vão estendendo toalhas e esteiras no espaço entre os banhistas que encontram. Apesar do pequeno congestionamento, uma semana em Isola D’Elba, com suas areias de diversas texturas, suas águas cristalinas, a geografia que se alterna em (quase) montanha, campo e mar, a brisa constante e um vinho de qualidade, nos faz relaxar e nos dá a energia para recomeçar.

Se Napoleão tivesse vencido sua última batalha, creio que os três arcanjos sobre a igreja de Santo Agostinho estariam anunciando outra coisa, e não os eventos culturais da cidade. Provavelmente ele teria voltado para as férias de verão na ilha e não seriam os sardos a conduzir as balsas. Mas creio que ele teria dificuldades para entender o alemão que se fala por lá. Aiôô…

Ciao.

Wednesday, September 01, 2004

Itália de papel

Caros e Caras,
Paz e saúde!

A Itália tem uma torre torta; tem ruínas de mais de dois mil anos; tem vulcões; tem praias e uma geografia muito interessante; tem neve. E tem, também, coisas que ninguém vê. Por exemplo: tem vacas. Não tem palmeiras nem sabiá, mas tem uma floresta maior que a nossa Amazônica. E antes de questionar minha sanidade ou de sugerir que fiz uso de qualquer substância mais forte além do meu Cuaba cubano ou minha Schwaben Bräu alemã (charuto e cerveja, respectivamente – chique, não?) é bom arranjar uma explicação que me convença da existência de um outro modo para produzir tanto papel assim.

O prefeito estabelece o rodízio de placas para a circulação de veículos: envia para cada residência uma correspondência de quatro folhas de papel, fora o envelope. Faz o balanço anual da administração ou desenvolve um novo serviço: carta! Informa o dia em que poderão ser acessos os aquecedores no meio do outono: outra carta! A escola informa o calendário de aulas ou qualquer outra atividade; o serviço que administra o refeitório das escolas comunica valores e manda o carnê de pagamentos; o serviço de saúde lembra a data da próxima vacinação infantil. São sempre, no mínimo, duas folhas de papel.

O jornal Il Corriere Della Sera custa € 0,90. Às quintas, vem com uma revista generalista; às sextas, com Il Mondo, semanário de economia; aos sábados, com a revista feminina Io Donna; duas vezes por mês, sai com Casa Amica. Tudo por € 1,20. Os outros jornais, para não ficarem atrás da concorrência, fazem ofertas parecidas.

O sujeito que muda de empresa precisa levar um atestado de família, fornecido pela prefeitura, que confirma seu endereço e a formação do núcleo familiar; fotos; fotocópia dos documentos (para os estrangeiros, fotocópia da autorização de permanência no país) e do título de estudo, se houver; atestado de saúde; uma autorização de tratamento dos dados pessoais pela empresa (obrigatório por lei); carteira de trabalho e a receita de um doce típico. Leva pra casa o contrato de trabalho (a carteira profissional fica na empresa) e um punhado de papel informando sobre a privacidade da empresa e do funcionário, segurança no trabalho e diversos informes sobre o funcionamento e regras do novo emprego.

Todos os dias as ruas ficam repletas de sacos plásticos roxos. Veículos especiais recolhem os sacos padronizados de cem litros com material para serem reciclados. Mais de noventa por cento é papel. Não existem catadores, como estamos acostumados a ver pelas ruas das nossas cidades. Toda quinta-feira e segunda-feira coloco cinco sacos cheios de papel para recolhimento e descobro que sou o único a respeitar dias e horários da coleta, que, na minha rua, ocorre às segundas e quintas, das oito às nove e meia da noite. Os sacos devem ser deixados ao lado (e não dentro) dos containers, pois esses são utilizados para o lixo comum e têm coleta diária.

Cena profissional: há alguns anos, quando trabalhava na Brahma, na Bahia, durante uma reunião alguém comentou: “Quando os arqueólogos vierem estudar nossa civilização, daqui a uns quinhentos anos e descobrirem a nossa fábrica, chegarão à conclusão de que éramos uma fábrica de papel, onde os funcionários gostavam muito de cerveja.” A gramática da frase pode ser questionada, mas a conclusão não seria assim tão equivocada. Pois bem! A quantidade de papel que produzíamos à época é como um lenço de papel numa oficina de jornal, se comparada com qualquer empresa italiana: a mercadoria chegou acompanhada de um documento de transporte (quatro vias), a nota fiscal (outras quatro), a fatura (duas vias) e uma correspondência confirmando o recebimento dos documentos, que deveria ser preenchida e devolvida pelo correio. Às vezes, depois de confirmar o recebimento da confirmação do cliente, e este confirmar a confirmação da confirmação do recebimento… (viu?) perde-se a referência e, ocasionalmente, o cliente.

Fax, e-mails e telefonemas não substituem as cartas. Existem, sim, empresas que fazem pedidos por telefone, têm na nota fiscal o único documento para oferecer ao cliente e evitam até mesmo o simples cartão de visitas. Mas tais companhias são mal vistas pelas administradoras de material reciclado.

Recentemente tive todos os documentos perdidos (na realidade roubaram minha carteira, numa parada para um café na estrada, mas a raiva e a insignificância do fato me impedem de entrar em detalhes). Registrei a ocorrência e tirei diversas cópias. Fui à Prefeitura, deixei uma Fotocópia da Ocorrência (FO) e tirei uma segunda via da carteira de identidade; fui aos Carabinieri (Polícia Militar), entreguei uma FO e solicitei a segunda via da habilitação. O funcionário registrou minha solicitação e mandou-me ao Detran (o caminho é esse! Não se pode ir ao Detran sem ter ido antes ao quartel dos Carabinieri); fui ao Detran, deixei lá uma FO e eles me forneceram duas folhas de papel, informando minha situação. A habilitação chegará pelo correio; voltei aos Carabinieri, que fizeram uma fotocópia dos documentos do Detran (que devo apresentar na eventualidade de uma blitz de trânsito) e me forneceram uma autorização para dirigir, enquanto não chegava a habilitação; fui ao escritório do Ministério das Finanças: outra FO entregue, em troca de uma outra folha de papel que substitui o CPF italiano. O original chegará pelo correio; na empresa, tive que deixar outra FO. Banco e administradora de cartão de crédito, idem. Hoje, caminho pela rua com duas valises: uma com toda a papelada que substitui meus documentos, outra, com Fotocópias da Ocorrência (FOs).

Jornais, livros, revistas, correspondências, folhetos de supermercados, de teatros, da loja de produtos para animais, fotocópias, embalagens, comunicados diversos e documentos: papel, papel e mais papel. A minha preocupação é que a cada reciclagem a quantidade de papel se reduz. Cedo ou tarde eles irão necessitar de outras florestas!

Ciao.