Caros e Caras,
Paz e saúde!
Quando Marco Pólo trouxe a novidade do macarrão, da China para a Itália, certamente não esperava que aquela novidade fizesse tanto sucesso. Os italianos estavam habituados a comer porcos, peixes, javalís e outras caças; frutas, pão e vegetais. Até a cenoura precisou de uma boa ajuda para convencer e ser consumida, quando todos acreditavam-na venenosa.
Tempos depois, os europeus trouxeram outras iguarias das longínquas Américas, entre elas, batatas e tomates. Pela facilidade de germinação e resistência, as batatas foram fácil e rapidamente incorporadas aos hábitos alimentares de toda a Europa, substituindo um outro tubérculo muito comum até hoje, a beterraba. Que por sua vez, pode ser consumida ainda branca e é de onde se extrai o açucar e o álcool europeu. Mas o tomate… Ah, o tomate! Esse deu trabalho! O fruto não resistia às longas viagens e reagia mal ao clima e à água salgada do mar durante as viagens. Deveria ser jogado aos peixes muito antes de aportar, por medo dos fungos e do cheiro ácido da putrefação. As primeiras sementes só chegariam secas. E as experiências iniciais, com as sementes impregnadas de sal, não tiveram êxito.
A planta era tão difícil de se reproduzir, seus frutos tão pequenos e raros, que logo recebeu o nome de “pomo de ouro ”, ou “pomo d’oro ”, em italiano.
Depois de meter a mão na massa, os napolitanos inventaram a pizza, apesar de alguns historiadores insistirem que os gregos já a haviam inventado, além da milenar esfiha. Comida de pobre, a pizza se resumia a um disco de massa fermentada naturalmente, com farinha, água e sal; um pouco do queijo produzido nas próprias casas, umas folhas de manjericão e tomate. Mas tudo de forma muito econômica. A pizza italiana mantém a característica espartana ainda nos dias de hoje. Para os italianos, o importante é a massa e um suave sabor dos outros ingredientes. Experimente fazer uma pizza tamanho grande com cinquenta gramas de presunto e você irá entender o que significa pobreza.
Assim como nós aprimoramos o morno futebol inglês e soubemos orquestrar os diversos ritmos e músicas que os estrangeiros nos trouxeram, para criar uma música “genuína” brasileira, os italianos souberam desenvolver o nosso velho tomate. Já contei vinte e oito tipos diferentes. Cada um com uma característica e sabor próprio. Cada um indicado para um uso diferente. O San Marzano, por exemplo, é um fruto alongado e com muita polpa, ideal para molhos. O cerejinha (cigliegino) ou de Pacchino (se diz pakíno) é pequeno como uma cereja e muito saboroso; se usa para saladas e com massas. O Coração de Boi (cuore di bue) se parece com uma imensa pitanga, com o umbigo saltado pra fora; é o mais caro. Mas o meu preferido é o Riviera, que quando atinge o vermelho intenso e perde o verde rajado que caracteriza o fruto, já não serve mais para salada. Tem, inclusive, um tomate sardo, que eles juram existir desde sempre na Sardenha.
A laranja europeia é uma fruta de inverno. Necessita da primavera e do verão para se formar e estará pronta para consumo no início do período frio. Os agricultores as recolhem antes da neve e as armazenam em câmaras frigoríficas para poderem comercializar durante toda a estação fria. Nem sequer admitem balas ou doces sabor laranja fora daquele período. Já o tomate, o pomodoro, tem um tipo adaptado para cada estação. Um, não, vários!
É difícil para um italiano acreditar que o tomate não é um fruto “nostrano ”, termo utilizado para designar tudo que é genuinamente italiano – vem de nostro (nosso, em italiano). Da mesma forma que um brasileiro tem dificuldades em acreditar que o coqueiro não é uma planta das Américas. Acreditam que a Sicília é o berço de todos os vegetais consumidos por aqui e juram (juram!) que até mesmo as frutas cítricas têm suas origens na famosa ilha, e não no Oriente, como afirmam os estudiosos.
Mas a pizza é a Regina da culinária italiana. Durante a refeição, um bom vinho. Para terminar, salada de frutas (macedonia) com um moscato e um café, porque café brasileiro feito por italiano é inimitável. A grappa é muito quente para esses dias e vai substituída por um gelado limoncino, licor de limão em moda há alguns anos. O limone europeu é muito diferente do nosso (que eles chamam de lime). Tem a casca grossa de um amarelo claro. É maior, sua forma se assemelha a um kibe e o sabor me lembra suco gástrico.
Futebol, laranja, macarrão, música, tomate e café. Se é para melhorar a vida, porque não abrir mão de velhas tradições e adotar como genuínos hábitos e produtos alheios? Basta adaptar aos costumes locais e aproveitar. Nessas férias, já me vejo à sombra de um coqueiro importado numa praia da Sardenha, tomando caipirinha com limão europeu e açucar de beterraba. Curtindo um sambinha italiano.
Marco Pólo iria adorar!
Ciao.
A Itália vista por um brasileiro. As diferenças culturais, descobertas e sabores, com uma pitada de bom humor (às vezes).
Wednesday, July 28, 2004
Sunday, July 25, 2004
Pobreza diferente
Caros e Caras,
Paz e saúde!
A senhora da limpeza me pergunta se eu poderia indicar alguém disposto a lhe alugar um apartamento por um curto período. Instintivamente puxo o canto direito da boca, mas consigo evitar o sorriso. Ela é italiana, do tipo que sabe se virar. Prova disso é o fato de ter conseguido os pontos necessários para ter direito a uma casa popular (imóvel do Governo com aluguel reduzido). Tudo por ser mãe solteira de dois filhos, cujos estudos são pagos pelo Estado Italiano. Graças à sua maternidade, recebe, ainda, uma ajuda financeira mensal da prefeitura de Nápoles, sua cidade, mesmo convivendo (sem declarar) com o pai do segundo filho. E mais: a prefeitura de Piacenza cobre metade do aluguel de quem conta com um salário insuficiente para manter a própria família. Devo reconhecer que o fato de a senhora ser napolitana conta negativamente no norte italiano. Mesmo assim, ela está hierarquicamente superior à situação dos extra-comunitários, que, na escala social italiana, estão abaixo dos caipiras do sul, dos gatos, dos cães e dos carabinieri (a PM italiana). Eu sou extra-comunitário (alguém que não nasceu em um dos países da Comunidade Européia), mas, por ser brasileiro, branco, elogiar o vinho deles e gostar de futebol, estou em uma faixa intermediária, entre os cães e os gatos. Talvez não seja a pessoa mais indicada para providenciar-lhe um apartamento.
O amigo de direita me pergunta porque o governo Lula não resolve o problema da pobreza no Brasil, e eu, já sem tanta paciência, tento explicar-lhe que entre a boa vontade e a capacidade existe um enorme fosso repleto de interesses escusos, corrupção, falta de vontade política e uma enorme necessidade de dinheiro. Ele me responde que se o governo brasileiro utilizasse o dinheiro gasto anualmente em publicidade na construção de casa populares, ao menos terminaria o mandato com algum saldo positivo e algumas desculpas a menos. Um sorriso amarelo toma conta de mim, enquanto tento mudar de assunto, elogiando o vinho que ele trouxe. Mas consigo a pequena vingança de vê-lo dizer que alguém de extrema-direita jamais deveria ter se metido em uma instituição tão comunista como uma cooperativa. Muito menos aceitar tornar-se presidente da associação e assinar todos os papéis, assumindo toda a responsabilidade. Só poderia mesmo ir à falência e o presidente perder tudo e tornar-se pobre, como no caso dele. (Risinhos).
A menina cigana abre um sorriso quando o semáforo fica verde e os carros partem. A estória foi bem encenada. Entre as mãos há uma nota entre as muitas moedas que conseguiu recolher. Seis e quinze, hora de ir para a casa, ou melhor: para o camper onde mora com os pais e que no dia seguinte estará na estrada rumo ao sul, onde os turistas do norte europeu invadem as praias e costumam ser mais generosos. Com hábitos diferentes, eles não vão ao cinema nem a restaurantes. Mas as roupas de seda, campers e trailers sempre equipados e o ouro em volta do pescoço (quando longe dos semáforos), dão a exata medida da lucratividade da atividade deles.
A risada é a principal característica do Fulano (é um nome fictício, acreditem) que aparece de vez em quando no restaurante para almoçar de graça. Aproveitando-se de uma relativa amizade com os proprietários, conta a mesma lenga-lenga triste de que está esperando para ser operado, que tem casa não sei onde, mas o hospital de lá não possui os mesmos recursos do daqui. Assim, deve poder contar com a boa vontade dos amigos, uma vez que a comida do hospital não é lá grandes coisas. Ajudar no restaurante, que é bom…
O proprietário diz que não pode esperar e exige receber o aluguel em dia, sob pena de despejo. Nos dois cômodos pequenos moram um marroquino e um albanês, ambos em situação irregular, vivendo de biscates enquanto um empreiteiro não puder contratá-los e legalizar a situação deles. O apartamento também é irregular: não tem instalação elétrica, falta acabamento, piso e janelas de vidro. Também não tem aquecimento, pois a obra foi paralisada antes do fim. O proprietário alugou assim mesmo. No inverno a temperatura chega a …bom, deixa pra lá! O proprietário pergunta porque eles não voltam pra casa. Eles respondem que existem situações piores, trocam um olhar resignado e juntam todos os trocados reservados para as compras. O proprietário mete o dinheiro no bolso sem contar, solta uma gargalhada e vai embora.
O Parlamento Alemão está discutindo um projeto de lei que prevê uma ajuda do governo aos pobres por opção. E antes que alguém ache graça, devo esclarecer que é sério! Uma pequena parte da população alemã (desconheço o percentual, mas deve ser mesmo muito reduzida) defende a idéia de que o governo deve sustentar aqueles que optam por não ter bens, não trabalhar e não contribuir de alguma forma para o próprio sustento. Segundo essas pessoas, a democracia deve permitir a opção de tornar-se um ônus e o estado democrático deve providenciar a subsistência do cidadão. Não apenas oferecendo cama, comida e roupa lavada, mas garantindo o direito de gozar a vida, ter férias(?) e poder ser nômade, se assim o desejar.
A essa altura eu deveria pular de costas no chão, jogar as pernas para o alto e urrar histericamente, mas não acho graça na institucionalização da pobreza. Não consigo não me revoltar com a exploração da solidariedade alheia, nem me diverte ver a miséria como instrumento de manobra ou gerando corrupção.
No fundo, são todos uns pobres diabos.
Ciao.
Paz e saúde!
A senhora da limpeza me pergunta se eu poderia indicar alguém disposto a lhe alugar um apartamento por um curto período. Instintivamente puxo o canto direito da boca, mas consigo evitar o sorriso. Ela é italiana, do tipo que sabe se virar. Prova disso é o fato de ter conseguido os pontos necessários para ter direito a uma casa popular (imóvel do Governo com aluguel reduzido). Tudo por ser mãe solteira de dois filhos, cujos estudos são pagos pelo Estado Italiano. Graças à sua maternidade, recebe, ainda, uma ajuda financeira mensal da prefeitura de Nápoles, sua cidade, mesmo convivendo (sem declarar) com o pai do segundo filho. E mais: a prefeitura de Piacenza cobre metade do aluguel de quem conta com um salário insuficiente para manter a própria família. Devo reconhecer que o fato de a senhora ser napolitana conta negativamente no norte italiano. Mesmo assim, ela está hierarquicamente superior à situação dos extra-comunitários, que, na escala social italiana, estão abaixo dos caipiras do sul, dos gatos, dos cães e dos carabinieri (a PM italiana). Eu sou extra-comunitário (alguém que não nasceu em um dos países da Comunidade Européia), mas, por ser brasileiro, branco, elogiar o vinho deles e gostar de futebol, estou em uma faixa intermediária, entre os cães e os gatos. Talvez não seja a pessoa mais indicada para providenciar-lhe um apartamento.
O amigo de direita me pergunta porque o governo Lula não resolve o problema da pobreza no Brasil, e eu, já sem tanta paciência, tento explicar-lhe que entre a boa vontade e a capacidade existe um enorme fosso repleto de interesses escusos, corrupção, falta de vontade política e uma enorme necessidade de dinheiro. Ele me responde que se o governo brasileiro utilizasse o dinheiro gasto anualmente em publicidade na construção de casa populares, ao menos terminaria o mandato com algum saldo positivo e algumas desculpas a menos. Um sorriso amarelo toma conta de mim, enquanto tento mudar de assunto, elogiando o vinho que ele trouxe. Mas consigo a pequena vingança de vê-lo dizer que alguém de extrema-direita jamais deveria ter se metido em uma instituição tão comunista como uma cooperativa. Muito menos aceitar tornar-se presidente da associação e assinar todos os papéis, assumindo toda a responsabilidade. Só poderia mesmo ir à falência e o presidente perder tudo e tornar-se pobre, como no caso dele. (Risinhos).
A menina cigana abre um sorriso quando o semáforo fica verde e os carros partem. A estória foi bem encenada. Entre as mãos há uma nota entre as muitas moedas que conseguiu recolher. Seis e quinze, hora de ir para a casa, ou melhor: para o camper onde mora com os pais e que no dia seguinte estará na estrada rumo ao sul, onde os turistas do norte europeu invadem as praias e costumam ser mais generosos. Com hábitos diferentes, eles não vão ao cinema nem a restaurantes. Mas as roupas de seda, campers e trailers sempre equipados e o ouro em volta do pescoço (quando longe dos semáforos), dão a exata medida da lucratividade da atividade deles.
A risada é a principal característica do Fulano (é um nome fictício, acreditem) que aparece de vez em quando no restaurante para almoçar de graça. Aproveitando-se de uma relativa amizade com os proprietários, conta a mesma lenga-lenga triste de que está esperando para ser operado, que tem casa não sei onde, mas o hospital de lá não possui os mesmos recursos do daqui. Assim, deve poder contar com a boa vontade dos amigos, uma vez que a comida do hospital não é lá grandes coisas. Ajudar no restaurante, que é bom…
O proprietário diz que não pode esperar e exige receber o aluguel em dia, sob pena de despejo. Nos dois cômodos pequenos moram um marroquino e um albanês, ambos em situação irregular, vivendo de biscates enquanto um empreiteiro não puder contratá-los e legalizar a situação deles. O apartamento também é irregular: não tem instalação elétrica, falta acabamento, piso e janelas de vidro. Também não tem aquecimento, pois a obra foi paralisada antes do fim. O proprietário alugou assim mesmo. No inverno a temperatura chega a …bom, deixa pra lá! O proprietário pergunta porque eles não voltam pra casa. Eles respondem que existem situações piores, trocam um olhar resignado e juntam todos os trocados reservados para as compras. O proprietário mete o dinheiro no bolso sem contar, solta uma gargalhada e vai embora.
O Parlamento Alemão está discutindo um projeto de lei que prevê uma ajuda do governo aos pobres por opção. E antes que alguém ache graça, devo esclarecer que é sério! Uma pequena parte da população alemã (desconheço o percentual, mas deve ser mesmo muito reduzida) defende a idéia de que o governo deve sustentar aqueles que optam por não ter bens, não trabalhar e não contribuir de alguma forma para o próprio sustento. Segundo essas pessoas, a democracia deve permitir a opção de tornar-se um ônus e o estado democrático deve providenciar a subsistência do cidadão. Não apenas oferecendo cama, comida e roupa lavada, mas garantindo o direito de gozar a vida, ter férias(?) e poder ser nômade, se assim o desejar.
A essa altura eu deveria pular de costas no chão, jogar as pernas para o alto e urrar histericamente, mas não acho graça na institucionalização da pobreza. Não consigo não me revoltar com a exploração da solidariedade alheia, nem me diverte ver a miséria como instrumento de manobra ou gerando corrupção.
No fundo, são todos uns pobres diabos.
Ciao.
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Friday, July 23, 2004
Milão, 36 ºC
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Me levanto às 05:30 h. O sol, meia hora antes. Tomo banho, barba, dentes, roupa e faço o café. Pego o trem das 07:08 h. Desço na Estação Central de Milão às 08:03 h. Uma construção suntuosa e rica. De encher os olhos. Dentro da estação, pego o metrô e a linha amarela me leva direto à Praça Duomo, o coração da cidade. Mais ou menos como as nossas praças da Sé. Um sol forte faz a cidade se espreguiçar em gemidos de ônibus e nos passos lentos dos ambulantes que começam a montar as pequenas barracas.
A Catedral da Duomo está com a fachada embalada pra presente e as linhas retas dos andaimes que a envolvem, não sugerem o estilo gótico da sua construção. Indo em direção aos fundos da catedral, pela esquerda, tem-se a Corso Emanuelle, rua larga de lojas amplas, transformada em calçadão. Ao fim dela, a Praça San Babila com um chafariz em concreto moderno, destoando da igreja de San Babila, início do século 11, no canto esquerdo da praça (que na realidade é um largo). À direita da praça, Corso Europa, onde fica o Consulado Geral do Brasil, meu destino às 08:30 h.
A moça me atende com um sorriso e eu lhe peço para autenticar minha firma num diploma (que será depois enviado ao Brasil para ser reconhecido pelo consulado italiano e reenviado para a Itália) e em uma declaração. Ela me informa que não pode autenticar um documento que já é reconhecido no Brasil e eu, em vão, lhe esclareço que quero somente o reconhecimento de firma. Ainda sorrindo, me pede um minuto e entra, para voltar com um rapaz que conheci no ano passado. Sei que ele não fala português. O funcionário me esclarece, em italiano, que pode reconhecer a firma somente na declaração, pois o diploma já é um documento reconhecido no Brasil. Minha calma diplomática sai de cena e cede lugar à minha ira contra a obtusidade. Mais uma vez, esclareço que desejo somente o reconhecimento da minha firma no documento e não o reconhecimento deste. O funcionário me informa ser impossível atender minha solicitação. Peço à moça para falar com o responsável e ela me informa que o rapaz é o responsável. Peço, então, para falar com alguém que fale português e o funcionário me responde, em português, que posso falar com ele mesmo. Talvez pela brasa nos meus olhos, talvez pelo tom de voz pouco amistoso que usei, talvez pela entonação do palavrão usado, o funcionário me pediu para aguardar a chegada do cônsul, em dez minutos. E sumiu. Dez minutos depois reapareceu e informou-me que a autenticação estaria pronta às 13:30 h.
Tornando à rua, descubro uma temperatura de 30 ºC. Resolvo vasculhar os arredores da Praça Duomo. Conto trinta e duas livrarias e somente quatro farmácias. Deduzo que cultura faz bem à saúde. A fome vence e resolvo liquidá-la. Suco de fruta e sanduíche de salame milanês com salada. Sorvete. Descubro pequenos antiquários e oficinas de moda nas ruas calmas e escondidas, no labirinto do centro velho da cidade. Penso em visitar um museu ou ir a uma exposição (dezenas de opções) mas descubro o estranho horário alternado de abertura deles, que frustra os meus planos.
Volto à Duomo. À esquerda da catedral, a Galeria Vitorio Emanuelle. Linda, imensa e chic. Dentro dela, o famoso saco do touro. Pequeno mosaico de pedra na parte central da galeria que, dizem, traz sorte a quem girar sobre o calcanhar, pisando no saco do touro. Da última vez que estive em Milão, a pedra que compunha o saco do pobre animal era preta e gasta. Na pequena reforma que descubro, substituíram-na por uma pedra rosa, novinha em folha. Sento para tomar outro sorvete e ler a Diário (www.diario.it). A revista me informa, em tom irônico, sobre uma normativa inglesa que estabelece um padrão de medidas para a comercialização de bananas, além de uma outra, estabelecendo a curvatura máxima para pepinos.
Volto a caminhar. Nos fundos da galeria observo a reforma do Teatro Scala. Reforma é o modo sutil que encontraram para a demolição de toda a parte operativa do Teatro. Só a fachada e as paredes externas da plateia foram poupadas. Sigo em frente pela via Manzoni, endereço oficial de Girogio Armani e de tantos outros. Uma família faz parte da paisagem. Traços árabes em trajes comuns, exceto a mãe, vestida de preto da cabeça aos pés. Milão, 34 ºC. Mas a Duomo é ainda mais quente. O movimento de pessoas é enorme. Camelôs vendem papiros egípcios e outras bugigangas; os desenhistas à espera de alguém que queira fazer o próprio retrato; as moças chinesas que vendem enormes lenços às desavisadas que tentam visitar a catedral com os ombros descobertos; policiais aos montes, que caminham indiferentes a tudo e a todos, transmitindo uma sensação de calma e normalidade; dezenas de grupos de turistas de todas as nacionalidades (os japoneses se diferem dos outros orientais pelo número de fotos que fazem). Sobre a calçada lateral da catedral, um homem veste uma roupa de borracha cor de bronze, que cobre também uma pequena base de madeira e mete uma máscara de faraó. Fica imóvel como uma estátua e algumas pessoas depositam moedas na peça de bronze à frente dele. Um grupo de rapazes faz apostas sobre o tempo que ele resistirá sob o sol antes de desmaiar. Ainda na calçada, vinte metros mais a frente, um outro rapaz cobriu o corpo com uma tinta também cor de bronze – Milão ditando mais outra moda? – e está parado, mãos na cintura, óculos escuros, uma cruz de madeira com a mesma tinta no pescoço, a bermuda idem e um sorriso japonês em agradecimento a quem lhe oferece uma moeda. Um grupo de turistas faz fila para uma foto e para depositar moedas na lata cor de bronze.
13:30 h. No consulado o documento já está pronto. Descubro que a tabela de preços dos serviços em Euro está incompleta, pois não informa que os serviços podem ser pagos também em Reais. 25 Euros por um reconhecimento de firma. Ou 20 Reais. A moça esclarece que não pode devolver os meus Euros, já contabilizados. Desisto. Vou embora. Uma última olhada no termômetro e confirmo: Milão, 36 ºC. Pego o metrô e, depois, o trem das 15:08 h. No meio da viagem de quarenta minutos, o fiscal pede o meu bilhete e comunica que aquele é um trem inter città, que não pára nas pequenas estações e, por isso, mais caro. Emite um bilhete complementar de €$ 14,51; mais que os €$ 9,20 que paguei pelo bilhete de ida e volta. Primeira parada: Piacenza. 15:50 h.
Ciao.
Paz e saúde!
Me levanto às 05:30 h. O sol, meia hora antes. Tomo banho, barba, dentes, roupa e faço o café. Pego o trem das 07:08 h. Desço na Estação Central de Milão às 08:03 h. Uma construção suntuosa e rica. De encher os olhos. Dentro da estação, pego o metrô e a linha amarela me leva direto à Praça Duomo, o coração da cidade. Mais ou menos como as nossas praças da Sé. Um sol forte faz a cidade se espreguiçar em gemidos de ônibus e nos passos lentos dos ambulantes que começam a montar as pequenas barracas.
A Catedral da Duomo está com a fachada embalada pra presente e as linhas retas dos andaimes que a envolvem, não sugerem o estilo gótico da sua construção. Indo em direção aos fundos da catedral, pela esquerda, tem-se a Corso Emanuelle, rua larga de lojas amplas, transformada em calçadão. Ao fim dela, a Praça San Babila com um chafariz em concreto moderno, destoando da igreja de San Babila, início do século 11, no canto esquerdo da praça (que na realidade é um largo). À direita da praça, Corso Europa, onde fica o Consulado Geral do Brasil, meu destino às 08:30 h.
A moça me atende com um sorriso e eu lhe peço para autenticar minha firma num diploma (que será depois enviado ao Brasil para ser reconhecido pelo consulado italiano e reenviado para a Itália) e em uma declaração. Ela me informa que não pode autenticar um documento que já é reconhecido no Brasil e eu, em vão, lhe esclareço que quero somente o reconhecimento de firma. Ainda sorrindo, me pede um minuto e entra, para voltar com um rapaz que conheci no ano passado. Sei que ele não fala português. O funcionário me esclarece, em italiano, que pode reconhecer a firma somente na declaração, pois o diploma já é um documento reconhecido no Brasil. Minha calma diplomática sai de cena e cede lugar à minha ira contra a obtusidade. Mais uma vez, esclareço que desejo somente o reconhecimento da minha firma no documento e não o reconhecimento deste. O funcionário me informa ser impossível atender minha solicitação. Peço à moça para falar com o responsável e ela me informa que o rapaz é o responsável. Peço, então, para falar com alguém que fale português e o funcionário me responde, em português, que posso falar com ele mesmo. Talvez pela brasa nos meus olhos, talvez pelo tom de voz pouco amistoso que usei, talvez pela entonação do palavrão usado, o funcionário me pediu para aguardar a chegada do cônsul, em dez minutos. E sumiu. Dez minutos depois reapareceu e informou-me que a autenticação estaria pronta às 13:30 h.
Tornando à rua, descubro uma temperatura de 30 ºC. Resolvo vasculhar os arredores da Praça Duomo. Conto trinta e duas livrarias e somente quatro farmácias. Deduzo que cultura faz bem à saúde. A fome vence e resolvo liquidá-la. Suco de fruta e sanduíche de salame milanês com salada. Sorvete. Descubro pequenos antiquários e oficinas de moda nas ruas calmas e escondidas, no labirinto do centro velho da cidade. Penso em visitar um museu ou ir a uma exposição (dezenas de opções) mas descubro o estranho horário alternado de abertura deles, que frustra os meus planos.
Volto à Duomo. À esquerda da catedral, a Galeria Vitorio Emanuelle. Linda, imensa e chic. Dentro dela, o famoso saco do touro. Pequeno mosaico de pedra na parte central da galeria que, dizem, traz sorte a quem girar sobre o calcanhar, pisando no saco do touro. Da última vez que estive em Milão, a pedra que compunha o saco do pobre animal era preta e gasta. Na pequena reforma que descubro, substituíram-na por uma pedra rosa, novinha em folha. Sento para tomar outro sorvete e ler a Diário (www.diario.it). A revista me informa, em tom irônico, sobre uma normativa inglesa que estabelece um padrão de medidas para a comercialização de bananas, além de uma outra, estabelecendo a curvatura máxima para pepinos.
Volto a caminhar. Nos fundos da galeria observo a reforma do Teatro Scala. Reforma é o modo sutil que encontraram para a demolição de toda a parte operativa do Teatro. Só a fachada e as paredes externas da plateia foram poupadas. Sigo em frente pela via Manzoni, endereço oficial de Girogio Armani e de tantos outros. Uma família faz parte da paisagem. Traços árabes em trajes comuns, exceto a mãe, vestida de preto da cabeça aos pés. Milão, 34 ºC. Mas a Duomo é ainda mais quente. O movimento de pessoas é enorme. Camelôs vendem papiros egípcios e outras bugigangas; os desenhistas à espera de alguém que queira fazer o próprio retrato; as moças chinesas que vendem enormes lenços às desavisadas que tentam visitar a catedral com os ombros descobertos; policiais aos montes, que caminham indiferentes a tudo e a todos, transmitindo uma sensação de calma e normalidade; dezenas de grupos de turistas de todas as nacionalidades (os japoneses se diferem dos outros orientais pelo número de fotos que fazem). Sobre a calçada lateral da catedral, um homem veste uma roupa de borracha cor de bronze, que cobre também uma pequena base de madeira e mete uma máscara de faraó. Fica imóvel como uma estátua e algumas pessoas depositam moedas na peça de bronze à frente dele. Um grupo de rapazes faz apostas sobre o tempo que ele resistirá sob o sol antes de desmaiar. Ainda na calçada, vinte metros mais a frente, um outro rapaz cobriu o corpo com uma tinta também cor de bronze – Milão ditando mais outra moda? – e está parado, mãos na cintura, óculos escuros, uma cruz de madeira com a mesma tinta no pescoço, a bermuda idem e um sorriso japonês em agradecimento a quem lhe oferece uma moeda. Um grupo de turistas faz fila para uma foto e para depositar moedas na lata cor de bronze.
13:30 h. No consulado o documento já está pronto. Descubro que a tabela de preços dos serviços em Euro está incompleta, pois não informa que os serviços podem ser pagos também em Reais. 25 Euros por um reconhecimento de firma. Ou 20 Reais. A moça esclarece que não pode devolver os meus Euros, já contabilizados. Desisto. Vou embora. Uma última olhada no termômetro e confirmo: Milão, 36 ºC. Pego o metrô e, depois, o trem das 15:08 h. No meio da viagem de quarenta minutos, o fiscal pede o meu bilhete e comunica que aquele é um trem inter città, que não pára nas pequenas estações e, por isso, mais caro. Emite um bilhete complementar de €$ 14,51; mais que os €$ 9,20 que paguei pelo bilhete de ida e volta. Primeira parada: Piacenza. 15:50 h.
Ciao.
Monday, July 19, 2004
Estilo italiano
Caros e Caras,
Paz e saúde!
A revista Panorama (www.panorama.it) publicou há algum tempo, o resultado de uma pesquisa promovida pela União Europeia sobre comportamento e educação nos países da Comunidade. A chamada de capa apregoava que o italiano é o mais vulgar entre os povos europeus. Em uma outra edição a mesma revista publicou uma outra pesquisa. Desta vez, sobre formação e conhecimentos gerais. O resultado foi igualmente catastrófico.
A qualidade do ensino na Itália é coisa recente, segundo amigos e pais de outros alunos. Mas o salto dessa qualidade é inequívoco: Há dois anos minha filha estudava alguns pontos do Código de Hamurabi. Na quarta série do primeiro grau! …Por outro lado, tem aulas de religião. Num país que questiona a exposição de crucifixos em locais públicos, em respeito às outras religiões…
Como faz parte da cultura italiana o hábito de tentar ganhar no grito, não é de estranhar que garções e balconistas tenham uma atitude diferente da que geralmente encontramos no Brasil. Isso acontece, também, com os outros países europeus, cada um sob uma perspectiva diversa, mas sempre acreditando na própria superioridade. Precisa sair do Brasil para realmente entender o quanto somos servis e atenciosos.
Desde a época de Aníbal ou Gengis Khan acredita-se por estas plagas que a melhor defesa é o ataque. O que nos permite deduzir que certos tipos de comportamento são, na verdade, uma forma de defesa e de camuflar o próprio medo. A realidade é que se alguém gritar mais alto e com maior convicção, eles se recolhem e chegam a pedir desculpas. É um verdadeiro exercício de stress: você deve estar sempre pronto para responder a uma tentativa de intimidação. E às vezes os descobre tímidos.
Uma legião de solitários formou-se por falta de vontade, coragem ou iniciativa nas relações afetivas. São homens e mulheres na faixa superior aos trinta anos que ainda moram com os pais e saem pouco. Preocupam-se em trabalhar, comprar roupas e (acreditem!) jogar vídeo games. Tirar quinze dias de férias por ano em lugares exóticos (ou paraísos do turismo sexual: Cuba e Brasil, para os homens e países africanos para as mulheres) e trocar de carro no máximo a cada dois anos. Talvez juntar umas economias para comprar uma casa. Talvez.
Na outra ponta, a vulgaridade. Que é generalizada, como uma máscara que todos fazem questão de assumir. Um sinal de moderna rebeldia e independência, mas que não ultrapassa os limites do próprio círculo de amizades. É uma máxima italiana nos dias de hoje: “Eu só tenho certeza da existência desta vida. Quero poder gozá-la em todas as suas possibilidades!” (Mas lotam as igrejas nos domingos).
Independentemente da situação, o próprio modo de falar do italiano médio impede-o de ser mais rebelde do que gostaria: “lei”, em italiano, é a tradução de “ela”. Mas “Lei”, com L maiúsculo, é um tratamento de cortesia, na terceira pessoa do singular, como um dia foi o nosso “você” (corruptela de Vossa Mercê). Dois italianos adultos que não se conheçam ou que não tenham intimidade, usarão sempre “Lei” entre eles, nunca o “tu”. Assim como o mesmo italiano jamais dirá: “o chefe taí?”. Mas: “por favor, me faça falar com o responsável”. É óbvio que ele pode gritar, mas gritará a segunda opção.
Rebeldia ou formalidades? Vulgaridades ou devoção religiosa? Timidez ou arrogância?
…É! Apesar de gostar muito de massa o estilo italiano é, na realidade, uma grande salada, onde se mistura o sacro com o profano. Sem o mesmo charme de uma Lavagem do Bonfim, na Bahia, por exemplo, mas com muito mais devoção.
Ciao.
Paz e saúde!
A revista Panorama (www.panorama.it) publicou há algum tempo, o resultado de uma pesquisa promovida pela União Europeia sobre comportamento e educação nos países da Comunidade. A chamada de capa apregoava que o italiano é o mais vulgar entre os povos europeus. Em uma outra edição a mesma revista publicou uma outra pesquisa. Desta vez, sobre formação e conhecimentos gerais. O resultado foi igualmente catastrófico.
A qualidade do ensino na Itália é coisa recente, segundo amigos e pais de outros alunos. Mas o salto dessa qualidade é inequívoco: Há dois anos minha filha estudava alguns pontos do Código de Hamurabi. Na quarta série do primeiro grau! …Por outro lado, tem aulas de religião. Num país que questiona a exposição de crucifixos em locais públicos, em respeito às outras religiões…
Como faz parte da cultura italiana o hábito de tentar ganhar no grito, não é de estranhar que garções e balconistas tenham uma atitude diferente da que geralmente encontramos no Brasil. Isso acontece, também, com os outros países europeus, cada um sob uma perspectiva diversa, mas sempre acreditando na própria superioridade. Precisa sair do Brasil para realmente entender o quanto somos servis e atenciosos.
Desde a época de Aníbal ou Gengis Khan acredita-se por estas plagas que a melhor defesa é o ataque. O que nos permite deduzir que certos tipos de comportamento são, na verdade, uma forma de defesa e de camuflar o próprio medo. A realidade é que se alguém gritar mais alto e com maior convicção, eles se recolhem e chegam a pedir desculpas. É um verdadeiro exercício de stress: você deve estar sempre pronto para responder a uma tentativa de intimidação. E às vezes os descobre tímidos.
Uma legião de solitários formou-se por falta de vontade, coragem ou iniciativa nas relações afetivas. São homens e mulheres na faixa superior aos trinta anos que ainda moram com os pais e saem pouco. Preocupam-se em trabalhar, comprar roupas e (acreditem!) jogar vídeo games. Tirar quinze dias de férias por ano em lugares exóticos (ou paraísos do turismo sexual: Cuba e Brasil, para os homens e países africanos para as mulheres) e trocar de carro no máximo a cada dois anos. Talvez juntar umas economias para comprar uma casa. Talvez.
Na outra ponta, a vulgaridade. Que é generalizada, como uma máscara que todos fazem questão de assumir. Um sinal de moderna rebeldia e independência, mas que não ultrapassa os limites do próprio círculo de amizades. É uma máxima italiana nos dias de hoje: “Eu só tenho certeza da existência desta vida. Quero poder gozá-la em todas as suas possibilidades!” (Mas lotam as igrejas nos domingos).
Independentemente da situação, o próprio modo de falar do italiano médio impede-o de ser mais rebelde do que gostaria: “lei”, em italiano, é a tradução de “ela”. Mas “Lei”, com L maiúsculo, é um tratamento de cortesia, na terceira pessoa do singular, como um dia foi o nosso “você” (corruptela de Vossa Mercê). Dois italianos adultos que não se conheçam ou que não tenham intimidade, usarão sempre “Lei” entre eles, nunca o “tu”. Assim como o mesmo italiano jamais dirá: “o chefe taí?”. Mas: “por favor, me faça falar com o responsável”. É óbvio que ele pode gritar, mas gritará a segunda opção.
Rebeldia ou formalidades? Vulgaridades ou devoção religiosa? Timidez ou arrogância?
…É! Apesar de gostar muito de massa o estilo italiano é, na realidade, uma grande salada, onde se mistura o sacro com o profano. Sem o mesmo charme de uma Lavagem do Bonfim, na Bahia, por exemplo, mas com muito mais devoção.
Ciao.
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estilo italiano
Thursday, July 15, 2004
Preconceitos II
Preconceitos II
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Numa das cartas anteriores resolvi provocar um pouco e falei de racismo. Descobri que tem peixe grande nessas águas.
Um grande e velho amigo respondeu à provocação. Reproduzo, abaixo, o texto integral.
Caro Allan:
Numa visão um pouco mais (esquivada) - notou que vai até entre parênteses? - da questão do preconceito, seja racial ou não, a verdade crua é bem incômoda. Razões antropológicas, ligadas à defesa e, mais além, à sobrevivência, induzem o ser humano a estabelecer padrões de reconhecimento que se traduzem no básico "é bom, é ruim, é indiferente" - o que explica um pouco o preconceito de qualquer tipo. O negro, segundo estudos, é um elemento rapidamente identificado (isto é, a cor negra da pele é uma das primeiras características notadas pelas pessoas), talvez por motivos que devem se esconder no emaranhado de informações do DNA. Negros, geralmente, produzem odor mais forte e isso me parece provocar os cães com mais intensidade.
(Fatos traumáticos tornaram-se assustadores pela freqüência em que ocorreram ao longo de eras de evolução humana - principalmente, acredito, naquelas em que as mudanças se fizeram em um prazo mais curto. Tais fatos, de alguma maneira, ficaram impregnados nos nossos genes, formando arquétipos, definindo comportamentos, e até moldando-nos fisicamente).
O racismo, paradoxalmente, no meu modo de ver, acontece pela tentativa de não admitirmos o fato de que não gostamos de pessoas diferentes, mesmo que isso relacione-se com questões tão primitivas quanto gostar de sexo. Por falar nisso, outros estudos concluíram que as pessoas tendem a se interessar por alguém que tenha semelhança com seus traços. Isso me parece mais comportamental do que primitivo, já que a evolução se beneficia da combinação de características.
Outro fato a ser notado é o impulso de controlar territórios e grupos. Muitas outras espécies de animais apresentam essa característica claramente ligada à promoção da evolução e da sobrevivência. Disso deriva uma enormidade de males, desde a inveja, o ciúme, a ganância, a intolerância até toda sorte de perversidades elaboradas e cometidas pelos que podem (os que não podem mantêm esses impulsos latentes e/ou minimizados, restringindo-os a um micro território). Bem vou dar como exceção os monges em estágio avançado de intimidade com o nirvana. A palavra males, aqui, não está apropriada, já que a justificativa para ações desse tipo é que elas são manifestações dos genes primitivos pertencentes à raça humana e, portanto, não seria mal nem bem.
Só que deixar fluir todos os impulsos primitivos seria muito aliviador, por um algum tempo, mas tornaria a vida social impraticável (para acomodar todo o mundo, todo mundo precisa ceder um pouco). Daí que a moral deve prevalecer por uma questão prática de sobrevivência coletiva. O importante é que os impulsos primitivos continuam existido e, ignorá-los, vai dificultar o entendimento dos atos daqueles que querem jogar o jogo, mas por regras próprias.
Abraço,
Cássio
******************
Pois é…!
A história da Europa nasce a partir das relações de diversos povos, conquistadores e conquistados, que contribuíram a essa formação com a própria cultura. A Itália, então, nem se fala! Basta lembrar que a máfia foi formada a partir das relações familiares, pelos árabes muçulmanos que dominaram a zona rural da Sicília séculos atrás.
Recordo que a história do Brasil é formada de uma diversificação ainda maior. E não me refiro somente às tradicionais visitas brancas às senzalas.
O intenso intercâmbio de experiências e culturas é, na realidade, a aplicação voluntária e (nem sempre) inconsciente das leis naturais que determinam a sobrevivência das espécies. Ou, pelo menos, a regra básica para uma boa feijoada.
Ciao.
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Numa das cartas anteriores resolvi provocar um pouco e falei de racismo. Descobri que tem peixe grande nessas águas.
Um grande e velho amigo respondeu à provocação. Reproduzo, abaixo, o texto integral.
Caro Allan:
Numa visão um pouco mais (esquivada) - notou que vai até entre parênteses? - da questão do preconceito, seja racial ou não, a verdade crua é bem incômoda. Razões antropológicas, ligadas à defesa e, mais além, à sobrevivência, induzem o ser humano a estabelecer padrões de reconhecimento que se traduzem no básico "é bom, é ruim, é indiferente" - o que explica um pouco o preconceito de qualquer tipo. O negro, segundo estudos, é um elemento rapidamente identificado (isto é, a cor negra da pele é uma das primeiras características notadas pelas pessoas), talvez por motivos que devem se esconder no emaranhado de informações do DNA. Negros, geralmente, produzem odor mais forte e isso me parece provocar os cães com mais intensidade.
(Fatos traumáticos tornaram-se assustadores pela freqüência em que ocorreram ao longo de eras de evolução humana - principalmente, acredito, naquelas em que as mudanças se fizeram em um prazo mais curto. Tais fatos, de alguma maneira, ficaram impregnados nos nossos genes, formando arquétipos, definindo comportamentos, e até moldando-nos fisicamente).
O racismo, paradoxalmente, no meu modo de ver, acontece pela tentativa de não admitirmos o fato de que não gostamos de pessoas diferentes, mesmo que isso relacione-se com questões tão primitivas quanto gostar de sexo. Por falar nisso, outros estudos concluíram que as pessoas tendem a se interessar por alguém que tenha semelhança com seus traços. Isso me parece mais comportamental do que primitivo, já que a evolução se beneficia da combinação de características.
Outro fato a ser notado é o impulso de controlar territórios e grupos. Muitas outras espécies de animais apresentam essa característica claramente ligada à promoção da evolução e da sobrevivência. Disso deriva uma enormidade de males, desde a inveja, o ciúme, a ganância, a intolerância até toda sorte de perversidades elaboradas e cometidas pelos que podem (os que não podem mantêm esses impulsos latentes e/ou minimizados, restringindo-os a um micro território). Bem vou dar como exceção os monges em estágio avançado de intimidade com o nirvana. A palavra males, aqui, não está apropriada, já que a justificativa para ações desse tipo é que elas são manifestações dos genes primitivos pertencentes à raça humana e, portanto, não seria mal nem bem.
Só que deixar fluir todos os impulsos primitivos seria muito aliviador, por um algum tempo, mas tornaria a vida social impraticável (para acomodar todo o mundo, todo mundo precisa ceder um pouco). Daí que a moral deve prevalecer por uma questão prática de sobrevivência coletiva. O importante é que os impulsos primitivos continuam existido e, ignorá-los, vai dificultar o entendimento dos atos daqueles que querem jogar o jogo, mas por regras próprias.
Abraço,
Cássio
******************
Pois é…!
A história da Europa nasce a partir das relações de diversos povos, conquistadores e conquistados, que contribuíram a essa formação com a própria cultura. A Itália, então, nem se fala! Basta lembrar que a máfia foi formada a partir das relações familiares, pelos árabes muçulmanos que dominaram a zona rural da Sicília séculos atrás.
Recordo que a história do Brasil é formada de uma diversificação ainda maior. E não me refiro somente às tradicionais visitas brancas às senzalas.
O intenso intercâmbio de experiências e culturas é, na realidade, a aplicação voluntária e (nem sempre) inconsciente das leis naturais que determinam a sobrevivência das espécies. Ou, pelo menos, a regra básica para uma boa feijoada.
Ciao.
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comparando
Aspargos
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Noite fria?
Vontade de comer algo diferente mas com preguiça de cozinhar?
Aqui vai uma dica: Aspargos com ovos.
Ingredientes:
Aspargos em conserva (ou previamente cozidos)
Ovos
Manteiga
Sal
(Talvez queijo)
Em uma frigideira grande, coloque uma colher de manteiga e leve-a ao fogo. Antes que a manteiga se derreta completamente, adicione os aspargos escorridos. Junte os ovos (dois por pessoa) e o sal. Cubra e deixe cozinhar. Sirva com pão, uma boa companhia e vinho tinto. Quando quiser variar, adicione um pouco de queijo meia-cura antes dos ovos.
Tin tin!
Ciao.
Paz e saúde!
Noite fria?
Vontade de comer algo diferente mas com preguiça de cozinhar?
Aqui vai uma dica: Aspargos com ovos.
Ingredientes:
Aspargos em conserva (ou previamente cozidos)
Ovos
Manteiga
Sal
(Talvez queijo)
Em uma frigideira grande, coloque uma colher de manteiga e leve-a ao fogo. Antes que a manteiga se derreta completamente, adicione os aspargos escorridos. Junte os ovos (dois por pessoa) e o sal. Cubra e deixe cozinhar. Sirva com pão, uma boa companhia e vinho tinto. Quando quiser variar, adicione um pouco de queijo meia-cura antes dos ovos.
Tin tin!
Ciao.
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receitas
Sunday, July 11, 2004
Equipes S/A
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Cinco anos atrás, o diretor presenteava os novos contratados com uma fábula sobre a equipe italiana de remo. Aos estrangeiros, como forma de esclarecer sobre um comportamento típico da maioria dos italianos. Aos italianos, para que tivessem mais atenção quanto a importância do trabalho de grupo.
A equipe italiana de remo
Todos os anos acontece uma competição entre uma equipe de remo italiana e uma japonesa. São oito pessoas em cada barco, com regras, percurso e limites do equipamento bem definidos.
Os organizadores italianos estão muito preocupados, pois a cada ano a equipe deles perde com uma diferença maior, em relação ao ano precedente. Na penúltima edição da competição, a equipe japonesa chegou um quilômetro à frente. Decidiram que era hora de mudar alguma coisa.
Inicialmente substituíram todos os componentes e esclareceram aos novos participantes a função de cada um. A equipe foi montada da seguinte forma: um remador, um supervisor de remo, um orientador, um gerente de equipamento, um navegador, um supervisor de navegação, um inspetor geral e um presidente da equipe, que acabou sendo obrigado a acumular a função de comandante do barco, em respeito ao limite máximo de oito pessoas por equipe.
Todos se concentraram e treinaram com afinco, estudando estratégias, variações meteorológicas, percursos alternativos e táticas modernas. No mesmo ritmo, o remador treinava oito horas por dia. Quatro horas de remo e outras quatro alternadas entre exercícios específicos e teoria de remo. Numa demonstração de empenho, os organizadores contrataram um consultor para manter a união e a moral alta da equipe.
Perderam a última competição com uma diferença de três quilômetros. O barco dos japoneses há anos conta com as mesmas pessoas, tendo um ancião ao comando e ditando o ritmo através de um pequeno tambor de som grave, enquanto os outros sete remam obedecendo o ritmo cadenciado e veloz.
Imediatamente o remador italiano foi demitido por escasso resultado, não tendo alcançado o objetivo estabelecido. Aos outros membros, foram reconhecidos o esforço e aplicação e todos os sete receberam um bônus em um jantar de confraternização, onde os organizadores aproveitaram para estabelecer as modificações e as novas metas a serem atingidas no ano seguinte. Ao comandante foi presenteada uma miniatura do barco italiano e todos terminaram a noite com a sensação do dever cumprido, apesar de lhes ter faltado a vitória.
Atualmente a equipe italiana oficializou a contratação de um novo remador, e estão analisando materiais alternativos para a construção de um novo barco.
***
Cumprindo a segunda promessa, aqui vai uma receita para o inverno brasileiro. Lembrem-se que a cozinha italiana conta com entrada, primeiro prato, segundo prato e sobremesa (no mínimo). Essa receita é de um primeiro prato, que é sempre uma massa ou risoto. O segundo prato fica por conta de cada um. Outra coisa, assim como feijão não combina com peixe, queijo ralado também não. Mas como essa receita leva molho branco e peixe defumado, o queijo ralado pode ser admissível, mas em pequena quantidade. Lembrem-se de deixar a massa ligeiramente crua, para que esteja ao dente no prato. Quanto ao vinho, poderia sugerir um verdicchio ou um vinho branco não muito marcante, como um Pinot Griggio, por exemplo.
Ingredientes:
Massa – de preferência uma massa curta que possua cavidades para reter o molho.
Farinha de trigo
Leite morno
Manteiga
Caldo Knorr
Sal
Salmão defumado – considere 30 gramas por pessoa
Dissolver o caldo Knorr na água do macarrão ainda fria e adicionar o sal. Levar a água ao fogo. Em uma frigideira grande (grande!) colocar uma colher de manteiga e adicionar o salmão defumado previamente desfiado. Quando a manteiga derreter completamente, desliguar o fogo e reservar. Em um panela, deixar derreter um colher de manteiga com duas colheres rasas de farinha de trigo, misturando sempre. Trabalhar com o fogo baixo. Quando a manteiga com a farinha estiverem bem misturadas, ir juntando o leite morno aos poucos, sem deixar de misturar. Adiconar o resto do leite e apagar o fogo antes da fervura. Escorrer a massa e (não precisa escorrer toda a água) e misturar ao salmão na frigideira. Adicionar o molho, misturar e servir.
Vão treinando. Quando eu for ao Brasil prometo dar minha nota a cada um. E caprichem na sobremesa.
Ciao.
Paz e saúde!
Cinco anos atrás, o diretor presenteava os novos contratados com uma fábula sobre a equipe italiana de remo. Aos estrangeiros, como forma de esclarecer sobre um comportamento típico da maioria dos italianos. Aos italianos, para que tivessem mais atenção quanto a importância do trabalho de grupo.
A equipe italiana de remo
Todos os anos acontece uma competição entre uma equipe de remo italiana e uma japonesa. São oito pessoas em cada barco, com regras, percurso e limites do equipamento bem definidos.
Os organizadores italianos estão muito preocupados, pois a cada ano a equipe deles perde com uma diferença maior, em relação ao ano precedente. Na penúltima edição da competição, a equipe japonesa chegou um quilômetro à frente. Decidiram que era hora de mudar alguma coisa.
Inicialmente substituíram todos os componentes e esclareceram aos novos participantes a função de cada um. A equipe foi montada da seguinte forma: um remador, um supervisor de remo, um orientador, um gerente de equipamento, um navegador, um supervisor de navegação, um inspetor geral e um presidente da equipe, que acabou sendo obrigado a acumular a função de comandante do barco, em respeito ao limite máximo de oito pessoas por equipe.
Todos se concentraram e treinaram com afinco, estudando estratégias, variações meteorológicas, percursos alternativos e táticas modernas. No mesmo ritmo, o remador treinava oito horas por dia. Quatro horas de remo e outras quatro alternadas entre exercícios específicos e teoria de remo. Numa demonstração de empenho, os organizadores contrataram um consultor para manter a união e a moral alta da equipe.
Perderam a última competição com uma diferença de três quilômetros. O barco dos japoneses há anos conta com as mesmas pessoas, tendo um ancião ao comando e ditando o ritmo através de um pequeno tambor de som grave, enquanto os outros sete remam obedecendo o ritmo cadenciado e veloz.
Imediatamente o remador italiano foi demitido por escasso resultado, não tendo alcançado o objetivo estabelecido. Aos outros membros, foram reconhecidos o esforço e aplicação e todos os sete receberam um bônus em um jantar de confraternização, onde os organizadores aproveitaram para estabelecer as modificações e as novas metas a serem atingidas no ano seguinte. Ao comandante foi presenteada uma miniatura do barco italiano e todos terminaram a noite com a sensação do dever cumprido, apesar de lhes ter faltado a vitória.
Atualmente a equipe italiana oficializou a contratação de um novo remador, e estão analisando materiais alternativos para a construção de um novo barco.
***
Cumprindo a segunda promessa, aqui vai uma receita para o inverno brasileiro. Lembrem-se que a cozinha italiana conta com entrada, primeiro prato, segundo prato e sobremesa (no mínimo). Essa receita é de um primeiro prato, que é sempre uma massa ou risoto. O segundo prato fica por conta de cada um. Outra coisa, assim como feijão não combina com peixe, queijo ralado também não. Mas como essa receita leva molho branco e peixe defumado, o queijo ralado pode ser admissível, mas em pequena quantidade. Lembrem-se de deixar a massa ligeiramente crua, para que esteja ao dente no prato. Quanto ao vinho, poderia sugerir um verdicchio ou um vinho branco não muito marcante, como um Pinot Griggio, por exemplo.
Ingredientes:
Massa – de preferência uma massa curta que possua cavidades para reter o molho.
Farinha de trigo
Leite morno
Manteiga
Caldo Knorr
Sal
Salmão defumado – considere 30 gramas por pessoa
Dissolver o caldo Knorr na água do macarrão ainda fria e adicionar o sal. Levar a água ao fogo. Em uma frigideira grande (grande!) colocar uma colher de manteiga e adicionar o salmão defumado previamente desfiado. Quando a manteiga derreter completamente, desliguar o fogo e reservar. Em um panela, deixar derreter um colher de manteiga com duas colheres rasas de farinha de trigo, misturando sempre. Trabalhar com o fogo baixo. Quando a manteiga com a farinha estiverem bem misturadas, ir juntando o leite morno aos poucos, sem deixar de misturar. Adiconar o resto do leite e apagar o fogo antes da fervura. Escorrer a massa e (não precisa escorrer toda a água) e misturar ao salmão na frigideira. Adicionar o molho, misturar e servir.
Vão treinando. Quando eu for ao Brasil prometo dar minha nota a cada um. E caprichem na sobremesa.
Ciao.
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receitas
Wednesday, July 07, 2004
Preconceitos
Caros e Caras,
Paz e saúde!
Minhas filhas aprenderam a comer frutas, verduras e legumes, mas, no final das contas, sempre têm sempre as preferências delas. Uma gosta de cenoura crua e ervilhas, mas detesta cebola. As duas são loucas por pepino. As verduras amargas, ainda que ligeiramente amargas, não agradam nenhuma das duas. Outra coisa: fruta é fruta, sobremesa é outra história. Portanto, fruta nas refeições, só sob coação ou ameaça.
O preconceito é isso: você pode misturar tudo, mas as pessoas irão comer as ervilhas e deixar a cebola no canto do prato.
Durante séculos a Europa enxergou as culturas americanas e africanas como inferiores às suas. Não, não foi Silvio Berlusconi, o chefe de governo italiano, quem primeiro pensou assim, quando da sua afirmação no início da guerra no Afeganistão.
Os europeus saquearam, na Africa e na América, todos os tesouros arqueológicos que puderam. Roubaram riquezas, estupraram mulheres e chacinaram homens, velhos e crianças. Aos sobreviventes impuseram sua cultura e religião.
Existe hoje um grande temor nos países europeus quanto ao perigo de uma guerra química terrorista, mas a Espanha já se utilizava de negros escravos, infectados com varíola, para dizimar povos da América do Sul.
Não defendo o revanchismo de imigrantes africanos e americanos como troco por anos de atrocidades impostas pelos europeus. O que não tolero é a arrogância nas declarações hipócritas de políticos como o austríaco Jorg Haider: “O que vem fazer na Europa uma pessoa que nasceu no Burundi? Que fique por lá!!!”
É enorme a diferença social que separa as diversas etnias que coabitam o velho continente. Os cansativos ventos xenófobos de estrema direita, só contribuem para mostrar as diferenças, onde os atuais culpados são os muçulmanos. Lembrar das crianças católicas apedrejadas por protestantes no caminho à escola, nesses tempos, é considerado de extremo mau gosto.
Contudo, a história da Itália é repleta de diferentes povos que passaram e deixaram suas marcas. Com uma área pouco maior que a metade do Estado da Bahia, a Itália tem uma diversidade cultural que presumo inigualável. Algumas características fazem parte da formação basilar da unidade do povo italiano.
Uma das características mais marcantes é o provincianismo, que prometo – ameaço – tratar numa próxima oportunidade. Outra característica é o desprezo por tudo o que não é italiano ou americano (norte-americano, bem entendido).
Assim como a Coca-cola, o racismo faz parte do cotidiano italiano (longe da convivência mais tolerante da França, por exemplo). Há quem gosta; quem se habitua; quem entende; quem não gosta; quem finge não gostar e até a versão light.
Como o objetivo destas cartas é a comparação entre a realidade brasileira e a que eu vivo hoje, cito uma matéria da Veja do ano passado, que mostrava o resultado de uma pesquisa sobre os negros no Brasil. Na reportagem falava-se de distância racial, como se o fato de evitar o termo “racismo” fizesse com que o problema não existisse entre nós. Falar de racismo no Brasil, em qualquer tempo, sempre foi considerado de extremo mau gosto. A realidade é que a maioria prefere amenizar o problema e buscar outros termos, menos ofensivos.
Nem os negros, nem os nordestinos, nem católicos e protestantes e nem os muçulmanos são uma cultura ou raça inferior. Assim como os paulistas não são inferiores aos cariocas – me garantiu um amigo, mas ele é paulista e eu (como bom carioca) acho que assim não vale.
A provocação está lançada! Cabe a quem gosta de Coca-cola servir-se. Mas não contem comigo: eu sou daqueles que adoram ervilhas, mas não deixo sobras no prato. Nem mesmo a cebola.
Ciao.
Paz e saúde!
Minhas filhas aprenderam a comer frutas, verduras e legumes, mas, no final das contas, sempre têm sempre as preferências delas. Uma gosta de cenoura crua e ervilhas, mas detesta cebola. As duas são loucas por pepino. As verduras amargas, ainda que ligeiramente amargas, não agradam nenhuma das duas. Outra coisa: fruta é fruta, sobremesa é outra história. Portanto, fruta nas refeições, só sob coação ou ameaça.
O preconceito é isso: você pode misturar tudo, mas as pessoas irão comer as ervilhas e deixar a cebola no canto do prato.
Durante séculos a Europa enxergou as culturas americanas e africanas como inferiores às suas. Não, não foi Silvio Berlusconi, o chefe de governo italiano, quem primeiro pensou assim, quando da sua afirmação no início da guerra no Afeganistão.
Os europeus saquearam, na Africa e na América, todos os tesouros arqueológicos que puderam. Roubaram riquezas, estupraram mulheres e chacinaram homens, velhos e crianças. Aos sobreviventes impuseram sua cultura e religião.
Existe hoje um grande temor nos países europeus quanto ao perigo de uma guerra química terrorista, mas a Espanha já se utilizava de negros escravos, infectados com varíola, para dizimar povos da América do Sul.
Não defendo o revanchismo de imigrantes africanos e americanos como troco por anos de atrocidades impostas pelos europeus. O que não tolero é a arrogância nas declarações hipócritas de políticos como o austríaco Jorg Haider: “O que vem fazer na Europa uma pessoa que nasceu no Burundi? Que fique por lá!!!”
É enorme a diferença social que separa as diversas etnias que coabitam o velho continente. Os cansativos ventos xenófobos de estrema direita, só contribuem para mostrar as diferenças, onde os atuais culpados são os muçulmanos. Lembrar das crianças católicas apedrejadas por protestantes no caminho à escola, nesses tempos, é considerado de extremo mau gosto.
Contudo, a história da Itália é repleta de diferentes povos que passaram e deixaram suas marcas. Com uma área pouco maior que a metade do Estado da Bahia, a Itália tem uma diversidade cultural que presumo inigualável. Algumas características fazem parte da formação basilar da unidade do povo italiano.
Uma das características mais marcantes é o provincianismo, que prometo – ameaço – tratar numa próxima oportunidade. Outra característica é o desprezo por tudo o que não é italiano ou americano (norte-americano, bem entendido).
Assim como a Coca-cola, o racismo faz parte do cotidiano italiano (longe da convivência mais tolerante da França, por exemplo). Há quem gosta; quem se habitua; quem entende; quem não gosta; quem finge não gostar e até a versão light.
Como o objetivo destas cartas é a comparação entre a realidade brasileira e a que eu vivo hoje, cito uma matéria da Veja do ano passado, que mostrava o resultado de uma pesquisa sobre os negros no Brasil. Na reportagem falava-se de distância racial, como se o fato de evitar o termo “racismo” fizesse com que o problema não existisse entre nós. Falar de racismo no Brasil, em qualquer tempo, sempre foi considerado de extremo mau gosto. A realidade é que a maioria prefere amenizar o problema e buscar outros termos, menos ofensivos.
Nem os negros, nem os nordestinos, nem católicos e protestantes e nem os muçulmanos são uma cultura ou raça inferior. Assim como os paulistas não são inferiores aos cariocas – me garantiu um amigo, mas ele é paulista e eu (como bom carioca) acho que assim não vale.
A provocação está lançada! Cabe a quem gosta de Coca-cola servir-se. Mas não contem comigo: eu sou daqueles que adoram ervilhas, mas não deixo sobras no prato. Nem mesmo a cebola.
Ciao.
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Sunday, July 04, 2004
Limites
Caros e Caras,
Paz e saúde!
O sujeito acabara de chegar para assumir como capitão de um rebocador no cais do porto. Além de manobrar navios, deveria socorrer embarcações em dificuldades e a sua chegada foi logo sendo batizada: uma tempestade estava afundando um pesqueiro que enviara um pedido de socorro. Não havia tempo a perder. O comandante da pequena esquadra mandou-o demonstrar o que sabia e ofereceu:
- Temos dois rebocadores: o primeiro é um equipamento moderno, com potência equivalente a quarenta remadores; o segundo é um barco de quarenta remadores que se usava um tempo, em perfeitas condições. Escolha!
- Quero o barco com os remadores – respondeu.
Entrou no mar com sua equipe sem saber se conseguiria. Com muita dificuldade alcançou o pesqueiro, embarcou os tripulantes apenas em tempo de ver uma onda engolir de vez o que restava dele, voltou ao cais após meia hora de luta contra um mar realmente terrível e ouviu do comandante:
- Parabéns! Ótimo trabalho! Mas, me diga: porque escolheu o barco com os remadores?
- Porque eu sabia que o outro barco tinha um limite de potência equivalente a quarenta remadores, enquanto naquele barco a equipe poderia se superar e alcançar uma potência superior.
Descobri que por mais que eu me esforce em ações diárias e repetitivas, alguns de meus limites não são superados. Por exemplo: salames de diversos tipos e regiões, presuntos, copas de Parma e piacentinas, queijos e mais queijos e mais queijos regados por vinho e cerveja. Nada! Não consigo ultrapassar os oitenta e dois quilos. Este é o meu limite. Talvez se eu fizesse como aquele americano maluco e passasse um mês comendo em fast foods… mas eu prefiro slow food. Por outro lado seria uma boa oportunidade de ficar famoso. Esses americanos fazem coisas malucas, ficam famosos, escrevem livros que vendem às toneladas e são fotografados passeando em Holywood com cara de star. Se alguém aí tiver uma idéia maluca que valha um livro de sucesso, me avise.
Outro de meus limites refere-se à capacidade de compreender certas atitudes. Em alguns casos me encontro logo acima da linha onde está escrito a palavra “obtuso”. Estou vivendo essa constatação neste momento: 30 de junho passado entrou em vigor a lei que obriga aos menores – de 14 a 18 anos – a possuírem uma mini habilitação para pilotar ciclomotores até cinquenta cilindradas. Um ano após o governo instituir a habilitação com pontuação, como temos no Brasil. Tudo feito para conscientizar motoristas e reduzir acidentes. Até aqui, tudo bem. Nenhuma dificuldade. Mas vou precisar da ajuda de alguém mais esclarecido para entender porque o mesmo governo permite que diversas marcas coloquem no mercado um carro que – oh ser iluminado! – não necessita de habilitação. E com direito a propaganda em televisão, explicando direitinho que pode ser guiado pelos mesmos jovens que não conseguiram passar no exame para obter a mini habilitação. O meu pedido de ajuda é sério e vou aguardar pacientemente. Mas não se preocupem se não for possível mandar-me a resposta senão no dia seguinte a eternidade. Vou aproveitar o tempo para exercitar-me sozinho.
Quanto aos limites italianos, posso citar dois. O primeiro é a incapacidade de compreender a filosofia do futebol. Aquela que diz que ganha o time que faz mais gols. Eles acreditam que deve ganhar o time que leva menos gols. Não vão entender nunca! Basta ver o resultado da Euro Copa que se encerra amanhã. Já tentei argumentar que no país do futebol goleiro é sinônimo de quem era o dono da bola mas jogava mal; que “O Time” de 70 possuía Jair, Tostão, Gerson, Pelé e Rivelino, cinco artilheiros nos seus respectivos clubes; que Taffarel é mais conhecido entre nós como frangarel; que Dida é o primeiro goleiro brasileiro respeitado e que ninguém lembra os nomes da defesa dos times. Nada! O goleiro Buffon e os defensores Nesta, Maldini e Cannavaro são as estrelas do time italiano (e olhem que Maldini se recusou a ir à Euro Copa!).
O segundo limite a que me referi é o verão. É neste período que as pessoas se convencem que deveriam ter feito uma dieta mais longa que uma simples segunda-feira. Também é a época em que todos começam a frequentar academias, numa euforia que terminará com a estação. E é quando os italianos do Norte se esquecem das diferenças com os vizinhos do Sul e invadem as praias da região meridional. Aliás, uma recente pesquisa descobriu que os italianos do Sul estão mais preparados (profissional e culturalmente) que os do Norte.
E por falar em verão, aproveito para dar uma receita muito simples (atendendo a reclamações): Insalata Caprese. Rodelas de tomate cobertas por rodelas de mozzarella de búfala. Um fio de azeite extra virgem e folhas de manjericão fresco. Sal, somente o da mozzarella. Acompanhado por um vinho não muito seco nem robusto, tinto ou um verdicchio, pão e dois minutos de prosa.
Uma outra fábula conta de dois sujeitos em um pequeno bote. Um deles diz: “Tem um furo no teu lado do barco…”
Semana que vem conto a estória da equipe italiana de remo, presenteada pelo diretor e mando uma receita mais adapta ao inverno brasileiro.
Ciao.
Paz e saúde!
O sujeito acabara de chegar para assumir como capitão de um rebocador no cais do porto. Além de manobrar navios, deveria socorrer embarcações em dificuldades e a sua chegada foi logo sendo batizada: uma tempestade estava afundando um pesqueiro que enviara um pedido de socorro. Não havia tempo a perder. O comandante da pequena esquadra mandou-o demonstrar o que sabia e ofereceu:
- Temos dois rebocadores: o primeiro é um equipamento moderno, com potência equivalente a quarenta remadores; o segundo é um barco de quarenta remadores que se usava um tempo, em perfeitas condições. Escolha!
- Quero o barco com os remadores – respondeu.
Entrou no mar com sua equipe sem saber se conseguiria. Com muita dificuldade alcançou o pesqueiro, embarcou os tripulantes apenas em tempo de ver uma onda engolir de vez o que restava dele, voltou ao cais após meia hora de luta contra um mar realmente terrível e ouviu do comandante:
- Parabéns! Ótimo trabalho! Mas, me diga: porque escolheu o barco com os remadores?
- Porque eu sabia que o outro barco tinha um limite de potência equivalente a quarenta remadores, enquanto naquele barco a equipe poderia se superar e alcançar uma potência superior.
Descobri que por mais que eu me esforce em ações diárias e repetitivas, alguns de meus limites não são superados. Por exemplo: salames de diversos tipos e regiões, presuntos, copas de Parma e piacentinas, queijos e mais queijos e mais queijos regados por vinho e cerveja. Nada! Não consigo ultrapassar os oitenta e dois quilos. Este é o meu limite. Talvez se eu fizesse como aquele americano maluco e passasse um mês comendo em fast foods… mas eu prefiro slow food. Por outro lado seria uma boa oportunidade de ficar famoso. Esses americanos fazem coisas malucas, ficam famosos, escrevem livros que vendem às toneladas e são fotografados passeando em Holywood com cara de star. Se alguém aí tiver uma idéia maluca que valha um livro de sucesso, me avise.
Outro de meus limites refere-se à capacidade de compreender certas atitudes. Em alguns casos me encontro logo acima da linha onde está escrito a palavra “obtuso”. Estou vivendo essa constatação neste momento: 30 de junho passado entrou em vigor a lei que obriga aos menores – de 14 a 18 anos – a possuírem uma mini habilitação para pilotar ciclomotores até cinquenta cilindradas. Um ano após o governo instituir a habilitação com pontuação, como temos no Brasil. Tudo feito para conscientizar motoristas e reduzir acidentes. Até aqui, tudo bem. Nenhuma dificuldade. Mas vou precisar da ajuda de alguém mais esclarecido para entender porque o mesmo governo permite que diversas marcas coloquem no mercado um carro que – oh ser iluminado! – não necessita de habilitação. E com direito a propaganda em televisão, explicando direitinho que pode ser guiado pelos mesmos jovens que não conseguiram passar no exame para obter a mini habilitação. O meu pedido de ajuda é sério e vou aguardar pacientemente. Mas não se preocupem se não for possível mandar-me a resposta senão no dia seguinte a eternidade. Vou aproveitar o tempo para exercitar-me sozinho.
Quanto aos limites italianos, posso citar dois. O primeiro é a incapacidade de compreender a filosofia do futebol. Aquela que diz que ganha o time que faz mais gols. Eles acreditam que deve ganhar o time que leva menos gols. Não vão entender nunca! Basta ver o resultado da Euro Copa que se encerra amanhã. Já tentei argumentar que no país do futebol goleiro é sinônimo de quem era o dono da bola mas jogava mal; que “O Time” de 70 possuía Jair, Tostão, Gerson, Pelé e Rivelino, cinco artilheiros nos seus respectivos clubes; que Taffarel é mais conhecido entre nós como frangarel; que Dida é o primeiro goleiro brasileiro respeitado e que ninguém lembra os nomes da defesa dos times. Nada! O goleiro Buffon e os defensores Nesta, Maldini e Cannavaro são as estrelas do time italiano (e olhem que Maldini se recusou a ir à Euro Copa!).
O segundo limite a que me referi é o verão. É neste período que as pessoas se convencem que deveriam ter feito uma dieta mais longa que uma simples segunda-feira. Também é a época em que todos começam a frequentar academias, numa euforia que terminará com a estação. E é quando os italianos do Norte se esquecem das diferenças com os vizinhos do Sul e invadem as praias da região meridional. Aliás, uma recente pesquisa descobriu que os italianos do Sul estão mais preparados (profissional e culturalmente) que os do Norte.
E por falar em verão, aproveito para dar uma receita muito simples (atendendo a reclamações): Insalata Caprese. Rodelas de tomate cobertas por rodelas de mozzarella de búfala. Um fio de azeite extra virgem e folhas de manjericão fresco. Sal, somente o da mozzarella. Acompanhado por um vinho não muito seco nem robusto, tinto ou um verdicchio, pão e dois minutos de prosa.
Uma outra fábula conta de dois sujeitos em um pequeno bote. Um deles diz: “Tem um furo no teu lado do barco…”
Semana que vem conto a estória da equipe italiana de remo, presenteada pelo diretor e mando uma receita mais adapta ao inverno brasileiro.
Ciao.
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